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26 de dezembro de 2016

A Serpente Solar




A luz se esquiva no horizonte permitindo à sombra celeste alargar-se sobre a terra. As visões de um passado ermo avançam como corsas em disparada. Ouve-se o trepidar rasgando o silêncio na noite túrgida.


Desperta a chama solar como asas de condor. Irrompeu do caldo plúmbeo feito broto incandescente. Coroada a Serpente inflamada, curvou-se o Cálice de Eva.




3 de novembro de 2016

Os sonhos de Calete.




Distraída, Calete desenha no ar símbolos aleatórios. Movimentava o braço  com o indicador erguido sem se incomodar com quem transitava pelas ruas. Parecia estar muito cedo para tratar de responsabilidades. Parecia ter deixado todas as atividades por fazer, ou se permitia antever que tudo seria feito em momento oportuno para ela.


Era isso, então, o momento todo para ela! Não haveria a possibilidade de ajustá-lo a nenhuma outra lembrança, nada, nenhuma atividade, apenas Calete e seus desenhos no ar com movimentos soltos e giratórios. Letras? Números? Eram borboletas invisíveis agitadoras de asas sob um sol que extasiava acima de seus cachos? Andorinhas pousavam num jardim intumescido de flores?


Saltitava nas pontas dos pés e parecia equilibrar-se com o auxílio das cordas invisíveis de algum Saltimbanco, senhor de marionetes. Sob qual música dançava? Ninguém escutava a melodia dos sonhos de Calete, entretanto se os murmúrios do vento pudessem ser compreendidos dissertariam sobre os enlevos coloridos que formigavam os pequenos pés, fazendo-os tamborilar pelas calçadas.


O vestidinho drapeado de um vermelho encarnado lhe dava um aspecto de rosa em botão. Quantas expectativas poder-se-ão nutrir com rabiscos e chuva de bolinhas? Quantas lições de amor a penitenciarão pela estrada de ladrilhos dourados como a aurora? Quantas pedrinhas haverão de ser depositadas na sacolinha de futilidades aparentemente inúteis?


De uma concha cava-se a terra e são necessárias duas mãos para erguer uma ponte. Por essa ponte, palitinhos são espetados aqui e acolá e, de brotinho em brotinho, uma floresta é erguida ao fundo. Buziosinhos redondos, cuidadosamente enfileirados, trafegam por estradas escavadas com pedaços de telhas. E pinhos secos fixados em montinhos de areia viram casebres de dormir para moradores imaginários.


Calete, onde guardarás os teus sonhos de candura? Nas pontas dos dedos que agora levitam no ar? Farás das nuvens um repouso tranquilo para os teus desejos?






26 de outubro de 2016

O sorriso de Luíza.





Circulava pelas ruas da cidade a empurrar a carrocinha. Roupa colorida, estampava flores miúdas no corpo largo. Não negava o sorriso a quem lhe cumprimentasse. E seguia recolhendo o que as famílias por consumo descartavam no lixo.


Os olhos seletivos miravam longe. As mãos ágeis retiravam dos sacos depositados pela calçada toda a sorte de garrafas que atirava distraidamente para o interior do carrinho. Seu nome, Luíza. A vida parecia luzir quando Luíza passava com a sua carrocinha a ranger sem pressa.


Com o dia ensolarado e quente, desde cedo, não é de espantar que Luíza fosse mulher de erguer-se às cinco da matina. Ajeitava-se numa cadeirinha de nylon trançado onde se punha em estado de oração de salmos. Folheava as paginazinhas amareladas de um pequeno exemplar do livro sagrado com a delicadeza das pontas dos dedos para escolher o poema do dia.


Pedia pelos filhos já espalhados no mundo. Todo mundo longe, bateram asas. Pedia pelos filhos dos filhos, meninada saudável e agitada. Contava já um bisnetinho, da neta mais velha, a de vinte e três anos. Terminava o curso de enfermagem e prometia casamento com um rapaz de bem, também trabalhador. Pedia por essa, pela família que se anunciava...


