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14 de janeiro de 2016

Um instante de asco, por favor!




Há vezes em que a comunicabilidade humana me enoja. O excesso de trá-lá-lá me perturba. Basta que se ligue a televisão, ou mesmo o rádio, para que o incontido palavratório angustie e nos distancie de qualquer atividade em andamento.


Assalta-me um desejo secreto de ser surda – não muda, obviamente, apenas surda por mero oportunismo. Ah, se a surdez fosse um dom! Eu a apanharia com um regalo nada modesto. Sim! E me livraria dessas vozes perturbadoras, excedentes em frivolidade, línguas saltitantes em verborréia ou débil ou insana!



A escrita é, de outra sorte, mais delicada e engenhosa. Finesse cuja atenção não submete o pensamento. Respeita em tudo a liberdade. É versátil ao manejo e emana vida a cada leitura que se lhe ofereça. Eu a amo e em sua vereda me arrimo!



27 de junho de 2015

O Estado somos nós, enquanto a porca torce o rabo.





A questão da prisão, pura e simplesmente, não resolve. Constituímo-nos numa sociedade cínica, julgando sempre que o problema não é nosso. Que acontece com os outros e os nossos estão imunes, como se os demais fossem menos humanos. Estamos diante de um problema crônico de nivelamento e mau caratismo, iniciado no âmago das famílias e daí eclode para a vida social.


Concordo com a redução da maioridade penal, sem a hipocrisia moralista de que pode liberar o jovem porque é tudo culpa do Estado. Ora, o Estado somos nós. Quando assumiremos nossa responsabilidade definitiva quanto à educação humana das crianças e dos jovens? Esta cultura está acostumada a transferir responsabilidades. Está arraigado no nosso cotidiano a crença cínica por milagres, quando a maioria assustadora de nossos problemas é por conta da cegueira no exercício da fé, assim entendida como aquela desprovida de um mínimo de coerência e bom senso.


Além disso, há disposição de sobra em crer em discursos construídos para enganar multidões de ovelhas mansas. Nós damos muito crédito a quem se profissionaliza no estelionato moral por meio da palavra e engana descaradamente não uma meia dúzia, mas uma comunidade inteira. Depois, vem outros estelionatários da palavra forjar soluções ultrapassadas para conter e minimizar as ocorrências contemporâneas. E tudo porque não assumimos o erro da crença cega, imprudente e irresponsável, porque não assumimos a responsabilidade e as consequências de mudar nossas escolhas, nossas rotinas, nosso consumo...


Não falo somente de religião, que revela apenas parte do sintoma. Falo de algo mais amplo. Falo de assumir um modo de viver mais comprometido, responsável e coerente. Mais humano e ao mesmo tempo independente. No momento em que estamos cientes de nossas próprias responsabilidades e não tomamos a via tangente, aprendemos a exigir a responsabilidade alheia e podemos cobrar até de nossas crianças que tenham uma postura diferenciada nesta sociedade de imbecis extravagantes e mimados.


E assim não teremos peninha dos jovens, mas saberemos decifrar que por trás de toda conduta há o seu quinhão de compromisso e retorno. Não é a pura e simples reprimenda que vai mudar as coisas. Não estamos no terreno dos milagres. É a educação, e não estou falando de escolas. E, novamente as criancinhas grandes (adultos ingênuos), no seu exercício de esquerdismo piedoso vem propalar que a culpa é do Estado, porque não se investe em educação de qualidade. Verborreia já consolidada em qualquer debate. Ora, novamente a cobra morde a cauda e o ciclo se fecha: o Estado somos nós.


O descomprometimento é geral e abstrato. O pai não quer saber, porque o problema da criança é com a mãe. A mãe quer ser independente e moderninha e terceiriza a educação do filho. O filho engole o que o professor arrota e depois aprende a metodologia bestial dos monitores de banca - não é justo chamá-los professores. A mãe, muito ocupada consigo mesma, não quer saber quem respondeu a atividade da criança. Do pai, sabe-se que ainda vive, porque aparece no cenário quando a bomba explode.


E se a escola for pública, talvez nem o professor tenha interesse real pela questão, e se limita em culpar o poder público que paga mal e não valoriza o trabalho docente. O diretor ignora que o professor tenha talvez escassa assiduidade. Se o professor for questionado pode acusar a direção de perseguição e lá vem os sindicatos motivados pelo princípio corporativista, que em sua origem, aliás, remonta à Itália facista.


Mas a direção também tem o rabo preso, porque seu cargo é indicação política da gestão atuante. Bater de frente com os professores gera um desconforto que põe em cheque a sua legitimidade ao cargo, haja vista serem os professores aprovados em concurso de provas e títulos, garantindo-lhes a idoneidade moral que a direção não tem.


