Hoje se convencionou comemorar o Dia da Mulher, como símbolo
da luta do gênero feminino por liberdade, igualdade e fraternidade humana. São,
como é notório perceber, ideais Iluministas, porém com uma conotação que até
então nenhum respeitável Ilustrado ousou ou pretendeu aplicar.
As mudanças trazidas com o mercado internacional
eurocêntrico e a circulação dos metais nobres assinalaram um desvio na concentração
de poder de que o rei se revestia. Se as classes infrarreais se organizavam
para competir em privilégios, destas, a burguesia dos mercadores e negociantes
era a maior insatisfeita.
Grandes financiadores da corrida por novos domínios e
sustentáculos do Cristianismo, a burguesia se pôs a equacionar novos paradigmas
de acesso ao cume do poder vigente. Nesta batalha, ideológica e política, a
monarquia pendia e fragilmente se equilibrava fazendo concessões até perder-se,
paulatinamente, com a inserção da República.
O racionalismo dos Ilustrados propunha uma reviravolta no
pensamento cultivado até então. A ideia de que o poder soberano provinha de um
Deus único e que ao homem caberia o papel de adorador e cultuador, sem o que
não conquistaria a tão propalada salvação, universo magnífico e de
extraordinária beleza, desprovido de maldade e sofrimento, era uma senda árida
para a maioria, embora oportunamente confortável para alguns afortunados.
Todos os indivíduos alcançam a salvação pela virtude (das
ações) e pela pureza da alma. Na corrente medieval, o homem deveria esforçar-se
para superar seu estado de pecado. Nesse processo, a mulher figurava como filha
e herdeira de Eva, encarnando em si as ideias da inconstância, da sedução, do
engano, da traição, da impureza e da perdição do pecado. Estava confinada no
microcosmo doméstico como forma de restringir o seu raio de ação, a maldade
intrínseca à sua natureza.
Mobilizados pela imersão no resgate ao passado antigo, os chamados
Renascentistas defenderam o humanismo e o antropocentrismo, ao versarem sobre a
idéia de a virtude ser alcançada pelo exercício e disciplina da razão, o
cultivo do saber humano. E foram além, porque pretendiam a manutenção dos
interesses do gênero. Eram ufanistas no
que dizia respeito à sociedade grega, entretanto desdenhavam a função que a
mulher por ali exerceu, ao menos em Creta e Esparta, antes que os povos nórdicos
subvertessem de vez o culto ao sagrado feminino à uma meia dúzia de questões de
ordem do patriarcado.
Tendo em vista a construção de uma nova organização societária,
opunham-se deliberadamente a TUDO o que inspirasse as bases anteriores, o tripé
clero, nobreza feudal e monarquia absolutista. O discurso, porém, não permite a
emancipação dos valores morais quanto à subordinação da vida da mulher à autoridade
masculina próxima.
O jurista Jean Bodin asseverou que as mulheres do seu século
“deviam ser mantidas à distância de todas as magistraturas, postos de comando,
deliberações, assembléias públicas e conselhos, para que se ocupassem dos seus
afazeres femininos e domésticos”. Ao seu entendimento, a mulher era a fonte da
desordem e deveria ser controlada tanto quanto banida toda ideia que inspirasse
uma ginecocracia.
A família era a unidade básica para sustentar e equilibrar o
Estado e como tal, deveria estar alicerçada na autoridade do patriarca para que
cumprisse os requisitos necessários ao seu implemento. Reforçada estava a
doutrina da fragilização e do descrédito quanto à natureza feminina e a crença
na qual esta natureza inspira insegurança e passionalidade. Confirmou-se, com alicerce ideológico
burguês, a exclusão da mulher na participação da estrutura de poder das
sociedades ocidentais.
Apesar de todo aparato discursivo, fielmente elaborado para
sustentar que a razão era atributo do masculino e a paixão do feminino, mesmo
no século XVI, algumas mulheres tinham a oportunidade de cultivar as artes, as ciências
e o mundo das letras. Pertenciam a um seleto grupo, cujo destaque e importância
somente salientam o quanto era abissal a distância entre elas e o cotidiano das
mulheres comuns.
