"Não sou um livro bem escrito; sou um homem, com as suas contradições." Conrad Ferdinand Meyer
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18 de janeiro de 2017
26 de dezembro de 2016
Dos ares da mudança.
É chegado o momento da
mudança. Podemos senti-lo de algum modo, como um leve formigamento de
esperanças já ao pé do ventre. Expectativas gerais. Turbilhão confusos de
inverdades já esporadicamente lançadas a esmo. Maldades latentes que se
deflagram de pessoas contra pessoas.
Em tudo o que se vê ou ouve, é necessário auscultar em si mesmo. Aquela voz sutil que ascende ao pensamento desprovida das exigências egocêntricas do rancor e da discórdia. A maldade ainda é uma questão de escolha. O mal é uma postura consciente e ardilosa.
Em tudo o que se vê ou ouve, é necessário auscultar em si mesmo. Aquela voz sutil que ascende ao pensamento desprovida das exigências egocêntricas do rancor e da discórdia. A maldade ainda é uma questão de escolha. O mal é uma postura consciente e ardilosa.
Agradeço às esferas que me
erguem como Sarça viva para mais um novo tempo de aprendizado. Agradeço a tudo
que aprendi, já obteve seus efeitos e reclama ser superado. Agradeço ao tempo
que me permite experimentar humanidade, com toda a sorte de emoções que a ela
se vincula e anima.
Diz o mestre, "Tudo o que é sensível sofre". E, desse modo, é mais que oportuno que eu venha também agradecer a meus contendores, sem qualquer exceção, por proporcionar-me circunstâncias de desenvolvimento.
Diz o mestre, "Tudo o que é sensível sofre". E, desse modo, é mais que oportuno que eu venha também agradecer a meus contendores, sem qualquer exceção, por proporcionar-me circunstâncias de desenvolvimento.
Enquanto estamos sendo
atacados, sentimo-nos à mercê das correntezas, atirados contra qualquer
direção, engolindo raízes e dejetos pelo caminho.
Hoje, há algo de diferente, que não se transfere e nem se permite apreender aos desavisados. Um domínio interior que sabe esperar o momento de tudo. Nada além do 'orare et laborare' promulgado por Calvino. Tudo simples e exequível.
Hoje, há algo de diferente, que não se transfere e nem se permite apreender aos desavisados. Um domínio interior que sabe esperar o momento de tudo. Nada além do 'orare et laborare' promulgado por Calvino. Tudo simples e exequível.
Aos desafetos à espreita,
aqui não levantaremos um dedo contra quem quer que seja. Por três razões muito
óbvias. A primeira, porque todo compromisso é íntimo. A segunda, porque cada um
só oferece o que possui. Por último, ninguém precisa auxiliar tolos a se
destruírem, porque alegremente eles cantam ao atirar-se no abismo. Aos que dormem, bons sonhos!
A Serpente Solar
A luz se esquiva no
horizonte permitindo à sombra celeste alargar-se sobre a terra. As visões de um
passado ermo avançam como corsas em disparada. Ouve-se o trepidar rasgando o
silêncio na noite túrgida.
Desperta a chama
solar como asas de condor. Irrompeu do caldo plúmbeo feito broto incandescente.
Coroada a Serpente inflamada, curvou-se o Cálice de Eva.
A fragilidade no poder.
Uma autoridade que necessita reclamar apreço e crédito perante os seus
assim considerados submissos, se ainda é autoridade, o é sob parâmetros
bastante frágeis. Uma autoridade que precisa lembrar a cada oportunidade que se
lhe apresente acerca da própria importância e que, com a mesma inclinação,
expõe argumentos cujos efeitos, longe de afinar os demais às suas opiniões,
apenas os ganha por bajulação, irreflexão ou receio, é uma autoridade
escamoteada.
3 de novembro de 2016
Os sonhos de Calete.
Distraída,
Calete desenha no ar símbolos aleatórios. Movimentava o braço com o indicador erguido sem se incomodar com
quem transitava pelas ruas. Parecia estar muito cedo para tratar de
responsabilidades. Parecia ter deixado todas as atividades por fazer, ou se
permitia antever que tudo seria feito em momento oportuno para ela.