Erguia-se prazerosa de agradecimentos por mais um dia de lida. Preparava o café, cujo aroma espalhava rapidamente por toda a casa de apenas três cômodos. O cheiro já escapava pela área dos fundos. Sorvia a bebida com paciência. Mas o dia sempre esticava rápido e, quando menos se espera, a hora alta reclama pressa.


Varria a área. Recolhia as folhas secas da goiabeira. Alimentava os passarinhos engaiolados embaixo da cobertura. Encharcava os panos na lavanderia, torcia-os com o peso do corpo e já se encaminhava para o varal para estendê-los. Enxugava os braços na barra da saia e se punha a sorver outro menorzinho, dessa vez acompanhado de bolachas de goma.



A carrocinha esperava atada ao muro do lado de fora. Dormia assim mesmo, ao relento. Ninguém mexia. Todo mundo conhecido. “Tudo gente da gente”, dizia. Rumava para as ruas do centro com a sua carrocinha. E o dia quente se alargava junto ao sorriso largo e generoso de Luíza. 





11 de setembro de 2016

Como as aves.





Apenas um segundo para ir ou ficar. Você tende ao desânimo, mas agora o tempo não pendulará para remanescer algo inocorrido. Nada postergará o quedar das areias que lhe escorrem das mãos nuas. E tudo lhe falará em sussurro se estiver quieto o suficiente.
"Perdoe minhas faltas." - meus  espinhos cantam em vão. E, ao cantar, desperdiçam dias vindouros. Esqueça o estado de repúdio e aceite as pequenas quimeras. Erga-se e floresça! Por esta vida, passamos como aves.






25 de julho de 2016

Uma tríade com que consolar-se.







É preciso estar sempre embriagado. Aí está: eis a única questão. Para não sentirem o fardo horrível do Tempo que verga e inclina para a Terra, é preciso que se embriaguem sem descanso.



Com quê? Com vinho, poesia ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se.

E se, porventura, nos degraus de um palácio, sobre a relva verde de um fosso, na solidão morna do quarto, a embriaguez diminuir ou desaparecer quando você acordar, pergunte ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que gira, a tudo que canta, a tudo que fala, pergunte que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio responderão: “É hora de embriagar-se! Para não serem os escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se; embriaguem-se sem descanso com vinho, poesia ou virtude, a escolher”


Charles Baudelaire, Embriaguem-se.






15 de fevereiro de 2016

Litorais de Albedo.





Flutuava em anéis de espuma. E um sorriso migrava entre a força das águas e a ardência nos olhos. Aquela repulsa do sal, incomodava a abertura dos olhos e lhe temperava a pele.


Dourada era a sua sorte. Toda chamuscada de sol e de vento, era feita da mesma substância com que a natureza trabalhava os leoninos, os guepardos, os linces. Toda romanceira com aquele mesmo frescor dos peixes e das enguias.  Cadência de ondas perfeitas ainda na sobriedade da infância como em manhãs de primavera.


Os cachos dos cabelos pairavam na água inquieta. Quão juvenis brincavam no clarão já ameno do dia que não se quer ir! Que quer junto às andorinhas, um repouso nos mansos olhos. Uma teimosia!


Ah! Este clarão de céu e mar que se confunde no horizonte... Esta linha imaginária que se deita preguiçosa para espalhar as virtudes do espaço! Tudo intocável como sempre fora, não fossem os anúncios da civilização causados pelas palavras e pelos gritinhos agudos – não há quem interrompa nem mesure!




O tempo, o clarão e o mar tal como quando se banhavam as Musas que ascendiam do Hélicon para encontrar a leveza das águas condensadas. Tal como testemunharam os guardiões de um céu antigo, como se rebentassem um cem número de Netunos, serpenteando dos abismos liquefeitos e indo atirar-se contra os quebra-mares.


Pisem aqui por estas terras as Vestais dos Templos de Anúbis! Que dancem ao som de hidraulos e tambores! Que agitem os braços com a saudação tempestiva de algum oráculo! Tragam rente à cintura, depositada em moringas de argila, a revelação do nome inaudível para desfolhá-lo no silêncio das almas.


Tudo encontra o vitral dos sorrisos da menina. Desde a cândida formosura de seus olhos apertados pelo salitre até a energia viçosa dos movimentos de infância, pululantes como bolhas, valseando por entre os anéis das ondas, deixando-se empurrar e sentindo arrastar as areias que lhe apóiam a miseração dos pés.


