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26 de junho de 2015

A mulher que eclipsava.








Andava , agitando asas nos pés. Não sentia as pedras na calçada e era como se deslizasse pelos buracos e imperfeições do caminho. Tomara uma via marginal e ali estava tão satisfeita com a escassa movimentação de transeuntes que punha fones de ouvido em altura que comumente não fazia. Não importava o mundo, com suas tolerâncias fingidas, nem as pessoas com seus sentidos relutantes. Havia ela e toda ela estava ali num caminhar sossegado e livre.


Ventava muito. O vento levantava seus cabelos, assanhava-os, fazendo-a sentir-se ainda mais rarefeita, solta também com tudo o que nela podia balançar e esvoaçar-se. Nas ruas por onde passava poder-se-ia dizer que ela era única e, no entanto, tratava-se de um dia como qualquer outro e não se conhecia um evento que lhe dispusesse num ânimo tão particular.


A música a esquivava de pensamentos intrusivos, a envolvia em sensação e atitude, dispersando-a da mediocridade habitual com que alguém pudera fartamente julgá-la. E despreocupadamente seguia, quando lhe espetara uma pequena frustração: ir para casa. Deveria ir para casa, quando o que ela sentia era um prazer imenso por andar, e andar sem destino, andar até exaurir aquela sensação única de satisfação motivada apenas por existir.


Um contrassenso. A casa, a habitação, o abrigo seguro onde nos pomos tanto em alegrias, quanto em adversidades, protegidos por nossa privacidade, alentados com a simplicidade de estarmos sós e nus. E a sua casa era marcada por uma bagunça útil, com livros e papéis por toda a parte. Era possível que conhecesse onde estava cada um daqueles objetos, embora os visitantes de ocasião tivessem a impressão de uma moradora sem referências, dada a balbúrdia do ambiente.


Ela queria o oposto, não a segurança de sua desordem habitual e amena. Ansiava o imprevisto, enquanto fingia previsibilidade. Sim, preferia a discrição. As pessoas se assustam com gente desprovida de fronteiras com fortificações bem sustentadas, erguidas sob a égide da impessoalidade insossa de nossas relações sociais.


E é justo que sob o efeito daquela particular sensação desejasse prosseguir, andar a esmo, descobrir novas paisagens e ser absorvida pela experiência em ser desconhecida e anônima. Estrangeira até para si mesma. Reaprender a ser humana. Batizar-se com uma nova vida, eleger novas companhias ou, simplesmente, evadir-se de todos e penetrar num novo seguimento, o da obscuridade moral.



Levada pela música e violada por esses pensamentos, entrou numa rua familiar. A poucos metros dali, chegaria à sua casa. Cumprimentava a vizinhança como de costume. Aquelas pessoas não faziam ideia de que aquela mulher se inclinava em direção ao seu próprio eclipse.  






13 de abril de 2015

Desposando o recolhimento.



De todas as maneiras de viver, prefiro antes ceder ao recolhimento. O repouso é meu amigo. Nele encontro alento. Dele as palavras despertam. Desposei-o, não me recordo quando. E, desde então, tudo o que dele escapa e subverte me causa estranheza e alheamento.

Ressinto-me da aridez da vida gregária. Muito barulho; cumprimentos ligeiros; conversas rasteiras. Ressinto-me do trânsito e da tendência asfáltica das cidades. Ressinto-me da marcha fúnebre do velho gado em direção às iscas postas em liquidação. Assumi minha dissidência política. Recolho-me.

E por que não falar do amor? Amor, este sonho desfoque de angústias partilhado, na indelicadeza mundana cultivado. Amor reticente este o que temos vivido. Amor que nega ao outro o silêncio devido. Que evita, mais que a morte, a verdade sobre si. Maltrata e devora a alma como um Barba Azul insaciável. Ah! Este amor cultivado em nossos dias... Fujo dele! Assumo minha desinteligência quanto a este ítem. Recolho-me.

Gosto da amizade. Esta me chega tal como um descanso, uma pausa no dia. Porque gosto de conversar, de olhar nos olhos e sorrir despreocupada. Ser amigo é um verdadeiro encanto! Contudo, nem todos procuram um amigo. As pessoas se ressintem do que é simples e gratuito. Preferem cetro e coroa, que é artigo de luxo. Não pactuo com essa espécie de gente. Recolho-me.

A maternidade me veio brindar um instante e eternizá-lo, renovando-se pela vida indefinidamente. Vejo-me subtraindo as várias faces das divinais míticas do Feminino. Todas mães, austeras e afáveis. Todas em vigor e ternura, comprometidas no amor responsável, protetivo e arguto, mas também permissivo da liberdade por busca da própria descendência.

