Mostrando postagens com marcador Fábula. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Fábula. Mostrar todas as postagens

16 de outubro de 2015

Uma boa metáfora para o colóquio amoroso.








Era uma vez, uma menina que tinha como seu melhor amigo, um Pássaro Encantado. Ele era encantado por duas razões. Primeiro, porque ele não vivia em gaiolas. Vivia solto. Vinha quando queria. Vinha porque amava. Segundo, porque sempre que voltava suas penas tinham cores diferentes, as cores dos lugares por onde tinha voado. Certa vez, voltou com penas imaculadamente brancas, e ele contou estórias de montanhas cobertas de neve. Outra vez, suas penas estavam vermelhas, e ele contou estórias de desertos incendiados pelo sol. Era grande a felicidade quando estavam juntos. Mas sempre chegava o momento quando o pássaro dizia: “Tenho de partir.” A menina chorava e implorava: “Por favor, não vá fico tão triste. Terei saudades e vou chorar...”

“Eu também terei saudades”, dizia o pássaro. “Eu também vou chorar. Mas vou lhe contar um segredo: eu só sou encantado por causa da saudade que faz com que as minhas penas fiquem bonitas. Se eu não for não haverá saudade. E eu deixarei de ser o Pássaro Encantado e você deixará de me amar.”

E partia. A menina, sozinha, chorava. E foi numa noite de saudade que ela teve a idéia: “Se o Pássaro não puder partir, ele ficará. Se ele ficar, seremos felizes para sempre. E para ele não partir basta que eu o prenda numa gaiola.”

Assim aconteceu. A menina comprou uma gaiola de prata, a mais linda.

Quando o pássaro voltou, eles se abraçaram, ele contou estórias e adormeceu. A menina, aproveitando-se do seu sono, o engaiolou. Quando o pássaro acordou, ele deu um grito de dor.

“Ah! Menina... que é isso que você fez? Quebrou-se o encanto. Minhas penas ficarão feias e eu me esquecerei das estórias. Sem a saudade o amor irá embora...”

A menina não acreditou. Pensou que ele acabaria por acostumar.

Mas não foi isso que aconteceu. Caíram suas plumas e o penacho. Os vermelhos, os verdes e os azuis das penas transformaram-se num cinzento triste. E veio o silêncio: deixou de cantar. Também a menina se entristeceu.

Não era aquele o pássaro que ela amava. E de noite chorava pensando naquilo que havia feito com seu amigo...

Até que não mais aguentou. Abriu a porta da gaiola. “Pode ir, Pássaro”, ela disse. “Volte quando você quiser...”


“Obrigado, menina”, disse o Pássaro. “Irei e voltarei quando ficar encantado de novo. E você sabe: ficarei encantado de novo, quando a saudade voltar dentro de mim e dentro de você!”

RUBEM ALVES, Pássaro Encantado.





Sim, esta é uma ótima metáfora para todo colóquio amoroso, desde os mais fraternos e diluídos amores às manifestações dos amores eróticos. Permito-me, contudo, fazer uma pequena observação, apesar de entender não ser esta a intenção do autor. Um pequeno, e talvez leviano, traço que pincelo com a ousadia de quem protege-se dos universos abismais dos outros, porque de abismos já me servem os meus próprios.


A menina é figura que conota a qualquer pessoa sua própria insegurança, baixa estima, dependência afetiva... Menina na seara arquetípica, aquela que está sempre à espera, que recebe do outro, passivamente, os dons e sentidos para estar satisfeita com a própria existência.


A menina no texto é desprovida de sua própria luz e parece ser uma personagem destituída de vida, enraizada em seus próprios medos e arrastada ela mesma ao abismo de sua solidão. Contrário dela é o Pássaro. Este é a abertura. A transubstanciação de estado em estado, a versatilidade e o dinamismo. É o condutor de alegrias, conhecimentos e um persecutor de sabedoria. E não poderia mesmo ser outro animal, pois se trata do símbolo amorfo e móvel do Ar.


Sejamos mais Pássaros que meninas! E quando nos depararmos com as “meninas” na vida, fujamos delas o mais rápido possível! Não exijamos delas explicações sobre seus estimados pesadelos. E não nos deixemos ser tomados como grandes toras de madeira no dilúvio no qual são arrastadas.


Eu, humana, sou menina e sou Pássaro. A menina está aqui. Sempre pequenina, rodando sozinha e sua pretensão é somente brincar. Contudo, é o meu Pássaro quem me movimenta. Agita-me com o colorido das penas e dá-me uma bicada na fronte só de ver a menina erguer o dedinho.


Meu Pássaro não é tão egoísta, não se vai sozinho. Ele a leva consigo nessa grande brincadeira de viver.








9 de agosto de 2015

A inefável refeição.







