O Romance da Rosa (Roman de La Rose) é um poema alegórico que se esteia nos atributos do amor cortês, fenômeno estético e social específico do Ocidente Europeu entre os séculos XI e XIV. Escrito por Guillaume de Lorris por volta de 1.230, tinha primeiramente 4.058 versos - a referência da tradução aqui reproduzida aponta para o ano de 1.225 com 3.975 versos.
Considerada como uma obra
inacabada, entre os anos de 1.268 e 1.285 o poeta Jean de Meung trabalhou para dar-lhe
um acréscimo de mais 17.724 versos (embora este número também não figure um consenso). Esta adição apresenta uma abordagem discrepante
em relação ao texto original, devido à postura crítica adotada
por este segundo autor e sua predileção à poesia satírica.
Esta interferência lhe rendeu muitas
críticas, dentre as quais a mais contundente foi a preconizada por Christine de
Pisan, cujo intelecto fortemente arrojado e dedicado às letras a fizeram protagonizar
um debate acirrado contra o modo como as mulheres foram descritas por Jean. O
Romance da Rosa acaba por desencadear uma das primeiras querelas
feministas da sociedade ocidental.
A tradução aqui reproduzida é a
da escrita por Guillaume de Lorris, fruto do trabalho de Sonia Regina Peixoto e
dos professores Ma. Eliane Ventorim e Dr. Ricardo da Costa, a partir da edição GUILLAUME DE LORRIS, JEAN DE MEUNG. El
Libro de la Rosa (introd. de Carlos Alvar, trad. De Carlos Alvar y Julián
Muela, lectura iconográfica de Alfred Serrano i Donet). Barcelona: Ediciones
Siruela, 2003.
Boa leitura!
Alguns dizem que nos sonhos não existem senão engano e mentira,
mas às vezes se podem ter sonhos que não mentem e que, com o passar do tempo,
revelam-se verdadeiros. Para demonstrar isso, apresento um autor que se chamava
Macróbio: ele não tomou os sonhos como brincadeiras, pelo contrário, escreveu
uma obra sobre o sonho que teve o rei Cipião.
Apesar de tudo, se alguém pensa ou diz que é loucura e
ignorância acreditar naquilo que sonhou, quem assim considera, que me tenha por
louco, pois sei que o sonho adverte o bem e o mal que acontecerá às gentes.
Além disso, são muitos os que durante a noite sonham coisas obscuras, as quais
depois se apresentam com clareza.
No vigésimo ano de minha vida, idade em que o amor cobra imposto
aos jovens, uma
noite me deitei, como de costume, e dormi profundamente. E tive um sonho formosíssimo que muito me
agradou: não houve nada que depois não tenha ocorrido tal e qual o sonho me
mostrara. Agora desejo contá-lo em versos para agradar aos corações, pois assim
me pede e ordena o Amor.
Se alguém deseja saber como deve ser chamado o Livro que agora
inicio, ele se chamará O
Romance da Rosa, e
nele estão contidas todas as artes do Amor. O assunto é bom e novo; Deus queira
que o receba com gosto aquela por quem inicio essa obra: ela vale tanto e é tão
digna de ser amada que deve se chamar Rosa.
Parecia maio, faz cinco anos pelo menos. Sonhei que era maio, tempo de
amor e de prazer, tempo em que tudo se alegra: os arbustos e as sebes se cobrem de folhas
nesse mês. Os bosques recobram seu verdor, pois se mantiveram secos durante o
inverno; e a mesma terra sente orgulho pelo orvalho que a molha, esquecendo a
pobreza em que ficara durante o inverno. A terra se torna tão vaidosa que deseja usar um vestido
novo, e isso não é
difícil, pois ela dispõe de cem pares de cores: a erva, as flores violetas,
azuis e de muitos tons distintos – tal é o vestido que vejo que utiliza a terra
para embelezar-se. Os pássaros que haviam permanecido calados enquanto fazia
frio e quando o tempo era hostil e rigoroso, com a chegada de maio, com o bom
tempo, ficam tão contentes que mostram com seu canto o prazer que têm no
coração, e se vêem impulsionados a cantar. Então, o rouxinol se esforça com
seus silvos e gorjeios e também o papagaio e a calhandra. É o momento em que os
jovens começam a ficar contentes e a se enamorar, graças ao suave e doce tempo.
Pois aquele que em
maio não ama, tem um coração muito duro, pois ouve em vão os pássaros que
cantam nos ramos.
