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13 de outubro de 2016

O perigo dos fanáticos.




A honestidade dos estúpidos é mil vezes mais perigosa que a mentira dos inteligentes. É da honestidade dos estúpidos que surgem os fanáticos. Os fanáticos são pessoas honestas que acreditam nos seus pensamentos e nada os dissuade do seu caminho. E porque acreditam na verdade dos seus pensamentos tudo fazem para destruir aqueles que têm ideias diferentes.

RUBEM ALVES






16 de outubro de 2015

Aprender a esquecer. Esquecer para aprender.


Tiana e Naveen em "A princesa e o sapo", Disney.

Era uma vez um lindo príncipe por quem todas as moças se apaixonavam. Por ele também se apaixonou uma bruxa horrenda que o pediu em casamento. O príncipe nem ligou e a bruxa ficou muito brava. “Se não casar comigo não vai se casar com ninguém mais!” Olhou fundo nos olhos dele e disse: “Você vai virar um sapo!” Ao ouvir esta palavra o príncipe sentiu uma estremeção. Teve medo. Acreditou. E ele virou aquilo que a palavra de feitiço tinha dito. Sapo.


Virou um sapo.


Bastou que virasse sapo para que se esquecesse de que era príncipe. Viu-se refletido no espelho real e se espantou: “Sou um sapo. Que é que estou fazendo no palácio do príncipe? Casa de sapo é charco”. E com essas palavras pôs-se a pular na direção do charco. Sentiu-se feliz ao ver lama. Pulou e mergulhou. Finalmente de novo em casa.


Como era sapo, entrou na escola de sapos para aprender as coisas próprias de sapo. Aprendeu a coaxar com voz grossa. Aprendeu a jogar a língua pra fora para apanhar moscas distraídas. Aprendeu a gostar do lodo. Aprendeu que as sapas eram as mais lindas criaturas do universo. Foi aluno bom e aplicado. Memória excelente. Não se esquecia de nada. Daí suas notas boas. Até foi o primeiro colocado nos exames finais, o que provocou a admiração de todos os outros sapos, seus colegas, aparecendo até nos jornais. Quanto mais aprendia as coisas de sapo mais sapo ficava. E quanto mais aprendia a ser sapo, mais se esquecia de que um dia fora príncipe. A aprendizagem é assim: para se aprender de um lado há de se esquecer do outro. Toda aprendizagem produz o esquecimento.


O príncipe ficou enfeitiçado. Mas feitiço - assim nos ensinaram na escola - é coisa que não existe. Só acontece nas estórias de carochinha.


Engano. Feitiço acontece sim. A estória diz a verdade.


Feitiço o que é? Feitiço é quando uma palavra entra no corpo e transforma. O príncipe ficou possuído pela palavra que a bruxa falou. Seu corpo ficou igual à palavra.


A estória do príncipe que virou sapo é a nossa própria estória. Desde que nascemos, continuamente, palavras nos vão sendo ditas. Elas entram no nosso corpo, e ele vai se transformando. Virando uma outra coisa, diferente da que era. Educação é isso: o processo pelo qual os nossos corpos vão ficando iguais às palavras que nos ensinam. Eu não sou eu: eu sou as palavras que os outros plantaram em mim. Como o disse Fernando Pessoa: “Sou o intervalo entre o meu desejo e aquilo que os desejos dos outros fizeram de mim”. Meu corpo é resultado de um enorme feitiço. E os feiticeiros foram muitos: pais, mães, professores, padres, pastores, gurus, líderes, políticos, livros, tv. Meu corpo é um corpo enfeitiçado: porque o meu corpo aprendeu as palavras que lhe foram ditas, ele se esqueceu de outras que, agora permanecem mal... ditas...

Mama Odie em "A princesa e o sapo", Disney.
A psicanálise acredita nisso. Ela vê cada corpo como um sapo dentro do qual está um príncipe esquecido. Seu não é ensinar nada. Seu objetivo é o contrário: des-ensinar ao sapo sua realidade sapal. Fazê-lo esquecer-se do que aprendeu, para que ele possa lembrar-se do que esqueceu. Quebrar o feitiço. Coisa que até mesmo certos filósofos (poucos) percebem. A maioria se dedica ao refinamento da realidade sapal. Também os sapos se dedicam à filosofia... Mas Wittgenstein, filósofo para ninguém botar defeito, definia a filosofia como uma “luta contra o feitiço” que certas palavras exercem sobre nós. Acho que ele acreditava nas estórias de carochinha....


