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26 de janeiro de 2016

Recordações oníricas.






Folheando uma velha agenda encontro um enunciado apresentado por ocasião de um sonho. Apesar de a reprodução não ser exata, o conteúdo e a estrutura ficaram bastante próximos. A questão é que ao acordar demorei de proceder à anotação. Assim foi transcrito:

Alma do Homem
Que transpõe o tempo
Oferece a sombra
Tornando-o cativo.


Meus sonhos são voláteis. Sinto enorme dificuldade em lembrá-los. Tais recordações são um rosto, um gesto, um símbolo, historietas sem começo, nem fim.


O refrão do menino no balanço a cantar ritmicamente “chaca wacca, chaca wacca”, com um acompanhamento grave ao fundo. O anel de ônix negro, cuja proximidade parece a pupila dilatada de um gato. A fuga em voo entre grandes paredões de pedras na noite quieta. O retrato na moldura antiga de prata posto numa modesta mesinha de ébano encostada numa parede.


Há vezes nas quais me lembro de ver trechos belíssimos, cuja recordação literal me escapa.


Certa feita li um manuscrito inteiro. Presente ainda aquela sensação de profunda admiração e felicidade genuína com o texto em mãos. Devolvi-o à pessoa que ao meu lado aguardava em silêncio. É provável tratar-se do autor. Mas não me recordo de sua figura. Apenas sei que sorria.


Em contrapartida, há momentos nos quais adormeço mesmo acordada. Várias frases irrompem de algum ponto obscuro e saltam cadenciosas à minha razão. E sou arrebatada pelas emoções por elas provocadas.


Impossível domá-las ao ritmo de um lápis. E nem sempre estou disposta a escrevê-las. Ou são elas que se põem em fuga à sombra do arreio, ou sou eu quem me perco delas e as disperso com a lentidão da linguagem. São versos ferozes. Resta-me apenas o olhar vago, marejado pela beleza da experiência apartada de qualquer expectativa.





24 de outubro de 2015

VITRIOL.



Áries, pintura de Johfra Bosschart.



É um notável e importante mineral a que nenhum outro na natureza poderia ser comparado, porque o Vitriol se familiariza com todos os demais metais mais que todas as demais coisas. Alia-se intimamente com ele, pois de todos os demais metais pode obter-se um vitriol ou cristal, já que se conhecem como uma só e a mesma coisa.




O vitriol é preferível aos outros minerais e deve conceder-se-lhe o primeiro lugar depois dos metais. Pois embora todos os metais e minerais estejam dotados de grandes virtudes, o vitriol é o único suficiente para fazer-se a Bendita Pedra, o que nenhum outro no mundo poderia conseguir por si só.


A este propósito digo que é preciso que imprimas vivamente este argumento em teu espírito, que dirijas por inteiro teus pensamentos ao vitriol metálico e que recorde que confiei-te este conhecimento, de que se pode de Marte (homem) e Vênus (mulher) fazer um magnífico vitriol, no qual os três princípios se encontrem e que servem para o nascimento e produção de nossa Pedra”

[VITRIOL, visita interiora terrae rectificatur invenies ocultum lapidum]

VALENTIM, Basílio, Testamentum (séc. XV) apud TEIXEIRA, Lucas de Souza. Tratado de Numerologia Cabalística. (S. I.: s. n.) 2010, p. 39.





24 de agosto de 2015

Qual é o preço da obstinação humana?



Boris Vallejo.


Sob um grande céu cinzento, uma grande planície empoeirada, sem trilhas, sem gramado, sem um cacto, sem uma urtiga, encontrei alguns homens que caminhavam curvados.

Cada um deles levava às costas uma enorme Quimera, tão pesada quanto um saco de farinha ou de carvão ou os apetrechos de um soldado romano.

Mas a monstruosa besta não era um peso inerte, ao contrário, ela envolvia e oprimia o homem com seus músculos elásticos e potentes; ela agarrava-se ao peito de sua montaria, com suas duas vastas garras e a cabeça fabulosa sobrepunha-se à fronte do homem, como um desses capacetes horríveis com os quais os antigos guerreiros esperavam aumentar o terror dos inimigos.

Questionei um desses homens e perguntei-lhe para onde iam assim, Ele me respondeu que de nada sabia, nem ele nem os outros; mas que, evidentemente, iriam a algum lugar, pois eram impulsionados por uma invencível vontade de andar.

Coisa curiosa de se anotar: nenhum desses viajantes tinha um ar irritado contra a besta feroz pendurada em seu pescoço e colada às suas costas. Dir-se—ia que as consideravam como fazendo parte deles mesmos. Todas essas faces fatigadas e sérias não testemunhavam qualquer desespero; sob a cúpula diante do céu, os pés afundados na poeira de um chão também tão desolado quanto este céu, eles caminhavam com a fisionomia resignada dos que são condenados a esperar sempre.

E o cortejo passou a meu lado e se afundou na atmosfera do horizonte, no local onde a superfície arredondada do planeta se furta à curiosidade do olhar humano.

E durante alguns instantes eu me obstinava em querer compreender este mistério, mas logo uma irresistível indiferença se abateu sobre mim e eu fiquei mais pesadamente oprimido do que eles próprios por suas esmagadoras Quimeras.


Charles Baudelaire, Cada um com sua quimera.





9 de agosto de 2015

A inefável refeição.







Havia uma bela colmeia, num arboredo distante, cujo operariado zumbia atribulado pela soberba importância de seu sistema. Não eram propriamente conflituosos seus servis construtores. Alguns, porém, já emitiam sinais de sandice e ferino orgulho de seu labor para a manutenção do edifício.