E depois é a criança ou o adolescente que fica sem aula. Os pais ausentes reclamam que é tudo um absurdo. Os professores se esteiam nos sindicatos, estes culpam os governos. Por seu turno, todos os governos fazem linha dura, alegando os usuais parcos recursos que não são tão parcos quando o assunto da pauta é reajuste de salário para os agentes dos Poderes Republicanos.


O governo aperta as direções das escolas. Vão cortar o ponto, sob pressão. Professor faz manifestação, é arruaceiro. Governo manda ordem de descer a taca na docência. A Polícia fardada vai com sede para fazer a missão, afinal, pai de família não tem cara e na próxima leva de grevistas com certeza será a Segurança Pública a deixar todos na mão. E, novamente, as crianças e os jovens estarão em casa com as aulas suspensas.


O ciclo continua indefinidamente. A educação não é tratada como questão de família; as manifestações não são compreendidas como um cenário saudável de uma democracia participativa; o corporativismo dos sindicatos é politicamente oportunista; do Executivo sabe-se ser presunçoso e arrogante, indiferentemente quanto à origem partidária alegada. 


Do suplício eleitoral fica entendido que somos os números de uma diferença cada vez mais apertada. Vem os pesquisadores da UNB e prova por A mais B que a urna eletrônica é completamente vulnerável. E todos de pés juntinhos asseveramos ser pessoas de bem e como pessoas de bem que somos, democraticamente amadurecidas, ainda temos que fazer cara de paisagem quando emergem à superfície os pseudo revolucionários de ocasião tentando liberar, pelos poros da democracia (!), os fantasmas de um passado mais do que exorcizado.


Se não formos por nós, quem será?

















16 de novembro de 2014

Queremos o necessário!






O petismo está levando o país à desforra moral. 
Desacreditamos e somos desacreditados.

Se a oposição se resumisse à tucanada, menos mal seria. Mas a antipatia advém de todos os lados contra a petulância, contra a arrogância de quem se advoga defensor do povo, mas lhe retira o mínimo de sua suada dignidade: o pão da mesa e o valor do trabalho.

É notório que nos primeiros anos do plano real tivemos um tempo de tranquilidade que tornou possível o consumerismo que mais tarde orgulhara o sr. Luís Inácio. Com o consumo em queda, com a economia estagnada, com a educação arrastando-se para não envergar os números desejáveis pelas entidades internacionais, com a saúde pública em estado de apneia, com o orçamento doméstico se contorcendo até não poder mais pelo aumento no preço dos produtos mais básicos, o que querem fazer crer a trupe da esperança?


Ora, a minha de há muito anda desfalecida. Eu vejo burguesinhos e burguesinhas babando seus sonhos de revolução socialista, metidos como um pau morto em velhas teorias que jamais se concretizarão.

O nosso possível, o nosso desejável e o nosso necessário é o mínimo de vida digna, é a subsistência digna, com possibilidade de trabalho a todo aquele que tem força laboral e isso o petismo não permitiu. Seu compromisso é o poder como fim.







14 de novembro de 2014

Para onde foram os dilmistas?







Gostaria de entender porque os dilmistas e os arvorados petistas, após a eleição concluída, se encolhem e não se manifestam. É esse o eleitorado que defende um projeto, ou propósito, ou paradigma, ou mesmo um sonho de socialismo inconsistente? Qual é a cara do eleitorado dilmista? Por que nada têm a dizer? Em qual buraco enterraram seus discursos, suas nostalgias de infância e suas esperanças? Enquanto todos estão inquietos com o descaminho da economia e o despautério das perseguições políticas, porque envergam o pescoço e metem suas cabeças em negras fossas?



24 de outubro de 2014

As salutares medidas da política.








É falso o discurso político que teima em reforçar a sua sobrevivência no poder, mediante o argumento de que defende o interesse da coletividade por meio das políticas sociais que administra. Ora, é a própria República quem pretende a defesa dos interesses todos, os individuais, os coletivos, os difusos e os meta-individuais, também chamados individuais homogêneos. E assim faz com o reforço garantista trazido pelos instrumentos constitucionais de defesa de direitos e pelo cabedal de normas que constituem o sistema legal do país.

Da mesma forma, é leviano difundir que a defesa dos interesses populares é obra de um só partido, de uma só aliança, de um só agrupamento político. Se a nossa República se assenta na defesa dos interesses coletivos e sociais, se é a nossa República quem tem por pauta o equilíbrio dos interesses econômicos com as necessidades sociais, todos os grupos políticos que estiverem à frente do executivo e do legislativo nacional deverão observar tais prioridades.

