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16 de dezembro de 2015

Pobreza, burrice, impotência...





Márcia Tiburi. O empobrecimento da linguagem é o empobrecimento da política. A sociedade capitalista providencia justamente o empobrecimento da experiência e de si mesmo. Espera-se que as pessoas não se relacionem entre si. É necessário produzir a desavença, o desencontro e a antirrelação. Por isso, para fomentar esse facismo potencial, é preciso apagar o outro: o diferente não deve existir. A personalidade autoritária – que é a posição subjetiva do fascista potencial – é formada dentro de um sistema de preconceitos. Então, o outro precisa ser negado e odiado.


A Tarde. E quem é esse “outro”?


MT. É qualquer um: pessoa, cultura ou forma de viver. Inclusive, o outro pode ser objeto de conhecimento. Por isso, a burrice do fascista. Eu sou um ser político se eu me abro a você. O outro é sempre um mistério, potência e possibilidade. O outro é alguém que me traz, como pessoa, uma novidade. Um livro ou uma língua são a mesma coisa. Essa dimensão da alteridade está apagada na perspectiva do fascista. Ele não consegue incluir o outro na sua perspectiva. Não tem abertura para o outro.


AT. No livro, você utiliza a burrice como conceito. Aconteceu uma banalização do termo no cotidiano?


MT. A burrice é explorada no livro como uma negação do conhecimento. A base do conhecimento de um fascista potencial é paranoica. Ou seja, ele já tem uma resposta para tudo. (...) Nesse sentido, o fascista é um sujeito realmente burro porque cancelou o desejo de conhecer. Quando termos como fascista, burrice ou autoritário são utilizados no nível de caracterização de uma condição subjetiva ou coletiva, as pessoas costumam interpretá-los apenas como uma expressão de xingamento. No entanto, no livro, eu tento resgatar exatamente a condição conceitual desses elementos que se transformaram em puro jogo de ofensas no dia a dia. Vários autores na história da filosofia se ocuparam de pensar a burrice e as formas de ignorância, por exemplo. Estamos mostrando a validade conceitual de um termo que caiu no uso cotidiano e que parece pura violência lingüística.


AT. Você cita o diálogo como um mecanismo mais complexo que a conversa. Qual é o papel dele na construção da política?


MT. (...) Dialogar é uma forma de conversação mais complexa e que implica a tentativa de se fazer compreender. Tudo isso depende de um imaginário. Eu preciso imaginar como o outro pode entender. No cotidiano, o que eu via, era uma impotência para a conversação. Até mesmo num jantar em família não é possível perguntar ou tentar entender melhor um posicionamento porque as pessoas estão com verdades e certezas na ponta da língua. É como se o ódio fosse confirmado e a expressão dele estivesse autorizada. A busca pelo diálogo precisa passar por um mínimo de posição de respeito em relação ao outro. E é isso que a gente não dispõe hoje em dia. Estamos indisponíveis para o outro. O diálogo é urgente. No entanto, as condições para que ele aconteça não estão dadas.



LISBOA, Luis Fernando. Entrevista Marcia Tiburi. A Tarde, Salvador, 09 dez. 2015. 2. cad. p. 1.




20 de novembro de 2015

"A vida na verdade."




Visto que a verdade não pode morrer nem estar morta, há quem receba certas verdades como coisa morta, puramente teórica e que em nada lhes vivifica o espírito.

Kierkegaard dividia as verdades em essenciais e acidentais, e os pragmatistas modernos, liderados por William James, avaliam uma verdade ou um princípio científico segundo as suas conseqüências práticas. Assim, a alguém que diz acreditar que há habitantes em Saturno, perguntam-lhe qual das coisas que agora faz não faria ou qual das que não faz faria, no caso de não crer que há habitantes em tal planeta, ou em que modificaria a sua conduta, se mudasse de opinião a tal respeito. Mas este critério, assim tomado é de uma tacanhez inaceitável.

O culto da verdade pela verdade em si mesma é um dos exercícios que mais eleva o espírito e o fortifica.