Todo o tempo é luz indivisa. Não há rastro de dúvida, nem o medo queimou de sordidez insensata os reflexos de um paraíso que somente existe por se fazer inefável, pois que se perde no instante mesmo de sua natividade.



Nossa pretensão pelo eterno insulta o instante de indelével candura. Nossa insubmissão ao instante nos remete aos vergalhões de um inferno exultado por nunca ter sido alcançado. Nossa fuga, nosso desamor nos atira ao negrume de algo nunca vivido, porque nunca percebido com a particular evocação.


Pois tudo me escapa, tudo me foge como esta areia cantante que sob os meus pés aceita ser desfigurada. Tudo se inclina a si mesmo, tudo se retira de si mesmo e retorna a si do mesmo modo com que um dia se permitiu ir.


E estas lágrimas se vão agora como num escape de emoções desarmadas. Juntas haverão de encontrar o vitral dos sorrisos que alimentam as flores deslizantes na praia.


Como aquelas conchas que, dissipadas de vida, deixaram suas pobres marcas na areia. Sim! Haverão de encontrar a areia cantante, nunca antes assim compreendida.


Porque sempre cantara de oceano em oceano e por séculos não houve quem a escutasse. Cantou por séculos pelos oceanos, dançara a valsa enviesada das ondas e sequer alguém havia perseguido o seu rastro.




12 de fevereiro de 2016

Trav. Nigredo.




Erínias, pintura de Adolphe Bouguereau.




Estava paralisada pelo medo. Os olhos pareciam tatear a rua em busca de algum rosto conhecido. As moradias escassamente gradeadas tinham por sentinelas árvores centenárias com troncos retorcidos, gravemente atadas ao chão por raízes que emergiam nodosas. Apesar da luz frouxa, notou dos muros o desgaste sofrido pela ação do tempo, num lugar onde não havia pausa para reparos.


Uma mulher acalenta o filho no colo, indiferente. Tem o olhar gélido de quem denuncia que, por ali, forasteiros não são bem recebidos. Um homem enxuga o rosto e arqueia o supercílio. Outro olha por sobre os ombros, taco na mão, enquanto se move em direção a uma mesa de sinuca. Num pouco de tudo, a noite guardava um indicativo de dúvida.


As vozes abafadas exasperam uma hostilidade inevidente. A despeito disso, ela corre pela rua a gritar pelo nome da criança. A infante não responde. Porventura não a escutava? Ninguém sequer parecia se importar com as preocupações que lhe dissolviam os olhos em lágrimas correntes. A boca seca em desespero, perguntava a si mesma, “Mas como ninguém pode tê-la visto? Como pode ter sumido sem que ninguém a visse?”


Queria estar em casa. Havia algumas casas de pernoite para viajantes exaustos. Porém, aflitos não conhecem repouso. Agonia e transtorno por seus medos a tornavam ainda mais abatida. Estava entregue a um repositório de maus presságios, pensamentos em turbilhão, desenfreados. O peito incontido enchia-se de ar a reverberar pelo nome mágico, cálice onde descansavam emoções matutinas.


Eis que a criança aparece confusa. A aparente calma deu lugar a um choro copioso. “Mãe, me leva embora daqui! Quero ir para casa!” “O que lhe fizeram?” Não soube responder à interpelação materna. Ou não compreendia a extensão de tudo que lhe havia ocorrido...


A fúria abateu a face terna. Aquelas impressões femininas, delicadas, cediam lugar a uma notação de ferocidade desoladora. Era possível reconhecê-la nas meninas-serpente, as Três, geradas pelas gotas rubras da vergonha de Urano no leito de Gaia. As vestais do abismo, diante das quais a consciência se retrai à procura insubmissa por velar seus detratores. Um animal acuado que pretende ferir se não lhe permitem um nobre refúgio.


Via acima, e após quatro casas de onde elas estavam, dois cavalos descansavam mansamente sob a luz de uma candeia dourada dependurada num mourão. Tomou a menina em seus braços e avançou na direção dos corcéis. Ao aproximar-se deles pode ver que eram um negro e um azufrado. Colheu as rédeas do corcel negro e se atirou em seu lombo. Subtraiu a lamparina e lha deu para a menina, pousada à sua frente. “Tome! Segure-a!” – ordenou. 