E fica escandaloso quando o discurso aposta na fórmula direita-elite riquinha versus esquerda-ralé pobrinha, regurgitando a velha e superada lição chomskyana. Já era o tempo em que se pensava política como um disco de vinil, lado A, lado B. Fico triste de ver que alguns eleitores autoproclamados de esquerda ainda não amadureceram seus discursos. Nossos eleitos há muito já o fizeram, e de uma forma que chegou ao que considerávamos ser improvável.

Rubem Alves conta sobre uma frase deixada num muro branco da Universidade do Porto, em Portugal: “Queremos mentiras novas!”. Embora soe pessimista, há um momento no qual não podemos negligenciar a necessidade por algo novo, mudar de estação de rádio, de leituras, de cidade, de caminho para casa, algo para dar-nos a sensação da novidade luzindo esperança à nossa frente.

Nem que seja por mera sensação. Sob o ponto de vista político, esta frase derruba aquela prática enfadonha de atingir o opositor com uma parafernália de acusações feitas a esmo e irresponsavelmente. É como se eu me dispusesse a manchar os pratos de outrem, já que os meus estão quebrados...

Também se volta contra aquele discurso coronelista, no qual o administrador público se entende dono do projeto, dono da proposta, dono do número, dono da verba, especialmente, dono do eleitorado. De forma arrogante, vai construindo uma teia de falácias e inverdades que atira contra o eleitor, submetendo a sua inteligência. Atualiza todo o projeto que não cumpriu em mais de uma década de governabilidade. E Rubem justifica: “Mentiras velhas são um desrespeito à inteligência daqueles a quem são dirigidas. Que mintam, mas que respeitem a minha inteligência! Mintam usando a imaginação!”

No livro “Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política”, traduzido por Marco Aurélio Nogueira e editado pela UNESP, Norberto Bobbio ressalva que a dicotomia direita e esquerda é algo que só se apresenta para ratificar o mundo conflitivo da política. Entre as inúmeras teorias por ele reunidas, há uma que considero plausível como diferenciador entre direita e esquerda: está no grau de ingerência que o Estado exerce na vida do indivíduo e no uso da propriedade privada. Nesse aspecto, o Estado considerado de direita é um Estado marcado pela liberdade no uso da propriedade. Não a liberdade ilimitada, que essa é anárquica e irresponsável, mas uma liberdade dentro dos parâmetros ou moldes admitidos pelo próprio Estado como favoráveis ao crescimento econômico, sem constranger a dignidade dos cidadãos.

Um Estado liberal é um Estado que exerce o seu papel regulador e fiscalizador, deixando a propriedade privada a encargo dos particulares, também cidadãos. Regulador porque cria diretrizes e busca delimitar o exercício particular da propriedade; fiscalizador porque se faz presente para garantir que as regras sejam obedecidas. O controle é mínimo, mas permanece. O cidadão exerce liberdade, desde que não ofenda nem os princípios, nem as leis, nem os usos e os bons costumes.

Já o Estado governado por um grupo considerado de esquerda, é um Estado interventor na economia, centralizador nas decisões e que costuma ingerir-se contra a esfera de liberdade do cidadão, se for do interesse de seus governantes. Para o Estado inspirado na ideologia de esquerda, o indivíduo deve abdicar de sua liberdade em razão da coletividade. O cidadão é entendido como ser coletivo e, em razão disso, sua individualidade deve ser mínima.

O cidadão, na maioria das vezes, é surpreendido. Porque consultá-lo seria desastroso, seria abrir um debate extensivo e de efeitos inalcançáveis. O Estado de esquerda é um Estado controlador e centralizador. Dos modos mais eficientes que um Estado assim considerado pode chegar à esfera do cidadão é restringir as informações que chegam até ele, além de tolher a liberdade de protesto. São as experiências de Cuba, China e Venezuela, por exemplo.

Da forma como conhecemos a democracia, assecuratória do direito de ir, vir e permanecer, de escolha para concordar ou discordar, como também para abster-se etc, creio não ser possível sustentá-la tendo por base um Estado com programação de esquerda. Por isso, os partidos extremistas até hoje não se cansam em acusar o PT de traidor de sua proposta ideológica. Porque o PT não visou promover revolução alguma. E nem o fará, para contragosto de muitos dos seus correligionários − e tranquilidade nossa!

Vez ou outra, no entanto, o Estado petista vislumbra a aspiração esquerdista de restringir a imprensa, notadamente quando seu grupo se vê embaraçado. Na impossibilidade de realizar um programa de censura eficiente, seja porque ainda tem pudores, seja porque o brasileiro tem assumido seu gosto preferencial pelos prazeres oferecidos pelas tecnologias midiáticas e de comunicação livre, propala acusações contra a imprensa do país, embora sem o cuidado de fundamentá-las. Alega o ardil de conspiração midiática à ingerência do patrono imperialista, os EUA.

