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25 de janeiro de 2017

O ritmo.



O Sr. Shih tinha dois filhos: um gostava de estudar e o outro, de guerrear. O primeiro expôs seus ensinamentos morais diante da corte admirada de Ch’in e foi nomeado tutor, enquanto o segundo falou de estratégia na corte belicosa de Ch’u e foi nomeado general.

O paupérrimo Sr. Meng, ouvindo falar de tais proezas, mandou seus dois filhos seguirem o exemplo dos filhos de Shih. O primeiro expôs seus ensinamentos morais na corte de Ch’in, mas o rei de Ch’in disse: “No momento, os estados estão discutindo violentamente e todos os príncipes estão ocupados armando suas tropas até os dentes. Se eu der ouvidos ao palavratório deste moralista, em breve estaremos arrasados.” E mandou castrar o sujeito.

Enquanto isso, o segundo irmão exibia o seu gênio militar na corte de Wei. Mas o rei de Wei disse: “O meu estado é fraco. Se eu confiar na força em vez da diplomacia, em breve estaremos arrasados. Se, por outro lado, eu deixar este provocador solto, ele irá oferecer seus serviços a outro estado e aí é que estaremos em dificuldades.” E mandou cortar fora os pés do sujeito.

Ambas as famílias fizeram exatamente a mesma coisa, uma no momento certo, mas a outra na hora errada. Portanto, o sucesso não depende de lógica, mas de ritmo.

Lieh Tzu


18 de janeiro de 2017

Um levante pela civilidade.





Em seu discurso, Camila Paglia enfatiza a mensagem da proteção versus responsabilidade. O feminismo é um movimento com muitas correntes de pensamento e, realmente, há um séquito que preconiza a vitimização. Querem a liberdade de se manifestarem sexualmente com atitudes arriscadas, mas não levantam um dedo para emplacar a sua própria proteção.




Sinaliza que devemos nos defender como fazem os homens. É um ponto chave e ao mesmo tempo contraditório. Porque a nossa cultura não nos provê essa inclinação. Uma mulher que arvora-se no direito de travar uma batalha, ainda que inegavelmente justa, não é bem quista nas rodinhas dos hipócritas . O feminino deve ser vinculado à frivolidade e a uma conduta passiva.


Eu entendo por feminismo de guerra o que ela denomina de o 'feminismo das ruas' como contraponto ao dito feminismo burguês que demanda pela proteção institucional e por assistência moral. A meu ver, uma coisa não exclui a outra.


A proteção institucional não deve falhar, pois envolver-se em situações ofensivas e gravosas é sempre um risco presente em algum momento da vida. Não apenas em relação ao que Paglia identifica por psicóticos, isso parece simplório. Violações de direitos humanos são praticadas por pessoas aparentemente normais e de bom conceito social.


Vivemos numa cultura de violência, mas compreender a atitude de uma mulher a arrancar uma cadeira com a intenção flagrante de atirá-la contra a cabeça de um homem é algo desprezível. No entanto, o inverso não tem causado o espanto esperado e há quem ache alguma graça nesta situação miserável. São inúmeras as situações análogas a essa acontecendo por aí todos os dias.


A violência deflagrada contra a mulher é ainda vista como algo tolerável, precisa-se admitir. Mas é espantoso quando uma mulher convida sua irmandade a levantar os açoites e os punhos para fazer uma horda de homens debandarem em disparada. Sim, porque a ideia do feminismo de luta é essa. E aí?


Não é a incursão da violência a tônica desse texto. Mas sim, o conclame a uma postura impositiva para o respeito quando este não ocorrer naturalmente. Aqui vale a ingerência dos que se propõem a educar crianças e jovens ou a militar a respeito do tema. Criar verdadeiras condições para que a civilidade não seja vivida como uma circunstância deslocada da rotina.