Golpeou o flanco do animal, dando início à partida. O cavalo estocava o chão em galope com maestria. Tudo era escuridão. Não se podia ver todo o curso do caminho, nem a paisagem às margens. Apenas cerca de um metro se revelava em torno delas.


A determinação em rumar dali, a perspectiva em voltar para casa, era o que se podia mesurar naquele instante. A matriarca ainda não podia saber, não houve modo de ver o que se fazia impresso na base do bojo dourado da lanterna. Em letras miúdas, cuidadosamente talhadas, havia um letreiro no qual se podia ler “O décimo será sagrado”.








14 de janeiro de 2016

Um instante de asco, por favor!




Há vezes em que a comunicabilidade humana me enoja. O excesso de trá-lá-lá me perturba. Basta que se ligue a televisão, ou mesmo o rádio, para que o incontido palavratório angustie e nos distancie de qualquer atividade em andamento.


Assalta-me um desejo secreto de ser surda – não muda, obviamente, apenas surda por mero oportunismo. Ah, se a surdez fosse um dom! Eu a apanharia com um regalo nada modesto. Sim! E me livraria dessas vozes perturbadoras, excedentes em frivolidade, línguas saltitantes em verborréia ou débil ou insana!



A escrita é, de outra sorte, mais delicada e engenhosa. Finesse cuja atenção não submete o pensamento. Respeita em tudo a liberdade. É versátil ao manejo e emana vida a cada leitura que se lhe ofereça. Eu a amo e em sua vereda me arrimo!



13 de janeiro de 2016

A hora da Ave Maria.





Na hora da Ave Maria, ela já se mexe vagarosa. Agacha sem dificuldade para apanhar os pregadores de roupa caídos ao chão. Percebe a sobriedade com que as cores se despedem da luz, morrem e se desfazem com o prenúncio da noite.


A sua respiração é profunda. Inala o ar como quem faz uma oração. A hora crepuscular sempre lhe deixava com uma sensação de embriaguez. Há um aroma de amor em tudo ao redor. E ela se volta sem pressa, mas resoluta, em direção à pia.


Abre a torneira de bica e toma os lençóis do menino. Verifica as nódoas de fruta, manchas de terra, vestígios da infância marcados na alvura angélica do pano.


A barra de sabão é pressionada sem pena contra a trama do tecido. Assim não sai, mas limpa e é melhor que nada. Quando tiver tempo, põe para coarar. Atrita o pano contra a pia, esfrega. Observa o menino a correr de um lado a outro na vã tentativa de chamar a atenção do gato em cima do muro. O gato nem liga... É bicho acostumado. Até cochila indiferente.


A espuma branca rende, gordurosa.  A água é um fenômeno precioso, preenche a pia, fresca, barulhenta. Ela abre os panos, um a um, no processo do enxágue. Ouve a criançada na vizinha do fundo a brincar com algazarra. “Tumém, cundo invoca tudo pá brigá, o pau come no cento. Fio, neto, subrim’o, tudo um’a ciumera lerda!” – segue pensativa para sacudir os panos e estendê-los no varal.


Menino corre pelo quintal fazendo um motorzinho nos lábios. “Chega pá tumá bâim, mô!”. “Dá bicoto, mãe!” – suplica a criança. “Não sim’ô! Premêro o bâim”. E brinca com o guri: “Ói a pata Quiná! Ói ela! Já tumô bâim, pata Quiná? Leva o minino pá tumá bâim de bacia! Vem, pata Quiná!”


Ele balbucia uma cançãozinha inventada enquanto a mãe prepara água temperada com alfazema. E a noitinha parece silenciar em favor do cantor miúdo e da meninada em burburinho no quintal da vizinha. Vem pachorrenta, com aquele azul monótono a arrastar a escuridão sobre si.