Havia uma bela colmeia, num arboredo distante, cujo operariado zumbia atribulado pela soberba importância de seu sistema. Não eram propriamente conflituosos seus servis construtores. Alguns, porém, já emitiam sinais de sandice e ferino orgulho de seu labor para a manutenção do edifício.


Quis o destino, passasse por ali, uma pequena cancioneira muito altiva e empertigada. Pousa a sabiá, sacode o rabinho e, ao sentir-se muito à vontade, inicia um insistente e solitário gorjeio. Estava assim, despreocupada da rotina ascética dos insetos que possivelmente ignorava, quando fora abordada por um deles.


Questionada pelo modo como pousara no galho e como, sem a menor das cerimônias, destilava um frenesi de exclamativas e frases melódicas, pausadas de quando em quando. Perturbava a forasteira, com esse comportamento, a pitoresca fisiologia daquela parte do arboral.


À avezinha restou compreender que a laboriosa abelha não poderia tratar de outra coisa que não a sustentação de suas próprias atribuições. E não se deu por vencida. Flertou uma ironia reticente e continuou seus solfejos matutinos. Destes passou aos vespertinos, quando chegou de supetão a intrépida miúda, a friccionar novas reivindicações acerca do espaço por ela ocupado.


“Continuas a perturbar o ambiente com esta vocação para a melancolia, nobre Senhora? Nós que somos festivas e incansáveis, estamos ocupadas demais para sermos ouvintes dos teus dissabores.”


“Não creio que meu canto possa arrefecer tuas ditosas ocupações. Pousei por estes galhos, quando poderia pousar em quaisquer outros. Não te suplico a atenção, já por demais fustigada de tantas responsabilidades.”


“Acaso estás zombando de todas nós? Eu seria mais inteligente! Em tua posição, não te convéns falar em demasiado. Somos uma farta maioria que, embora menores individualmente, em conjunto arrastamos grandes fortunas e multidões.”


“Já que és a fortuna de teu próprio destino, equivocas-te em me terdes por ocupação. Não te usurparei de teu trono, nem cingirei o bico em tua tradição. A mim é soberanamente apreciável sondar as altitudes em todos os nortes.”


“Eu poderia facilmente relevar o estigma que de modo tão arrogante me ofereces. Mas não me inclinarei a fazê-lo. Exijo que te retires e que leves contigo o teu canto e o teu argumento.”


“Posso então saber por que com tal energia me repeles?”


“É que o teu canto por demais nos incomoda. Dissipas a atenção de nossos menestréis. Os soldados já simpatizam com esta débil melodia e, em tudo, crias uma atmosfera frouxa e pachorrenta. E estas asas, e esta penugem? Possuem um colorido estranho, do qual, por mais esforço que faça, não posso tolerar.”


“Não é de minha natureza promover um esforço desmedido em causar-te excessivo incômodo. Deixo o espaço que reivindicas, pois aqui fizeste morada cativa, ao passo que eu, ao agitar das asas, não disponho de âncora, nem de mourão, nem de seta ou de grilhão.”


Dizendo isto, a avezinha levanta as asas e ergue o bico. Em pouco tempo está plainando no horizonte, em direção ao curso leitoso de um rio. Vai como havia chegado, de repente e sem nada protestar em favor de si.


Tudo tornara como dantes. Sem melodias dissonantes, nem coloridos estranhos. E durante algum tempo, é possível afirmar, as coisas estavam bem tranquilas. Cada um desempenhava a função requerida e a engrenagem funcionava a contento para os que dela se alimentavam.


Mas foi numa manhã, quando muitas operárias saíam para um vergel infestado de aromas doces e cítricos, que um fato curioso dava indícios de que algo estava por acontecer. Um focinho irrequieto investigava em todas as direções por ali. Corria agitado um corpanzil de pelagem escura e, em questão de segundos, alcançava os galhos das árvores tal um caçador à guiza de acrobata.


A irara sorriu quando se deu conta do precioso banquete que a aguardava. Levantou a cabecinha para procurar em seu entorno, e iniciava mais uma série de saltos na galeria de folhas tendo uma longa cauda por sustentação. Logo, alcança o galho de uma nobre árvore, onde estava assentado um lauto abelheiro.


Encontrara pois, um repasto melífluo, recheado por larvas e ninfas, e não deu uma de rogada. Espatifou com o auxílio das patas o edifício, árvore abaixo, deixando os insetos atordoados em cima. Correu pelo tronco e foi ter ao chão. Após, concluiu a estripulia num tronco podre, deitado próximo à margem de um rio, onde esperavam dois filhotes para a saudosa ração abocanhada graças à habilidade materna.


A moral da história sugerida é: O Tempo é o grande selo de todas as verdades. Há outras, todavia. Encontre a sua.