Era
isso, então, o momento todo para ela! Não haveria a possibilidade de ajustá-lo
a nenhuma outra lembrança, nada, nenhuma atividade, apenas Calete e seus
desenhos no ar com movimentos soltos e giratórios. Letras? Números? Eram
borboletas invisíveis agitadoras de asas sob um sol que extasiava acima de seus
cachos? Andorinhas pousavam num jardim intumescido de flores?
Saltitava
nas pontas dos pés e parecia equilibrar-se com o auxílio das cordas invisíveis
de algum Saltimbanco, senhor de marionetes. Sob qual música dançava? Ninguém
escutava a melodia dos sonhos de Calete, entretanto se os murmúrios do vento
pudessem ser compreendidos dissertariam sobre os enlevos coloridos que
formigavam os pequenos pés, fazendo-os tamborilar pelas calçadas.
O
vestidinho drapeado de um vermelho encarnado lhe dava um aspecto de rosa em
botão. Quantas expectativas poder-se-ão nutrir com rabiscos e chuva de
bolinhas? Quantas lições de amor a penitenciarão pela estrada de ladrilhos
dourados como a aurora? Quantas pedrinhas haverão de ser depositadas na
sacolinha de futilidades aparentemente inúteis?
De
uma concha cava-se a terra e são necessárias duas mãos para erguer uma ponte.
Por essa ponte, palitinhos são espetados aqui e acolá e, de brotinho em
brotinho, uma floresta é erguida ao fundo. Buziosinhos redondos, cuidadosamente
enfileirados, trafegam por estradas escavadas com pedaços de telhas. E pinhos
secos fixados em montinhos de areia viram casebres de dormir para moradores
imaginários.
Calete,
onde guardarás os teus sonhos de candura? Nas pontas dos dedos que agora
levitam no ar? Farás das nuvens um repouso tranquilo para os teus desejos?
26 de outubro de 2016
O sorriso de Luíza.
Circulava pelas ruas da
cidade a empurrar a carrocinha. Roupa colorida, estampava flores miúdas no
corpo largo. Não negava o sorriso a quem lhe cumprimentasse. E seguia
recolhendo o que as famílias por consumo descartavam no lixo.
Os olhos seletivos
miravam longe. As mãos ágeis retiravam dos sacos depositados pela calçada toda
a sorte de garrafas que atirava distraidamente para o interior do carrinho. Seu
nome, Luíza. A vida parecia luzir quando Luíza passava com a sua carrocinha a
ranger sem pressa.
Com o dia ensolarado
e quente, desde cedo, não é de espantar que Luíza fosse mulher de erguer-se às
cinco da matina. Ajeitava-se numa cadeirinha de nylon trançado onde se punha em
estado de oração de salmos. Folheava as paginazinhas amareladas de um pequeno
exemplar do livro sagrado com a delicadeza das pontas dos dedos para escolher o
poema do dia.
Pedia pelos filhos já
espalhados no mundo. Todo mundo longe, bateram asas. Pedia pelos filhos dos
filhos, meninada saudável e agitada. Contava já um bisnetinho, da neta mais
velha, a de vinte e três anos. Terminava o curso de enfermagem e prometia
casamento com um rapaz de bem, também trabalhador. Pedia por essa, pela família
que se anunciava...
Erguia-se prazerosa
de agradecimentos por mais um dia de lida. Preparava o café, cujo aroma espalhava
rapidamente por toda a casa de apenas três cômodos. O cheiro já escapava pela
área dos fundos. Sorvia a bebida com paciência. Mas o dia sempre esticava
rápido e, quando menos se espera, a hora alta reclama pressa.
Varria a área.
Recolhia as folhas secas da goiabeira. Alimentava os passarinhos engaiolados embaixo
da cobertura. Encharcava os panos na lavanderia, torcia-os com o peso do corpo
e já se encaminhava para o varal para estendê-los. Enxugava os braços na barra
da saia e se punha a sorver outro menorzinho, dessa vez acompanhado de bolachas
de goma.