Tudo isso apenas como introdução à enigmática observação com que Barthes encerra sua descrição das metamorfoses do educador. Confissão sobre o lugar onde havia chegado, no momento de velhice. “Há uma idade em que se ensina aquilo que se sabe. Vem, em seguida, uma outra, quando se ensina aquilo que não se sabe. Vem agora, talvez, a idade de uma outra experiência: aquela de desaprender. Deixo-me, então, ser possuído pela força de toda vida viva: o esquecimento...”

Esquecer para lembrar. A psicanálise nenhum interesse tem por aquilo que se sabe. O sabido, lembrado, aprendido, é a realidade sapal, o feitiço que precisa ser quebrado. Imagino que o sapo, vez por outra, se esquecia da letra do coaxar, e no vazio do esquecimento, surgia uma canção. “Desafinou!” berrava os maestros. “Esqueceu-se da lição”, repreendiam os professores. Mas uma jovem que se assentava à beira da lagoa juntava-se a ele, num dueto... E o sapo, assentado na lama, desconfiava...


“Procuro despir-me do que aprendi”, dizia Alberto Caeiro. “Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram, e raspar a tinta com que me pintaram os sentidos, desencaixotar minhas emoções verdadeiras, desembrulhar-me, e ser eu...”

Assim se comportavam os mestres Zen, que nada tinham para ensinar. Apenas ficavam à espreita, esperando o momento de desarticular o aprendido para, através de suas rachaduras, fazer emergir o esquecido. É preciso esquecer para se lembrar. A sabedoria mora no esquecimento.


Acho que o sapo, tão bom aluno, tão bem educado, passava por períodos de depressão. Uma tristeza inexplicável, pois a vida era tão boa, tudo tão certo: a água da lagoa, as moscas distraídas, a sinfonia unânime da saparia, todos de acordo... O sapo não entendia. Não sabia que sua tristeza nada mais era que uma indefinível saudade de uma beleza que esquecera. Procurava que procurava, no meio dos sapos, a cura para sua dor. Inutilmente. Ela estava em outro lugar.
Mas um dia veio o beijo de amor - e ele se lembrou. O feitiço foi quebrado.


Uma bela imagem para um mestre! Uma bela imagem para educador: fazer esquecer para fazer lembrar!


RUBEM ALVES, O sapo.





Uma boa metáfora para o colóquio amoroso.








Era uma vez, uma menina que tinha como seu melhor amigo, um Pássaro Encantado. Ele era encantado por duas razões. Primeiro, porque ele não vivia em gaiolas. Vivia solto. Vinha quando queria. Vinha porque amava. Segundo, porque sempre que voltava suas penas tinham cores diferentes, as cores dos lugares por onde tinha voado. Certa vez, voltou com penas imaculadamente brancas, e ele contou estórias de montanhas cobertas de neve. Outra vez, suas penas estavam vermelhas, e ele contou estórias de desertos incendiados pelo sol. Era grande a felicidade quando estavam juntos. Mas sempre chegava o momento quando o pássaro dizia: “Tenho de partir.” A menina chorava e implorava: “Por favor, não vá fico tão triste. Terei saudades e vou chorar...”

“Eu também terei saudades”, dizia o pássaro. “Eu também vou chorar. Mas vou lhe contar um segredo: eu só sou encantado por causa da saudade que faz com que as minhas penas fiquem bonitas. Se eu não for não haverá saudade. E eu deixarei de ser o Pássaro Encantado e você deixará de me amar.”

E partia. A menina, sozinha, chorava. E foi numa noite de saudade que ela teve a idéia: “Se o Pássaro não puder partir, ele ficará. Se ele ficar, seremos felizes para sempre. E para ele não partir basta que eu o prenda numa gaiola.”

