"Não sou um livro bem escrito; sou um homem, com as suas contradições." Conrad Ferdinand Meyer
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24 de março de 2013
19 de novembro de 2012
Sobre a poesia.
Não têm sido
poucas as tentativas de definir o que é poesia. Desde Platão e Aristóteles até
os semânticos e concretistas modernos, insistem filósofos, críticos e mesmo os
próprios poetas em dar uma definição da arte de se exprimir em versos, velha como a humanidade. Eu mesmo, em artigos e críticas que já vão longe, não me pude
furtar à vaidade de fazer os meus mots de
finesse em causa própria – coisa que hoje me parece se não irresponsável,
pelo menos bastante literária.
Um operário
parte de um monte de tijolos sem significação especial senão serem tijolos para
– sob a orientação de um construtor que por sua vez segue os cálculos de um
engenheiro obediente ao projeto de um arquiteto – levantar uma casa. Um monte
de tijolos é um monte de tijolos. Não existe beleza específica. Mas uma casa
pode ser bela, se o projeto de um bom arquiteto tiver a estruturá-lo os
cálculos de um bom engenheiro e a vigilância de um bom construtor no sentido do
bom acabamento, por um bom operário, do trabalho em execução.
Troquem-se tijolos por palavras, ponha-se o poeta,
subjetivamente, na quádrupla função de arquiteto, engenheiro, construtor e
operário, e aí tendes a poesia. A comparação
pode parecer orgulhosa, do ponto de vista do poeta, mas, muito pelo contrário,
ela me parece colocar a poesia em sua real posição diante das outras artes: a
de verdadeira humildade. O material do poeta é a vida, com tudo o que ela tem
de sórdido e sublime. Seu instrumento é a palavra. Sua função é a de ser
expressão verbal rítmica ao mundo informe de sensações, sentimentos e
pressentimentos dos outros com relação a tudo o que existe ou é passível de
existência no mundo mágico da imaginação. Seu único dever é fazê-lo da maneira
mais bela, simples e comunicativa possível, do contrário ele não será nunca um
bom poeta, mas um mero lucubrador de versos.
O material do
poeta é a vida, dissemos. Por isso me parece que a poesia é a mais humilde das
artes. E, como tal, a mais heróica, pois essa circunstância determina que o poeta constitua a lenha
preferida para a lareira do alheio, embora o que se
mostre de saída às visitas seja o quadro em cima dela, ou a escultura no
saguão, ou o último long-playing em
alta fidelidade, ou a própria casa, se ela for obra de um arquiteto de nome. E
eu vos direi o porquê dessa atitude, de vez que não há nisso nenhum mistério,
nem qualquer demérito para a poesia. É que a vida é para todos um fato cotidiano. Ela o é pela
dinâmica mesma de suas contradições, pelo equilíbrio mesmo de seus pólos
contrários. O homem não poderia viver sob o
sentimento permanente dessas contradições e desses contrários, que procura
constantemente esquecer para poder mover a máquina do mundo, da qual é o único
criador e obreiro, e para não perder a sua razão de ser dentro de uma natureza
em que constitui ao mesmo tempo a nota mais bela e mais desarmônica. (...)
Mas para o poeta a vida é eterna. Ele vive no vórtice dessas
contradições, no eixo desses contrários. Não viva ele assim, e transformar-se-á
certamente, dentro de um mundo em carne viva, num jardinista, num floricultor
de espécimes que, por mais belos sejam, pertencem antes a estufas que ao homem
que vive nas ruas e nas casas. Isto é: pelo menos para mim. E não é outra a
razão pela qual a poesia tem dado à história, dentro do quadro das artes, o maior,
de longe o maior número de santos e de mártires. Pois, individualmente, o poeta
é, ai dele, um ser em constante busca de absoluto e, socialmente, um permanente
revoltado. Daí não haver porque estranhar o fato de ser a poesia, para
efeitos domésticos, a filha pobre na família das artes, e um elemento de
perturbação da ordem dentro da sociedade tal como está constituída.