A carrocinha esperava
atada ao muro do lado de fora. Dormia assim mesmo, ao relento. Ninguém mexia.
Todo mundo conhecido. “Tudo gente da gente”, dizia. Rumava para as ruas do
centro com a sua carrocinha. E o dia quente se alargava junto ao sorriso largo
e generoso de Luíza.
11 de setembro de 2016
Como as aves.
Apenas um segundo para ir ou ficar. Você tende ao desânimo, mas agora o tempo não pendulará para remanescer algo inocorrido. Nada postergará o quedar das areias que lhe escorrem das mãos nuas. E tudo lhe falará em sussurro se estiver quieto o suficiente.
"Perdoe minhas faltas." - meus espinhos cantam em vão. E, ao cantar, desperdiçam dias vindouros. Esqueça o estado de repúdio e aceite as pequenas quimeras. Erga-se e floresça! Por esta vida, passamos como aves.
4 de julho de 2016
15 de fevereiro de 2016
Litorais de Albedo.
Flutuava em anéis de espuma. E um sorriso migrava entre a força
das águas e a ardência nos olhos. Aquela repulsa do sal, incomodava a abertura
dos olhos e lhe temperava a pele.
Dourada era a sua sorte. Toda chamuscada de sol e de vento, era
feita da mesma substância com que a natureza trabalhava os leoninos, os
guepardos, os linces. Toda romanceira com aquele mesmo frescor dos peixes e das
enguias. Cadência de ondas perfeitas
ainda na sobriedade da infância como em manhãs de primavera.
Os cachos dos cabelos pairavam na água inquieta. Quão juvenis
brincavam no clarão já ameno do dia que não se quer ir! Que quer junto às
andorinhas, um repouso nos mansos olhos. Uma teimosia!
Ah! Este clarão de céu e mar que se confunde no horizonte... Esta
linha imaginária que se deita preguiçosa para espalhar as virtudes do espaço! Tudo
intocável como sempre fora, não fossem os anúncios da civilização causados
pelas palavras e pelos gritinhos agudos – não há quem interrompa nem mesure!
O tempo, o clarão e o mar tal como quando se banhavam as Musas
que ascendiam do Hélicon para encontrar a leveza das águas condensadas. Tal
como testemunharam os guardiões de um céu antigo, como se rebentassem um cem número
de Netunos, serpenteando dos abismos liquefeitos e indo atirar-se contra os quebra-mares.
Pisem aqui por estas terras as Vestais dos Templos de Anúbis! Que
dancem ao som de hidraulos e tambores! Que agitem os braços com a saudação tempestiva
de algum oráculo! Tragam rente à cintura, depositada em moringas de argila, a
revelação do nome inaudível para desfolhá-lo no silêncio das almas.
Tudo encontra o vitral dos sorrisos da menina. Desde a cândida
formosura de seus olhos apertados pelo salitre até a energia viçosa dos movimentos
de infância, pululantes como bolhas, valseando por entre os anéis das ondas,
deixando-se empurrar e sentindo arrastar as areias que lhe apóiam a miseração
dos pés.
Todo o tempo é luz indivisa. Não há rastro de dúvida, nem o medo
queimou de sordidez insensata os reflexos de um paraíso que somente existe por
se fazer inefável, pois que se perde no instante mesmo de sua natividade.
Nossa pretensão pelo eterno insulta o instante de indelével
candura. Nossa insubmissão ao instante nos remete aos vergalhões de um inferno
exultado por nunca ter sido alcançado. Nossa fuga, nosso desamor nos atira ao
negrume de algo nunca vivido, porque nunca percebido com a particular evocação.
Pois tudo me escapa, tudo me foge como esta areia cantante que
sob os meus pés aceita ser desfigurada. Tudo se inclina a si mesmo, tudo se
retira de si mesmo e retorna a si do mesmo modo com que um dia se permitiu ir.
E estas lágrimas se vão agora como num escape de emoções
desarmadas. Juntas haverão de encontrar o vitral dos sorrisos que alimentam as
flores deslizantes na praia.
