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27 de dezembro de 2015

Sobre o dorso do Tigre.







Será que a glória realmente não passa do bocado mais saboroso de nosso amor-próprio? - Ela está ligada aos homens mais raros, e também aos momentos mais raros de tais homens, como ambição. São os momentos das iluminações súbitas, quando o homem estica o seu braço imperiosamente, como que para criar um mundo, produzindo luz a partir de si mesmo e espalhando-a em torno. Então, impõe-se a ele a certeza confortadora de que a posteridade não pode ser privada daquilo que o elevou e o ocultou no ponto mais distante, da altura de sua sensação única; na eterna necessidade, para todos os que virão, dessa mais rara das iluminações o homem reconhece a necessidade de sua glória. Em todo o futuro, a humanidade precisa dele, e como aquele momento da iluminação é o resumo e a concentração de sua essência mais própria, ele acredita ser imortal, como o homem de tal momento, enquanto atira para longe de si e entrega à transitoriedade tudo mais, como dejeto, podridão, vaidade, animalidade, ou como um pleonasmo.



É com insatisfação, frequentemente com surpresa, que vemos cada desaparecimento e cada declínio, como se presenciássemos, no fundo, algo impossível. Uma grande árvore cai, para nosso incômodo, e um desmoronamento na montanha nos perturba. 

Cada noite de ano novo nos faz sentir o mistério da contradição entre o ser e o devir. Mas o que faz o homem mortal sofrer com mais intensidade é o desaparecimento de um instante da mais alta perfeição universal, como que sem posteridade e sem herdeiros, como uma fagulha fugidia. Seu imperativo soa, muito mais, do seguinte modo: o que alguma vez existiu para perpetuar de modo mais belo o conceito de "homem" tem de estar eternamente presente.Que os grandes momentos formem uma corrente, que conectem a humanidade através de milênios, como cimos, que a grandeza de um tempo passado seja grande também para mim, e que a crença cheia de intuições realize a glória ambicionada, é esse o pensamento fundamental da cultura. 



Na exigência de que a grandeza deva ser eterna, incendeia-se a batalha terrível da cultura; pois tudo mais, tudo o que ainda vive grita "não!". Preenchendo todos os cantos do mundo, como um terreno pesado do ar que todos nós estamos condenados a respirar, o habitual, o pequeno, o comum fumegam em torno da grandeza e se lançam no caminho que essa tem de seguir para alcançar a imortalidade, obstruindo, sufocando, turvando, iludindo. O caminho segue através de cérebros humanos! Através dos cérebros de seres mesquinhos, de vida curta, quando esses, livres de determinadas carências, sempre retomam as mesmas necessidades e repelem com esforço, por tempo limitado, a degradação - a qualquer preço. Quem dentre eles, poderia ousar aquela difícil corrida com a tocha olímpica, pela qual só a grandeza sobrevive? E no entanto despertam sempre alguns que se sentem tão cheios de ânimo à vista de tal grandeza, como se a vida humana fosse uma coisa magnífica, e como se o fruto dessa planta amarga, necessariamente considerado o mais belo, fosse o saber de que, um dia, um homem orgulhoso e estoico atravessou essa existência, um outro com pensamentos profundos, um terceiro cheio de compaixão, e todos deixaram o ensinamento segundo o qual quem não presta atenção na existência é que a vive de modo mais belo. Enquanto o homem comum leva a sério, tão melancolicamente, essa tensão de ser, aqueles souberam dar uma risada olímpica de tal coisa, ou pelo menos tratá-la com um desdém sublime; e, com frequência, foi com ironia que desceram a seus túmulos - pois o que haveria neles para enterrar?



É no meio dos filósofos que se devem procurar os cavaleiros audazes entre aqueles que procuram a glória, os que acreditam encontrar seus brasões inscritos em uma constelação. Sua ação não se volta para um "público", para o alvoroço das massas e o aplauso aclamador dos contemporâneos; pertencem à sua essência os passos solitários pela estrada. Sua vocação é a mais rara e, considerando de certo modo, a mais anti-natural na natureza, com isso ela vai até mesmo contra as vocações semelhantes, de modo excludente e hostil. O muro de sua auto suficiência precisa ser de diamante, para não ser destruído nem invadido, pois tudo se movimenta contra ele, o homem e a natureza. Sua viagem para a imortalidade é mais penosa e mais acidentada do que qualquer outra, e contudo ninguém pode acreditar com mais segurança que chegará a sua meta do que o filósofo, porque ele não saberia onde deve ficar, se não fosse sobre as asas vastamente abertas de todos os tempos; pois a maneira da consideração filosófica consiste no desprezo pelo presente e pelo instantâneo. Ele tem a verdade; é possível que a roda do tempo role para onde quiser, ela nunca poderá escapar da verdade.