A democracia é como uma moça arguta e pródiga de curvas, que por onde passa, desdenha os imbecis com seus flertes vulgares. Os presunçosos a chamam, mas ela não se volta. Sabe o que lhe é essencial, sua liberdade é seguir em frente. No meio do empurra-empurra, a senil dicotomia construiu um proveitoso ambiente para os moderados, como bem observa Bobbio:

“Já tive a oportunidade de observar, e repito-o agora, que as duas partes contrapostas do inteiro, segundo sejam contraditórias ou contrárias, excluem e incluem um terceiro. No universo político existem situações nas quais direita e esquerda tendem a excluir um centro, e outras nas quais o incluem. A distinção entre dois pólos, direita e esquerda, corresponde tanto mais ao real estado das coisas (...) QUANTO MAIS UM SISTEMA POLÍTICO ACEITA COMO REGRA FUNDAMENTAL DO JOGO A ALTERNÂNCIA ENTRE UM E OUTRO PÓLO, COMO OCORRE NUM SISTEMA POLÍTICO DEMOCRÁTICO IDEALMENTE PERFEITO. (grifo nosso)

As diretrizes que permeiam o arcabouço legal do país receberam inspiração tanto da ideologia liberal, quanto estão comprometidas com as demandas de caráter social. Por conseguinte, somos regidos por ambos os pólos, nossa constituição crê perseguir a harmonia entre o Estado liberal e as bandeiras sociais. São muitas as iniciativas nesse sentido. Apenas para elencar as que considero mais importantes, estão as ações afirmativas de direitos, criadas para diminuir as distâncias entre os que eram contemplados em dignidade e os que eram carentes dela, assegurando o princípio da igualdade entre todos de forma material, alcançando a igualdade em sua substância. Estatutos foram aprovados e publicados na década de 90, a saber o da Criança e do Adolescente, o do Consumidor, o da Micro e Pequena Empresa, tendo por mister a proteção de direitos difusos e coletivos. Aliando-se a estes, o do Idoso em 2003.

A democracia, com seus moldes sociais, tal como a conhecemos hoje, não é obra do petismo. Ela tem sido construída e aprimorada pelas instituições de defesa dos cidadãos e pela ação das agências reguladoras desde o final do século passado. A eleição do PT em 2006 como contraproposta aos governos tucanos teve sua importância, notadamente para frear o motor neoliberal, conquanto os figurões do grupo já encerram estigmas cansativos. A alternância do poder é sempre um artifício necessário para o aperfeiçoamento da nossa democracia.

Mas seja lá qual for a sua escolha, entenda que o seu governante não possuirá o país como a um feudo para fazer o que bem lhe aprouver. Vote com a consciência de que o governante eleito estará ANCORADO num mar de regras que deverá obedecer e fará cumprir as lícitas exigências. Não eternize o discurso que legitima a corrupção como algo incutido no sistema político, algo com que não se possa resistir, porque se assim o fizer você será apenas mais um e estará entre os corruptores. Esteja livre de amarras!




REFERÊNCIAS:
ALVES, Rubem. Ostra feliz não faz pérola. 2 ed. São Paulo: Planeta, 2014, p. 17.

BOBBIO, Norberto. Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política. 2ª ed. rev. e ampl. Tradução Marco Aurélio Nogueira. São Paulo: Editora UNESP, 2001, p. 11 e 12. Do original italiano Destra e sinistra: ragioni e significatidi uma distinzione politica, 1909.









10 de outubro de 2014

Anulação de votos: uma cidadania abstêmia.




By Kosmur  



Eu não entendo, por mais boa vontade que tenha, a manifestação de quem vai às urnas com o fim de anular o próprio voto. Como um cidadão pode deixar indefinida sua manifestação, enquanto permite que outros decidam em seu lugar. Parece que o indivíduo escolhe para si uma espécie de enclausuramento político, no qual encerra sua individualidade, prostrando a construção coletiva da cidadania.


Um projeto de democracia é uma construção comunitária, não-individualizada. A manifestação individual é a ação encadeada tendo por fim a comunidade. Por isso, não está isolada, é a substância de que se alimenta todo o mecanismo político de representação popular.


A levar-se em conta o descrédito moral como reação natural das demandas jurídicas relativas às acusações e condenações de corrupção no país, ainda assim, não creio que a abstenção, embora um direito, seja manifestação de cidadania.