Como aquelas conchas que, dissipadas de vida,
deixaram suas pobres marcas na areia. Sim! Haverão de encontrar a areia cantante,
nunca antes assim compreendida.
Porque sempre cantara de oceano em oceano e por séculos não
houve quem a escutasse. Cantou por séculos pelos oceanos, dançara a valsa
enviesada das ondas e sequer alguém havia perseguido o seu rastro.
12 de fevereiro de 2016
Trav. Nigredo.
![]() |
| Erínias, pintura de Adolphe Bouguereau. |
Estava paralisada pelo medo. Os olhos pareciam tatear a rua em
busca de algum rosto conhecido. As moradias escassamente gradeadas tinham por
sentinelas árvores centenárias com troncos retorcidos, gravemente atadas ao
chão por raízes que emergiam nodosas. Apesar da luz frouxa, notou dos muros o
desgaste sofrido pela ação do tempo, num lugar onde não havia pausa para
reparos.
Uma mulher acalenta o filho no colo, indiferente. Tem o olhar
gélido de quem denuncia que, por ali, forasteiros não são bem recebidos. Um
homem enxuga o rosto e arqueia o supercílio. Outro olha por sobre os ombros, taco
na mão, enquanto se move em direção a uma mesa de sinuca. Num pouco de tudo, a
noite guardava um indicativo de dúvida.
As vozes abafadas exasperam uma hostilidade inevidente. A
despeito disso, ela corre pela rua a gritar pelo nome da criança. A infante não
responde. Porventura não a escutava? Ninguém sequer parecia se importar com as
preocupações que lhe dissolviam os olhos em lágrimas correntes. A boca seca em
desespero, perguntava a si mesma, “Mas como ninguém pode tê-la visto? Como pode
ter sumido sem que ninguém a visse?”
Queria estar em casa. Havia algumas casas de pernoite para
viajantes exaustos. Porém, aflitos não conhecem repouso. Agonia e transtorno
por seus medos a tornavam ainda mais abatida. Estava entregue a um repositório
de maus presságios, pensamentos em turbilhão, desenfreados. O peito incontido
enchia-se de ar a reverberar pelo nome mágico, cálice onde descansavam emoções
matutinas.
Eis que a criança aparece confusa. A aparente calma deu lugar a
um choro copioso. “Mãe, me leva embora daqui! Quero ir para casa!” “O que lhe
fizeram?” Não soube responder à interpelação materna. Ou não compreendia a
extensão de tudo que lhe havia ocorrido...
A fúria abateu a face terna. Aquelas impressões femininas,
delicadas, cediam lugar a uma notação de ferocidade desoladora. Era possível
reconhecê-la nas meninas-serpente, as Três, geradas pelas gotas rubras da
vergonha de Urano no leito de Gaia. As vestais do abismo, diante das quais a
consciência se retrai à procura insubmissa por velar seus detratores. Um animal
acuado que pretende ferir se não lhe permitem um nobre refúgio.
Via acima, e após quatro casas de onde elas estavam, dois
cavalos descansavam mansamente sob a luz de uma candeia dourada dependurada num
mourão. Tomou a menina em seus braços e avançou na direção dos corcéis. Ao aproximar-se
deles pode ver que eram um negro e um azufrado. Colheu as rédeas do corcel
negro e se atirou em seu lombo. Subtraiu a lamparina e lha deu para a menina,
pousada à sua frente. “Tome! Segure-a!” – ordenou.
Golpeou o flanco do animal, dando início à partida. O cavalo
estocava o chão em galope com maestria. Tudo era escuridão. Não se podia ver todo
o curso do caminho, nem a paisagem às margens. Apenas cerca de um metro se
revelava em torno delas.
A determinação em rumar dali, a perspectiva em voltar para casa,
era o que se podia mesurar naquele instante. A matriarca ainda não podia
saber, não houve modo de ver o que se fazia impresso na base do bojo dourado
da lanterna. Em letras miúdas, cuidadosamente talhadas, havia um letreiro
no qual se podia ler “O décimo será sagrado”.
26 de janeiro de 2016
Recordações oníricas.