Para a maioria dos eruditos, que habitualmente é gente mesquinha e invejosa, a busca insistente de pequenas verdades, o esforço por rectificar uma data ou um nome, não passa ou de um desporto ou de uma monomania ou de um pontinho de pequena vaidade; mas num homem de alma elevada e serena, e nos eruditos de erudição que se poderia chamar religiosa, tais buscas implicam um culto à verdade. Com efeito, aquele que não se acostuma a respeitá-la no pequeno nunca chegará a respeitá-la no grande. Além de nem sempre sabermos o que é o grande e o que é o pequeno, nem o alcance das consequências que se podem derivar de algo que avaliamos, não já como pequeno, mas como mínimo.

Todos ouvimos falar da religião da ciência que é o culto religioso pela verdade científica, a submissão do espírito frente à verdade objectivamente demonstrada, a humildade de coração para nos rendermos ao que a razão nos comprove como verdade, seja em que ordem for e mesmo que não nos agrade.

Este sentimento religioso de respeito pela verdade nem é muito antigo no mundo nem o possuem os que mais alardes fazem de religiosidade. Durante os primeiros séculos do cristianismo e na Idade Média, a fraude piedosa –  pia fraus – foi corrente. Bastava que uma coisa se considerasse edificante para que se pretendesse fazê-la passar por verdadeira. Cabendo, como cabe, num pedaço de papel do tamanho de uma mortalha de cigarro, o que os Evangelhos dizem de José, o esposo de Maria, houve quem tivesse escrito uma Vida de S. José, patriarca, que ocupa 600 páginas de leitura compacta. Que poderá ser o seu conteúdo, senão declamações ou piedosas fraudes?

De vez em quando recebo escritos, quer de católicos, quer de protestantes – mais destes, que têm mais espírito de proselitismo do que aqueles – em que se trata de demonstrar-nos tal e tal coisa conforme a seu credo, e neles costuma resplandecer muito pouco amor à verdade. Retorcem e violentam textos evangélicos, interpretam-nos sofisticadamente e acumulam argúcias apenas para os levar a dizer, não o que dizem, mas o que eles querem que digam. O resultado é que esses exegetas imbuídos de racionalismo demonstraram no seu culto religioso à verdade uma religiosidade muito maior do que os seus sistemáticos refutadores e detractores.

E este amor e respeito à verdade, este buscar nela a vida, pode exercer-se investigando as verdades que nos pareçam menos pragmáticas.

Já Platão fazia dizer a Sócrates no Parménides, que quem, quando jovem, se não exercitou a analisar esses princípios metafísicos, que o vulgo considera uma ocupação ociosa e de ociosos, jamais chegará a conseguir verdade alguma de valor. Isto é: traduzindo para a linguagem de hoje, aí nessa terra, os caçadores de moedas que desprezam as pilhérias jamais conhecerão algo que torne a vida mais nobre; e mesmo que façam crescer a fortuna terão paupérrima a alma, sendo durante toda a vida uns beócios. Séculos depois de Platão, outro excelso espírito, embora de têmpera diferente daquele, o chanceler Bacon, escreveu que

“não se hão de ter por inúteis aquelas ciências que não têm uso, sempre que agucem e disciplinem o engenho”.

Onde a cultura é complexa, todos compreenderam o valor prático da pura especulação e sabem quanto cabe a um Kant ou a um Hegel nos triunfos militares e industriais da Alemanha moderna. E sabem que, se na altura em que Staudt iniciou a geometria pura ou de posição este ramo da ciência não passava de uma ginástica mental, hoje assenta nela uma grande parte do cálculo gráfico que pode ser útil até para a extensão dos cabos.

Mas, além desta utilidade mediata, ou a longo prazo, que podem vir a ganhar os princípios científicos que nos parecem abstractos, há a utilidade imediata de que a sua investigação e o seu estudo educam e fortificam a mente muito melhor do que o estudo das aplicações científicas.

Quando começamos a renegar a ciência pura, que nunca verdadeiramente cultivamos – e por isso a renegamos – e tudo se transforma num falar de estudos práticos, sem entender bem o que isto significa, os povos em que mais progrediram as aplicações científicas censuram-se a si mesmos pelo politecnicismo e desconfiam dos pragmáticos. Um simples engenheiro – isto é, um engenheiro sem verdadeiro espírito científico, porque há os que o têm – pode ser tão útil para traçar uma via férrea como um mero advogado para defender um pleito; mas nem aquele fará avançar a ciência um passo, nem a este confiaria eu a reforma da Constituição de um povo.