Cidadania é participação positiva. É um dever de agir; a abstenção é uma pronta negativa ao dever de agir em prol da coletividade, é um ausentar-se do compromisso coletivo. A abstenção frente às urnas, ressalvados os casos de impossibilidade física e psíquica de manifestação política do votante, é inadequada ao exercício de responsabilidade política e de civismo.


By  Kosmur
E fico como que boiando na tentativa de investigar onde se pode mesurar a cidadania de quem a faz por mero desperdício. De que serve para mim, para ti, para nós, uma manifestação inexpressiva, uma expressão imanifesta? Ratifica o grupo da situação mantendo-os como aí estão? É um protesto de oposição à forma republicana de organização política e, assim, um conclame à nova constituinte? É um contraponto ao Estado Nacional, um convite à anarquia?...


No pleito, a expressão da minha cidadania pelo voto é, a um só tempo, direito, poder e dever. Direito, porque subjetivo, intangível e intransferível; poder, uma vez que somos os mandatários do exercício político de outrem; e um dever, haja vista ser uma obrigação que tange à consecução dos destinos de uma sociedade inteira, donde se insere aí o princípio da solidariedade social.


Será que os (mal)ditos cidadãos possuem consciência de que sua inexpressiva forma de agir é uma condescendência quanto ao que pretende protestar? Ou que sua tosca manifestação lhes retira da fisiologia deste macro-organismo político? Aliás, se por livre escolha me ausento do meu direito-poder-dever de manifestar-me no processo político, igualmente não me destino a reclamar quanto às situações decorrentes deste mesmo processo.


É uma questão de coerência moral. Portanto, anuladores de votos: no decorrer dos próximos quatro anos, abstenham-se também de reclamar! Deitados ermamente em berço esplêndido, assumam ao menos um único voto: o de silêncio. Sem mais.


By  Stefano











17 de maio de 2014

O Feminismo para a construção de um humanismo político.








Esse "feminismo" produzido em comunidade de facebook não é Feminismo. É conversa fiada.

O FEMINISMO É UMA CONSTRUÇÃO POLÍTICA. TENDE A PROPOR A CONCREÇÃO DE INTERESSES POLÍTICOS ESPECÍFICOS PARA AS MULHERES, BEM COMO PARA AS FAMÍLIAS, não se restringe à exposição da sexualidade. Esta, é apenas uma das esferas. Converse com uma chefe de família, uma matriarca pós-moderna e entenderá o que de fato é feminismo.

FEMINISMO É PRÁTICA DIÁRIA DE EMANCIPAÇÃO E AUTONOMIA INDIVIDUAL. É muito simples: quando eu necessito derrubar, constranger ou humilhar eu apenas estou expondo a minha própria fragilidade. Eu, feminista, entendo que a minha emancipação (humanidade) cabe a mim assegurar.

Não necessito retirar o valor do outro para construir o meu próprio. Isso foi o que as sociedades patriarcais fizeram com o feminino. O relegaram à vida cativa doméstica, à vida de ignorância, à dependência econômica e moral, à subserviência afetiva e sexual.

Além disso, a luta por espaços de poder é algo preponderante para as mulheres, porque nos permite visibilidade dentro de um contexto de poder financeiro e político que tem apenas o masculino por referência. O mundo precisa cultivar referências femininas.

Tendo em vista a rápida e insensata proliferação de ódio mútuo entre os gêneros, venho traçar alguns pontos que, longe de confundir, intentam traçar um norte para tornar as questões menos obtusas. Tantas imagens e fragmentos de opiniões ou discursos que chegam a dar náusea!

Primeiro:
Uma citação afastada do contexto pelo qual fora dito, acaba por confundir todo o discurso. Como solucionar o problema? Procurar a fonte, e não os pedaços de pseudo teorias que foram arremessadas a esmo pelo caminho.

Segundo:
As manifestações partilhadas segundo o método 'copia e cola' constituem, muitas vezes, apenas opiniões de mulheres sem qualquer representatividade, pessoas as quais quase ninguém sequer ouviu falar. Representam um feminismo tão periférico, quanto insignificante.

Logo, longe de promover uma discussão política pautada nas necessidades reais das mulheres, passa tangencialmente e atropela pontos sensíveis da luta. Como solucionar o problema? Fazer uma pesquisa SÉRIA sobre a história da mulher e da família ou ignorar a questão. Dos males o menor, eis um provérbio latino. Assim, nem ajuda, nem atrapalha.

Terceiro:
O combate ao feminismo é um contrassenso ético. A exposição de absurdos e incoerências denigrem o movimento, denigrem aqueles e aquelas que defendem uma sociedade mais humanista, denigrem nossos filhos e nossas filhas na perspectiva de um futuro de impasse político e cultural, procrastinando o óbvio e o justo.