Sinto-me grande, e disto estou certa. Faço malabarismos invisíveis para tornar elástico o tempo. Sou todas e sou una. Essa variação de estados também me inclina ao recolhimento. Tomo a mão do meu Amante e tudo cedo quando aceito o seu abraço como um manto. Aqui estou segura. Posso auscultar o Eterno e fazer as pazes com o efêmero.





26 de fevereiro de 2015

Como os navios balouçantes.







Para que não pensem que deixei de ser indivíduo, mostrei-me a chorar na noite, eu, por causa das coisas que magoam o homem. Estão fora de moda as crises de misticismo e a angústia ante o sofrimento dos homens; e no entanto eu chorava na noite, ainda ontem.

Meditava sobre a quantidade de tempo que o mundo nos obriga a perder, desorientando nossa solidão, criando confusões inteligíveis no meio da confusão ininteligível, orientando nossa solidão para um amplexo no qual o destino de cada um não tem importância.

Muitas vezes ofereci o meu sofrimento em espetáculo, mas, muitas vezes, igualmente, estrangulei o meu coração e trabalhei duramente, igual a qualquer operário. (...)

Quando andava ao longo do mar eu me encontrava comigo. Íamos, o mar e eu, sob chuva. Nunca vi um mar que não estivesse sob a chuva, bem como os seus navios que avançam balouçantes para além do horizonte.

Sou assim. Eu. Balouçante. Nós é uma outra pessoa, na qual me refugio quando estou alegre.


A confusão ininteligível esmaga a confusão inteligível e fico assombrado com a quantidade de tempo que nos é dado a perder. E sofro, e choro na noite, tendo por companheiro uma boa dose de uísque, por mim e por nós, pelas coisas que nos magoam, pelo olho zombeteiro dentro da pálpebra de um azul machucadíssimo.




José Carlos Oliveira, 07 de setembro de 1968.








16 de outubro de 2014

A melancolia de Cecília.




CHUVA

Ainda está chovendo, Maria. Isto não para tão cedo. Dizem que só depois do Carnaval. Dizem que só talvez depois da Semana Santa. Cada um explica a chuva como pode. Um dia, um lavrador me disse: “Não pode deixar de chover por estes dias, pois a senhora não está vendo que o feijão está precisando de chuva para crescer?” Ditoso o mundo nosso, onde a chuva pensa no feijão que a espera, quando se poderia supor que nem as criaturas humanas, entre si, cometessem tal delicadeza...

Ainda está chovendo, Maria. Isto é que foi chuva! Os rios encheram, subiram, transbordaram – as casas eram levadas pela enxurrada, moles como mata-borrão. O moço me disse: “Veja só: é tal qual como a gente vê no cinema”. Ditoso mundo, Maria, onde a vida já se compraz em reproduzir a arte. Mundo às avessas, decerto, mas ditoso, hein?

Cada viajante chegou contando uma proeza maior que a do outro. Houve os que viram cidades inteiras arrasadas, houve os que caminharam léguas a pé, com o corpo metido na lama até a metade, e – pelo visto – com os trens às costas. Então isso não é um mundo ditoso em que os homens sérios, que andam tratando de negócios, se divertem com a sua imaginação como se fossem pobres poetas desacreditados? E as famílias ouvem e concordam. Mundo ditoso, digo, porque e vive de miragem, de sugestão coletiva, de hipnotismo.

Perguntei à Indalécia o que achava de tanta chuva. Esticou um beiço pessimista e me disse em voz baixa (há sempre espíritos maus que podem realizar que podem realizar as predileções agourentas) que todas estas casas podiam vir abaixo. Que o chão ia ficando minado, minado, e de repente... catrapus! Perguntei-lhe se achava ruim e benzeu-se. No entanto, acabara de dizer-me que estava com os filhos todos de cama e só tinha um par de sapatos. Como não há de ser isto um mundo ditoso que até os que não podem viver se recusam a morrer?


Depois eu vi um senhor doente que arma brinquedos de miniatura, brinquedos complicadíssimos, que se fazem com os fios de cabelo, cordas de violino, pedacinhos de madeira, cabeças de alfinete. A peça maior nunca chega ao tamanho de um grão de arroz. Que paciência! Tudo apanhado com pinças, feito como no vácuo, pois um traço de brisa desmancharia toda aquela arquitetura. Disse-me: “Tudo quanto me resta é a vista. Mas também já se vai acabando; e creio que ficarei cego.” “Por que não para com esses brinquedos?” Respondeu-me: “Se eu parar, morro; morrer por morrer, tanto faz ser com vista como cego”. Não, Maria, ditoso é este mundo, onde os vivos sabem que são pré-cadáveres com a maior naturalidade

É por isso que gosto tanto de viajar: aprende-se cada coisa! Podes ler todos os livros: os autores, salvo um ou outro, não gostam desses exemplos vivos e inventam outros, irreais. Já ouviste dizer, por acaso, que existe uma ilha no mundo onde não existem chaves? Pois é, nos Açores. É a ilha do Corvo. Nem chaves de portas, nem de armários, nem de gavetas. É verdade que se trata de uma ilha pequenina, onde todos são parentes. Parentes! Pois não é ditoso um mundo em que se pode ter esperança até nos parentes?

