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28 de abril de 2017

A luz irresistível da verdade.




Para se preservar das más influências, a primeira condição seria, pois, evitar que a imaginação se exalte. Todos os exaltados são mais ou menos loucos, e sempre é fácil dominar um louco, tomando-o pela sua loucura. Ponde-vos, pois, acima dos temores pueris e desejos vagos; crede na sabedoria suprema e ficai convencido de que esta sabedoria, tendo-vos dado a inteligência para único meio de a conhecer, não pode querer armar laços à vossa inteligência ou razão. Vedes em toda parte, ao redor de vós, efeitos proporcionados às causas; vedes as causas dirigidas e modificadas no domínio do homem pela inteligência; vedes, em suma, o bem ser mais forte e mais preferido que o mal: por que suporeis, no infinito, uma imensa irracionalidade, se há razão no finito? A verdade não se oculta a ninguém. Deus é visível nas suas obras, e nada pede aos seres contra as leis da natureza deles, da qual ele próprio é o autor. A fé e a confiança; tende confiança não nos homens que vos falam mal da razão, porque são loucos ou impostores, mas sim na eterna razão que é o verbo divino, esta luz verdadeira, oferecida, como o sol, à intuição de toda criatura humana que vem a este mundo.

Se acreditardes na razão absoluta e se desejais mais do que tudo a verdade e a justiça, não deveis temer ninguém, e só amareis os que são amáveis. A vossa luz natural repelirá instintivamente aos malvados, porque ela será dominada pela vossa vontade. Assim, até as substâncias venenosas que poderiam vos ser administradas não afetarão a vossa inteligência. Poderão tornar-vos doente, mas nunca vos farão ficar criminoso.



LÉVI, Éliphas. Dogma e ritual de alta magia. Tradução de Rosabis Camaysar. 7ª ed. São Paulo: Editora Pensamento, 2013. p. 379.



15 de fevereiro de 2016

Litorais de Albedo.





Flutuava em anéis de espuma. E um sorriso migrava entre a força das águas e a ardência nos olhos. Aquela repulsa do sal, incomodava a abertura dos olhos e lhe temperava a pele.


Dourada era a sua sorte. Toda chamuscada de sol e de vento, era feita da mesma substância com que a natureza trabalhava os leoninos, os guepardos, os linces. Toda romanceira com aquele mesmo frescor dos peixes e das enguias.  Cadência de ondas perfeitas ainda na sobriedade da infância como em manhãs de primavera.


Os cachos dos cabelos pairavam na água inquieta. Quão juvenis brincavam no clarão já ameno do dia que não se quer ir! Que quer junto às andorinhas, um repouso nos mansos olhos. Uma teimosia!


Ah! Este clarão de céu e mar que se confunde no horizonte... Esta linha imaginária que se deita preguiçosa para espalhar as virtudes do espaço! Tudo intocável como sempre fora, não fossem os anúncios da civilização causados pelas palavras e pelos gritinhos agudos – não há quem interrompa nem mesure!




O tempo, o clarão e o mar tal como quando se banhavam as Musas que ascendiam do Hélicon para encontrar a leveza das águas condensadas. Tal como testemunharam os guardiões de um céu antigo, como se rebentassem um cem número de Netunos, serpenteando dos abismos liquefeitos e indo atirar-se contra os quebra-mares.


Pisem aqui por estas terras as Vestais dos Templos de Anúbis! Que dancem ao som de hidraulos e tambores! Que agitem os braços com a saudação tempestiva de algum oráculo! Tragam rente à cintura, depositada em moringas de argila, a revelação do nome inaudível para desfolhá-lo no silêncio das almas.


Tudo encontra o vitral dos sorrisos da menina. Desde a cândida formosura de seus olhos apertados pelo salitre até a energia viçosa dos movimentos de infância, pululantes como bolhas, valseando por entre os anéis das ondas, deixando-se empurrar e sentindo arrastar as areias que lhe apóiam a miseração dos pés.


Todo o tempo é luz indivisa. Não há rastro de dúvida, nem o medo queimou de sordidez insensata os reflexos de um paraíso que somente existe por se fazer inefável, pois que se perde no instante mesmo de sua natividade.



Nossa pretensão pelo eterno insulta o instante de indelével candura. Nossa insubmissão ao instante nos remete aos vergalhões de um inferno exultado por nunca ter sido alcançado. Nossa fuga, nosso desamor nos atira ao negrume de algo nunca vivido, porque nunca percebido com a particular evocação.