Buscar a vida na verdade é, pois, tentar no culto desta enobrecer e elevar a nossa vida espiritual e não converter a verdade, que é e deve ser sempre viva, num dogma, que costuma ser uma coisa morta.

Durante um longo século lutaram os homens, apaixonando-se pela questão de se o Espírito Santo procede só do Pai ou do Pai e do Filho ao mesmo tempo; e foi esta luta que deu origem a que no credo católico se acrescentasse o Filioque, onde se diz qui ex Patre Filioque procedit. Mas hoje, que católico se apaixona por isto? Perguntai ao católico mais piedoso e de melhor boa fé, perguntai aos sacerdotes porque é que o Espírito Santo há de proceder do Pai e do Filho, e não só do primeiro, ou que diferença implica na nossa conduta moral e religiosa acreditar numa ou noutra coisa, deixando de lado a submissão à Igreja que ordena que assim se creia, e vereis o que vos diz.

O que outrora foi expressão de um vivo sentimento religioso, à qual com certo respeito se pode chamar verdade de fé, não passa hoje de um simples dogma morto.

E a condenação pelo atual Papa das doutrinas do chamado modernismo deve-se apenas a que os modernistas – Loisy, Le Roy, o padre Tyrrell, Murri, etc. – procuram devolver vida de verdades a dogmas mortos, e o Papa – ou melhor dizendo, os seus conselheiros –, coitado, não é capaz de mergulhar em tais funduras –, sabe, com acutilante sagacidade, que, ao tentar-se vivificar tais dogmas, estes acabam por morrer de todo.

Sabem que há cadáveres que, ao tratar-se de insuflar-lhes nova vida, se desfazem em pó. E esta é a principal razão por que se deve buscar a vida de todas as verdades: para que aquelas que parecem sê-lo, e não o são, se nos mostrem como realmente são, como não verdades ou apenas verdades aparentes. E o que há de mais oposto a buscar a vida na verdade é proscrever o exame e declarar que há princípios intangíveis. Não há nada que não deva examinar-se.

E eis aqui como se entrelaçam a verdade na vida e a vida na verdade: aqueles que não se atrevem a buscar a vida das verdades que professam como tais nunca vivem com verdade na vida. O crente que se opõe a examinar os fundamentos da sua crença é um homem que vive na insinceridade e na mentira. O homem que não quer pensar em certos problemas eternos é um embusteiro, e nada mais do que um embusteiro.

E é assim que costumam andar unidas, nos indivíduos e nos povos, a superficialidade e a insinceridade. Povo irreligioso, isto é, povo em que os problemas religiosos não interessam a quase ninguém – seja qual for a solução que se lhes dê –, é povo de embusteiros e exibicionistas, onde o que importa não é ser, mas parecer ser.

Salamanca, 1908.




UNAMUNO, Miguel de. Verdade e vida. Tradução de João da Silva Gama. Apresentação: Arthur Mourão. Covilhã: Universidade de Beira Interior - Lusofia, 2008, p. 7-12. Texto adaptado e com grifos nossos. Col. Textos Clássicos de Filosofia. Traduzido da edição de AGUILLAR, Ensayos, Tomo II, Madrid, 1951, p. 377-384.





"A verdade na vida."



Desde sempre foi a minha convicção, mais arraigada e mais corroborada em mim à medida que o tempo vai passando: que a suprema virtude de um homem deve ser a sinceridade. O vício mais feio é a mentira, os seus derivados e disfarces, a hipocrisia e o exagero. Prefiro o cínico ao hipócrita, não fora aquele já parte deste.


Abrigo a profunda crença de que, se todos disséssemos sempre e em cada caso a verdade, a verdade nua e crua, a princípio ameaçaria tornar-se inabitável a terra, mas depressa acabaríamos por nos entender como hoje não nos entendemos. Se todos, podendo assomar ao bocal das consciências alheias, víssemos despidas as almas, as nossas rixas e suspeitas fundir-se-iam todas numa imensa piedade mútua. Veríamos as negruras do que temos por santo, mas também a alvura daquele que consideramos um malvado.