Quando eu estava falando nisso à Indalécia ela sacudiu a cabeça: “Ora, a senhora viu nada. Aqui perto tem uma casa que ainda é melhor: lá, eles não usam nem porta!” Não vês, Maria? O mundo ainda é mais ditoso do que eu pensava. Para que sonhar com a ilha do Corvo, lá longe, entre Portugal e a América? Muito mais ao nosso alcance existe uma casa onde não há portas nem do lado de dentro nem do lado de fora. Sem polícia e sem ladrão!

Uma tarde, passou um enterro. Pensas que havia carro, gente de preto, choro, olhos pregados no chão? Nada disso. Todos iam de cores alegres: vermelho, azul, verde, cor de laranja... Levavam raminhos de flores, como quem vai para uma festa. O caixão era carregado entre sorrisos, brincadeiras, saracoteios. O cortejo entrou na igreja, depois saiu, sempre com a maior felicidade. Afinal, continuou até o cemitério. E eu fui atrás. Só faltava cantarem. O cemitério também tinha cores bonitas, cruzes azuis, giestas floridas... Pois isto não é um mundo ditoso? Lembrei-me de certo coveiro que me disse, há tempos, numa vila: “Esta semana o serviço foi pouco. Só três.” Queria dizer três enterros. Mundo ditoso!


E continua a chover, Maria. Perguntei à Indalécia: “Que mal havia, se o mundo acabasse?” Ficou muito apreensiva. Garantiu-me, porém, que o mundo não vai acabar pela água, mas pelo fogo – o que já nos alivia um pouco de temores imediatos. Quanto às vantagens de se estar vivo, depois de procurar bem, e contar pelos dedos, reduziu-se a isto: “A gente come, a gente dorme, a gente vai ao cinema...” É isso mesmo, Maria, a gente come, a gente dorme, a gente vai ao cinema. Ah, mundo ditoso, eu nasci com endereço errado. Que é que eu tenho contigo? Que vim eu fazer aqui?




Cecília Meireles, 1901-1964. Seleção e prefácio de Leodegário A. de Azevedo Filho. São Paulo: Global, 2003, p. 135-137 – Coleção Melhores Crônicas. Direção Edla van Steen.








19 de maio de 2014

Sobre a água.











No verão passado eu tinha alugado uma pequena chácara às margens do Sena, a várias léguas de Paris, e ia dormir lá todas as noites. Ao cabo de alguns dias, conheci um dos meus vizinhos, um homem de trinta a quarenta anos, no mínimo o tipo mais curioso que jamais vira. Era um velho barqueiro, mas um barqueiro fanático, sempre perto da água, sempre sobre a água, sempre na água. Devia ter nascido num bote, e certamente vai morrer manobrando um bote em sua viagem final.


Num fim de tarde em que passeávamos às margens do Sena, pedi que me contasse algumas aventuras de sua vida de navegante. Eis que imediatamente meu homenzinho ganha vida, se transfigura, torna-se eloquente, quase poeta. Ele trazia no coração uma grande paixão, uma paixão devastadora, irresistível: o rio.


Ah! - ele disse - quantas recordações tenho desse rio que você vê correr aí, tão perto de nós! Vocês, habitantes das cidades, vocês não sabem o que é o rio.


Mas ouçam um pescador pronunciar essa palavra. Para ele, é a coisa misteriosa, profunda, desconhecida, o território das miragens e dos fantasmas, onde vemos, de noite, coisas que não existem, ouvimos ruídos que não conhecemos, tememos sem saber por quê, como ao atravessar um cemitério: e na verdade é o mais sinistro dos cemitérios, aquele onde não existe túmulo.


Para o pescador, a terra é delimitada; e no escuro, quando não há lua, o rio é infinito. Um marinheiro não sente a mesma coisa com relação ao mar. O mar é quase sempre duro e perigoso, é verdade, mas ele grita, esbraveja, ele é leal, o grande mar; ao passo que o rio é silencioso e traiçoeiro. Não ruge, corre sempre sem ruído, e para mim esse eterno movimento da água correndo é mais assustador do que os vagalhões do oceano.