Os valores patriarcais de nossa civilização (se é que podemos chamá-la assim) têm gerado malefícios não só a mulheres, mas a homens também. As exigências quanto à virilidade, é um bom exemplo do quanto tais valores tem tornado os homens bem distantes de si mesmos, alienados na construção de sua individualidade.

As mulheres na luta estão conscientes de si mesmas e conseguem ter uma compreensão geral, de como essa coisa toda fermenta e é geradora de consequências terríveis, sobretudo na família. Contudo, ainda é mais fácil culpabilizar o fato das mulheres se afastarem do lar para adentrar ao mercado de trabalho quanto à crescente criminalidade entre os jovens, que responsabilizar os homens quanto ao fato de se distanciarem na educação de seus próprios filhos, ou mesmo de abandoná-los com suas mães na tentativa de eximir-se de qualquer compromisso.

Essa é uma realidade social, inegável. Um problema enfrentado por muitas, muitas mulheres. Mas, vamos lá. Como solucionar o problema quanto a esse contrassenso ético de arrefecer a luta das mulheres por oportunidades igualitárias, por instituições de direitos que possam equacionar sua jornada de trabalho com a rotina familiar?

Como solucionar o problema quanto a esse contrassenso ético de arrefecer a luta das mulheres por enfatizar algo que parece ser tão óbvio que é o direito quanto ao seu próprio corpo?

Como solucionar o problema quanto a esse contrassenso ético de arrefecer a luta das mulheres quanto à sua liberdade de vontade e de manifestação de vontade na esfera de sua sexualidade? Ou será que temos que ser todos obrigatoriamente heterossexuais, ainda que dessa exigência nos façamos incompletos e infelizes?

Como solucionar o problema desse inegável contrassenso ético que visa denegrir a luta das mulheres tendo em vista a sua afetividade, seu universo familiar, o desenvolvimento dos seus filhos, seu ambiente de trabalho, sua comunidade, sua expressão política, seu desenvolvimento espiritual, suas escolhas e projetos de vida?

COMO EQUACIONAR O PROBLEMA DESSE CONTRASSENSO ÉTICO QUE A TODOS GERA PERDAS?

COMO COMPREENDER ATITUDES E DISCURSOS PAUTADOS NUM CONTRASSENSO ÉTICO E, POR ISSO MESMO, DESUMANO?

Há vezes em que eu costumo pensar que a nossa sociedade funciona mesmo como uma atividade orgânica, disso me recordo das aulas de Sociologia Jurídica quando o professor tratava de Émile Durkheim. Somos interdependentes, produzimos de maneira interdependente, dada a complexidade a que estamos fadados, e lutar contra essa realidade beira ao insucesso. Por isso, destaque-se, o anti feminismo é uma luta inglória.

Voltando à análise “durkheimiana”, nós indivíduos constituímos esse grande organismo. Algumas células inicialmente saudáveis, porém, se permitiram transformar em verdadeiras metástases. O que fazer com tais células (indivíduos)? Creio na democracia, porque me dá a oportunidade de escrever livremente e de expor-me inclusive, se for o caso. Creio que em relação a tais células, não há muito o que ser feito...

É salutar que mais mulheres se envolvam e sejam ativas na luta. Vejo ainda, muitas mulheres discretas que balançam a bandeira tímida e polidamente.

Não é pra pedir licença, mulheres! O mundo é de vocês!! O melhor tempo é agora! Nunca tivemos tantas oportunidades para abraçar como neste tempo. Quem acorda pra luta todo dia sabe bem do que eu estou falando.

POIS BEM, A SOLUÇÃO PARA COMBATER O CONTRASSENSO ÉTICO É INCHAR ESSE NEGÓCIO!


Eduquemos nossas mulheres todas para serem combatentes. Eduquemos nossas mulheres para um agir ético e combatente. Temos ainda, e muito, que opor resistências. Abracemos umas às outras. Temos que ser irmãs na luta. E eduquemos nossos homens para um agir ético, para serem combatentes aliados nesse processo de construção de um humanismo político.



9 de março de 2014

Mulheres rugindo os motores.









Os valores estão mudando e o grande motor disso é a figura feminina que em diversos lugares do mundo, aprendeu a reclamar sua presença nos setores de poder. Não é por causa do crescimento de casais homossexuais, homo-afetivos, não, como quer induzir a erro certa corrente espírita. Eles são minorias políticas e entram no protesto por equivalência de direitos.

Essa mudança é irreversível, mas cabe às mulheres terem a gana de penetrar nos elos de poder. Enquanto as mulheres escolherem profissões de menor representatividade, vão continuar alimentando uma vida marginal para o gênero. As mulheres devem ser arrojadas, senão não cruzarão a fronteira do discurso.