O barulhinho da água não apazigua o garoto. A pata amarela solta assovio na mão agitada. “Péra, Quinho! Oxe! Assim móia a mãe toda!”. A criança abre um riso branco, largo com a gengiva à mostra, para sugerir o perdão materno. Ela não resiste. Abre a toalha em volta do filho e o abriga no ninho dos braços. Embala. Soam estalinhos de beijos. “Mãe ama! Mãe ama!”. A luzinha fraca dependurada no alto da varanda parece piscar de aprovação.



Carrega-o no colo para o vão de dentro e no caminho verifica o fogão. Desliga o cuscuz e pensa em depois aprontar leite e café. Uma coisa por vez. Só leva o mundo assim, no útero.





27 de dezembro de 2015

Sobre o dorso do Tigre.







Será que a glória realmente não passa do bocado mais saboroso de nosso amor-próprio? - Ela está ligada aos homens mais raros, e também aos momentos mais raros de tais homens, como ambição. São os momentos das iluminações súbitas, quando o homem estica o seu braço imperiosamente, como que para criar um mundo, produzindo luz a partir de si mesmo e espalhando-a em torno. Então, impõe-se a ele a certeza confortadora de que a posteridade não pode ser privada daquilo que o elevou e o ocultou no ponto mais distante, da altura de sua sensação única; na eterna necessidade, para todos os que virão, dessa mais rara das iluminações o homem reconhece a necessidade de sua glória. Em todo o futuro, a humanidade precisa dele, e como aquele momento da iluminação é o resumo e a concentração de sua essência mais própria, ele acredita ser imortal, como o homem de tal momento, enquanto atira para longe de si e entrega à transitoriedade tudo mais, como dejeto, podridão, vaidade, animalidade, ou como um pleonasmo.



É com insatisfação, frequentemente com surpresa, que vemos cada desaparecimento e cada declínio, como se presenciássemos, no fundo, algo impossível. Uma grande árvore cai, para nosso incômodo, e um desmoronamento na montanha nos perturba. 

Cada noite de ano novo nos faz sentir o mistério da contradição entre o ser e o devir. Mas o que faz o homem mortal sofrer com mais intensidade é o desaparecimento de um instante da mais alta perfeição universal, como que sem posteridade e sem herdeiros, como uma fagulha fugidia. Seu imperativo soa, muito mais, do seguinte modo: o que alguma vez existiu para perpetuar de modo mais belo o conceito de "homem" tem de estar eternamente presente.Que os grandes momentos formem uma corrente, que conectem a humanidade através de milênios, como cimos, que a grandeza de um tempo passado seja grande também para mim, e que a crença cheia de intuições realize a glória ambicionada, é esse o pensamento fundamental da cultura. 



Na exigência de que a grandeza deva ser eterna, incendeia-se a batalha terrível da cultura; pois tudo mais, tudo o que ainda vive grita "não!". Preenchendo todos os cantos do mundo, como um terreno pesado do ar que todos nós estamos condenados a respirar, o habitual, o pequeno, o comum fumegam em torno da grandeza e se lançam no caminho que essa tem de seguir para alcançar a imortalidade, obstruindo, sufocando, turvando, iludindo. O caminho segue através de cérebros humanos! Através dos cérebros de seres mesquinhos, de vida curta, quando esses, livres de determinadas carências, sempre retomam as mesmas necessidades e repelem com esforço, por tempo limitado, a degradação - a qualquer preço. Quem dentre eles, poderia ousar aquela difícil corrida com a tocha olímpica, pela qual só a grandeza sobrevive? E no entanto despertam sempre alguns que se sentem tão cheios de ânimo à vista de tal grandeza, como se a vida humana fosse uma coisa magnífica, e como se o fruto dessa planta amarga, necessariamente considerado o mais belo, fosse o saber de que, um dia, um homem orgulhoso e estoico atravessou essa existência, um outro com pensamentos profundos, um terceiro cheio de compaixão, e todos deixaram o ensinamento segundo o qual quem não presta atenção na existência é que a vive de modo mais belo. Enquanto o homem comum leva a sério, tão melancolicamente, essa tensão de ser, aqueles souberam dar uma risada olímpica de tal coisa, ou pelo menos tratá-la com um desdém sublime; e, com frequência, foi com ironia que desceram a seus túmulos - pois o que haveria neles para enterrar?