E não basta não mentir, como o oitavo mandamento da lei de Deus nos ordena, mas é preciso dizer a verdade, o que não é a mesma coisa. Pois que o progresso da vida espiritual consiste em passar dos preceitos negativos aos positivos. O que não mata, nem fornica, nem furta, nem mente, possui uma honradez puramente negativa e, por aqui, não vai a caminho de santo. Não basta não matar, é preciso acrescentar e melhorar as vidas alheias; nem basta não fornicar, mas há que irradiar pureza de sentimento; nem basta não furtar, pois importa acrescentar e melhorar o bem-estar, a riqueza pública e a dos outros; nem basta também não mentir, mas dizer a verdade.


Há que observar agora outra coisa (...) como há muitas, muitíssimas, mais verdades por dizer do que tempo e ocasiões para dizê-las, não podemos dedicar-nos a dizer aquelas que este ou aquele indivíduo quereria que disséssemos, mas aqueloutras que julgamos mais momentosas ou mais a propósito. Sempre que alguém nos repreende porque não proclamamos estas ou aquelas verdades, podemos responder-lhe que, se fizéssemos como ele quer, não poderíamos proclamar outras verdades que proclamamos. E, não raro, acontece também que aquilo que eles consideram como verdade, partindo do suposto como a consideramos, não seja assim.¹ [alteração nossa]



1 – Redação original: ‘partindo do suposto que também como tal a consideramos, não é assim’.

UNAMUNO, Miguel de. Verdade e vida. Tradução de João da Silva Gama. Apresentação: Arthur Mourão. Covilhã: Universidade de Beira Interior - Lusofia, 2008, p. 5-6. Grifos nossos. Col. Textos Clássicos de Filosofia.  Traduzido da edição de AGUILLAR, Ensayos, Tomo II, Madrid, 1951.




16 de outubro de 2015

Uma boa metáfora para o colóquio amoroso.








Era uma vez, uma menina que tinha como seu melhor amigo, um Pássaro Encantado. Ele era encantado por duas razões. Primeiro, porque ele não vivia em gaiolas. Vivia solto. Vinha quando queria. Vinha porque amava. Segundo, porque sempre que voltava suas penas tinham cores diferentes, as cores dos lugares por onde tinha voado. Certa vez, voltou com penas imaculadamente brancas, e ele contou estórias de montanhas cobertas de neve. Outra vez, suas penas estavam vermelhas, e ele contou estórias de desertos incendiados pelo sol. Era grande a felicidade quando estavam juntos. Mas sempre chegava o momento quando o pássaro dizia: “Tenho de partir.” A menina chorava e implorava: “Por favor, não vá fico tão triste. Terei saudades e vou chorar...”

“Eu também terei saudades”, dizia o pássaro. “Eu também vou chorar. Mas vou lhe contar um segredo: eu só sou encantado por causa da saudade que faz com que as minhas penas fiquem bonitas. Se eu não for não haverá saudade. E eu deixarei de ser o Pássaro Encantado e você deixará de me amar.”

E partia. A menina, sozinha, chorava. E foi numa noite de saudade que ela teve a idéia: “Se o Pássaro não puder partir, ele ficará. Se ele ficar, seremos felizes para sempre. E para ele não partir basta que eu o prenda numa gaiola.”

Assim aconteceu. A menina comprou uma gaiola de prata, a mais linda.

Quando o pássaro voltou, eles se abraçaram, ele contou estórias e adormeceu. A menina, aproveitando-se do seu sono, o engaiolou. Quando o pássaro acordou, ele deu um grito de dor.

“Ah! Menina... que é isso que você fez? Quebrou-se o encanto. Minhas penas ficarão feias e eu me esquecerei das estórias. Sem a saudade o amor irá embora...”

A menina não acreditou. Pensou que ele acabaria por acostumar.