Assim aconteceu. A menina comprou uma gaiola de prata, a mais linda.

Quando o pássaro voltou, eles se abraçaram, ele contou estórias e adormeceu. A menina, aproveitando-se do seu sono, o engaiolou. Quando o pássaro acordou, ele deu um grito de dor.

“Ah! Menina... que é isso que você fez? Quebrou-se o encanto. Minhas penas ficarão feias e eu me esquecerei das estórias. Sem a saudade o amor irá embora...”

A menina não acreditou. Pensou que ele acabaria por acostumar.

Mas não foi isso que aconteceu. Caíram suas plumas e o penacho. Os vermelhos, os verdes e os azuis das penas transformaram-se num cinzento triste. E veio o silêncio: deixou de cantar. Também a menina se entristeceu.

Não era aquele o pássaro que ela amava. E de noite chorava pensando naquilo que havia feito com seu amigo...

Até que não mais aguentou. Abriu a porta da gaiola. “Pode ir, Pássaro”, ela disse. “Volte quando você quiser...”


“Obrigado, menina”, disse o Pássaro. “Irei e voltarei quando ficar encantado de novo. E você sabe: ficarei encantado de novo, quando a saudade voltar dentro de mim e dentro de você!”

RUBEM ALVES, Pássaro Encantado.





Sim, esta é uma ótima metáfora para todo colóquio amoroso, desde os mais fraternos e diluídos amores às manifestações dos amores eróticos. Permito-me, contudo, fazer uma pequena observação, apesar de entender não ser esta a intenção do autor. Um pequeno, e talvez leviano, traço que pincelo com a ousadia de quem protege-se dos universos abismais dos outros, porque de abismos já me servem os meus próprios.


A menina é figura que conota a qualquer pessoa sua própria insegurança, baixa estima, dependência afetiva... Menina na seara arquetípica, aquela que está sempre à espera, que recebe do outro, passivamente, os dons e sentidos para estar satisfeita com a própria existência.


A menina no texto é desprovida de sua própria luz e parece ser uma personagem destituída de vida, enraizada em seus próprios medos e arrastada ela mesma ao abismo de sua solidão. Contrário dela é o Pássaro. Este é a abertura. A transubstanciação de estado em estado, a versatilidade e o dinamismo. É o condutor de alegrias, conhecimentos e um persecutor de sabedoria. E não poderia mesmo ser outro animal, pois se trata do símbolo amorfo e móvel do Ar.


Sejamos mais Pássaros que meninas! E quando nos depararmos com as “meninas” na vida, fujamos delas o mais rápido possível! Não exijamos delas explicações sobre seus estimados pesadelos. E não nos deixemos ser tomados como grandes toras de madeira no dilúvio no qual são arrastadas.


Eu, humana, sou menina e sou Pássaro. A menina está aqui. Sempre pequenina, rodando sozinha e sua pretensão é somente brincar. Contudo, é o meu Pássaro quem me movimenta. Agita-me com o colorido das penas e dá-me uma bicada na fronte só de ver a menina erguer o dedinho.


Meu Pássaro não é tão egoísta, não se vai sozinho. Ele a leva consigo nessa grande brincadeira de viver.








2 de outubro de 2015

Tempus fugit; Carpe diem.





Tomasz Alen Kopera.

"O tempo passa,
Não nos diz nada.
Envelhecemos.
Saibamos, quase maliciosos,
Sentir-nos ir,
Tendo as crianças
Por nossas mestras
E os olhos cheios
De natureza..."
Alberto Caeiro



Kierkegaard diz, em suas meditações por nome Pureza de Coração, que "a pessoa que fala sobre a vida humana, que muda com o decorrer dos anos, deve ter o cuidado de declarar a sua própria idade aos seus ouvintes". Trata-se de um conselho estranho para aqueles que vêem a vida com os olhos da ciência, porque, para eles, os olhos permanecem os mesmos, não são afetados pela passagem do tempo. Um bom par de óculos pode resolver o problema da visão diminuída.