Alguns fantasistas afirmam que o mar esconde em suas entranhas imensos territórios azulados, onde os afogados erram por entre peixes enormes, em meio a misteriosas florestas e grutas de cristal. O rio tem somente profundezas escuras onde se apodrece na vasa. Porém, ele é lindo quando brilha sob o sol nascente, marulhando suavemente entre as margens cobertas de juncos que murmuram.
O poeta, falando do oceano, disse:




Ó vagas, que conheceis lúgubres histórias!
Vagas profundas, temidas pelas mães ajoelhadas, vós,
que vos conteis tais histórias quando as marés são elevadas
E é isso que vos dá dessas vozes desesperadas
Que tendes, à noite, quando vindes até nós.


Pois bem, penso que as histórias sussurradas pelos juncos delgados com suas vozes baixinhas e tão suaves podem ser ainda mais sinistras que os dramas lúgubres contados pelas vociferações das ondas.


Mas já que você pergunta sobre algumas das minhas recordações, vou lhe contar uma aventura esquisita que me aconteceu aqui mesmo, faz uns dez anos.


Eu morava, como ainda hoje, na casa da sra. Lafon, e um de meus melhores companheiros, Louis Bernet - que agora renunciou aos barcos, a seus adereços e a sua displicência para ingressar no Conselho de Estado -, estava instalado no vilarejo de C..., duas léguas abaixo. Jantávamos juntos todas as noites, ora na casa dele, ora na minha.

Uma noite eu voltava sozinho e bastante cansado, trazendo a duras penas meu pesado barco rio acima, umocéan de doze pés que utilizava sempre à noite, e parei alguns segundos para tomar fôlego perto da ponta dos juncos, lá, mais ou menos duzentos metros antes da ponte da estrada de ferro. Era uma noite magnífica; a lua resplandecia, o rio cintilava, a brisa era calma e agradável. Aquela tranquilidade me tentou; disse a mim mesmo que me faria bem fumar meu cachimbo naquele lugar. À ação seguiu o pensamento; peguei a âncora e a joguei no rio.


O bote, que descia outra vez com a correnteza, arriou sua cadeia até o fim e parou; eu me sentei na popa, no meu agasalho de pele, tão comodamente quanto me foi possível. Não se ouvia nada, mas nada mesmo: só de vez em quando eu pensava ouvir um marulhozinho quase imperceptível da água junto à margem, e distinguia os ramos de juncos mais altos, que assumiam formas surpreendentes e, por momentos, pareciam se agitar.


O rio estava perfeitamente tranquilo, mas me senti agitado pelo silêncio extraordinário que me rodeava. Todos os bichos, rãs e sapos, estes cantores noturnos dos charcos, estavam calados. De repente, perto de mim, à minha direita, uma rã coaxou. Estremeci: ela se calou; não ouvi mais nada e decidi fumar um pouco para me distrair. Mas, embora fosse um fumador inveterado, não consegui; na segunda tragada o coração se alterou, e parei. Pus-me a cantarolar: o som da minha voz era insuportável; então me estendi no fundo do bote e olhei para o céu. Durante algum tempo permaneci tranquilo, mas em seguida os pequenos movimentos do barco me inquietaram. Pareceu-me que ele fazia bordejos enormes em zigue-zague, tocando alternadamente as duas margens do rio; depois pensei que algum ser ou força invisível puxava-o lentamente para o fundo da água e o reerguia em seguida para deixá-lo cair de novo. Eu era jogado de um lado a outro, como se no meio de uma tempestade; ouvi ruídos à minha volta; pus-me em pé de um salto: a água cintilava, tudo estava calmo.

Compreendi que eu estava com os nervos um pouco debilitados e decidi ir embora. Puxei a corrente; o barco se pôs em movimento, mas logo senti uma resistência, puxei mais forte, a âncora não veio; ficara presa em alguma coisa no fundo da água e eu não conseguia erguê-la; recomecei a puxar, mas inutilmente. Então apanhei os remos e fiz o barco dar a volta, levando-o a montante para mudar a posição da âncora. Foi em vão, ela continuava presa; fui tomado pela cólera e sacudi a corrente com raiva. Nada se moveu. Desanimado, sentei e comecei a refletir sobre a situação. Eu não podia pensar nem em rebentar a corrente nem em soltá-la da embarcação, porque ela era enorme e estava engastada, na proa, numa tora de madeira mais grossa do que meu braço; mas como o tempo continuava muito bom, imaginei que, sem dúvida, não tardaria a encontrar algum pescador para me socorrer. Meu infortúnio tinha me acalmado; sentei-me e pude, enfim, fumar meu cachimbo. Trazia comigo uma garrafa de rum, bebi dois ou três goles, e até ri da minha situação. Fazia bastante calor, de modo que, em último caso, poderia passar a noite ao relento sem grandes problemas.


De repente, um ligeiro golpe ressoou contra o casco do barco. Levei um susto, e um suor frio me gelou dos pés à cabeça. Aquele barulho vinha sem dúvida de algum toco de madeira trazido pela correnteza, mas fora o suficiente para que eu me sentisse de novo invadido por uma estranha agitação nervosa. Agarrei a corrente e me estiquei todo num esforço desesperado. A âncora não cedeu. Sentei-me outra vez, esgotado.