Mas não foi isso que aconteceu. Caíram suas plumas e o penacho. Os vermelhos, os verdes e os azuis das penas transformaram-se num cinzento triste. E veio o silêncio: deixou de cantar. Também a menina se entristeceu.

Não era aquele o pássaro que ela amava. E de noite chorava pensando naquilo que havia feito com seu amigo...

Até que não mais aguentou. Abriu a porta da gaiola. “Pode ir, Pássaro”, ela disse. “Volte quando você quiser...”


“Obrigado, menina”, disse o Pássaro. “Irei e voltarei quando ficar encantado de novo. E você sabe: ficarei encantado de novo, quando a saudade voltar dentro de mim e dentro de você!”

RUBEM ALVES, Pássaro Encantado.





Sim, esta é uma ótima metáfora para todo colóquio amoroso, desde os mais fraternos e diluídos amores às manifestações dos amores eróticos. Permito-me, contudo, fazer uma pequena observação, apesar de entender não ser esta a intenção do autor. Um pequeno, e talvez leviano, traço que pincelo com a ousadia de quem protege-se dos universos abismais dos outros, porque de abismos já me servem os meus próprios.


A menina é figura que conota a qualquer pessoa sua própria insegurança, baixa estima, dependência afetiva... Menina na seara arquetípica, aquela que está sempre à espera, que recebe do outro, passivamente, os dons e sentidos para estar satisfeita com a própria existência.


A menina no texto é desprovida de sua própria luz e parece ser uma personagem destituída de vida, enraizada em seus próprios medos e arrastada ela mesma ao abismo de sua solidão. Contrário dela é o Pássaro. Este é a abertura. A transubstanciação de estado em estado, a versatilidade e o dinamismo. É o condutor de alegrias, conhecimentos e um persecutor de sabedoria. E não poderia mesmo ser outro animal, pois se trata do símbolo amorfo e móvel do Ar.


Sejamos mais Pássaros que meninas! E quando nos depararmos com as “meninas” na vida, fujamos delas o mais rápido possível! Não exijamos delas explicações sobre seus estimados pesadelos. E não nos deixemos ser tomados como grandes toras de madeira no dilúvio no qual são arrastadas.


Eu, humana, sou menina e sou Pássaro. A menina está aqui. Sempre pequenina, rodando sozinha e sua pretensão é somente brincar. Contudo, é o meu Pássaro quem me movimenta. Agita-me com o colorido das penas e dá-me uma bicada na fronte só de ver a menina erguer o dedinho.


Meu Pássaro não é tão egoísta, não se vai sozinho. Ele a leva consigo nessa grande brincadeira de viver.








14 de outubro de 2015

Justificar-se na Ordem.





Insinuar na Ordem o espetáculo complacente das suas servitudes tornou-se um meio paradoxal, mas peremptório, de dilatá-la. Eis o esquema dessa nova demonstração: para isolar o valor de ordem que se quer restaurar ou desenvolver, primeiro manifestar detidamente suas mesquinharias, as injustiças que produz, as piadas que suscita; mergulhá-lo na sua imperfeição natural; depois salvá-lo apesar, ou antes, com a pesada fatalidade das suas taras. Exemplos? Não faltam.


Tomai um exército, manifestai cruamente o militarismo dos seus chefes, o caráter tacanho, injusto, de sua disciplina e mergulhai um ser médio, falível, mas simpático, arquétipo do espectador, nessa tirania idiota. E depois, de repente, revirai o chapéu mágico e extraí dele a imagem de um exército triunfante, bandeiras ao vento, adorável (...)


Tomai outro exército: apontai o fanatismo científico de seus engenheiros, sua cegueira; mostrai tudo o que um rigor tão inumano destrói: homens, casais. E a seguir, içai a bandeira, salvai a o exército pelo progresso, juntai a grandeza da primeira ao triunfo do segundo (Les Cyclone, de Jules Roy).


A Igreja, enfim: denunciem sem pudor o seu farisaísmo, a tacanhez dos seus carolas, explicai que tudo isso pode ser mortal, não camuflai nenhuma das misérias da fé. E depois in extremis insinuai que o Verbo, por mais ingrato que seja, é uma via de salvação para suas próprias vítimas, e justificai o rigor moral pela santidade daqueles que ele oprime (Living Room, de Graham Greene).