É no meio dos filósofos que se devem procurar os cavaleiros audazes entre aqueles que procuram a glória, os que acreditam encontrar seus brasões inscritos em uma constelação. Sua ação não se volta para um "público", para o alvoroço das massas e o aplauso aclamador dos contemporâneos; pertencem à sua essência os passos solitários pela estrada. Sua vocação é a mais rara e, considerando de certo modo, a mais anti-natural na natureza, com isso ela vai até mesmo contra as vocações semelhantes, de modo excludente e hostil. O muro de sua auto suficiência precisa ser de diamante, para não ser destruído nem invadido, pois tudo se movimenta contra ele, o homem e a natureza. Sua viagem para a imortalidade é mais penosa e mais acidentada do que qualquer outra, e contudo ninguém pode acreditar com mais segurança que chegará a sua meta do que o filósofo, porque ele não saberia onde deve ficar, se não fosse sobre as asas vastamente abertas de todos os tempos; pois a maneira da consideração filosófica consiste no desprezo pelo presente e pelo instantâneo. Ele tem a verdade; é possível que a roda do tempo role para onde quiser, ela nunca poderá escapar da verdade.



É importante saber que tais homens já viveram. Nunca se imaginaria, como uma possibilidade ociosa, o orgulho do sábio Heráclito, que pode ser o nosso exemplo. Em si, e pela sua própria essência, todo esforço pelo conhecimento parece insatisfeito e insatisfatório; por isso, se não for ensinado pela história, ninguém poderá acreditar em uma dignidade tão majestosa, em uma convicção tão ilimitada de ser o único contemplado portentor da verdade. Tais homens vivem em seu sistema solar próprio;é lá que se deve procurá-los. Também Pitágoras, Empédocles dedicaram a si mesmos uma estima sobre-humana, um temor quase religioso, mas o arco da compaixão, ligado à convicção na migração das almas e na unidade de todos os seres vivos, os conduziu de volta aos outros homens, para salvá-los. Porém, só nos cumes desertos e gelados é que se pode perceber algo do sentido de solidão que oprimia o eremita do templo efésio de Ártemis. Dele não emana nenhum sentimento prepotente de exaltação compassiva, nenhuma pretensão de querer ajudar ou salvar: é como um astro sem atmosfera. Flamejando ao dirigir-se para dentro, seu olho observa com vista apagada e glacial o que está fora, como se olhasse apenas para o brilho aparente. As ondas da ilusão e do absurdo vêm bater ao seu redor, diretamente na fortaleza de seu orgulho; desvia-se delas com asco. Mas também os homens de peito sensível se esquivam de tal máscara trágica; um ser como aquele pode parecer mais compreensível em uma sacralidade perdida, entre estátuas de deuses, ao lado de uma arquitetura grandiosa e fria. Entre homens, Heráclito era inacreditável como homem; e quando ele foi visto dando atenção ao jogo de crianças barulhentas, pensava ali algo que nenhum mortal havia pensado nas mesmas circunstâncias - o jogo de Zeus, dessa grande criança do mundo, e a brincadeira eterna de destruir e formar mundos. Ele não precisava dos homens, nem mesmo para seu conhecimento; não via nenhum valor em tudo o que se poderia aprender deles, e nem aquilo que os outros sábios antes dele estavam empenhados em aprender. "Procurei e investiguei a mim mesmo", disse ele com palavras pelas quais se indicava o investigar de um oráculo: como se fosse ele, e ninguém mais, quem na verdade cumpriu e realizou aquela frase délfica: "Conhece-te a ti mesmo".