Acordem, mulheres! Há esforços que intentam mediocrizar a corrente feminista e transportar as transformações devidas à luta do gênero ao acaso da luta por outro movimento. Sem desmerecer a substância do Movimento Gay, mas eu devo asseverar que o mesmo só promoveu mudanças relacionadas à aceitação de sua orientação sexual e a questões pertinentes à sociedade familiar.

A luta feminista é mais profunda e antecede à imersão do Mov. Gay no cenário das lutas das minorias políticas. O feminismo é tão abrangente e humanista que consegue conter, em seu ninho, a luta pela homo-afetividade. O contrário, porém, não ocorre. Nunca vi um gay  levantar a bandeira do movimento feminista. Alguém tenha a bondade de mostrar-me.

Portanto, esqueçam essa pseudo teoria travestida de religiosidade na qual um espírito de Fulano Emo, por meio de um doutrinador Cicrano Emóide, orienta que as mudanças mundiais devem-se a uma orientação dos astros em prol da homossexualidade. Faça-me uma garapa!

A mudança atual é o reflexo multifacetado de um motor que há muito tempo tem rugido. E ruge muito fortemente, obrigada!




8 de março de 2014

O Dia da Mulher e os valores burgueses arraigados em nosso cotidiano.









Hoje se convencionou comemorar o Dia da Mulher, como símbolo da luta do gênero feminino por liberdade, igualdade e fraternidade humana. São, como é notório perceber, ideais Iluministas, porém com uma conotação que até então nenhum respeitável Ilustrado ousou ou pretendeu aplicar.

As mudanças trazidas com o mercado internacional eurocêntrico e a circulação dos metais nobres assinalaram um desvio na concentração de poder de que o rei se revestia. Se as classes infrarreais se organizavam para competir em privilégios, destas, a burguesia dos mercadores e negociantes era a maior insatisfeita.

Grandes financiadores da corrida por novos domínios e sustentáculos do Cristianismo, a burguesia se pôs a equacionar novos paradigmas de acesso ao cume do poder vigente. Nesta batalha, ideológica e política, a monarquia pendia e fragilmente se equilibrava fazendo concessões até perder-se, paulatinamente, com a inserção da República.

O racionalismo dos Ilustrados propunha uma reviravolta no pensamento cultivado até então. A ideia de que o poder soberano provinha de um Deus único e que ao homem caberia o papel de adorador e cultuador, sem o que não conquistaria a tão propalada salvação, universo magnífico e de extraordinária beleza, desprovido de maldade e sofrimento, era uma senda árida para a maioria, embora oportunamente confortável para alguns afortunados.

Todos os indivíduos alcançam a salvação pela virtude (das ações) e pela pureza da alma. Na corrente medieval, o homem deveria esforçar-se para superar seu estado de pecado. Nesse processo, a mulher figurava como filha e herdeira de Eva, encarnando em si as ideias da inconstância, da sedução, do engano, da traição, da impureza e da perdição do pecado. Estava confinada no microcosmo doméstico como forma de restringir o seu raio de ação, a maldade intrínseca à sua natureza.

Mobilizados pela imersão no resgate ao passado antigo, os chamados Renascentistas defenderam o humanismo e o antropocentrismo, ao versarem sobre a idéia de a virtude ser alcançada pelo exercício e disciplina da razão, o cultivo do saber humano. E foram além, porque pretendiam a manutenção dos interesses do gênero.  Eram ufanistas no que dizia respeito à sociedade grega, entretanto desdenhavam a função que a mulher por ali exerceu, ao menos em Creta e Esparta, antes que os povos nórdicos subvertessem de vez o culto ao sagrado feminino à uma meia dúzia de questões de ordem do patriarcado.

Tendo em vista a construção de uma nova organização societária, opunham-se deliberadamente a TUDO o que inspirasse as bases anteriores, o tripé clero, nobreza feudal e monarquia absolutista. O discurso, porém, não permite a emancipação dos valores morais quanto à subordinação da vida da mulher à autoridade masculina próxima.

O jurista Jean Bodin asseverou que as mulheres do seu século “deviam ser mantidas à distância de todas as magistraturas, postos de comando, deliberações, assembléias públicas e conselhos, para que se ocupassem dos seus afazeres femininos e domésticos”. Ao seu entendimento, a mulher era a fonte da desordem e deveria ser controlada tanto quanto banida toda ideia que inspirasse uma ginecocracia.

A família era a unidade básica para sustentar e equilibrar o Estado e como tal, deveria estar alicerçada na autoridade do patriarca para que cumprisse os requisitos necessários ao seu implemento. Reforçada estava a doutrina da fragilização e do descrédito quanto à natureza feminina e a crença na qual esta natureza inspira insegurança e passionalidade. Confirmou-se, com alicerce ideológico burguês, a exclusão da mulher na participação da estrutura de poder das sociedades ocidentais.