Trata-se de uma espécie de homeopatia: curam-se as dúvidas contra a Igreja, contra o Exército, pelo próprio mal da Igreja e do Exército. Inocula-se um mal secundário para prevenir ou curar um mal essencial. Admite-se que a revolta contra a inumanidade dos valores da ordem é uma doença comum, natural, desculpável; deve-se evitar uma oposição frontal e tentar exorcizá-la como um fenômeno de possessão: obriga-se o doente a representar o seu próprio mal, a conhecer a natureza da sua revolta, e a revolta desaparece; mais seguramente porque, depois disso, distanciada e observada, a ordem não é mais do que um mito maniqueísta, portanto fatal, vitorioso, consequentemente benéfico.  O mal imanente da servidão é resgatado pelo bem transcendente da religião, da pátria, da Igreja etc. Um pouco de mal “confessado” dispensa o reconhecimento de muito mal escondido.


Também é possível encontrar na publicidade um esquema romanesco que exemplifique a ação dessa nova vacina. Trata-se da publicidade da Astra. A historieta começa inevitavelmente com um grito de indignação dirigido à margarina: “Um creme feito com margarina? É impensável!” “Margarina? Teu tio vai ficar furioso!” E, depois, abrem-se os olhos, e a consciência perde a sua rigidez: a margarina é um alimento delicioso, agradável, digestivo, econômico, útil em todas as circunstâncias. Conhece-se a moral final: “Eis-vos libertos de um preconceito que vos custava caro!”


É deste mesmo modo que a Ordem nos liberta dos nossos preconceitos progressistas. O Exército, valor ideal? É impensável; vejam as suas fanfarronadas, o seu militarismo, a cegueira sempre possível dos seus chefes. A Igreja, infalível? Infelizmente é muito duvidoso que assim seja: vejam os carolas, os seus padres sem poder, o seu conformismo criminoso. E, depois, o bom senso faz as contas: o que são os inconvenientes menores da ordem comparados com as suas vantagens? Ela vale bem o preço de uma vacina. Que interessa, no fim das contas, que a margarina não seja senão gordura se o seu rendimento é superior ao da manteiga? Que importa, no fim das contas, que a ordem seja um pouco brutal ou um pouco cega se nos proporciona um baixo custo de vida? Eis-nos também libertos de um preconceito que nos custava caro, muito caro, que nos custava muitos escrúpulos, muitas revoltas, muitos combates e muita solidão.



BARTHES, Roland. Operação Astra. In: ________________________, Mitologias. Trad. Rita Buongermino, Pedro de Souza e Rejane Janowitzer, 4ª ed. Rio de Janeiro: DIFEL, 2009, p. 45 – 47. Título original: Mythologies. 




9 de agosto de 2015

A inefável refeição.







Havia uma bela colmeia, num arboredo distante, cujo operariado zumbia atribulado pela soberba importância de seu sistema. Não eram propriamente conflituosos seus servis construtores. Alguns, porém, já emitiam sinais de sandice e ferino orgulho de seu labor para a manutenção do edifício.


Quis o destino, passasse por ali, uma pequena cancioneira muito altiva e empertigada. Pousa a sabiá, sacode o rabinho e, ao sentir-se muito à vontade, inicia um insistente e solitário gorjeio. Estava assim, despreocupada da rotina ascética dos insetos que possivelmente ignorava, quando fora abordada por um deles.


Questionada pelo modo como pousara no galho e como, sem a menor das cerimônias, destilava um frenesi de exclamativas e frases melódicas, pausadas de quando em quando. Perturbava a forasteira, com esse comportamento, a pitoresca fisiologia daquela parte do arboral.


À avezinha restou compreender que a laboriosa abelha não poderia tratar de outra coisa que não a sustentação de suas próprias atribuições. E não se deu por vencida. Flertou uma ironia reticente e continuou seus solfejos matutinos. Destes passou aos vespertinos, quando chegou de supetão a intrépida miúda, a friccionar novas reivindicações acerca do espaço por ela ocupado.