Pois tudo me escapa, tudo me foge como esta areia cantante que sob os meus pés aceita ser desfigurada. Tudo se inclina a si mesmo, tudo se retira de si mesmo e retorna a si do mesmo modo com que um dia se permitiu ir.


E estas lágrimas se vão agora como num escape de emoções desarmadas. Juntas haverão de encontrar o vitral dos sorrisos que alimentam as flores deslizantes na praia.


Como aquelas conchas que, dissipadas de vida, deixaram suas pobres marcas na areia. Sim! Haverão de encontrar a areia cantante, nunca antes assim compreendida.


Porque sempre cantara de oceano em oceano e por séculos não houve quem a escutasse. Cantou por séculos pelos oceanos, dançara a valsa enviesada das ondas e sequer alguém havia perseguido o seu rastro.




12 de fevereiro de 2016

Trav. Nigredo.




Erínias, pintura de Adolphe Bouguereau.




Estava paralisada pelo medo. Os olhos pareciam tatear a rua em busca de algum rosto conhecido. As moradias escassamente gradeadas tinham por sentinelas árvores centenárias com troncos retorcidos, gravemente atadas ao chão por raízes que emergiam nodosas. Apesar da luz frouxa, notou dos muros o desgaste sofrido pela ação do tempo, num lugar onde não havia pausa para reparos.


Uma mulher acalenta o filho no colo, indiferente. Tem o olhar gélido de quem denuncia que, por ali, forasteiros não são bem recebidos. Um homem enxuga o rosto e arqueia o supercílio. Outro olha por sobre os ombros, taco na mão, enquanto se move em direção a uma mesa de sinuca. Num pouco de tudo, a noite guardava um indicativo de dúvida.


As vozes abafadas exasperam uma hostilidade inevidente. A despeito disso, ela corre pela rua a gritar pelo nome da criança. A infante não responde. Porventura não a escutava? Ninguém sequer parecia se importar com as preocupações que lhe dissolviam os olhos em lágrimas correntes. A boca seca em desespero, perguntava a si mesma, “Mas como ninguém pode tê-la visto? Como pode ter sumido sem que ninguém a visse?”


Queria estar em casa. Havia algumas casas de pernoite para viajantes exaustos. Porém, aflitos não conhecem repouso. Agonia e transtorno por seus medos a tornavam ainda mais abatida. Estava entregue a um repositório de maus presságios, pensamentos em turbilhão, desenfreados. O peito incontido enchia-se de ar a reverberar pelo nome mágico, cálice onde descansavam emoções matutinas.


Eis que a criança aparece confusa. A aparente calma deu lugar a um choro copioso. “Mãe, me leva embora daqui! Quero ir para casa!” “O que lhe fizeram?” Não soube responder à interpelação materna. Ou não compreendia a extensão de tudo que lhe havia ocorrido...


A fúria abateu a face terna. Aquelas impressões femininas, delicadas, cediam lugar a uma notação de ferocidade desoladora. Era possível reconhecê-la nas meninas-serpente, as Três, geradas pelas gotas rubras da vergonha de Urano no leito de Gaia. As vestais do abismo, diante das quais a consciência se retrai à procura insubmissa por velar seus detratores. Um animal acuado que pretende ferir se não lhe permitem um nobre refúgio.


Via acima, e após quatro casas de onde elas estavam, dois cavalos descansavam mansamente sob a luz de uma candeia dourada dependurada num mourão. Tomou a menina em seus braços e avançou na direção dos corcéis. Ao aproximar-se deles pode ver que eram um negro e um azufrado. Colheu as rédeas do corcel negro e se atirou em seu lombo. Subtraiu a lamparina e lha deu para a menina, pousada à sua frente. “Tome! Segure-a!” – ordenou. 


Golpeou o flanco do animal, dando início à partida. O cavalo estocava o chão em galope com maestria. Tudo era escuridão. Não se podia ver todo o curso do caminho, nem a paisagem às margens. Apenas cerca de um metro se revelava em torno delas.


A determinação em rumar dali, a perspectiva em voltar para casa, era o que se podia mesurar naquele instante. A matriarca ainda não podia saber, não houve modo de ver o que se fazia impresso na base do bojo dourado da lanterna. Em letras miúdas, cuidadosamente talhadas, havia um letreiro no qual se podia ler “O décimo será sagrado”.