8 de março de 2014

O Dia da Mulher e os valores burgueses arraigados em nosso cotidiano.









Hoje se convencionou comemorar o Dia da Mulher, como símbolo da luta do gênero feminino por liberdade, igualdade e fraternidade humana. São, como é notório perceber, ideais Iluministas, porém com uma conotação que até então nenhum respeitável Ilustrado ousou ou pretendeu aplicar.

As mudanças trazidas com o mercado internacional eurocêntrico e a circulação dos metais nobres assinalaram um desvio na concentração de poder de que o rei se revestia. Se as classes infrarreais se organizavam para competir em privilégios, destas, a burguesia dos mercadores e negociantes era a maior insatisfeita.

Grandes financiadores da corrida por novos domínios e sustentáculos do Cristianismo, a burguesia se pôs a equacionar novos paradigmas de acesso ao cume do poder vigente. Nesta batalha, ideológica e política, a monarquia pendia e fragilmente se equilibrava fazendo concessões até perder-se, paulatinamente, com a inserção da República.

O racionalismo dos Ilustrados propunha uma reviravolta no pensamento cultivado até então. A ideia de que o poder soberano provinha de um Deus único e que ao homem caberia o papel de adorador e cultuador, sem o que não conquistaria a tão propalada salvação, universo magnífico e de extraordinária beleza, desprovido de maldade e sofrimento, era uma senda árida para a maioria, embora oportunamente confortável para alguns afortunados.

Todos os indivíduos alcançam a salvação pela virtude (das ações) e pela pureza da alma. Na corrente medieval, o homem deveria esforçar-se para superar seu estado de pecado. Nesse processo, a mulher figurava como filha e herdeira de Eva, encarnando em si as ideias da inconstância, da sedução, do engano, da traição, da impureza e da perdição do pecado. Estava confinada no microcosmo doméstico como forma de restringir o seu raio de ação, a maldade intrínseca à sua natureza.

Mobilizados pela imersão no resgate ao passado antigo, os chamados Renascentistas defenderam o humanismo e o antropocentrismo, ao versarem sobre a idéia de a virtude ser alcançada pelo exercício e disciplina da razão, o cultivo do saber humano. E foram além, porque pretendiam a manutenção dos interesses do gênero.  Eram ufanistas no que dizia respeito à sociedade grega, entretanto desdenhavam a função que a mulher por ali exerceu, ao menos em Creta e Esparta, antes que os povos nórdicos subvertessem de vez o culto ao sagrado feminino à uma meia dúzia de questões de ordem do patriarcado.

Tendo em vista a construção de uma nova organização societária, opunham-se deliberadamente a TUDO o que inspirasse as bases anteriores, o tripé clero, nobreza feudal e monarquia absolutista. O discurso, porém, não permite a emancipação dos valores morais quanto à subordinação da vida da mulher à autoridade masculina próxima.

O jurista Jean Bodin asseverou que as mulheres do seu século “deviam ser mantidas à distância de todas as magistraturas, postos de comando, deliberações, assembléias públicas e conselhos, para que se ocupassem dos seus afazeres femininos e domésticos”. Ao seu entendimento, a mulher era a fonte da desordem e deveria ser controlada tanto quanto banida toda ideia que inspirasse uma ginecocracia.

A família era a unidade básica para sustentar e equilibrar o Estado e como tal, deveria estar alicerçada na autoridade do patriarca para que cumprisse os requisitos necessários ao seu implemento. Reforçada estava a doutrina da fragilização e do descrédito quanto à natureza feminina e a crença na qual esta natureza inspira insegurança e passionalidade. Confirmou-se, com alicerce ideológico burguês, a exclusão da mulher na participação da estrutura de poder das sociedades ocidentais.

Apesar de todo aparato discursivo, fielmente elaborado para sustentar que a razão era atributo do masculino e a paixão do feminino, mesmo no século XVI, algumas mulheres tinham a oportunidade de cultivar as artes, as ciências e o mundo das letras. Pertenciam a um seleto grupo, cujo destaque e importância somente salientam o quanto era abissal a distância entre elas e o cotidiano das mulheres comuns.