“Continuas a perturbar o ambiente com esta vocação para a melancolia, nobre Senhora? Nós que somos festivas e incansáveis, estamos ocupadas demais para sermos ouvintes dos teus dissabores.”


“Não creio que meu canto possa arrefecer tuas ditosas ocupações. Pousei por estes galhos, quando poderia pousar em quaisquer outros. Não te suplico a atenção, já por demais fustigada de tantas responsabilidades.”


“Acaso estás zombando de todas nós? Eu seria mais inteligente! Em tua posição, não te convéns falar em demasiado. Somos uma farta maioria que, embora menores individualmente, em conjunto arrastamos grandes fortunas e multidões.”


“Já que és a fortuna de teu próprio destino, equivocas-te em me terdes por ocupação. Não te usurparei de teu trono, nem cingirei o bico em tua tradição. A mim é soberanamente apreciável sondar as altitudes em todos os nortes.”


“Eu poderia facilmente relevar o estigma que de modo tão arrogante me ofereces. Mas não me inclinarei a fazê-lo. Exijo que te retires e que leves contigo o teu canto e o teu argumento.”


“Posso então saber por que com tal energia me repeles?”


“É que o teu canto por demais nos incomoda. Dissipas a atenção de nossos menestréis. Os soldados já simpatizam com esta débil melodia e, em tudo, crias uma atmosfera frouxa e pachorrenta. E estas asas, e esta penugem? Possuem um colorido estranho, do qual, por mais esforço que faça, não posso tolerar.”


“Não é de minha natureza promover um esforço desmedido em causar-te excessivo incômodo. Deixo o espaço que reivindicas, pois aqui fizeste morada cativa, ao passo que eu, ao agitar das asas, não disponho de âncora, nem de mourão, nem de seta ou de grilhão.”


Dizendo isto, a avezinha levanta as asas e ergue o bico. Em pouco tempo está plainando no horizonte, em direção ao curso leitoso de um rio. Vai como havia chegado, de repente e sem nada protestar em favor de si.


Tudo tornara como dantes. Sem melodias dissonantes, nem coloridos estranhos. E durante algum tempo, é possível afirmar, as coisas estavam bem tranquilas. Cada um desempenhava a função requerida e a engrenagem funcionava a contento para os que dela se alimentavam.


Mas foi numa manhã, quando muitas operárias saíam para um vergel infestado de aromas doces e cítricos, que um fato curioso dava indícios de que algo estava por acontecer. Um focinho irrequieto investigava em todas as direções por ali. Corria agitado um corpanzil de pelagem escura e, em questão de segundos, alcançava os galhos das árvores tal um caçador à guiza de acrobata.


A irara sorriu quando se deu conta do precioso banquete que a aguardava. Levantou a cabecinha para procurar em seu entorno, e iniciava mais uma série de saltos na galeria de folhas tendo uma longa cauda por sustentação. Logo, alcança o galho de uma nobre árvore, onde estava assentado um lauto abelheiro.


Encontrara pois, um repasto melífluo, recheado por larvas e ninfas, e não deu uma de rogada. Espatifou com o auxílio das patas o edifício, árvore abaixo, deixando os insetos atordoados em cima. Correu pelo tronco e foi ter ao chão. Após, concluiu a estripulia num tronco podre, deitado próximo à margem de um rio, onde esperavam dois filhotes para a saudosa ração abocanhada graças à habilidade materna.


A moral da história sugerida é: O Tempo é o grande selo de todas as verdades. Há outras, todavia. Encontre a sua.












29 de julho de 2015

Provérbios.










No tempo da semeadura, aprende; na colheita, ensina; no inverno, desfruta.
Conduz teu carro e teu arado por sobre a ossada dos mortos.
O caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria.
A Prudência é uma rica, feia e velha donzela cortejada pela Impotência.
Aquele que deseja e não age engendra a peste.
O verme perdoa o arado que o corta.
Imerge no rio aquele que a água ama.
O tolo não vê a mesma árvore que o sábio vê.
Aquele cuja face não fulgura jamais será uma estrela.
A Eternidade anda enamorada dos frutos do tempo.
À laboriosa abelha não sobra tempo para tristezas.
As horas de insensatez, mede-as o relógio; as de sabedoria, porém, não há relógio que as meça.
Todo alimento sadio se colhe sem rede e sem laço.
Toma número, peso e medida em ano de míngua.
Ave alguma se eleva a grande altura, se se eleva com as próprias asas.