Diz-se que o poeta é um criador, ou melhor, um estruturador de
línguas e, sendo assim, de civilizações. Homero, Virgílio, Dante, Chaucer,
Shakespeare, Camões, os poetas anônimos do Cantar
de Mío Cid vivem à base dessas afirmações. Pode ser. Mas para o burguês
comum a poesia não é coisa que se possa trocar usualmente por dinheiro, pendurar na parede como um
quadro, colocar num jardim como uma escultura, pôr num toca-discos como uma
sinfonia, transportar para a tela como um conto, uma novela ou um romance, nem
encenar, como um roteiro cinematográfico, um balé ou uma peça de teatro.
Modigliani – que se fosse vivo seria multimilionário como Picasso - podia, na
época em que morria de fome, trocar uma tela por um prato de comida: muitos
artistas plásticos o fizeram antes e depois dele. Mas eu acho difícil que um
poeta possa jamais conseguir o seu filé em troca de um soneto ou uma balada. Por isso me parece que a
maior beleza dessa arte modesta e heróica seja a sua aparente inutilidade. Isso
dá ao verdadeiro poeta forças para jamais se comprometer com os donos da vida. Seu
único patrão é a própria vida: a vida dos homens em sua longa luta contra a
natureza e contra si mesmos para se realizarem em amor e tranqüilidade.
MORAES,
Vinícius de. Para viver um grande amor: crônicas e poesias. São Paulo:
Companhia das Letras, 1991, p. 102-104.
8 de novembro de 2012
O amor dos homens.
Na árvore em frente
Eu terei mandado instalar um alto-falante com
que os passarinhos
Amplifiquem seus alegres cantos para o teu
lânguido despertar.
Acordarás feliz sob o lençol de linho antigo
Com um raio de sol a brincar no talvegue de teus
seios
E me darás a boca em flor; minhas mãos amantes
Te buscarão longamente e tu virás de longe,
amiga
Do fundo de teu ser de sono e plumas
Para me receber; nossa fruição
Será serena e tarda, repousarei em ti
Como o homem sobre o seu túmulo, pois nada
Haverá fora de nós. Nosso amor será simples e
sem tempo.
Depois saudaremos a claridade. Tu dirás
Bom-dia ao teto que nos abriga
E ao espelho que recolhe a tua rápida nudez.
Em seguida teremos fome: haverá chá-da-índia
Para matar a nossa sede e mel
Para adoçar o nosso pão. Satisfeitos, ficaremos
Como dois irmãos que se amam além do sangue
E fumaremos juntos o nosso primeiro cigarro
matutino.
Só então nos separaremos. Tu me perguntarás
E eu te responderei, a olhar com ternura as
minhas pernas
Que o amor pacificou, lembrando-me que elas
andaram muitas léguas de mulher
Até te descobrir. Pensarei que tu és a flor
extrema
Dessa desesperada minha busca; que em ti
Fez-se a unidade. De repente, ficarei triste
E solitário como um homem, vagamente atento
Aos ruídos longínquos da cidade, enquanto te
atarefas absurda
No teu cotidiano, perdida, ah tão perdida
De mim. Sentirei alguma coisa que se fecha no
meu peito
Como pesada porta. Terei ciúme
Da luz que te configura e de ti mesma
Que te deixas viver, como deveras
Seguir comigo como a jovem árvore na corrente de
um rio
Em demanda do abismo. Vem-me a angústia
Do limite que nos antagoniza. Vejo a redoma de
ar
Que te circunda – o espaço
Que separa os nossos tempos. Tua forma
É outra: bela demais, talvez, para poder
Ser totalmente minha. Tua respiração
Obedece a um ritmo diverso. Tu és mulher.
Tu tens seios lágrimas e pétalas. À tua volta
O ar se faz aroma. Fora de mim
És pura imagem; em mim
És como um pássaro que eu subjugo, como um pão
Que eu mastigo, como uma secreta fonte
entreaberta
Em que bebo, como um resto de nuvem
Sobre que me repouso. Mas nada
Consegue arrancar-te à tua obstinação
Em ser, fora de mim – e eu sofro, amada
De não me seres mais. Mas tudo é nada.
Olho de súbito tua face, onde há gravada
Toda a história da vida, teu corpo
Rompendo em flores, teu ventre
Fértil. Move-te
Uma infinita paciência. Na concha do teu sexo
Estou eu, meus poemas, minhas dores
Minhas ressurreições. Teus seios
São cântaros de leite com que matas
A fome universal. És mulher
Como folha, como flor e como fruto
E eu sou apenas só. Escravizado em ti
Despeço-me de mim, sigo caminhando à tua grande
Pequenina sombra. Vou ver-te tomar banho
Lavar de ti o que restou do nosso amor
Enquanto busco em minha mente algo que te dizer
De estupefaciente. Mas tudo é nada.