Apesar de todo aparato discursivo, fielmente elaborado para sustentar que a razão era atributo do masculino e a paixão do feminino, mesmo no século XVI, algumas mulheres tinham a oportunidade de cultivar as artes, as ciências e o mundo das letras. Pertenciam a um seleto grupo, cujo destaque e importância somente salientam o quanto era abissal a distância entre elas e o cotidiano das mulheres comuns.

Jean Delumeau registra em ‘A Civilização do Renascimento’ as poucas e marcantes referências à participação feminina, no século XVI, inclusive no que tange à tomada da direção política durante a transformação por que passava o Estado Absolutista:

“As filhas de Thomas More e as irmãs de Pirckheimer, humanista e matemático de Nuremberga, eram consideradas as mulheres mais sábias da época e até entendiam em Grego. A esposa de Robert Estienne, o impressor, Perrete Bade, era versada na língua latina e auxiliava seu marido na correção de provas. Vittoria Colonna, a marquesa de Pesquera, de quem Miguel Ângelo à recitava, foi muito talentosa na arte da poesia. Margarida de Navarra, entendia o italiano, o espanhol e o latim. Foi através de Margarida, que despertou interesse na França pela filosofia de Platão, e seu gosto intelectual permaneceu até o fim de seus dias. Era escritora de grande notabilidade e fazia questão de dar proteção aos letrados, foi uma mulher de erudição.
(...)
Joana d'Arc mudou o curso da situação militar que era desesperadora e conduziu a França à sua sorte que lhe era devida. Isabel, a Católica, absoluta autoritária, proibiu seu marido de governar Castela. Catarina de Médicis foi importantíssima na história francesa entre a morte de Henrique II (1559) e a de Carlos IX (1574). Seu nome ficou ligado ao horrível episódio do massacre da noite de São Bartolomeu. Isabel I, princesa erudita, reinou durante quarenta e cinco anos a Inglaterra e deixou desenvolver-se uma personalidade marcante e admirável que perdurou à sua morte. Isabel não era somente ligada à política no seu país, era também líder religiosa e foi ela quem fez definir as bases do anglicanismo.

Um modesto passeio pela literatura que encontramos, muitas vezes, em domínio público, indica o quanto a Razão fundamentou e fortificou o mito da mulher, ora como uma figura esfíngica dotada de misteriosos poderes e inalcançável, ora como uma libertina e desfrutável criatura, subdesenvolvida e incapacitada para contribuir minimamente com o acervo produzido pelo intelecto humano.

Desse modo, utilizando a redundância mais apropriada, a Ilustrada Razão tolhida de razão foi hábil em perpetuar mitos que ainda hoje imprimem diversos comportamentos bestiais na rotina das pessoas por toda a parte. Ainda ontem, quando fui pagar algumas contas de casa, ouvi um debate entre dois homens, um a defender, de forma bem humorada, certo domínio que possuem as mulheres para decidir as coisas do lar e orientar os rumos do relacionamento, e um outro que assegurava que deveriam ser submetidas à força física do homem como forma de garantir a autoridade viril.

Não cabe a mim desmedir tanto esforço em argumentar o óbvio. Nas palavras do Ilustrado Voltaire, “É difícil libertar os tolos das amarras que eles veneram”. A necessidade do uso da violência para sanar o embaraço de ser questionado é a prova cabal da fragilidade e da passionalidade do indivíduo, acometido no seu infortúnio chamado existência. A Ilustre Razão provou não ser tão luminosa quanto se fazia aparentar. O tempo reservou às mulheres o melhor momento para suas manifestações criativas. Ei-lo aqui e agora.

O problema do feminicídio está ainda longe de ser resolvido. As raízes do doutrinamento do século XVI tornaram-se profundas, cimentaram a multiplicidade dos aspectos culturais do ocidente. É necessário formar educadoras, não mães. Educadoras para a liberdade construtiva em ação diária. Educadoras vorazes pelo reclame à igualdade nas condições políticas do gênero feminino, especialmente. Educadoras ativas na implementação dessa fraternidade que evoca o humanismo, um verdadeiro lume para que nossa convivência seja o menos excludente possível.


Na imagem, Marquesa  de Pompadour, considerada uma mulher bela e elegante, culta e dotada de atributos artísticos, pois dizia-se saber tocar e cantar muito bem. Foi amante do rei Luís XV, época em que governou Versalhes e concedia audiências a embaixadores. Tomava decisões quanto à concessões de favores reais.