Kierkegaard sabia o que os oftalmologistas não sabem: com a idade, os olhos não ficam mais fracos. Eles ficam diferentes. Sob a luz do sol a pino eles vêem coisas luminosas. Sob a luz do crepúsculo eles começam a ver as criaturas delicadas que não suportam luz em excesso. O amor prefere a luz das velas. Gaston Bachelard, em seu lindo livro A Chama de uma Vela, diz que "parece existir em nós cantos sombrios que toleram apenas uma luz bruxuleante. Um coração sensível gosta de valores frágeis. As fantasias da pequena luz nos levam de volta ao reduto da familiaridade..."


"Assim estão os meus olhos, assim estou eu, pois sou a luz que meus olhos emitem". Não foi isso que Jesus disse (Mateus 6.22)?  Penso que ele aprovaria se me ouvisse dizendo: "Os olhos são as lâmpadas do corpo. Se teus olhos forem crepusculares, crepuscular também será o teu corpo..." Quando se vive sob a luz da manhã, ainda há muito tempo pela frente, e se pensa que a vida começará a ser vivida depois de havermos colocado a casa em ordem. Há tanta coisa para ser feita! Felizmente sabemos que as nossas mãos transformarão o mundo! Marx nos ensinou que é isso o que importa.  E a boca se enche de palavras de ordem e de imperativos éticos e políticos. Ser cristão é fazer! Quando se vive sob a luz crepuscular - a hora do Angelus -,  sabe-se que o trabalho ficou inacabado, o trabalho fica sempre inacabado, o tempo se encarrega de desfazer o que fizemos, as mãos ficam diferentes, deixam de lado as ferramentas, retorna-se ao lar, corpo e alma "voltam ao reduto da familiaridade". Ao meio-dia se fazem trabalho e política. Ao crepúsculo se faz poesia. Ao crepúsculo se sabe que não seremos salvos pelas obras. Ao crepúsculo se retorna à verdade evangélica e protestante que afirma que somente a Palavra nos salvará. Ao crepúsculo comemos palavras: é a hora sacramental, a hora da poesia. Ao crepúsculo se sabe que o que importa é "ser", simplesmente "ser"...


Não, o interesse pelos sofrimentos dos homens não foi perdido. É que na hora crepuscular se compreende que "mundos melhores não são feitos; eles simplesmente nascem" (e.e. Cummings). Há uma revolução que se faz com poesia e alegria. É Neruda que o diz: a Reforma Protestante foi feita com música, cantando. Caminhando e cantando...


O ser diante da chama da vela: só olhos, só fantasia; ou diante de uma sonata de Beethoven (..); ou diante de um poema de Alberto Caeiro:


Tomasz Alen Kopera.
"Sejamos simples e calmos,
Como os regatos e as árvores,
E Deus amar-nos-á fazendo de nós
Belos como as árvores e os regatos
E dar-nos-á verdor na sua primavera
E um rio aonde ir ter quando acabemos..."


Os deuses do meio-dia não são os mesmos do crepúsculo. Interessante notar que o dia bíblico começa com o crepúsculo, quando o sol se põe... Talvez essa seja a maneira certa (já que Deus faz tudo ao contrário): tomar como início aquilo que nossa vã sabedoria sempre achou que fosse o fim. Começar do fim... Aliás, é este o conselho que o matemático polonês Polya dá àqueles que querem aprender a resolver problemas de matemática: "Comece sempre pelo fim!" Se ainda tivéssemos Pitágoras por nosso mestre, diríamos que o que é verdade para a matemática tem de ser verdade também para a alma. Começar pelo fim! Ver a vida inteira sob a luz crepuscular! Ao meio-dia o céu é um imenso mar azul. O tempo está parado, imobilizado. Ao crepúsculo tudo se altera: o mar imóvel se transforma em rio, as águas correm cada vez mais rápidas, as cores se sucedem, o azul passando ao amarelo, ao rosa, ao vermelho, ao roxo, para, finalmente, mergulhar na noite. "Especialmente na medida em que se vai ficando mais velho", diz Alan Watts em seu livro sobre o taoísmo, "vai-se tornando óbvio que as coisas não têm substância, pois o tempo passa cada vez mais rapidamente, de forma que nos tornamos conscientes da liquidez dos sólidos; as pessoas e as coisas se transformam em reflexos e rugas na superfície da água".