Jean Delumeau registra em ‘A Civilização do Renascimento’ as poucas e marcantes referências à participação feminina, no século XVI, inclusive no que tange à tomada da direção política durante a transformação por que passava o Estado Absolutista:

“As filhas de Thomas More e as irmãs de Pirckheimer, humanista e matemático de Nuremberga, eram consideradas as mulheres mais sábias da época e até entendiam em Grego. A esposa de Robert Estienne, o impressor, Perrete Bade, era versada na língua latina e auxiliava seu marido na correção de provas. Vittoria Colonna, a marquesa de Pesquera, de quem Miguel Ângelo à recitava, foi muito talentosa na arte da poesia. Margarida de Navarra, entendia o italiano, o espanhol e o latim. Foi através de Margarida, que despertou interesse na França pela filosofia de Platão, e seu gosto intelectual permaneceu até o fim de seus dias. Era escritora de grande notabilidade e fazia questão de dar proteção aos letrados, foi uma mulher de erudição.
(...)
Joana d'Arc mudou o curso da situação militar que era desesperadora e conduziu a França à sua sorte que lhe era devida. Isabel, a Católica, absoluta autoritária, proibiu seu marido de governar Castela. Catarina de Médicis foi importantíssima na história francesa entre a morte de Henrique II (1559) e a de Carlos IX (1574). Seu nome ficou ligado ao horrível episódio do massacre da noite de São Bartolomeu. Isabel I, princesa erudita, reinou durante quarenta e cinco anos a Inglaterra e deixou desenvolver-se uma personalidade marcante e admirável que perdurou à sua morte. Isabel não era somente ligada à política no seu país, era também líder religiosa e foi ela quem fez definir as bases do anglicanismo.

Um modesto passeio pela literatura que encontramos, muitas vezes, em domínio público, indica o quanto a Razão fundamentou e fortificou o mito da mulher, ora como uma figura esfíngica dotada de misteriosos poderes e inalcançável, ora como uma libertina e desfrutável criatura, subdesenvolvida e incapacitada para contribuir minimamente com o acervo produzido pelo intelecto humano.

Desse modo, utilizando a redundância mais apropriada, a Ilustrada Razão tolhida de razão foi hábil em perpetuar mitos que ainda hoje imprimem diversos comportamentos bestiais na rotina das pessoas por toda a parte. Ainda ontem, quando fui pagar algumas contas de casa, ouvi um debate entre dois homens, um a defender, de forma bem humorada, certo domínio que possuem as mulheres para decidir as coisas do lar e orientar os rumos do relacionamento, e um outro que assegurava que deveriam ser submetidas à força física do homem como forma de garantir a autoridade viril.

Não cabe a mim desmedir tanto esforço em argumentar o óbvio. Nas palavras do Ilustrado Voltaire, “É difícil libertar os tolos das amarras que eles veneram”. A necessidade do uso da violência para sanar o embaraço de ser questionado é a prova cabal da fragilidade e da passionalidade do indivíduo, acometido no seu infortúnio chamado existência. A Ilustre Razão provou não ser tão luminosa quanto se fazia aparentar. O tempo reservou às mulheres o melhor momento para suas manifestações criativas. Ei-lo aqui e agora.

O problema do feminicídio está ainda longe de ser resolvido. As raízes do doutrinamento do século XVI tornaram-se profundas, cimentaram a multiplicidade dos aspectos culturais do ocidente. É necessário formar educadoras, não mães. Educadoras para a liberdade construtiva em ação diária. Educadoras vorazes pelo reclame à igualdade nas condições políticas do gênero feminino, especialmente. Educadoras ativas na implementação dessa fraternidade que evoca o humanismo, um verdadeiro lume para que nossa convivência seja o menos excludente possível.


Na imagem, Marquesa  de Pompadour, considerada uma mulher bela e elegante, culta e dotada de atributos artísticos, pois dizia-se saber tocar e cantar muito bem. Foi amante do rei Luís XV, época em que governou Versalhes e concedia audiências a embaixadores. Tomava decisões quanto à concessões de favores reais. 



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