Que a civilidade entre as pessoas seja a palavra do dia e seja servido um cálice realmente amargo aos agressores. Toda pessoa deve criar para si mesmo um sistema de autoproteção com a inclusão de modificações no seu modo de estar no mundo. É claro que estas considerações extrapolam a ambientação do discurso feminista para alcançar a generalidade das situações de conflito por assédio e outras manifestações agressivas entre as pessoas.





5 de setembro de 2016

Mushin.



A mente deve permanecer no estado de fluxo, pois parar em qualquer ponto significa fluxo interrompido e essa interrupção é nociva à tranquilidade da mente. No caso de portar uma espada, significa morte.  Quando o espadachim estiver à frente de seu opositor, não deve fixar seu pensamento nele, nem em si mesmo, nem nos movimentos da espada de seu inimigo. Deve usar a espada, sem atenção à técnica, estando a serviço do subconsciente. O homem  retirou-se para ser o portador da espada. No ataque,  já não há o homem, mas a espada à mão do subconsciente do homem que ataca.


Mestre Takuan Soho.








22 de julho de 2016

Forças normais e extraordinárias.





Os recursos dos homens que sabem se aproveitar de suas forças mais notáveis são tão infinitos quanto o céu; são cíclicos como os movimentos do Sol e da Lua. Eles padecem e então renascem, como as estações do ano. Durante uma batalha, é preciso valer-se das forças mais comuns para se engajar no conflito. Para vencê-lo, contudo, é necessário utilizar-se das extraordinárias.  Portanto, os recursos dos mais habilidosos no uso das forças extraordinárias são tão infinitos como o céu e a terra e tão inesgotáveis como o fluxo de água nos grandes rios. É a operação correta das forças extraordinárias e normais que torna um exército capaz de resistir ao ataque inimigo sem ser derrotado.

Sun Tzu




24 de fevereiro de 2016

Síndrome de Estocolmo no 'antifeminismo feminino'.





Estava pesquisando a Síndrome de Estocolmo em mulheres vítimas de abuso. O texto do link abaixo é bastante esclarecedor e alerta para pontos sensíveis de nosso atavismo cultural.


Só não concordo com a sugestão de que mulheres poderiam resolver-se com pessoas do mesmo sexo como forma de driblar sua heterossexualidade. Não creio que a coisa toda seja tão simplista. Necessário a referência e essa passa por uma condição que é marcadamente cultural.


Por outro lado, como o modus operandi masculino é largamente conhecido, nos desencoraja da possibilidade de muitos flertes por julgarmos NÃO VALER À PENA. Quando calculamos honestamente o ônus de manter um relacionamento com um homem em face de algum benefício partilhado, seja ele qual for, sexual, afetivo, moral, financeiro etc, é DESENCORAJADOR.


Eu me separei há mais de dois anos e a experiência foi agradável o suficiente para manter-me segura no muro da solteirice. Estar sozinha parece-me mais conciliável em não ter ameaçada a minha esfera de liberdade.


Recomendo texto por ser uma discussão sempre atualizada. Feminismo, um modo de olhar, de perceber e de agir. Uma vez feminista, não há modo de conciliar questões tão acintosamente veladas. Principalmente, porque já estamos cansadas de tanto!


O texto foi postado pela jovem Isabelle, tomando por base o Loving to Survive: Sexual Terror, Men's Violence, and Women's Lives - Dee L.R. Graham, conforme ela mesma cita. O título do blog dela é sugestivo: "Nós somos as mulheres sobre as quais os homens nos alertaram". <rsrsrs>


Seguem o link e alguns excertos retirados de lá: 




“compreendemos que as mulheres sofrem coletivamente da Síndrome de Estocolmo – a criação de vínculos de um refém com seus captores – como resultado do seu medo constante de serem assediadas verbalmente, sexualmente e fisicamente, bem como restringidas economicamente pelos homens.



”as mulheres se esforçam para agradar os homens, e dessa reação surge a “feminilidade”: a sua aparente subserviência, docilidade e auto-sacrifício.”