Nesse meio-tempo, o rio se havia coberto aos poucos com um nevoeiro branco e muito espesso que se arrastava rente à água, de maneira que, pondo--me de pé, eu não via mais o rio, nem meus pés, nem o barco, mas distinguia apenas a ponta dos juncos, e depois, mais ao longe, a planície inteiramente empalidecida pela luz da lua, com grandes manchas escuras subindo ao céu, formadas pelos grupos de álamos. Eu estava como sepultado até a cintura numa espécie de toalha de algodão de uma brancura singular, e vinham-me à mente pensamentos fantásticos. Imaginava que tentavam subir no barco, que eu não conseguia mais enxergar, e que o rio, encoberto por aquele nevoeiro opaco, devia estar cheio de seres estanhos que nadavam à minha volta. Senti um mal-estar horrível, tinha as têmporas comprimidas, meu coração batia a ponto de me sufocar e, perdendo o juízo, pensei em escapar a nado; mas logo essa ideia me provocou um calafrio de pavor. E me vi, perdido, nadando a esmo naquela bruma espessa, me debatendo no meio da vegetação, dos juncos, os quais não poderia evitar, arquejando de medo, não enxergando a margem, não encontrando mais o barco, e eu tinha a impressão de que me sentiria puxado pelos pés, direto ao fundo daquela água escura.


De fato, como eu seria obrigado a subir a correnteza ao menos por uns quinhentos metros, antes de encontrar um lugar livre de vegetação e de juncos onde pudesse dar pé, haveria para mim nove chances em dez de eu não conseguir me orientar no nevoeiro e de me afogar, por melhor nadador que fosse.


Tentei manter a razão. Sentia a vontade bem determinada de não ter medo, mas havia em mim outra coisa além da vontade, e essa outra coisa sentia medo. Me perguntei sobre o que poderia temer; meu eu corajoso debochou do meu eu covarde, e jamais percebi tão clara quanto naquela noite a oposição dos dois seres que existem em nós, um querendo, o outro resistindo, e os dois triunfando alternadamente.


Aquele medo estúpido e inexplicável continuava crescendo e transformava-se em terror. Eu permanecia imóvel, os olhos abertos, o ouvido espichado e à espera. De quê? Eu não sabia, mas devia ser algo terrível. Acho que se um peixe tivesse resolvido saltar fora d'água, como frequentemente acontece, nada mais teria sido preciso para me fazer cair duro, inconsciente.


Entretanto, com um esforço muito grande, terminei por mais ou menos recobrar a razão que me escapava. Apanhei outra vez a garrafa de rum e bebi uma golada. Então tive uma ideia, e me pus a berrar com todas as forças, voltando-me sucessivamente para os quatro pontos do horizonte. Quando a garganta não aguentou mais, escutei - um cão uivava, muito longe.

Bebi de novo e me estendi ao comprido no fundo do barco. Fiquei assim talvez uma hora, talvez duas, sem dormir, os olhos abertos, com pesadelos me rondando. Não tinha coragem de me levantar e no entanto desejava intensamente fazê-lo; adiava de minuto em minuto. Dizia a mim mesmo: "Vamos, de pé!", e tinha medo de fazer um só movimento. Finalmente me reergui cheio de precauções, como se minha vida dependesse do mínimo ruído que eu fizesse, e olhei por cima da borda.


Fui deslumbrado pelo mais maravilhoso, pelo mais surpreendente espetáculo que se possa ver. Era uma dessas aparições do terreno das fadas, uma dessas visões contadas por viajantes que retornam de muito longe e que escutamos sem acreditar.


O nevoeiro que duas horas antes flutuava sobre a água tinha pouco a pouco se retirado e se acumulado junto às margens. Deixando o rio inteiramente livre, ele havia formado sobre cada ribanceira um cerro ininterrupto de seis ou sete metros, que brilhava sob a lua com um esplêndido clarão de neve. De sorte que se via apenas o rio laminado de fogo entre aquelas duas montanhas brancas; e lá em cima, sobre minha cabeça, abria-se, cheia e ampla, uma grande lua brilhante, no meio de um céu azulado e leitoso.


Todos os bichos aquáticos tinham despertado; as rãs coaxavam furiosamente, enquanto, a intervalos regulares, ora à direita, ora à esquerda, eu ouvia essa nota curta, monótona e triste, que a voz metálica dos sapos lança às estrelas. Coisa estranha, eu não sentia mais medo; estava no meio de uma paisagem tão extraordinária que mesmo as maiores excentricidades não teriam conseguido me surpreender.