Nessa época tão agradável, em que todo ser vivo se esforça
para amar, certa noite sonhei que me encontrava. Enquanto dormia, pareceu-me que era muito
cedo. Levantei-me da cama, calcei-me e fui lavar as mãos. Depois, peguei uma
agulha de prata de uma alfineteira formosa e bela, e me dispus a costurar.
Então, me veio um desejo
de sair da cidade para
escutar os gorjeios dos pássaros que cantavam alegremente nos bosques pela
chegada da nova estação. Assim, enquanto costurava o bordado, deleitava-me, escutando
as avezinhas que cantavam nos jardins que começavam a florescer.
Alegre, contente e cheio de prazer, dirigi-me a um rio que ouvia próximo dali, pois não me ocorria um
lugar melhor para me distrair do que as margens daquele rio. A água caía de uma
colina próxima com força e ímpeto. Era clara e tão fria como a do poço ou da
fonte. O rio era um pouco menor que o Sena, porém mais largo. Até então, eu
nunca vira este rio tão agradável. Sentei-me para contemplar aquele lugar
aprazível, refresquei-me e lavei o rosto com aquela água transparente e clara.
O fundo era coberto e empedrado por pequenos cascalhos e a margem banhava um
prado formoso e belo. A manhã era ensolarada, tranqüila e luminosa. Fazia um
dia agradável. Através do prado, junto à margem do rio, fui
descendo o curso de água.
Em pouco tempo deparei-me com um grande e alegre jardim
completamente rodeado por um muro alto. A parte externa da parede tinha
desenhos, esculturas e títulos ricamente pintados. Com grande prazer contemplei
essas figuras e imagens, que irei contar e descrever tal como as recordo.
No centro vi a Malquerença. Ela dava a impressão de estar triste, aflita e
de ser perversa; parecia evidente que desejava provocar e molestar, porém se
mantendo oculta a todos. Parecia uma mulher pobre, porque não estava bem vestida.
Tinha o semblante enrugado e franzido, e seu nariz era chato. Essa horrível e
depreciável mulher cobria-se com um véu.
Ao seu lado esquerdo havia uma figura de aspecto diferente; li o
nome que tinha na cabeça: chamava-se Felonia.
À direita, vi uma imagem que tinha o nome de Vilania: era semelhante às outras duas, tanto no
aspecto quanto na forma. Como era insolente, dava a impressão de ser uma má e
louca criatura, disposta a causar danos e a falar mal de todos. Eu saberia
pintar e retratar muito bem o que fazia tal imagem, pois ela parecia realmente
uma coisa vil, como se estivesse cheia de injúrias e fosse uma mulher pouco
disposta a prestar honra a quem devia.
A seguir, estava pintada a Cobiça,
aquela que incita as gentes a tomar, a não dar nada, a juntar grandes riquezas;
é quem faz com que muitos emprestem com usura, pois está sempre querendo reunir
e juntar bens; é quem aconselha aos ladrões e aos malfeitores para que se
ponham em movimento. Ela é um grande erro e uma grande desgraça, pois através
dela muitos acabam sendo enforcados. A Cobiça
é quem faz tomar as coisas dos outros, roubar, usurpar e vender mal, diminuir e
enganar nas contas; é a criadora dos trapaceiros, dos charlatães que, seguindo
seu conselho, privam donzelas e jovens de suas justas heranças. Esta imagem
tinha as mãos encurvadas e retorcidas – é lógico ser assim, pois a Cobiça sempre se esforça em tomar o bem alheio sem
escutar razões, já que gosta demasiadamente do que é dos outros.
Ao lado da Cobiça havia outra figura, chamada Avareza: era feia, suja, magra, fraca e de má
aparência, verde como um alho-poró, tão pálida que parecia doente e morta de
fome ou que vivia somente de pão amassado com água sanitária forte e
abrasadora. Além de estar fraca, vestia-se pobremente: trazia uma cota velha,
destroçada e cheia de remendos, como se houvesse sido jogada aos cachorros. Ao
seu lado, pendurada em uma fraca presilha, estava seu manto e uma cota parda. O
manto não era de boa linhagem: era de má qualidade, desgastado, de lã negra,
aveludada e pesada. A cota devia ter mais de vinte anos, mas a Avareza não se preocupava com suas vestes. Ela não
sentiria muito por esse traje, ou porque estava usado, ou porque já não lhe
servia, já que necessitaria de um vestido novo; pois a Avareza, aquela que não gosta de gastar, prefere passar
grande penúria a fazer isso.