“A natureza aparentemente difundida desse fenômeno sugere que a criação de vínculo com o abusador (Síndrome de Estocolmo) é instintiva e desempenha uma função de sobrevivência para vítimas de abuso crônico.”



“Quando a vítima define a relação como de carinho, é fácil para o abusador fazer o mesmo. Obviamente, essas distorções cognitivas estão a serviço da sobrevivência: elas reduzem o terror, criam a esperança de escapar por via da conquista do abusador, e facilitam a criação de um vínculo entre o abusador e a vítima e, portanto, aumentam as chances de sobrevivência da vítima.”



“As distorções cognitivas proporcionam para as vítimas uma interpretação acerca de seu próprio comportamento. O conteúdo das distorções traz um significado para as vítimas sobre seu comportamento, e as ajuda a acreditar que estão no controle.”



“A vítima com frequência racionaliza o abuso ao se culpar pelo ocorrido, acreditando que pode controlá-lo e também quando é abusada. Mas por que ela se culparia por seu abuso? Há pelo menos duas razões:
(1) A fim de garantir a sobrevivência, a vítima adota a perspectiva do abusador, e esse acredita ter uma justificativa para abusá-la;
(2) Se a vítima se culpa pelo ocorrido, ela então acredita que é capaz de cessar o abuso. Outra conseqüência dessa distorção é a de que a vítima gasta uma energia imensa para mudar ou “melhorar-se” a fim de que o abuso termine.”



“A história e realidade das mulheres ao redor do mundo não deixam dúvidas de que os homens são capazes de matar mulheres, de usar violência para controlá-las socialmente, e que os homens utilizarão os motivos mais banais para racionalizar suas violências.”



“Pesquisando em diversas fontes, Russell (1984) identificou as funções do assédio sexual, que incluem:
·       A manutenção da prerrogativa masculina tradicional da iniciativa sexual.
·       A expressão da hostilidade masculina em relação às mulheres.
·       A compensação de homens pela impotência em suas próprias vidas através de controle sobre uma mulher.
·       Afirmação do papel sexual da mulher sobre suas outras funções, e, através disso, a manutenção das mulheres em posição subordinada.
·       A limitação do acesso das mulheres a cargos específicos, especialmente aqueles que não são “tradicionalmente” femininos.
Outra função do assédio é sexualizar a interação, comunicando às mulheres que somos, principalmente e antes de tudo, objetos para a satisfação sexual dos homens.”



“No entanto, as formas de violência mais freqüentes não são conceitualizadas como violentas, ou mesmo abusivas ou não-usuais pela maioria das mulheres. Infelizmente, elas são vistas como comportamentos masculinos normais, o que sugere que as mulheres conviveram por tanto tempo com a violência masculina que ela se tornou “imperceptível”.”



“Devemos igualmente destacar que todos os homens se beneficiam das consequências das violências e das ameaças de violência por outros homens.”



“Note-se que em troca de segurança física de terceiros e “liberdades”, a mulher deve se submeter sexualmente ao seu “protetor”, e, muitas vezes, ter e cuidar de seus filhos. O fato é que as mulheres pagam, e pagam caro, pelas pequenas “gentilezas” que recebem dos homens, inclusive a gentileza de protegê-las da violência de outros homens. Também se pode argumentar que o comportamento protetor dos homens em relação às mulheres é, na verdade, a proteção daquilo que entendem como sua propriedade.”



·       “Deus é retratado como sendo um homem, onipotente e superior, provendo legitimização “divina” às relações hierárquicas.
·       Nossa história é masculina, pois as vidas das mulheres foram apagadas de todas as representações oficiais, ou então reescritas a partir da perspectiva dos homens.
·       A baixa renda das mulheres em relação à dos homens pressiona as mulheres a casar ou permanecer casadas, tendo como objetivo sua sobrevivência econômica.
·       O padrão de uma mulher atraente é definido como ser pequena e magra (ou seja, fraca), e vestir-se de forma que não possa se proteger (por exemplo, usar salto alto).”