Quanto tempo aquilo durou, não sei, pois terminara por adormecer. Quando voltei a abrir os olhos, a lua estava encoberta, o céu cheio de nuvens. A água marulhava de forma sinistra, o vento soprava, fazia frio, a escuridão era profunda.


Bebi o que me restava do rum. Em seguida escutei, tiritando, os juncos sendo deslocados e o ruído funesto do rio. Tentei enxergar, mas não pude distinguir nem meu barco nem minhas próprias mãos, que eu trazia para perto dos olhos.


Porém, aos poucos a espessura daquele negror diminuiu. De repente julguei que uma sombra deslizava muito perto de mim; soltei um grito, e uma voz respondeu; era um pescador. Chamei-o, ele se aproximou e eu lhe contei meu problema. Ele então pôs seu barco borda a borda com o meu, e juntos puxamos a corrente. A âncora não se moveu.


O dia começava a raiar, sombrio, cinza, chuvoso, gelado, um daqueles dias que nos trazem tristezas e desgostos. Avistei outro barco, nós o chamamos, gritando com as mãos em concha. O homem que o navegava juntou seu esforço aos nossos; então, pouco a pouco, a âncora foi cedendo. Ela subia, mas devagar, muito devagar, e carregada de um peso considerável. Finalmente distinguimos uma massa escura, e a puxamos para dentro do meu barco:

Era o cadáver de uma velha, com uma enorme pedra amarrada ao pescoço.

(1876)
Guy de Maupassant.




22 de fevereiro de 2014

A solidão.






Um jornalista filantropo disse-me que a solidão é má para o homem, e, em apoio a sua tese, cita, como todos os incrédulos, as palavras dos Padres da Igreja.

Eu sei que o Demônio frequenta prazerosamente os lugares áridos e que o Espírito do assassínio e da lubricidade inflama-se maravilhosamente na solidão. Mas é possível que esta solidão não seja perigosa senão para almas ociosas e divagantes que povoam suas paixões e suas quimeras.

É certo que um tagarela, cujo supremo prazer consiste em falar do alto de um púlpito ou de uma tribuna, se arriscaria a tornar-se um louco furioso na ilha de Robinson. Eu não exijo de meu jornalista as corajosas virtudes de Crusoé, mas peço que ele não acuse os amantes da solidão e do mistério.

Há, em nossas raças faladoras, indivíduos que aceitariam com menos repugnância o suplício supremo se lhes fosse permitido fazer do alto do cadafalso uma copiosa arenga, sem medo de que os tambores de Santerre lhes cortassem intempestivamente a palavra.

Não me apiedo deles, porque adivinho que suas efusões oratórias procuram volúpias iguais àquelas que outros tiram do silêncio e do recolhimento; mas eu os desprezo.

Desejo, sobretudo, que meu maldito jornalista deixe que eu me divirta a meu modo. “O senhor nunca aprova”, disse-me ele, com um tom anasalado muito apóstolico, “a necessidade de compartilhar suas alegrias?” Vejam vocês o sutil invejoso! Ele sabe que desdenho as alegrias dele e vem se insinuando nas minhas, o horroroso estraga-festas.

“Essa grande infelicidade de não poder estar só!...”, disse em algum lugar La Bruyère, como para envergonhar a todos os que correm para se perderem na multidão, temendo, sem dúvida, não poder suportar-se a si mesmos.

“Quase todos os nossos males nos vêm de não termos sabido ficar em nossos quartos”, disse um outro sábio, Pascal, creio, lembrando assim na sua cela de recolhimento todos estes enlouquecidos que procuram a felicidade no movimento e numa prostituição que eu poderia chamar de fraternária, se quisesse falar na bela língua do meu século.

Charles Baudelaire







21 de fevereiro de 2014

Olhos de dentro.





Ontem, para minha filha dormir, estava lendo este trecho do livro “A cor da ternura” da escritora e poeta Geni Guimarães, publicado pela Editora FTD. Esta obra literária resultou no prêmio Jabuti, categoria Melhor Autor Revelação, em 1990. Ao ler o trecho abaixo transcrito, percebi nas suas linhas algo maior que a simples ficção infantil.

O espírito poético enunciado pela linguagem solta e bem-humorada de Geni, permite ao leitor entreter-se e emocionar-se na revolução interior vivenciada pela protagonista mirim, uma heroína ao tempo de seus conflitos íntimos e sociais. Narrado em primeira pessoa, as descobertas e percepções da menina encantam e promovem sensações familiares em quem lê. É, portanto, uma leitura bem vinda para pessoas de qualquer idade.

Os grifos em negrito não fazem parte do texto original.


Afinidades:
Olhos de dentro.