Mas o que ele escutou nesse oráculo, tomou por uma sabedoria imortal, de eterno valor interpretativo, no sentido em que os discursos proféticos de Sibile são imortais. É o suficiente para a humanidade mais longínqua: tal sabedoria só pode se deixar interpretar como sentença de oráculo, como ele, como o próprio deus délfico "nem fala, nem esconde". Como ele pronuncia, "sem riso, sem adorno e incenso perfumado", muito mais "com boca transbordante", algo que deve atravessar os mil anos do futuro. Pois o mundo precisa eternamente da verdade, e, assim, precisa eternamente de Heráclito, embora ele não careça do mundo. O que lhe importa sua glória! "A glória no meio dos mortais que passam sem cessar!", como ele exclama desdenhosamente. Isso é algo para cantores e poetas, e também para aqueles que, antes dele, foram conhecidos como "homens sábios" - eles podem degustar o bocado mais saboroso de seu amor-próprio, para ele tal refeição era vulgar demais. Para os homens, era sua glória que importava, não ele; seu amor próprio era o amor pela verdade - e mesmo essa verdade lhe diz que a imortalidade do ser humano precisa dele, e não ele da imortalidade do homem Heráclito.



A verdade! Ilusão exaltada de um deus! O que importa aos homens a verdade!


E o que era a "verdade" heraclítica?!


E para onde ela foi? Um sonho que escapa, apagado das faces humanas com outros sonhos! - Não foi a primeira!


Talvez um demônio sem sentimentos não soubesse dizer, daquilo que nomeamos com as metáforas orgulhosas "história do mundo", "verdade" e "glória", nada além das seguintes palavras:



"Em algum canto perdido do universo que se expande no brilho de incontáveis sistemas solares surgiu, certa vez, um astro em que animais espertos inventaram o conhecimento. Esse foi o minuto mais arrogante e mais mentiroso da história do mundo, mas não passou de um minuto. Após uns poucos suspiros da natureza, o astro congelou e os animais espertos tiveram de morrer. Foi bem a tempo: pois, se eles vangloriavam-se por terem conhecido muito, concluiriam por fim, para sua grande decepção, que todos os seus conhecimentos eram falsos; morreram e renegaram, ao morrer, a verdade. Esse foi o modo de ser de tais animais desesperados que tinham inventado o conhecimento."



Seria esse o destino do homem, se ele fosse um animal que busca conhecer; a verdade o levaria ao desespero e ao aniquilamento, a verdade de estar eternamente condenado à inverdade. Ao homem, entretanto, convém a crença na verdade alcançável, na ilusão que se aproxima de modo confiável. Será que ele não vive propriamente por meio de um engano constante? Será que a natureza não lhe faz segredo de quase tudo, mesmo do que está mais próximo, por exemplo do seu próprio corpo, do qual só possui uma "consciência" fantasmagórica? Ele está aprisionado nessa consciência, e a natureza jogou fora a chave. Curiosidade fatídica dos filósofos, que possibilitou olhar para fora e para baixo, por uma fresta na cela da consciência: talvez o homem pressinta, então, que se apoia no ínfimo, no insaciável, no repugnante, no cruel, no mórbido, na indiferença de sua ignorância, agarrado a sonhos, como sobre o dorso de um tigre.




"Deixem-no agarrar-se", grita a arte. "Acordem-no", grita o filósofo, no pathos da verdade. Mas ele mesmo mergulha em um sono mágico ainda mais profundo, enquanto acredita estar sacudindo aquele que dorme - talvez sonhe então com "ideias" ou com a imortalidade. A arte é mais poderosa do que o conhecimento, pois é ela que quer a vida, e ele alcança apenas, como última meta, - o aniquilamento. - 




NIETZSCHE, Friedrich. Sobre o pathos da verdade. In: _______. Cinco prefácios para cinco livros não escritos. Tradução e prefácio de Pedro Süssekind. 4ª ed. Rio de Janeiro: 7letras, 2007, p. 23 - 30, grifos nossos.  





9 de novembro de 2015

Convite ao amor.


Pintura de Mário Sanchez.
Amor, esse convite ao desafio de deixar de ser. Opúsculo do efêmero a imprimir no Tempo suas radiações maviosas. Viagem que se faz, de livre escolha, contra si mesmo e em favor de outrem. Barco que se permite tremular no vago oceano da vida.


Mesmo colhidas todas as orientações dos hábeis instrutores, há sempre o risco de sofrer o chacoalhar do mar revolto nas noites tempestuosas. Momentos de fúria e desespero. Depois, calmaria. E o manto de azul profundo não pode evitar a desconfiança dos marujos menos afoitos.