Ela havia escondido na mão uma bolsa costurada e fechada com
tanta força, que se passaria um bom tempo antes de se tirar algo dela, embora
isso lhe importasse pouco, pois ela não tinha a intenção de tirar nada da
bolsa.
A seguir, estava pintada a Inveja,
que nunca havia sorrido em toda a sua vida e nunca havia se alegrado por nada,
a não ser por ter visto ou escutado alguém contar uma grande desgraça: nada a agradava
tanto quanto a dor e a calamidade. O que ela mais gosta é de ver que um grande
infortúnio caiu sobre uma pessoa próxima. Então, ela alegra seu coração da
mesma forma quando vê uma grande linhagem ser destruída ou insultada. Contudo,
se contempla alguém que cresce em honra graças ao seu bom senso e por seus
próprios méritos, isso é o que mais lhe fere, pois se entristece quando
acontece algo bom.
A Inveja é tão cruel que não mantém a lealdade com seus
companheiros e não admite companheirismo; ela é inimiga de todos os seus
familiares, pois certamente não deseja o bem nem para o seu pai. Contudo, é
certo que ela paga caro por sua maldade, pois sofre tanto e sente tanta dor
quando as pessoas fazem o bem, que pouco falta para se desmanchar. Desse modo, seu
coração traidor a golpeia, e então Deus e os homens podem se vingar.
A Inveja nunca deixa de falar mal dos outros: se
conhecesse o mais nobre de todos que existe desse lado do mar ou do outro, ela
tentaria ofendê-lo; e se fosse um homem tão íntegro que ela não conseguisse
fazê-lo cair de seu mérito, nem derrubá-lo, ao menos lhe agradaria diminuir seu
valor e sua honra, falando dele o menos possível.
Na pintura vi que a Inveja tinha um olhar mau, pois não olhava de frente,
somente de soslaio, dissimulando; esse era um mau costume seu, não contemplar
nada abertamente, pelo contrário, só fechava um olho com desprezo, desdenhando
e ardendo de raiva ao ver alguém nobre, formoso ou gentil, querido e estimado
por todos.
Junto à Inveja, bem próxima dela, a Tristeza estava pintada no muro: pela cor, parecia que
levava luto no coração, e dava a impressão que padecia de icterícia. A Avareza não a superava nem em palidez, nem em
fraqueza, pois a aflição e a pena, a preocupação e os enjôos que sofria dia e
noite haviam feito com que perdesse a cor e ficasse magra e pálida. Ninguém
nunca teve um sofrimento e uma dor semelhantes a que ela parecia ter. Acredito
que ninguém seria capaz de fazer com que ela se alegrasse; ela tampouco queria
se regozijar e aliviar com nada a dor que sentia em seu coração, pois o tinha
demasiadamente triste, e seu penar havia se enraizado profundamente.
Bem se via que estava aflita, pois há pouco tempo havia
arranhado seu rosto, dilacerando-o em muitos lugares, como quem está triste.
Tinha os cabelos despenteados e soltos sobre o colo, revolvidos pela pena e
pela aflição. Estou seguro que ela chorava amargamente: quem quer que a visse,
por mais duro que fosse, sentiria uma grande misericórdia por ela, que
continuamente se arranhava, se golpeava e se maltratava com os punhos.
A infeliz, a pobre, mostrava bem a sua dor e não se preocupava
em se alegrar, em bailar ou dançar, pois quem tem o coração aflito não tem
vontade de se deleitar com a dança e com o baile. Aquele que está triste não se
abranda com a alegria, pois o gozo e a aflição lhe são contrários.
Logo depois, estava retratada a Velhice, um passo atrás do lugar que deveria ocupar, pois ela mal se
mantinha em pé, de tão velha e maltratada. Sua beleza havia murchado, tornara-se
muito feia. Tinha a cabeça velha e branca, como se os cabelos tivessem
florescido. Meu Deus, sua morte não seria uma grande perda nem uma grande
desgraça, pois todo o seu corpo havia secado e se enrugado pela idade. Seu
rosto, cheio de rugas, outrora fora suave e liso; agora estava repleto de
cicatrizes. Suas orelhas eram cabeludas e não lhe restava nenhum dente, pois
havia perdido todos. Era tão velha que parecia que não podia andar quatro
passos sem a ajuda de muletas.