É importante saber que tais homens já viveram. Nunca se imaginaria, como uma possibilidade ociosa, o orgulho do sábio Heráclito, que pode ser o nosso exemplo. Em si, e pela sua própria essência, todo esforço pelo conhecimento parece insatisfeito e insatisfatório; por isso, se não for ensinado pela história, ninguém poderá acreditar em uma dignidade tão majestosa, em uma convicção tão ilimitada de ser o único contemplado portentor da verdade. Tais homens vivem em seu sistema solar próprio;é lá que se deve procurá-los. Também Pitágoras, Empédocles dedicaram a si mesmos uma estima sobre-humana, um temor quase religioso, mas o arco da compaixão, ligado à convicção na migração das almas e na unidade de todos os seres vivos, os conduziu de volta aos outros homens, para salvá-los. Porém, só nos cumes desertos e gelados é que se pode perceber algo do sentido de solidão que oprimia o eremita do templo efésio de Ártemis. Dele não emana nenhum sentimento prepotente de exaltação compassiva, nenhuma pretensão de querer ajudar ou salvar: é como um astro sem atmosfera. Flamejando ao dirigir-se para dentro, seu olho observa com vista apagada e glacial o que está fora, como se olhasse apenas para o brilho aparente. As ondas da ilusão e do absurdo vêm bater ao seu redor, diretamente na fortaleza de seu orgulho; desvia-se delas com asco. Mas também os homens de peito sensível se esquivam de tal máscara trágica; um ser como aquele pode parecer mais compreensível em uma sacralidade perdida, entre estátuas de deuses, ao lado de uma arquitetura grandiosa e fria. Entre homens, Heráclito era inacreditável como homem; e quando ele foi visto dando atenção ao jogo de crianças barulhentas, pensava ali algo que nenhum mortal havia pensado nas mesmas circunstâncias - o jogo de Zeus, dessa grande criança do mundo, e a brincadeira eterna de destruir e formar mundos. Ele não precisava dos homens, nem mesmo para seu conhecimento; não via nenhum valor em tudo o que se poderia aprender deles, e nem aquilo que os outros sábios antes dele estavam empenhados em aprender. "Procurei e investiguei a mim mesmo", disse ele com palavras pelas quais se indicava o investigar de um oráculo: como se fosse ele, e ninguém mais, quem na verdade cumpriu e realizou aquela frase délfica: "Conhece-te a ti mesmo".



Mas o que ele escutou nesse oráculo, tomou por uma sabedoria imortal, de eterno valor interpretativo, no sentido em que os discursos proféticos de Sibile são imortais. É o suficiente para a humanidade mais longínqua: tal sabedoria só pode se deixar interpretar como sentença de oráculo, como ele, como o próprio deus délfico "nem fala, nem esconde". Como ele pronuncia, "sem riso, sem adorno e incenso perfumado", muito mais "com boca transbordante", algo que deve atravessar os mil anos do futuro. Pois o mundo precisa eternamente da verdade, e, assim, precisa eternamente de Heráclito, embora ele não careça do mundo. O que lhe importa sua glória! "A glória no meio dos mortais que passam sem cessar!", como ele exclama desdenhosamente. Isso é algo para cantores e poetas, e também para aqueles que, antes dele, foram conhecidos como "homens sábios" - eles podem degustar o bocado mais saboroso de seu amor-próprio, para ele tal refeição era vulgar demais. Para os homens, era sua glória que importava, não ele; seu amor próprio era o amor pela verdade - e mesmo essa verdade lhe diz que a imortalidade do ser humano precisa dele, e não ele da imortalidade do homem Heráclito.



A verdade! Ilusão exaltada de um deus! O que importa aos homens a verdade!


E o que era a "verdade" heraclítica?!


E para onde ela foi? Um sonho que escapa, apagado das faces humanas com outros sonhos! - Não foi a primeira!


Talvez um demônio sem sentimentos não soubesse dizer, daquilo que nomeamos com as metáforas orgulhosas "história do mundo", "verdade" e "glória", nada além das seguintes palavras:



"Em algum canto perdido do universo que se expande no brilho de incontáveis sistemas solares surgiu, certa vez, um astro em que animais espertos inventaram o conhecimento. Esse foi o minuto mais arrogante e mais mentiroso da história do mundo, mas não passou de um minuto. Após uns poucos suspiros da natureza, o astro congelou e os animais espertos tiveram de morrer. Foi bem a tempo: pois, se eles vangloriavam-se por terem conhecido muito, concluiriam por fim, para sua grande decepção, que todos os seus conhecimentos eram falsos; morreram e renegaram, ao morrer, a verdade. Esse foi o modo de ser de tais animais desesperados que tinham inventado o conhecimento."