Folheando uma velha agenda encontro
um enunciado apresentado por ocasião de um sonho. Apesar de a reprodução não
ser exata, o conteúdo e a estrutura ficaram bastante próximos. A questão é que
ao acordar demorei de proceder à anotação. Assim foi transcrito:
Alma do Homem
Que transpõe o tempo
Oferece a sombra
Tornando-o cativo.
Meus sonhos são voláteis. Sinto
enorme dificuldade em lembrá-los. Tais recordações são um rosto,
um gesto, um símbolo, historietas sem começo, nem fim.
O refrão do menino no balanço a
cantar ritmicamente “chaca wacca, chaca wacca”, com um acompanhamento grave ao
fundo. O anel de ônix negro, cuja proximidade parece a pupila dilatada de um
gato. A fuga em voo entre grandes paredões de pedras na noite
quieta. O retrato na moldura antiga de prata posto numa modesta mesinha de
ébano encostada numa parede.
Há vezes nas quais me lembro de ver
trechos belíssimos, cuja recordação literal me escapa.
Certa feita li um manuscrito inteiro.
Presente ainda aquela sensação de profunda admiração e felicidade genuína com o
texto em mãos. Devolvi-o à pessoa que ao meu lado aguardava em silêncio. É
provável tratar-se do autor. Mas não me recordo de sua figura. Apenas sei que
sorria.
Em contrapartida, há momentos nos
quais adormeço mesmo acordada. Várias frases irrompem de algum ponto obscuro e
saltam cadenciosas à minha razão. E sou arrebatada pelas emoções por elas
provocadas.
Impossível domá-las ao ritmo de um
lápis. E nem sempre estou disposta a escrevê-las. Ou são elas que se põem em
fuga à sombra do arreio, ou sou eu quem me perco delas e as disperso com a
lentidão da linguagem. São versos ferozes. Resta-me apenas o olhar vago,
marejado pela beleza da experiência apartada de qualquer expectativa.
14 de janeiro de 2016
Fé temerária, razão subtraída.
![]() |
| Touro, pintura de Johfra Bosschart. |
Não
vejo mal no exercício da liberdade altruísta. Por que temos que compreender a
deidade como uma força impositiva? Por que não podemos exercer nossas ações e
nossas vontades, considerando que delas resultam a satisfação nossa ou de
muitas pessoas, sem que disso nos tornemos temerosos?
Não
considero o temor a Deus uma virtude. É antes uma debilidade humana, não uma
virtude. Por isso, sinto proximidade com a inquietude e a
angústia que movimentaram muitos pensadores. Em alguns momentos, é a
sensibilidade que me encanta; em outros, o próprio exercício literário é o que
me agrada.
A
argúcia de Schopenhauer. O destemor e a sensibilidade de Nietzsche. A soberba
vocação para a inquietude de Unamuno. A clareza de Einstein cujos argumentos expõe
para defender uma compreensão evolutiva da deidade.
Por
que uma postura destemida deve ser considerada maligna? A inclinação dessas questões não satisfaz um
entendimento parcimonioso. Quando o exercício da cética como atitude
elaboradora das convicções foi compreendida como instrumento do maligno? As
indagações não são o ponto de partida na construção do conhecimento humano?
Percebo
que, para a abastada maioria, o divino funciona como uma bengala, sem a qual
não se pode suportar o peso de si mesmo. Mal e bem se equivalem na manipulação
de elementos sagrados e elaboração de uma normatividade ritualística,
impositiva para a conduta humana, voltadas à consecução de fins predeterminados.
E é aqui o ponto no qual se distanciam, o direcionamento dos fins pretendidos.
Mas ponhamos
desde logo o mal em evidência, em toda a sua diversidade: cada qual nele
reconhecerá o que lhe diz respeito pessoalmente. Ao mesmo tempo, dar-te-ás
conta de tudo quanto tens menos a sofrer deste descontentamento de ti, do que
aqueles que, estando ligados por uma profissão de fé faustosa e ornando com um
nome pomposo a miséria que os consome, teimam no papel que escolheram, menos
por convicção que por questão de honra.
Sêneca,
em resposta às inquietações de Sereno, “Da tranquilidade da alma”.
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