“Porém, dentre as gentilezas demonstradas, talvez a mais valorizada pelas mulheres seja o afeto e o amor de um homem. Frye (1983) oferece uma perspectiva interessante acerca do amor dos homens:
“Dizer que um homem é heterossexual implica somente que ele mantém relações sexuais [fode] exclusivamente com [ou submete sexualmente] o sexo oposto, ou seja, mulheres. Tudo ou quase tudo que é próprio do amor, a maioria dos homens hétero reservam exclusivamente para outros homens. As pessoas que eles admiram; respeitam; adoram e veneram; honram; quem eles imitam, idolatram e com quem criam vínculos mais profundos; a quem estão dispostos a ensinar e com quem estão dispostos a aprender; aqueles cujo respeito, admiração, reconhecimento, honra, reverência e amor eles desejam: estes são, em sua maioria esmagadora, outros homens. Em suas relações com mulheres, o que é visto como respeito é gentileza, generosidade ou paternalismo; o que é visto como honra é a colocação da mulher em uma redoma. Das mulheres eles querem devoção, servitude e sexo. A cultura heterossexual masculina é homoafetiva; ela cultiva o amor pelos homens.”  (...) De fato, propomos que o ápice da representação da subordinação da mulher e dominação do homem, e também um dos momentos nos quais o vínculo da mulher com seus abusadores se torna mais evidente, ocorre durante o ato sexual heterossexual.”



“Uma mulher exposta às idéias, opiniões, atitudes, sentimentos e necessidades dos homens (e filhos), ao ponto da exclusão às das mulheres, é uma mulher ideologicamente isolada. (...) Note-se que, uma vez que os homens ameaçam as mulheres com violências porque são mulheres, isto é, porque possuem corpos femininos, muitas mulheres depreciam seus próprios corpos e de outras mulheres, algumas delas ao ponto de odiá-los. Isso acaba por agravar ainda mais o isolamento entre as mulheres.”



“Dworkin (1985) oferece uma observação pungente: “O feminismo é odiado porque mulheres são odiadas. O anti-feminismo é uma expressão direta de misoginia; é a defesa política do ódio às mulheres. Isso se dá porque o feminismo é o movimento de libertação das mulheres.”



“O movimento feminista proporciona às mulheres um contexto que legitimiza falar das violências em nossas vidas previamente invisibilizadas – o incesto, estupro, espancamento e assédio que moldam nossos dias. Revelar a natureza pervasiva dessas violências expõe a falsidade dos mitos patriarcais de que tais incidentes são isolados.”



“precisamente ao manifestarmos nossa ética feminista, passamos a ouvir sobre a importância da tolerância. É preciso compreender que, quando as pessoas começam a falar sobre a importância da tolerância, altruísmo e auto-sacrifício, isso indica que elas percebem um conflito inerente de interesses entre os envolvidos. Dessa forma, a fim de resolver esse conflito, espera-se que aqueles que não possuem poder institucional sejam altruístas. Nesse sentido, o altruísmo e o auto-sacrifício são considerados “virtudes femininas”.



“Nós apresentamos todas essas observações a fim de que as leitoras possam determinar por si próprias se os homens como um grupo demonstram verdadeiro amor às mulheres. Senhores “gentis” de escravos podem ter tornado a escravidão relativamente mais suportável para os escravos, porém isso não fez da instituição da escravidão algo menos hediondo. Também não acreditamos que, sob condições de dominação masculina, o conceito do “consentimento” feminino em relações desiguais seja significativo.”




“Quanto mais vozes femininas se erguerem confirmando as violências dos homens, menos isoladas se sentirão as vítimas, e mais difícil será a minimização do problema pelo patriarcado. Da mesma forma, à medida que as mulheres, ao criarem vínculos entre si, receberem umas das outras o amor, a afirmação e a consideração necessários a qualquer ser humano, elas se tornarão cada vez menos dependentes das pequenas “gentilezas” dos homens para que sintam que possuem valor.”