O tempo, que corre noite e dia sem pausa nem repouso, passa
por nós tão silenciosamente que por um momento acreditamos que ele se deteve,
quando na verdade nunca descansa nem deixa de correr, de forma que não se pode
pensar que existe o presente; e, se perguntares a um homem douto nas letras,
antes que ele tenha respondido, haverá transcorrido três tempos. O tempo,
aquele que não pode ser detido e que sempre avança sem voltar, como a água que
flui sem que regresse uma gota; o tempo, a quem ninguém resiste, nem o ferro, nem qualquer outro objeto
duro; o tempo, que faz com que as coisas cresçam depressa, que rapidamente cria
e tudo destrói e faz apodrecer; o tempo, que envelheceu nossos pais, que
envelheceu prematuramente reis e imperadores, e que todos nós tornará velhos e
adiantará nossa morte; o tempo, que tem o poder de envelhecer todas as coisas, a havia
envelhecido tanto que, em minha opinião, fez com que ela não pudesse amparar-se
sozinha, e assim, a fez retornar à infância, pois não tinha mais capacidade,
nem força e juízo que um menino de um ano de idade. Embora, segundo creio, ela
tivesse sido discreta e culta quando estava na idade madura, nada havia lhe
restado e ficara atordoada.
Ela trazia uma capa forrada – se não me recordo mal – com a qual
se abrigava muito bem e cobria seu corpo. Devia ser um manto quente, caso
contrário, teria morrido, pois os velhos sentem frio, sabei-o, tal é sua
natureza.
Atrás dessa imagem havia outra representada, e que manifestava
claramente sua falsidade: chamava-se Hipocrisia. É ela que, mantendo-se oculta, quando ninguém pode se defender,
faz todo o tipo de dano, sem nunca se preocupar. Externamente, parece mover-se
pela compaixão, tem aspecto simples e piedoso, e parece uma santa criatura;
porém, sob o céu não há desgraça que em seu íntimo não tenha imaginado.
A imagem que a representava se parecia muito com ela, pois tinha
um aspecto simples: estava calçada e vestida como uma mulher devota; na mão
levava um saltério e, sabei-o, esforçava-se em oferecer a Deus falsas orações,
invocando santos e santas. Não estava alegre, nem contente, parecia inclinada
somente a fazer boas obras. Vestia um tecido áspero de lã e não era gorda, pelo
contrário, dava a impressão de que estava cansada de jejuar, por causa de sua
cor pálida e moribunda.
A ela e aos seus estava proibida a entrada no Paraíso, pois
segundo o Evangelho, este tipo de gente afina seu rosto para ser enaltecido na
cidade. Por isso, por obterem um pouco de vanglória, serão privados de Deus e
de Seu reino.
Por último, estava retratada a Pobreza, que carecia de bens e que havia sido pintada desnuda como um
verme, pois havia vendido seus vestidos. Se a estação fosse outra, penso que
morreria de frio, pois tinha somente um saco velho forrado com pedaços de pele
– tal era sua cota e seu manto – não trazia mais nada para vestir e tiritaria
muito de frio. Ela se mantinha um pouco afastada das demais, como um pobre cão
num canto; encolhia-se e se cobria, pois qualquer coisa miserável sempre sente
vergonha e despeito, esteja onde estiver. Maldita seja a hora em que foi
concebido um pobre! Ele nunca será bem alimentado, nem bem vestido e calçado,
ninguém o quererá, e ele não receberá elogios!
Tal como contei, essas eram as imagens que se viam por toda a
parede, pintadas de ouro e de azul. O
muro era alto e tinha uma forma quadrada; dentro havia um jardim onde ninguém
nunca havia entrado, nem mesmo um pastor. O lugar era magnífico. Eu ficaria muito agradecido se alguém me
levasse lá para dentro mediante escadas ou escadarias, pois, em minha opinião,
não se poderia encontrar um gozo ou uma alegria semelhantes às que havia
naquele jardim. O lugar não estava disperso nem era tacanho para abrigar aves.
Nunca houve um espaço tão rico de árvores e de pássaros cantores – ali havia
três vezes mais que em todo o reino da França.
Era muito agradável ouvir a harmonia de seus cantos, pois
alegravam todo o mundo. Regozijei-me tanto que, se estivesse livre, não
aceitaria cem libras para não ver a reunião dos pássaros que ali dentro cantavam
danças de amor e notas agradáveis, formosas e belas, com muito gozo. Que Deus
os salve!