Um cadáver não revida agravos.
O ato mais alto é até o outro elevar-te.
Se persistisse em sua tolice, o tolo sábio se tornaria.
A tolice é o manto da malandrice.
O manto do orgulho, a vergonha.
Prisões se constroem com pedras da Lei; Bordéis, com tijolos da Religião.
A vanglória do pavão é a glória de Deus.
O cabritismo do bode é a bondade de Deus.
A fúria do leão é a sabedoria de Deus.
A nudez da mulher é a obra de Deus.
Excesso de pranto ri; excesso de riso chora.
O rugir dos leões, o uivar dos lobos, o furor do mar em procela e a espada destruidora são fragmentos de eternidade, demasiado grandes para o olho humano.

A raposa culpa o ardil, não a si mesma.
Júbilos fecunda. Tristezas engendra.
Vista o homem a pele do leão, a mulher, o velo da ovelha.
O pássaro, um ninho; a aranha, uma teia; o homem, a amizade.
O tolo egoísta e risonho & o tolo sisudo e tristonho, serão ambos julgados sábios para que sejam exemplos.
O que hoje se prova outrora foi imaginário.
A ratazana, o camundongo, a raposa, o coelho olham as raízes; o leão, o tigre, o cavalo, o elefante olham os frutos.
A cisterna contém; a fonte transborda.
Uma só ideia impregna a imensidão.
Dize sempre o que pensas e o vil te evitará.
Tudo em que se pode crer é imagem da verdade.
Jamais uma águia perdeu tanto tempo como quando se dispôs a aprender com a gralha.
A raposa provê a si mesma, mas Deus provê ao leão.
De manhã, pensa. Ao meio-dia, age. No entardecer, come. De noite, dorme.
Quem consentiu que dele te aproveitasses, este te conhece.
Assim como o arado segue as palavras, Deus recompensa as preces.
Os tigres da ira são mais sábios que os cavalos da instrução.
Da água estagnada espera veneno.
Jamais saberás o que é suficiente, se não souberes o que é mais que suficiente.
Ouve a crítica do tolo! É um direito régio!
Os olhos de fogo; as narinas de ar; a boca de água; a barba de terra.

O fraco em coragem é forte na astúcia.
A macieira jamais pergunta à faia como crescer; nem o leão, ao cavalo, como apanhar sua presa.
Quem reconhecido recebe, abundante colheita obtém.
Se outros não fossem tolos, seríamos nós.
A alma de doce deleite jamais será maculada.
Quando vês uma Águia, vês uma parcela do Gênio; ergue a cabeça!
Assim como a lagarta escolhe as mais belas folhas para por seus ovos, o sacerdote lança sua maldição sobre as alegrias mais belas.
Criar uma pequena flor é o labor de séculos.
Maldição tenciona. Benção relaxa.
O melhor vinho é o mais velho, a melhor água, a mais nova.
Orações não aram! Louvores não colhem!
Júbilos não riem! Tristezas não choram!
A cabeça, Sublime; o coração, Paixão; os genitais, Beleza; mãos e pés, Proporção.
Como o ar para o pássaro ou o mar para o peixe, assim o desprezo para o desprezível.
O corvo queria tudo negro; tudo branco, a coruja.
Exuberância é Beleza.
Se seguisse os conselhos da raposa, o leão seria astuto.
O Progresso constrói caminhos retos; mas caminhos tortuosos sem Progresso são caminhos de Gênio.

Melhor matar uma criança em seu berço que acalentar desejos irrealizáveis.
Onde ausente o homem, estéril a natureza.
A verdade jamais será dita de modo compreensível, sem que nela se creia.
Suficiente! Ou Demasiado.

 William Blake, Provérbios do Inferno. In: O Matrimônio do Céu e do Inferno. Tradução de José Antônio Arantes. São Paulo: Iluminuras, 1987.