Seria esse o destino do homem, se ele fosse um animal que busca conhecer; a verdade o levaria ao desespero e ao aniquilamento, a verdade de estar eternamente condenado à inverdade. Ao homem, entretanto, convém a crença na verdade alcançável, na ilusão que se aproxima de modo confiável. Será que ele não vive propriamente por meio de um engano constante? Será que a natureza não lhe faz segredo de quase tudo, mesmo do que está mais próximo, por exemplo do seu próprio corpo, do qual só possui uma "consciência" fantasmagórica? Ele está aprisionado nessa consciência, e a natureza jogou fora a chave. Curiosidade fatídica dos filósofos, que possibilitou olhar para fora e para baixo, por uma fresta na cela da consciência: talvez o homem pressinta, então, que se apoia no ínfimo, no insaciável, no repugnante, no cruel, no mórbido, na indiferença de sua ignorância, agarrado a sonhos, como sobre o dorso de um tigre.




"Deixem-no agarrar-se", grita a arte. "Acordem-no", grita o filósofo, no pathos da verdade. Mas ele mesmo mergulha em um sono mágico ainda mais profundo, enquanto acredita estar sacudindo aquele que dorme - talvez sonhe então com "ideias" ou com a imortalidade. A arte é mais poderosa do que o conhecimento, pois é ela que quer a vida, e ele alcança apenas, como última meta, - o aniquilamento. - 




NIETZSCHE, Friedrich. Sobre o pathos da verdade. In: _______. Cinco prefácios para cinco livros não escritos. Tradução e prefácio de Pedro Süssekind. 4ª ed. Rio de Janeiro: 7letras, 2007, p. 23 - 30, grifos nossos.  





25 de abril de 2014

Nietzsche e seu universo dionisíaco.







E sabem bem vocês o que é “o mundo” para mim? Querem que eu o mostre para vocês no meu espelho? Este mundo: um monstro de força, sem começo nem fim; uma soma fixa de força, dura como o ferro, que não aumenta nem diminui, que não é consumida mas se transforma, cuja totalidade é uma grandeza invariável, uma economia em que não há gastos ou perdas, mas também sem acréscimo ou ganhos; encerrado no “nada” que é o seu limite, sem nada de flutuante, sem gasto, sem nada de infinitamente extenso, mas incrustado como uma forma definida num espaço definido e não num espaço que compreenderia o “vazio”; uma força em todo lugar presente, um mundo uno e múltiplo como um jogo de forças e de ondas de força, acumulando-se num ponto e diminuindo num outro; um mar de forças em tempestade e em fluxo perpétuo, eternamente em vias de mudar, eternamente em vias de refluir, com gigantescos anos de retorno regular, um fluxo e refluxo de suas formas, indo das mais simples às mais complexas, das mais calmas, mais fixas, mais frias às mais ardentes, às mais violentas, às mais contraditórias, para logo retornar da multiplicidade à simplicidade, do jogo dos contrastes à necessidade de harmonia, afirmando novamente o seu ser nesta regularidade de ciclos e anos, vangloriando-se na sacralidade do que deve eternamente retornar, como um devir que não conhece qualquer saciedade, nem desgosto, nem cansaço −: este é o meu universo dionisíaco que se cria e se destrói a si próprio eternamente, este mundo misterioso de voluptuosidades duplas; este é o meu para além do bem e do mal, sem finalidade, sem querer, a não ser que a felicidade de ter realizado o ciclo seja um fim, sem querer, a não ser que um anel tenha a boa vontade de retornar eternamente sobre si mesmo – querem vocês um nome para este universo? Uma solução para todos os seus enigmas?, uma luz mesmo para vocês, os mais tenebrosos, os mais secretos, os mais fortes, os mais intrépidos de todos os espíritos? Este mundo é o mundo da vontade de poder – e nada mais! E vocês mesmos, vocês também são esta vontade de poder – e nada mais!


NIETZSCHE, Friedrich. Escritos sobre história. Tradução, apresentação e notas de Noéli Correia de Melo Sobrinho. Rio de Janeiro: Loyola, 2005. p. 275 e 276.


Imagem do Universo como captada em infravermelho pela sonda Wife divulgada pela Nasa.
Brilhante ao centro, a via-Láctea.




18 de agosto de 2013

Nietzsche, sedento pela noite.