São teus gestos que falam, a contração
Dos lábios de maneira a esticar melhor a pele
Para passar o creme, a boca
Levemente entreaberta com que mistificar melhor
a eterna imagem
No eterno espelho. E então, desesperado
Parto de ti, sou caçador de tigres em Bengala
Alpinista no Tibet, monge em Cintra, espeleólogo
Na Patagônia. Passo três meses
Numa jangada em pleno oceano para
provar a origem polinésica dos maias.
Alimento-me
de plancto, converso com as gaivotas, deito ao
mar poesia engarrafada, acabo
Naufragando nas costas de Antofagasta. Time,
Life e Paris Match
Dedicam-me enormes reportagens. Fazem-me
O “Homem do Ano” e candidato ao Prêmio Nobel.
Mas eis comes um pêssego. Teu lábio
Inferior dobra-se sob a polpa, o suco
Escorre pelo teu queixo, cai uma gota no teu
seio
E tu te ris. Teu riso
Desagrega os átomos. O espelho pulveriza-se,
funde-se o cano de descarga
Quantidades insuspeitadas de estrôncio-90
Acumulam-se nas camadas superiores do banheiro
Só o genes de meus tataranetos poderão dar prova
cabal de tua imensa
Radioatividade. Tu te ris, amiga
E me beijas sabendo a pêssego. E eu te amo
De morrer. Interiormente
Procuro afastar meus receios: “Não, ela me
ama...”
Digo-me, para me convencer, enquanto sinto
Teus seios despontarem em minhas mãos
E se crisparem tuas nádegas. Queres ficar
grávida
Imediatamente. Há em ti um desejo súbito de
alcachofras. Desejarias
Fazer o parto-sem-dor à luz da teoria dos reflexos
condicionados
De Pavlov. Depois, sorrindo
Silencias. Odeio o teu silêncio
Que não me pertence, que não é
De ninguém: teu silêncio
Povoado de memórias. Esbofeteio-te
E vou correndo cortar o pulso com gilete-azul;
meu sangue
Flui como um pedido de perdão. Abres tua caixa
de costura
E coses com linha amarela o meu pulso abandonado,
que é para
Combinar bem as cores; em seguida
Fazes-me sugar tua carótida, numa longa, lenta
Transfusão. Eu convalescente
Começas a sair: foste ao cabeleireiro. Perscruto
em tua face. Sinto-me
Traído, deliqüescente, em ponto de lágrimas. Mas
te aproximas
Só com o casaco do pijama e pousas
Minha mão na tua perna. E então eu canto:
Tu és a mulher amada: destrói-me! Tua beleza
Corrói minha carne como um ácido! Teu signo
É o da destruição! Nada resta
Depois de ti senão ruínas! Tu és o sentimento
De todo o meu inútil, a causa
De minha intolerável permanência!
Tu és uma contrafação da aurora! Amor, amada
Abençoada sejas: tu e a tua
Impassibilidade Abençoada sejas
Tu que crias a vertigem na calma, a calma
No seio da paixão. Bendita sejas
Tu que deixas o homem nu diante de si mesmo, que
arrasas
Os alicerces do cotidiano. Mágica é tua face
Dentro da grande treva da existência. Sim,
mágica
É a face da que não quer senão o abismo
Do ser amado. Exista ela para desmentir
A falsa mulher, a que se veste de inúteis panos
E inúteis danos. Possa ela, cada dia
Renovar o tempo, transformar
Uma hora num minuto. Seja ela
A que nega toda a vaidade, a que constrói
Todo o silêncio. Caminhe ela
Lado a lado do homem em sua antiga, solitária
marcha
Para o desconhecido – esse eterno par
Com que começa e finda o mundo – ela que agora
Longe de mim, perto de mim, vivendo
Da constante presença da minha saudade
É mais do que nunca a minha amada: a minha amada
e a minha amiga
A que me cobre de óleos santos e é portadora dos
meus cantos
A minha amiga nunca superável
A minha inseparável inimiga.
VINÍCIUS
DE MORAIS, ‘O AMOR DOS HOMENS’, EM JULHO DE 1957, PARIS.
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