27 de junho de 2015

O Estado somos nós, enquanto a porca torce o rabo.





A questão da prisão, pura e simplesmente, não resolve. Constituímo-nos numa sociedade cínica, julgando sempre que o problema não é nosso. Que acontece com os outros e os nossos estão imunes, como se os demais fossem menos humanos. Estamos diante de um problema crônico de nivelamento e mau caratismo, iniciado no âmago das famílias e daí eclode para a vida social.


Concordo com a redução da maioridade penal, sem a hipocrisia moralista de que pode liberar o jovem porque é tudo culpa do Estado. Ora, o Estado somos nós. Quando assumiremos nossa responsabilidade definitiva quanto à educação humana das crianças e dos jovens? Esta cultura está acostumada a transferir responsabilidades. Está arraigado no nosso cotidiano a crença cínica por milagres, quando a maioria assustadora de nossos problemas é por conta da cegueira no exercício da fé, assim entendida como aquela desprovida de um mínimo de coerência e bom senso.


Além disso, há disposição de sobra em crer em discursos construídos para enganar multidões de ovelhas mansas. Nós damos muito crédito a quem se profissionaliza no estelionato moral por meio da palavra e engana descaradamente não uma meia dúzia, mas uma comunidade inteira. Depois, vem outros estelionatários da palavra forjar soluções ultrapassadas para conter e minimizar as ocorrências contemporâneas. E tudo porque não assumimos o erro da crença cega, imprudente e irresponsável, porque não assumimos a responsabilidade e as consequências de mudar nossas escolhas, nossas rotinas, nosso consumo...


Não falo somente de religião, que revela apenas parte do sintoma. Falo de algo mais amplo. Falo de assumir um modo de viver mais comprometido, responsável e coerente. Mais humano e ao mesmo tempo independente. No momento em que estamos cientes de nossas próprias responsabilidades e não tomamos a via tangente, aprendemos a exigir a responsabilidade alheia e podemos cobrar até de nossas crianças que tenham uma postura diferenciada nesta sociedade de imbecis extravagantes e mimados.


E assim não teremos peninha dos jovens, mas saberemos decifrar que por trás de toda conduta há o seu quinhão de compromisso e retorno. Não é a pura e simples reprimenda que vai mudar as coisas. Não estamos no terreno dos milagres. É a educação, e não estou falando de escolas. E, novamente as criancinhas grandes (adultos ingênuos), no seu exercício de esquerdismo piedoso vem propalar que a culpa é do Estado, porque não se investe em educação de qualidade. Verborreia já consolidada em qualquer debate. Ora, novamente a cobra morde a cauda e o ciclo se fecha: o Estado somos nós.


O descomprometimento é geral e abstrato. O pai não quer saber, porque o problema da criança é com a mãe. A mãe quer ser independente e moderninha e terceiriza a educação do filho. O filho engole o que o professor arrota e depois aprende a metodologia bestial dos monitores de banca - não é justo chamá-los professores. A mãe, muito ocupada consigo mesma, não quer saber quem respondeu a atividade da criança. Do pai, sabe-se que ainda vive, porque aparece no cenário quando a bomba explode.


E se a escola for pública, talvez nem o professor tenha interesse real pela questão, e se limita em culpar o poder público que paga mal e não valoriza o trabalho docente. O diretor ignora que o professor tenha talvez escassa assiduidade. Se o professor for questionado pode acusar a direção de perseguição e lá vem os sindicatos motivados pelo princípio corporativista, que em sua origem, aliás, remonta à Itália facista.


Mas a direção também tem o rabo preso, porque seu cargo é indicação política da gestão atuante. Bater de frente com os professores gera um desconforto que põe em cheque a sua legitimidade ao cargo, haja vista serem os professores aprovados em concurso de provas e títulos, garantindo-lhes a idoneidade moral que a direção não tem.


E depois é a criança ou o adolescente que fica sem aula. Os pais ausentes reclamam que é tudo um absurdo. Os professores se esteiam nos sindicatos, estes culpam os governos. Por seu turno, todos os governos fazem linha dura, alegando os usuais parcos recursos que não são tão parcos quando o assunto da pauta é reajuste de salário para os agentes dos Poderes Republicanos.


O governo aperta as direções das escolas. Vão cortar o ponto, sob pressão. Professor faz manifestação, é arruaceiro. Governo manda ordem de descer a taca na docência. A Polícia fardada vai com sede para fazer a missão, afinal, pai de família não tem cara e na próxima leva de grevistas com certeza será a Segurança Pública a deixar todos na mão. E, novamente, as crianças e os jovens estarão em casa com as aulas suspensas.


O ciclo continua indefinidamente. A educação não é tratada como questão de família; as manifestações não são compreendidas como um cenário saudável de uma democracia participativa; o corporativismo dos sindicatos é politicamente oportunista; do Executivo sabe-se ser presunçoso e arrogante, indiferentemente quanto à origem partidária alegada. 


Do suplício eleitoral fica entendido que somos os números de uma diferença cada vez mais apertada. Vem os pesquisadores da UNB e prova por A mais B que a urna eletrônica é completamente vulnerável. E todos de pés juntinhos asseveramos ser pessoas de bem e como pessoas de bem que somos, democraticamente amadurecidas, ainda temos que fazer cara de paisagem quando emergem à superfície os pseudo revolucionários de ocasião tentando liberar, pelos poros da democracia (!), os fantasmas de um passado mais do que exorcizado.


Se não formos por nós, quem será?

















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