24 de outubro de 2015

Por um Estado laico, não vote em religiosos!



Diabólicos!

Vejo o cerceamento do direito à informação e a opressão à liberdade de agir.

Caminhando para um Estado que não é laico, cujo tendenciosismo político à ideologia cristã é um despautério, um despropósito e um desserviço.

A recusa do profissional de saúde a dar a orientação necessária, em razão de sua "liberdade de consciência e de crença", afetará muito mais acintosamente as mulheres pobres violentadas.

Protege-se um direito fundamental, enquanto um outro está à mercê das frivolidades religiosas.


Faço votos de que não vá adiante!





6 de agosto de 2015

Espírito forte.
















Quando tiverem nomeado
tantos comandantes quanto necessário,
reúnam todos os outros soldados e os encorajem;
isso será exatamente o que eles querem agora.
Talvez tenham notado como estavam desanimados
quando entraram em campo,
como estavam abatidos quando faziam a guarda;
nesse estado não sei o que poderão fazer com eles...
Mas se alguém conseguir fazer com que parem
de pensar no que vai lhes acontecer,
e pensem no que podem fazer,
ficarão muito mais animados.
Os senhores sabem, tenho certeza,
que não são números ou força que dão origem
à vitória na guerra;
o exército que entrar na batalha com espírito forte,
seus inimigos em geral não lhe podem resistir.

Xenofonte





2 de agosto de 2015

Nunca ceder!




O ser humano, o que quer que faça, onde quer que esteja, não deve ceder à objetificação de sua própria natureza.









30 de julho de 2015

Óbices à emancipação humana.




William Blake: Newton, 1795.



Todos os males da alma humana vêm do temor e do desejo. As ameaças e as promessas são os grandes meios de corromper e de embrutecer os homens. O dogma que anuncia o privilégio e que ameaça com um castigo exorbitantemente monstruoso e sem fim às multidões ignorantes, não é nem divino, nem humano, nem razoável, nem civilizado.

Eliphas Levi, Aforisma XIII, In: O livro dos Sábios, versão digital eBooksBrasil.com, p. 19.













27 de junho de 2015

O Estado somos nós, enquanto a porca torce o rabo.





A questão da prisão, pura e simplesmente, não resolve. Constituímo-nos numa sociedade cínica, julgando sempre que o problema não é nosso. Que acontece com os outros e os nossos estão imunes, como se os demais fossem menos humanos. Estamos diante de um problema crônico de nivelamento e mau caratismo, iniciado no âmago das famílias e daí eclode para a vida social.


Concordo com a redução da maioridade penal, sem a hipocrisia moralista de que pode liberar o jovem porque é tudo culpa do Estado. Ora, o Estado somos nós. Quando assumiremos nossa responsabilidade definitiva quanto à educação humana das crianças e dos jovens? Esta cultura está acostumada a transferir responsabilidades. Está arraigado no nosso cotidiano a crença cínica por milagres, quando a maioria assustadora de nossos problemas é por conta da cegueira no exercício da fé, assim entendida como aquela desprovida de um mínimo de coerência e bom senso.


Além disso, há disposição de sobra em crer em discursos construídos para enganar multidões de ovelhas mansas. Nós damos muito crédito a quem se profissionaliza no estelionato moral por meio da palavra e engana descaradamente não uma meia dúzia, mas uma comunidade inteira. Depois, vem outros estelionatários da palavra forjar soluções ultrapassadas para conter e minimizar as ocorrências contemporâneas. E tudo porque não assumimos o erro da crença cega, imprudente e irresponsável, porque não assumimos a responsabilidade e as consequências de mudar nossas escolhas, nossas rotinas, nosso consumo...