Jean Delumeau registra em ‘A Civilização do Renascimento’ as
poucas e marcantes referências à participação feminina, no século XVI,
inclusive no que tange à tomada da direção política durante a transformação por
que passava o Estado Absolutista:
“As filhas de Thomas
More e as irmãs de Pirckheimer, humanista e matemático de Nuremberga, eram consideradas
as mulheres mais sábias da época e até entendiam em Grego. A esposa de Robert
Estienne, o impressor, Perrete Bade, era versada na língua latina e auxiliava
seu marido na correção de provas. Vittoria Colonna, a marquesa de Pesquera, de
quem Miguel Ângelo à recitava, foi muito talentosa na arte da poesia. Margarida
de Navarra, entendia o italiano, o espanhol e o latim. Foi através de
Margarida, que despertou interesse na França pela filosofia de Platão, e seu
gosto intelectual permaneceu até o fim de seus dias. Era escritora de grande
notabilidade e fazia questão de dar proteção aos letrados, foi uma mulher de
erudição.
(...)
Joana d'Arc mudou o
curso da situação militar que era desesperadora e conduziu a França à sua sorte
que lhe era devida. Isabel, a Católica, absoluta autoritária, proibiu seu
marido de governar Castela. Catarina de Médicis foi importantíssima na história
francesa entre a morte de Henrique II (1559) e a de Carlos IX (1574). Seu nome
ficou ligado ao horrível episódio do massacre da noite de São Bartolomeu.
Isabel I, princesa erudita, reinou durante quarenta e cinco anos a Inglaterra e
deixou desenvolver-se uma personalidade marcante e admirável que perdurou à sua
morte. Isabel não era somente ligada à política no seu país, era também líder
religiosa e foi ela quem fez definir as bases do anglicanismo.
Um modesto passeio pela literatura que encontramos, muitas
vezes, em domínio público, indica o quanto a Razão fundamentou e fortificou o
mito da mulher, ora como uma figura esfíngica dotada de misteriosos poderes e inalcançável,
ora como uma libertina e desfrutável criatura, subdesenvolvida e incapacitada
para contribuir minimamente com o acervo produzido pelo intelecto humano.
Desse modo, utilizando
a redundância mais apropriada, a Ilustrada Razão tolhida de razão foi hábil em perpetuar
mitos que ainda hoje imprimem diversos comportamentos bestiais na rotina das
pessoas por toda a parte. Ainda ontem, quando fui pagar algumas contas de casa, ouvi
um debate entre dois homens, um a defender, de forma bem humorada, certo
domínio que possuem as mulheres para decidir as coisas do lar e orientar os
rumos do relacionamento, e um outro que assegurava que deveriam ser submetidas à
força física do homem como forma de garantir a autoridade viril.
Não cabe a mim desmedir tanto esforço em argumentar o óbvio.
Nas palavras do Ilustrado Voltaire, “É difícil libertar os tolos das amarras que
eles veneram”. A necessidade do uso da violência para sanar o embaraço de ser
questionado é a prova cabal da fragilidade e da passionalidade do indivíduo,
acometido no seu infortúnio chamado existência. A Ilustre Razão provou não ser
tão luminosa quanto se fazia aparentar. O tempo reservou às mulheres o melhor
momento para suas manifestações criativas. Ei-lo aqui e agora.
O problema do feminicídio está ainda longe de ser resolvido.
As raízes do doutrinamento do século XVI tornaram-se profundas, cimentaram a
multiplicidade dos aspectos culturais do ocidente. É necessário formar educadoras, não mães. Educadoras para a
liberdade construtiva em ação diária. Educadoras vorazes pelo reclame à
igualdade nas condições políticas do gênero feminino, especialmente. Educadoras
ativas na implementação dessa fraternidade que evoca o humanismo, um verdadeiro
lume para que nossa convivência seja o menos excludente possível.
Na imagem, Marquesa de Pompadour, considerada uma mulher bela e elegante, culta e dotada de atributos artísticos, pois dizia-se saber tocar e cantar muito bem. Foi amante do rei Luís XV, época em que governou Versalhes e concedia audiências a embaixadores. Tomava decisões quanto à concessões de favores reais.

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