Kierkegaard estava certo. É preciso dizer a idade. Os olhos crepusculares não são olhos que vêem menos: são olhos que vêem diferente. Eles vêem sob a perspectiva da morte. Pois é ela, a morte, que se nos aparece ao crepúsculo. É só ela que nos permite ver o crepúsculo.
"As nuvens que se ajuntam ao redor do sol que se põe
ganham suas cores solenes de um olho
que tem atentamente vigiado a mortalidade dos homens..."


Estes são versos de William  Wordsworth. Não, não são as cores lá fora que são belas e tristes. São as cores crepusculares que moram dentro do olhar...


Talvez você tenha-se assustado, quando me referi à morte. É compreensível. A vida inteira ouvimos falar mal dela. E as religiões até fazem tudo para matar a morte, para que não haja crepúsculos no mundo, para que o sol esteja permanentemente a pino. "Mas ao matar a morte a religião nos tira a vida", diz Octávio Paz. "A eternidade despovoa o instante. Porque a vida e a morte são inseparáveis. Tirando-nos o morrer a religião nos tira a vida. Em nome da vida eterna a religião afirma a morte desta vida". O crepúsculo é belo por causa do rio, o fluir do tempo que faz as cores mudarem... (...)

Tomasz Alen Kopera.
 D. Juan, o bruxo do livro de  Castanheda, Viagem a Ixtlan, chama a Morte de "conselheira". Ela nos torna mais sábios. Não é por acaso que a sabedoria está associada à velhice. Hegel dizia que a coruja de Minerva só abre suas asas no crepúsculo. E Roland Barthes, ao ficar velho (mas era bem mais moço do que eu), afirmava que naquele momento ele se entregava ao esquecimento de tudo o que aprendera a fim de poder chegar à sabedoria.


Que sabedoria nos ensina a morte? É simples. Ela só diz duas coisas. Primeiro, nos aponta o crepúsculo, a chama da vela, o rio, e nos diz: Tempus Fugit - o tempo passa e não há forma de segurá-lo. E, logo a seguir, conclui: Carpe Diem - colha o dia como quem colhe um fruto delicioso, pois esse fruto é a dádiva de Deus. Os poetas e artistas têm sabido sempre disso. Porque a arte é isso, pegar o eterno que cintila por um instante no rio do tempo. Como está escrito neste lindo poema de Paul Bouget que Debussy musicou e a Barbra Streisand gravou no maravilhoso CD Classical Barbra:
"Quando, ao sol que se põe,
os rios ficam cor rosa,
e um leve tremor percorre
os campos de trigo,
 parece das coisas surgir uma súplica de felicidade
que sobe até o coração perturbado.
Uma súplica de beber o encanto de se estar no mundo
enquanto se é jovem e a noite é bela.
Pois nós nos vamos,
como se vai esta onda:
Ela, para o mar,
nós para a sepultura..."


Num dos cadernos de Camus encontra-se o seguinte parágrafo: "Os pássaros, durante o dia, voam em todas as direções. Ao cair da noite, entretanto, dir-se-ia que eles voam para um mesmo lugar. Assim, talvez, ao cair da noite da vida..." Eu me sinto assim: ao chegar o crepúsculo, as muitas palavras que escrevi em todas as direções, reduzem-se a algo extremamente simples. Aconteceu assim também com Jorge Luis Borges, já bem mais velho do que eu.


"Se eu pudesse viver novamente a minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros. Não tentaria ser tão perfeito. Relaxaria mais. Seria mais tolo ainda do que tenho sido. Na verdade, bem poucas coisas levaria a sério. Seria até menos higiênico. Correria mais riscos, viajaria mais, contemplaria mais entardeceres,  subiria mais montanhas, nadaria mais rios. Iria a lugares onde  nunca fui, tomaria mais sorvete e menos sopa. Teria mais problemas reais e menos problemas imaginários. Eu fui uma destas pessoas que viveu sensata e produtivamente cada minuto de sua vida. Claro que tive momentos de alegria mas, se pudesse voltar a viver, trataria de ter somente bons momentos. Porque, se não o sabem, disso é feita a vida, só de momentos. Não percam o agora. Eu era um desses que nunca ia a parte alguma sem um termômetro, uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas. Se voltasse a viver, viajaria mais leve. Se eu pudesse voltar a viver, começaria a andar descalço no começo da primavera e continuaria assim até o fim do outono. Daria mais voltas na minha rua, contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças, se tivesse outra vez uma vida pela frente. Mas, já viram, tenho oitenta e cinco anos, e sei que estou morrendo..." (Jorge Luis Borges)