Ao ouvir o cantar dos pássaros, comecei a pensar de que maneira
ou com que astúcia eu poderia entrar no jardim. Não encontrei nenhum lugar para
passar: sabeis que ignorava se havia uma entrada, um caminho ou uma trilha; não havia ninguém que pudesse me
guiar, já que estava só. Encontrava-me derrotado e muito triste, até que, por fim,
entendi que em um pomar tão formoso como aquele não haveria uma porta, escada
ou qualquer outra forma de entrada. Então dei a volta muito depressa ao redor
da construção e do muro quadrado, até que encontrei um portão pequeno e estreito que estava bem
fechado. Não havia nenhum outro lugar de entrada. Parei de procurar e chamei à
porta. Chamei e bati bastante; muitas vezes prestei atenção se ouvia chegar alguém.
Por fim, uma donzela nobre e formosa abriu o portão, que era de carpelo. Essa donzela tinha os
cabelos loiros como uma bandeja de cobre, seu rosto era mais doce que um
pequeno pintinho, sua fronte brilhava, tinha as sobrancelhas arqueadas e bem
separadas, amplas e bem proporcionais, seu nariz era bem-feito e seus olhos
eram vivos como os de um falcão. Para dar inveja aos loucos, tinha um vigor
doce e agradável, um rosto branco e escarlate, uma boca pequena e carnuda e uma
pequena cova no queixo; seu colo era bem proporcional e a pele era mais suave
que um velocino, sem cravos ou espinhas – daqui até Jerusalém não havia mulher
com o colo mais charmoso, pois o dela era reluzente e muito suave ao tato; seu
pescoço era tão branco que parecia como a neve recém caída sobre os galhos das
árvores.
Seu corpo era elegante e esbelto: era inútil buscar em outras
terras um corpo feminino mais belo. Trazia uma formosa auréola de seda e ouro.
Nunca houve uma donzela tão elegante, nem que se vestisse melhor; bem a vi e a
contemplei. Sobre a auréola de seda e ouro ela trazia uma guirlanda de rosas
frescas; tinha na mão um
espelho e na cabeça um
rico fixador prendia seu cabelo trançado. Para dar maior elegância, as duas
mangas de seu vestido estavam costuradas, e, para evitar que suas mãos brancas
se sujassem, ela usava luvas também brancas. Vestia uma cota de rico tecido
verde de Gand, com um cordãozinho bordado em volta. Por seu aspecto, bem se via que tinha pouco o que fazer.
Penteando-se, vestindo-se e preparando-se: era assim que passava o dia. Para ela, fazia sempre bom tempo e era sempre maio,
pois nada a preocupava nem a inquietava, a não ser se arrumar com elegância.
Quando a donzela de corpo formoso abriu o portão, com bons modos
lhe dei graças e lhe perguntei como se chamava e quem era. Ela não se mostrou
altiva nem desdenhosa ao responder:
– Sou chamada Ociosa por meus conhecidos. Sou uma mulher rica,
afortunada, e levo uma vida agradável, pois com nada me ocupo senão gozar e
desfrutar, pentear-me e fazer-me tranças. Sou amiga íntima de Lazer, o jovem, o agradável dono deste formoso jardim: ele
trouxe da terra de Alexandria as árvores que aqui estão plantadas. Depois,
quando elas cresceram, fez construir ao redor do pomar o muro que vistes e
ordenou que pintassem na parte externa as imagens que há, que não são nem
belas, nem agradáveis, mas dolorosas e tristes, tal como acabais de ver. Muitas
vezes vêm aqui para se divertir e ficar à sombra Lazer
e seus seguidores, que vivem em contínuo gozo e alegria. Agora Lazer deve estar aqui dentro, escutando o canto dos
rouxinóis, dos melros e de outros pássaros; ele se entretém e se distrai nesse pomar com suas gentes. Não poderia encontrar um lugar mais
belo, nem um lugar melhor para desfrutar. Sabeis que as gentes mais formosas
que poderíeis ver são os companheiros de Lazer,
que os traz a seu lado e os guia.
Quando Ociosa terminou de falar, eu, que escutava com
atenção, disse-lhe:
– Senhora Ociosa, não me leve a mal: já que Lazer, o belo, o nobre, está aqui nesse pomar com suas gentes,
gostaria, se pudesse, de estar em sua reunião nessa mesma tarde. Tenho que ir,
pois penso que a visão deve ser agradável e creio que os participantes serão
corteses e bem educados.
Sem dizer mais nada, entrei no pomar pela porta que Ociosa abrira. Quando estive dentro, senti-me alegre,
contente e gozoso; encontrava-me como no Paraíso Terreno, estejais certo. O
lugar era tão agradável que
parecia coisa própria do espírito e, segundo me parecia, em nenhum paraíso se poderia estar tão
bem como naquele pomar que tanto me aprazia.
[CONTINUA]





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