E qual outra forma haveria de contemplar o luzir dourado da lua cheia? Por qual outro motivo despertar-se-ia com o zumbir dos ventos trazendo consigo os mistérios da aurora? De que outro modo as garças em dança recolheriam as lágrimas suspensas no éter das almas?


A ternura não compreende as reticências. Quer a sofreguidão das exclamativas ou a tortura das interrogações, mas nunca a expressão retida, jazida semimorta nas reticências.





27 de outubro de 2015

O desapego de Constance.



Flores do cerrado sobre o Rio Jatobá, em Vila Bela da Ssma. Trindade - MT.

Estava entediada com seus conhecidos personagens. Absorta, refletia no hábito de não dizer tudo o que pensava. Havia medo? Não por certo, era somente inútil despejar um reduto de palavras que no fim mostrar-se-iam contraditas. Visivelmente, seu padecimento lhe arrastava a uma dor moral, aquele constrangimento no qual se inflava por dentro e não se permitia escolher algo mais razoável que a vida à qual se entregava.


Esbarrava em pessoas desinteressadas de seus estigmas. Constance quer algo com o qual não está alinhada. Quer abraçar, mas sem aperto. Constance, alertavam suas amigas, não se pode ver as coisas deste modo! Olhe as outras moças! Você é bonita, pois incline-se a isto, ao que é natural e evidente. Porém, não se sentia convencida. No íntimo, só desconfiava. “Cada um com as razões que lhe apraz. De cá, tenho eu as minhas”.


Acostumou-se a observar as pessoas com o olhar imperscrutável de quem as disseca. De fora, o olho clínico apontava para atitudes desastrosas ou afetadas pela dissimulação. Olhar já imune aos contrastes. Conheceu de perto aquela contra a qual não há quem resista. Foi surpreendida, quando ainda muito pequena, num corredor de hospital, onde se confundiam lágrimas e sussurros ininteligíveis demais para seu entendimento.


E foi com uma empáfia quase muda que seguia a compreender as esferas da ausência e da solidão, tal era a estranheza com que se colocava diante do universo. Eram ela e os demais, mundo assim dividido é como um curso de um rio, corre assim por correr, está como está, sem esmero, nem exaltação sobre si.


O rio não indaga sobre qual direção tomar. Atende ao chamado de seus afluentes e continua a seguir. Certo e instintivo, sem a provisão esnobe das ideias, nem a desconfiança natural inspirada pelas inconstâncias. Cada pedaço de si, cada elemento ensimesmado em seu curso, preserva algo de remoto do lugar onde foi radicado. E com o mesmo esmero com que visa preservar-se, estoicamente também se desfaz sem escolher estuário.


Deve ter sido num desses descaminhos da vida que Constance o conheceu. Quando foi introduzida nesta nova experiência? Ele tinha um olhar suave e lhe inspirava a confiança. Contudo, gostava da segurança no eflúvio de seus dias tão conhecidos, despreocupada das perspectivas alheias. Não poderia reduzir sua vontade nem a meio centímetro. Não envergaria um traço da sua liberdade e quer a fuga.


Corre rio. Corre rio. Desembota as rochas pelo caminho. Leva os tocos podres e os restos dos frutos. Leva as pétalas do que algum dia foram sortilégios cálidos dos arborões em flor. Leva consigo as areias pisoteadas por conquistadores e por vencidos. Vai sem que lhe confunda o meandro onde habitam pensamentos descansados, “mas ele parece ter gostado de você”, “corresponda-lhe o afago”...


E suspirar a indecisão antes intolerável. Era tudo angustiante, agora. O novo ainda indefinível. Surgia como Hefesto sem a ciência do menor embaraço. Rangia centelhas ao irromper das margens. Acintoso, desprendia os elos como se os debulhasse entre os dedos. De chofre, brandia a denúncia ígnea, e lastreava a vulnerabilidade das defesas. Não poderia conter o que por natureza é incontido.



Encontrou-o, então, enquanto investigava as páginas de um livro. O que dizer nestas circunstâncias? Estavam relativamente sós, pois ninguém se interessava da presença de ambos. E sua curiosidade salina o estudava entre os óculos. Era de um olhar imprudente, quando a presa, ao erguer o rosto, manifestou a recíproca empatia. Sorriu. Sorriram.