Ricardo Reis disse a mesma coisa num poema mais curto:
"Dia em que não gozaste não foi teu:
Foi só durares nele. Quanto vivas
Sem que o gozes, não vives.
Não pesa que amas, bebas ou sorrias:
Basta o reflexo do sol ido na água
De um charco, se te é grato.
Feliz a quem, por ter em coisas mínimas
Seu prazer posto, nenhum dia nega
A natural ventura".

Tomasz Alen Kopera.

Beber o encanto de estar no mundo! Não importa que ele nos venha em pequenos fragmentos de alegria, de riso, de compaixão, de amizade, de silêncio, arroz e feijão, o abraço de amor, a poesia, as coisas do dia-a-dia. Se você não sabe sobre que estou falando, por favor, leia a poesia de Adélia Prado. São sacramentos, fragmentos de uma felicidade que nos toca de leve, para logo se ir. A felicidade é assim, não é coisa grande que vem para ficar. Sabe disso Guimarães Rosa, que dizia que ela só acontece em raros momentos de distração. Mas é  justo assim que Deus venha, quando estamos distraídos, eternidade num grão de areia, reflexo do sol ido na água de um charco.


Tudo é um grande brinquedo. Brinquedo: coisa mais alegre e efêmera haverá? E é isso que nos ensina a morte, que a vida é brinquedo, não pode ser levada a sério - o que nos torna humildes e livres das alucinações de importância e de poder. Desenhos de conchas na areia, como aquele imenso cavalo-marinho de caracóis que a menina,  do filme O Piano, fez na praia, enquanto sua mãe tocava... Coisas que uma criança faz na praia, casas, castelos, túneis, caminhos...


"E assim, num dia de tempo calmo,
embora estando em ilha distante,
contemplamos o mar imortal
que nos trouxe até aqui,
e vemos na praia as crianças brincando
e ouvimos as fortes águas eternamente
rolando..."
(e.e. Cummings, citando W. Wordsworth)

Logo a maré, durante a noite, apagará tudo, e pela manhã a praia estará maravilhosamente lisa, todas as cicatrizes saradas, como se nada tivesse acontecido. Haverá metáfora mais bela para o perdão? E o brinquedo poderá começar de novo. Aquilo que foi amado deve ser repetido. Por isso afirmamos: "Creio na ressurreição do corpo": o que foi, voltará.


"O que aconteceu acontecerá de novo,
o que já foi feito será  feito de novo,
nada de novo há debaixo do sol"
(Eclesiastes 1.9)
Tempus Fugit.


Tomasz Alen Kopera.

"Vai, portanto, come a tua comida e alegra-te com ela,
bebe o teu vinho com um coração feliz.
Veste-te sempre de branco
e que não falte óleo perfumado nos teus cabelos.
Goza a vida com quem amas todos os dias da tua vida...
Pois Deus já aceitou o que fizeste..."
(Eclesiastes 9.7)

Rubem Alves





16 de setembro de 2014

Feitiço para a alma humana.









No portal de entrada do mundo da feitiçaria se encontram escritas as palavras: “No princípio é a Palavra...”

Feitiçaria é o mundo onde as palavras têm poder. O feiticeiro fala e a palavra, sem o auxílio das mãos, realiza o que diz. Deus diz “Paraíso!”, e um jardim de delícias aparece. A bruxa diz “Sapo!”, e o príncipe se transforma em sapo.