- Viu só? Até ele gostou. – Era a aranhinha ainda ziguezagueando no telhado.
- Que vocês pensavam, eu já sabia. Mas que falavam... Ele quem?
- Seu irmãozinho.
- Ele gostou? Não reparei.
- É. Você não repara no jeito dos outros gostarem. Ou melhor, repara, mas quer que gostar seja do seu modo. Cada um...
- Ele nunca ligou pra mim. Isto eu reparei. Não é mentira.
- E você, algum dia, ligou pra mim?
- Eu?
- É. Nunca ligou pra mim e eu sempre morei aqui.
- Eu não sabia. Desculpe.
- Entendeu agora? Você é que nunca procurou saber direito dos olhos dos outros. Não é destes olhos que eu falo. É dos olhos de dentro.
- Entendi. Mas eu sempre pensei que as outras pessoas e bichos nem soubessem desses olhos de que você fala. Eu, não é querendo ser sabida como os animais, sabia. Não falava porque... Ah, não dá pra contar agora... É uma história muito comprida. Bem, agora vou ligar pra você e pra ele. Mas ele não sabe brincar. E você, sabe? Brinca do quê?
- Todo mundo sabe brincar. Até os grandes. Eu brinco de tanta coisa! De ver, de falar com as crianças, de gargalhar com os olhos, você sabe do que falo.
- Sei. Nunca na vida pensei que você fosse tão sabida. Me ensinou num instantinho essas coisas de ver.
A aranhinha remexeu-se.
- A conversa está boa, mas preciso ir.
- Você vai embora agora que a gente...
- Não, não vou. Ou melhor, não vou de todo. Só tenho umas coisas pra fazer. Não disse que moro aqui?
- Tinha até me esquecido.
O Zezinho chorou no quarto ao lado. Olhei para minha amiga, meio indecisa, mas ela, sabida, ajudou-me.
- Vai lá. Gostar...
Saí correndo.
Ele estava pelado, esperneando. Segurei suas mãozinhas e agasalhei-as entre as minhas. Silenciou, ficou na mudez absorvendo meu afago.
- Eu pensei que você não ligasse pra mim. Deus que me perdoe, mas eu até achava que você era cego por dentro. Desculpe.  Sempre fui meio besta mesmo. Mas, daqui por diante, nem vou ficar triste se os grandes não tiverem tempo. Vou sempre falar com você ou com minha aranhinha, se você estiver dormindo. Se você também precisar dela, está às ordens.
O Zezinho abriu a boca, engoliu minha oferta e estalou os lábios diante do gosto gostoso. Sorriu. Seu hálito morno veio impregnado de perfume de primeira vez.
Bom mesmo foi ter amigos. Não amigos de passos paralelos, com os quais eu só podia falar coisa pensada e repensada para não assustar.
Gostoso foi ter plenitude de voz e atitudes. Falar do que quisesse, ter resposta para tudo e acreditar que tudo era possível, o mundo simples e aberto.
Um dia eu precisava saber quem teria feito o trinquinho da portinha da casa da lua.
- Psssiu! – chamei. – Onde você se escondeu?
Minha aranhinha não respondeu, nem botou a cara nos vãos das telhas.
- Não gosto dessa brincadeira. Você sabe.
Nada.
- Vou contar até três: um, dois, três.
Nem sinal.
Apavorei-me.
Olhos arregalados, revirei todos os cantos do telhado. Não a encontrei.
Empurrei a porta e vi, achatada no batente, pequena, sem cara, sem pernas, seca, minha aranhinha. Só o corpinho estraçalhado grudado na madeira.
Estremeci. Quis pegá-la para tentar ao menos abrir-lhe os olhos de dentro, mas, ao tocá-la, desfez-se em pó e uma rajada de vento espalhou-a por espaços desmedidos.
Comecei a chorar. Não bastava. A tristeza não saía. Quis me morrer, não pude. Me morrer eu não sabia. Gritei:
- Zezinho! Zezinho!
Calei-me porque lembrei que ele não estava. Tinha ido com minha mãe emprestar não sei o que a dona Ernestina.
Saí do quarto e sentei-me na escada para esperá-lo e pedir socorro.
Mas, quando ele chegou, lembrei que não poderia dar a notícia assim de qualquer jeito. Criança é fraca, eu sabia.
Enquanto esperava o momento oportuno, uma dúvida terrível me assaltou.
- Zezinho, você acha que no céu tem comida de aranha?
Ele não respondeu, e eu silenciei perdoando.
- Você acha que o céu de gente é maior ou menor que o céu dos bichos?
Ele de novo não me respondeu e de novo silenciei perdoando.
- Será que Deus mesmo é que põe rubim socado nos machucados de gente morrida ou ele manda São Pedro ou outro santo colocar?
- Chi... Não sei – respondeu ele sem me olhar.
Pegou seu papagaio de jornal e saiu na carreira.
Senti que seus olhos internos, como os olhos dos outros, olhavam agora para outra direção.
Vesgos, se desviaram do meu rumo e me deixavam, desde então, órfã de afinidade e crença.