A noite chegou; agora todas as fontes falam mais alto. E a minha alma também é uma fonte. A noite chegou; somente agora todas as canções dos amantes acordam. E a minha alma, também, é canção de apaixonado. Eu sou a luz; ah, que noite fosse! Mas esta é a minha solidão, que estou cingido de luz. Ah! Que eu fosse sombrio e noturno! Como eu haveria de sugar os seios da noite! Os sós voam como uma tempestade nas suas órbitas: assim é o seu movimento. Eles seguem a sua vontade inexorável: isto é a sua frieza. Estou cercado de gelo, minha mão foi queimada pelo gelo. A noite chegou e, com ela, a sede pelo noturno! E pela solidão!

Nietzsche




7 de janeiro de 2013

Zaratustra: discurso I.



















Das três transformações.


Três transformações do espírito vos menciono: como o espírito se converte em camelo, e o camelo em leão, e, finalmente, o leão em criança.


Há muitas coisas pesadas para o espírito, para o espírito forte e de carga, respeitoso. A força desse espírito clama por coisas pesadas, e das mais pesadas.


O que há de pesado? – pergunta o espírito de carga. E ajoelha-se feito camelo e quer que o carreguem bem. O que há de mais pesado, heróis? – pergunta o espírito de carga – para que eu o deite sobre mim, e a minha força se recreie?


Não será rebaixarmo-nos para o nosso orgulho padecer? Deixar brilhar a nossa loucura para zombarmos da nossa sabedoria?


Ou será separarmo-nos da nossa causa quando ela festeja a sua vitória? Escalar altos montes para tentar o que nos tenta?


Ou será sustentarmo-nos com bolotas e erva do conhecimento e sofrer fome na alma por causa da verdade?


Ou será estarmos enfermos e despedir a consoladores e travar amizade com surdos, que nunca ouvem o que queremos?


Ou será nos afundar em água suja quando é a água da verdade, e não afastar de nós as frias rãs e os quentes sapos?


Ou será amar os que nos desprezam e estender a mão ao fantasma quando nos quer assustar?


O espírito de carga sobrecarrega-se de todas estas coisas pesadíssimas; e à semelhança do camelo que corre carregado pelo deserto, assim ele corre pelo seu deserto.


No deserto mais solitário, porém, se efetua a segunda transformação: o espírito torna-se leão, quer conquistar a liberdade e ser senhor no seu próprio deserto.


Procura então o seu último senhor, quer ser seu inimigo e de seu último deus; quer lutar pela vitória com o grande dragão.


Qual é o grande dragão a que o espírito já não quer chamar Deus, nem senhor?


‘Tu deves’, assim se chama o grande dragão; mas o espírito do leão diz: ‘Eu quero’.


O ‘tu deves’ está postado no seu caminho, como animal escamoso de áureo fulgor; e em cada uma das suas escamas brilha em douradas letras: ‘Tu deves!’




Valores milenários cintilam nessas escamas, e o mais poderoso de todos os dragões fala assim:
‘Todos os valores das coisas brilham em mim.

Todos os valores foram já criados, e eu sou todos os valores criados. Para o futuro não deve existir o ‘eu quero!’ Assim falou o dragão.


Meus irmãos, que falta faz o leão no espírito? Não será suficiente a besta de carga, que abdica e venera?


Criar valores novos é coisa que o leão ainda não pode; mas criar uma liberdade para a nova criação, isso pode o poder do leão.


Para criar a liberdade e um santo NÃO, mesmo perante o dever, para isso, meus irmãos, é preciso o leão.


Conquistar o direito de criar novos valores é a mais terrível apropriação aos olhos de um espírito de carga e respeitoso. Para ele isto é uma verdadeira rapina e próprio de um animal rapace.


Como o mais santo amou em seu tempo o ‘tu deves’, e agora tem de ver a ilusão e arbitrariedade até no mais santo, a fim de conquistar a liberdade à custa do seu amor. É preciso um leão para esse feito...

Dizei-me, porém, irmãos: que poderá a criança fazer que não haja podido fazer o leão? Para que será preciso que o altivo leão se converta em criança?

A criança é a inocência, e o esquecimento, um novo começar, um brinquedo, uma roda que gira por si mesma, um primeiro movimento, uma santa afirmação.

Sim; para o jogo da criação, meus irmãos, é necessário uma santa afirmação: o espírito quer agora a sua vontade, o que perdeu o mundo quer alcançar o seu mundo.

Três transformações do espírito eu vos mencionei: como o espírito se converteu em camelo, e o camelo em leão, e o leão, finalmente, em criança.”

Assim falou Zaratustra.



NIETZSCHE, Friedrich. Assim falou Zaratustra. Tradução Alex Marins. 9ª Ed. São Paulo: Martin Claret, 2012, p. 37, 38.