Quis o destino, passasse por ali, uma pequena cancioneira muito altiva e empertigada. Pousa a sabiá, sacode o rabinho e, ao sentir-se muito à vontade, inicia um insistente e solitário gorjeio. Estava assim, despreocupada da rotina ascética dos insetos que possivelmente ignorava, quando fora abordada por um deles.


Questionada pelo modo como pousara no galho e como, sem a menor das cerimônias, destilava um frenesi de exclamativas e frases melódicas, pausadas de quando em quando. Perturbava a forasteira, com esse comportamento, a pitoresca fisiologia daquela parte do arboral.


À avezinha restou compreender que a laboriosa abelha não poderia tratar de outra coisa que não a sustentação de suas próprias atribuições. E não se deu por vencida. Flertou uma ironia reticente e continuou seus solfejos matutinos. Destes passou aos vespertinos, quando chegou de supetão a intrépida miúda, a friccionar novas reivindicações acerca do espaço por ela ocupado.


“Continuas a perturbar o ambiente com esta vocação para a melancolia, nobre Senhora? Nós que somos festivas e incansáveis, estamos ocupadas demais para sermos ouvintes dos teus dissabores.”


“Não creio que meu canto possa arrefecer tuas ditosas ocupações. Pousei por estes galhos, quando poderia pousar em quaisquer outros. Não te suplico a atenção, já por demais fustigada de tantas responsabilidades.”


“Acaso estás zombando de todas nós? Eu seria mais inteligente! Em tua posição, não te convéns falar em demasiado. Somos uma farta maioria que, embora menores individualmente, em conjunto arrastamos grandes fortunas e multidões.”


“Já que és a fortuna de teu próprio destino, equivocas-te em me terdes por ocupação. Não te usurparei de teu trono, nem cingirei o bico em tua tradição. A mim é soberanamente apreciável sondar as altitudes em todos os nortes.”


“Eu poderia facilmente relevar o estigma que de modo tão arrogante me ofereces. Mas não me inclinarei a fazê-lo. Exijo que te retires e que leves contigo o teu canto e o teu argumento.”


“Posso então saber por que com tal energia me repeles?”


“É que o teu canto por demais nos incomoda. Dissipas a atenção de nossos menestréis. Os soldados já simpatizam com esta débil melodia e, em tudo, crias uma atmosfera frouxa e pachorrenta. E estas asas, e esta penugem? Possuem um colorido estranho, do qual, por mais esforço que faça, não posso tolerar.”


“Não é de minha natureza promover um esforço desmedido em causar-te excessivo incômodo. Deixo o espaço que reivindicas, pois aqui fizeste morada cativa, ao passo que eu, ao agitar das asas, não disponho de âncora, nem de mourão, nem de seta ou de grilhão.”


Dizendo isto, a avezinha levanta as asas e ergue o bico. Em pouco tempo está plainando no horizonte, em direção ao curso leitoso de um rio. Vai como havia chegado, de repente e sem nada protestar em favor de si.


Tudo tornara como dantes. Sem melodias dissonantes, nem coloridos estranhos. E durante algum tempo, é possível afirmar, as coisas estavam bem tranquilas. Cada um desempenhava a função requerida e a engrenagem funcionava a contento para os que dela se alimentavam.


Mas foi numa manhã, quando muitas operárias saíam para um vergel infestado de aromas doces e cítricos, que um fato curioso dava indícios de que algo estava por acontecer. Um focinho irrequieto investigava em todas as direções por ali. Corria agitado um corpanzil de pelagem escura e, em questão de segundos, alcançava os galhos das árvores tal um caçador à guiza de acrobata.


A irara sorriu quando se deu conta do precioso banquete que a aguardava. Levantou a cabecinha para procurar em seu entorno, e iniciava mais uma série de saltos na galeria de folhas tendo uma longa cauda por sustentação. Logo, alcança o galho de uma nobre árvore, onde estava assentado um lauto abelheiro.


Encontrara pois, um repasto melífluo, recheado por larvas e ninfas, e não deu uma de rogada. Espatifou com o auxílio das patas o edifício, árvore abaixo, deixando os insetos atordoados em cima. Correu pelo tronco e foi ter ao chão. Após, concluiu a estripulia num tronco podre, deitado próximo à margem de um rio, onde esperavam dois filhotes para a saudosa ração abocanhada graças à habilidade materna.


A moral da história sugerida é: O Tempo é o grande selo de todas as verdades. Há outras, todavia. Encontre a sua.












1 de março de 2014

Yin e Yang, arquétipos complementares.








Há muitas referências que denotam em YIN o lado sombrio, algo denso e involuído, por essa razão, muitos pensadores chegaram a identificar isso como um sinal de fraqueza. O YIN é identificado como aspecto do feminino e o YANG como o do masculino.

E nisso deturparam grosseiramente e identificaram a mulher como um indivíduo limitado e de natureza frágil, quando não leviana. Todos os indivíduos devem cultivar tanto o YIN como o YANG, pois há evidente interação na diferença.

O YIN basicamente são as nossas emoções, sensibilidade, nossas vontades, o exercício artístico, também as nostalgias, vaidades, os medos, as frustrações etc. O YANG é o nosso intelecto, nosso aspecto mais racional e sistêmico, é a lógica, a linguagem, mas também o orgulho, a ambição, a falta de compaixão com o outro etc. Um aspecto tende a amenizar os efeitos do outro.

YIN sutiliza YANG; YANG fortalece e assegura YIN. São complementares, apesar de muitos os considerarem opostos. E estão presentes em todos os indivíduos. Ao contrário do que escrevem por aí, identificando as mulheres como YIN e os homens como YANG.



YIN e YANG são arquétipos, conforme entendimento de Jung, imagens incrustadas idealmente no inconsciente coletivo emitindo aí seu significado e sua energia. São símbolos dotados de valor consciente e inconsciente. Nada a ver com questões relativas ao gênero.