O Zezinho se misturou nas besteiras dos homens e estes, do tamanho natural, não me davam espaço para alcançá-los, nem faziam nada para que eu, no mínimo, pudesse ter passadas mais longas.
Quando eu perguntava de que cor era o céu, me respondiam o óbvio: bonito, grande, azul etc. Não entendiam que eu queria saber do céu de dentro. Eu queria a polpa, que a casca era visível. Por isso foi que resolvi manter contato com as pessoas só em casos de extrema necessidade.
Ao contrário dos seres humanos, os animais se mostraram amigos e coerentes.
Aprendi a falar com eles. Imitava todo e qualquer pássaro da região. Tirava de letra todas as mensagens dos cães, gatos, cavalos, formigas, baratas etc.
Quando para rir eu imitava as coleirinhas, para negar alguma coisa, latia, ou para pedir, miava, as pessoas começaram a me olhar torto.
Foi por isso que me botaram uma correntinha com um crucifixo no pescoço, aconselhados pelo padre da igrejinha local. Ensinaram-me o pai-nosso-que-estais-no-céu com o seja-feita-a-vossa-vontade.
Fiz todas as vontades, dentro do meu limite de compreensão.
Um dia, a mando de minha mãe, dei um pulinho na horta para buscar couve para o jantar. Acontece que, lá chegando, encontrei uma fila enorme de formigas, que carregavam uma barata morta.
Fiquei terrivelmente amargurada.
Dói a dor dos seus familiares e amigos. Como estariam os filhos, a mãe, o esposo ou esposa?
Achei que seria o cúmulo não mostrar minha dor e solidariedade. Aderi ao ato fúnebre.
Amarga e cabisbaixa, acompanhei-a até a última morada.
Não sei quanto tempo perdi, mas quando cheguei em casa já escurecia e a família estava preocupadíssima com minha demora.
Diante do clima de apreensão, fui logo explicando, naturalmente:
- Não aconteceu nada. É que eu fui acompanhar o enterro da barata.
Foi um silêncio geral. Percebi pelos olhares que havia alguma coisa pior que o atraso. Ou não havia explicado direito?
Pensei então em me fazer compreender. Pus-me a latir desesperadamente. Ao contrário do que eu previa, minha mãe começou a chorar.
Foi assim que nesse mesmo dia, à noite, levaram-me à casa de dona Chica Espanhola. Depois de fazer várias gesticulações estranhas, sentenciou:
- Tem que trazer a menina aqui nove dias seguidos. Está com acompanhamento. O espírito de Zumbi está do lado direito dela. Vou fazer um trabalho especial. Afasto o coisa-ruim e peço a guarda da Menina Izildinha.
Naquela noite, deitei-me com o lado direito espremido contra o colchão de palha. Cochilava e acordava sobressaltada. E se o coisa-ruim, não podendo estar do meu lado direito, montasse nas minhas costas?
Voltava ao sono intranqüilo quando olhava para o oratório e via, entre velas acesas, inúmeros folhetos de orações e imagens de mil santos, que ali foram postos com a responsabilidade de me proteger.
A partir de então camuflei meus latidos. Engoli todos os miados para não denunciar a insistência da minha doença.
Nunca mais “andei de sapo”, mas tinha certeza que ainda estava mal acompanhada, porque falar com os animais eu não falava, não podia, mas vontade não me faltava.
Foi exatamente nessa época, que peguei bicho-de-pé. Fiquei imensamente feliz. A única coisa que atrapalhava é que não podia contar para ninguém, nem para minha mãe, porque quando ela descobria que qualquer um de nós conseguia um, pegava logo uma agulha, queimava a pontinha na labareda da lamparina e cutucava até arrancar o querido bicho do dedo da gente.
Mas eu já não estava só. Com meu bicho-de-pé mantive diálogos longos.
Para ele passava minhas tristezas e alegrias. Havia um fio interno que levava meu pensamento até sua casinha, na curva do dedo do pé. Daí vinha uma coceira gostosa, trazendo-me respostas, consolos. Nossos pensamentos se cruzavam rindo ou chorando. Um dia, diante de tanta felicidade depois do namoro, não resisti. Peguei uma folhinha de calendário que mostrava a figura de um cão enorme com língua de fora e pelos macios. Através dele enviei um recado aos outros amigos:

- Olha, faz favor de dizer pra todo mundo que eu estou muito, muito feliz mesmo. Peguei um lindo bicho-de-pé. Fala que eu não estou de mal de ninguém. É que o espírito de zumbi – fiz o sinal da cruz – está me perseguindo e pode até pegar neles. Juro que nunca, nunca me esqueci de ninguém. Quando o espírito mau for embora e a Santa Izildinha chegar, eu aviso. Por enquanto tchau. Dorme com Deus.