Não falo somente de religião, que revela apenas parte do sintoma. Falo de algo mais amplo. Falo de assumir um modo de viver mais comprometido, responsável e coerente. Mais humano e ao mesmo tempo independente. No momento em que estamos cientes de nossas próprias responsabilidades e não tomamos a via tangente, aprendemos a exigir a responsabilidade alheia e podemos cobrar até de nossas crianças que tenham uma postura diferenciada nesta sociedade de imbecis extravagantes e mimados.


E assim não teremos peninha dos jovens, mas saberemos decifrar que por trás de toda conduta há o seu quinhão de compromisso e retorno. Não é a pura e simples reprimenda que vai mudar as coisas. Não estamos no terreno dos milagres. É a educação, e não estou falando de escolas. E, novamente as criancinhas grandes (adultos ingênuos), no seu exercício de esquerdismo piedoso vem propalar que a culpa é do Estado, porque não se investe em educação de qualidade. Verborreia já consolidada em qualquer debate. Ora, novamente a cobra morde a cauda e o ciclo se fecha: o Estado somos nós.


O descomprometimento é geral e abstrato. O pai não quer saber, porque o problema da criança é com a mãe. A mãe quer ser independente e moderninha e terceiriza a educação do filho. O filho engole o que o professor arrota e depois aprende a metodologia bestial dos monitores de banca - não é justo chamá-los professores. A mãe, muito ocupada consigo mesma, não quer saber quem respondeu a atividade da criança. Do pai, sabe-se que ainda vive, porque aparece no cenário quando a bomba explode.


E se a escola for pública, talvez nem o professor tenha interesse real pela questão, e se limita em culpar o poder público que paga mal e não valoriza o trabalho docente. O diretor ignora que o professor tenha talvez escassa assiduidade. Se o professor for questionado pode acusar a direção de perseguição e lá vem os sindicatos motivados pelo princípio corporativista, que em sua origem, aliás, remonta à Itália facista.


Mas a direção também tem o rabo preso, porque seu cargo é indicação política da gestão atuante. Bater de frente com os professores gera um desconforto que põe em cheque a sua legitimidade ao cargo, haja vista serem os professores aprovados em concurso de provas e títulos, garantindo-lhes a idoneidade moral que a direção não tem.


E depois é a criança ou o adolescente que fica sem aula. Os pais ausentes reclamam que é tudo um absurdo. Os professores se esteiam nos sindicatos, estes culpam os governos. Por seu turno, todos os governos fazem linha dura, alegando os usuais parcos recursos que não são tão parcos quando o assunto da pauta é reajuste de salário para os agentes dos Poderes Republicanos.


O governo aperta as direções das escolas. Vão cortar o ponto, sob pressão. Professor faz manifestação, é arruaceiro. Governo manda ordem de descer a taca na docência. A Polícia fardada vai com sede para fazer a missão, afinal, pai de família não tem cara e na próxima leva de grevistas com certeza será a Segurança Pública a deixar todos na mão. E, novamente, as crianças e os jovens estarão em casa com as aulas suspensas.


O ciclo continua indefinidamente. A educação não é tratada como questão de família; as manifestações não são compreendidas como um cenário saudável de uma democracia participativa; o corporativismo dos sindicatos é politicamente oportunista; do Executivo sabe-se ser presunçoso e arrogante, indiferentemente quanto à origem partidária alegada. 


Do suplício eleitoral fica entendido que somos os números de uma diferença cada vez mais apertada. Vem os pesquisadores da UNB e prova por A mais B que a urna eletrônica é completamente vulnerável. E todos de pés juntinhos asseveramos ser pessoas de bem e como pessoas de bem que somos, democraticamente amadurecidas, ainda temos que fazer cara de paisagem quando emergem à superfície os pseudo revolucionários de ocasião tentando liberar, pelos poros da democracia (!), os fantasmas de um passado mais do que exorcizado.


Se não formos por nós, quem será?