Outro é o mundo da técnica e da ciência: ali as palavras não têm poder. As palavras podem ser ditas à vontade que nada acontece. No mundo da técnica e da ciência as palavras são apenas guias para as mãos. Veja o que faz a cozinheira! Você entenderá o que estou a dizer. Ela lê a receita. Lê para fazer. As palavras dão ordens às mãos. As mãos obedecem e eis um bolo! Assim cooperam ciência e técnica. A ciência dá a receita. Mas quem comeria uma receita? A técnica vem em socorro e transforma as palavras em comida.





Angelus Silesius, místico, escrevia em poesia. Um dos seus poemas diz:



Temos dois olhos.
Com um vemos as coisas do tempo,
efêmeras, que logo desaparecem.
Com o outro vemos as coisas da alma,
eternas, que permanecem.   

O primeiro olho se abre para o mundo. É nele que nascem ciência e técnica, como extensões de olho e mão. Os conhecimentos do mundo do primeiro olho nos dão meios para viver. Sem eles não sobreviveríamos. Mas eles não têm o poder de nos dar alegria.

O segundo olho se abre para esse imenso universo interior a que damos o nome de alma. É nesse mundo que moram o amor, a bondade, a beleza. Nele se encontram as fontes da alegria.

Sou um educador e escrevo para educadores.

O que é um educador? Não é um ser que se encontre ao final de um curso de pedagogia. Diplomas podem fazer professores, mas não têm o poder de gerar educadores. E. E. Cummings disse que mundos melhores não são feitos, eles simplesmente nascem. Digo o mesmo acerca dos educadores: eles não são feitos, eles nascem. Assim nascem também os poetas, os artistas, os profetas.

Duas são as tarefas da educação.     

A primeira delas tem a ver com o primeiro olho: ensinar o mundo que é, a um tempo, nosso corpo e nossa casa.

A segunda tem a ver com o segundo olho: despertar a alma para que o mundo não seja apenas um objeto de conhecimento, mas, acima de tudo, um objeto de deleite. Essa capacidade de degustar o mundo é aquilo a que damos o nome de sabedoria. Sabedoria é usar o conhecimento de forma que o mundo se torne um lugar de felicidade.

A chave para o primeiro mundo é a linguagem da ciência.

A chave para o segundo mundo é a linguagem da poesia.

Essa é uma lição que nos ensinou a psicanálise, embora os poetas e místicos já a soubessem por milênios. O primeiro olho de Angelus Silesius corresponde ao Consciente de Freud. Ali se fala a linguagem das idéias clara e distintas, do saber e do poder.


O segundo olhos de Angelus Silesius corresponde ao Inconsciente de Freud. O Inconsciente não entende a linguagem do Consciente. No Inconsciente se fala a linguagem da poesia, das imagens, das metáforas, das metonímias, do humor, do amor. O Inconsciente é um artista.


É tarefa da educação abrir o primeiro olho. Mas os conhecimentos que moram no primeiro olho, necessários para o poder, não nos dão sabedoria. O sonho dos cientistas do passado de que o conhecimento científico tornaria os seres humanos melhores não se realizou. No momento em que escrevo acontece a guerra no Iraque. Ela é um assombro de ciência e tecnologia. E, ao mesmo tempo, um assombro de estupidez e insensibilidade. A ciência não nos torna sábios.

Daí a necessidade de se abrir o segundo olho. O segundo olho nos leva à alma dos seres humanos onde estão adormecidos os sonhos de beleza e bondade. E, como na estória de Aladim, a porta só se abre quando a palavra certa é pronunciada. “Trouxeste a chave?” A chave é a poesia. A poesia é a palavra que fala a mesma linguagem do nosso corpo. O Verbo se faz carne: o corpo é a poesia encarnada.

Diz uma antiqüíssima tradição que a Virgem Bendita foi engravidada pelo ouvido. Ah! Que linda metáfora para sugerir as relações eróticas entre carne e poesia! Mas não é precisamente isso que é feitiçaria, palavras que engravidam?


(...) Os poetas sempre reconheceram que poesia e magia são irmãs gêmeas. A secreta esperança de todo poeta é que os seus versos realizarão de novo o milagre do nascimento virginal...


Rubem Alves, Lições de feitiçaria: meditações sobre a poesia. Edições Loyola: São Paulo, 2003, p. 11-13.