16 de outubro de 2014

A melancolia de Cecília.




CHUVA

Ainda está chovendo, Maria. Isto não para tão cedo. Dizem que só depois do Carnaval. Dizem que só talvez depois da Semana Santa. Cada um explica a chuva como pode. Um dia, um lavrador me disse: “Não pode deixar de chover por estes dias, pois a senhora não está vendo que o feijão está precisando de chuva para crescer?” Ditoso o mundo nosso, onde a chuva pensa no feijão que a espera, quando se poderia supor que nem as criaturas humanas, entre si, cometessem tal delicadeza...

Ainda está chovendo, Maria. Isto é que foi chuva! Os rios encheram, subiram, transbordaram – as casas eram levadas pela enxurrada, moles como mata-borrão. O moço me disse: “Veja só: é tal qual como a gente vê no cinema”. Ditoso mundo, Maria, onde a vida já se compraz em reproduzir a arte. Mundo às avessas, decerto, mas ditoso, hein?

Cada viajante chegou contando uma proeza maior que a do outro. Houve os que viram cidades inteiras arrasadas, houve os que caminharam léguas a pé, com o corpo metido na lama até a metade, e – pelo visto – com os trens às costas. Então isso não é um mundo ditoso em que os homens sérios, que andam tratando de negócios, se divertem com a sua imaginação como se fossem pobres poetas desacreditados? E as famílias ouvem e concordam. Mundo ditoso, digo, porque e vive de miragem, de sugestão coletiva, de hipnotismo.

Perguntei à Indalécia o que achava de tanta chuva. Esticou um beiço pessimista e me disse em voz baixa (há sempre espíritos maus que podem realizar que podem realizar as predileções agourentas) que todas estas casas podiam vir abaixo. Que o chão ia ficando minado, minado, e de repente... catrapus! Perguntei-lhe se achava ruim e benzeu-se. No entanto, acabara de dizer-me que estava com os filhos todos de cama e só tinha um par de sapatos. Como não há de ser isto um mundo ditoso que até os que não podem viver se recusam a morrer?


Depois eu vi um senhor doente que arma brinquedos de miniatura, brinquedos complicadíssimos, que se fazem com os fios de cabelo, cordas de violino, pedacinhos de madeira, cabeças de alfinete. A peça maior nunca chega ao tamanho de um grão de arroz. Que paciência! Tudo apanhado com pinças, feito como no vácuo, pois um traço de brisa desmancharia toda aquela arquitetura. Disse-me: “Tudo quanto me resta é a vista. Mas também já se vai acabando; e creio que ficarei cego.” “Por que não para com esses brinquedos?” Respondeu-me: “Se eu parar, morro; morrer por morrer, tanto faz ser com vista como cego”. Não, Maria, ditoso é este mundo, onde os vivos sabem que são pré-cadáveres com a maior naturalidade

É por isso que gosto tanto de viajar: aprende-se cada coisa! Podes ler todos os livros: os autores, salvo um ou outro, não gostam desses exemplos vivos e inventam outros, irreais. Já ouviste dizer, por acaso, que existe uma ilha no mundo onde não existem chaves? Pois é, nos Açores. É a ilha do Corvo. Nem chaves de portas, nem de armários, nem de gavetas. É verdade que se trata de uma ilha pequenina, onde todos são parentes. Parentes! Pois não é ditoso um mundo em que se pode ter esperança até nos parentes?

Quando eu estava falando nisso à Indalécia ela sacudiu a cabeça: “Ora, a senhora viu nada. Aqui perto tem uma casa que ainda é melhor: lá, eles não usam nem porta!” Não vês, Maria? O mundo ainda é mais ditoso do que eu pensava. Para que sonhar com a ilha do Corvo, lá longe, entre Portugal e a América? Muito mais ao nosso alcance existe uma casa onde não há portas nem do lado de dentro nem do lado de fora. Sem polícia e sem ladrão!

Uma tarde, passou um enterro. Pensas que havia carro, gente de preto, choro, olhos pregados no chão? Nada disso. Todos iam de cores alegres: vermelho, azul, verde, cor de laranja... Levavam raminhos de flores, como quem vai para uma festa. O caixão era carregado entre sorrisos, brincadeiras, saracoteios. O cortejo entrou na igreja, depois saiu, sempre com a maior felicidade. Afinal, continuou até o cemitério. E eu fui atrás. Só faltava cantarem. O cemitério também tinha cores bonitas, cruzes azuis, giestas floridas... Pois isto não é um mundo ditoso? Lembrei-me de certo coveiro que me disse, há tempos, numa vila: “Esta semana o serviço foi pouco. Só três.” Queria dizer três enterros. Mundo ditoso!


E continua a chover, Maria. Perguntei à Indalécia: “Que mal havia, se o mundo acabasse?” Ficou muito apreensiva. Garantiu-me, porém, que o mundo não vai acabar pela água, mas pelo fogo – o que já nos alivia um pouco de temores imediatos. Quanto às vantagens de se estar vivo, depois de procurar bem, e contar pelos dedos, reduziu-se a isto: “A gente come, a gente dorme, a gente vai ao cinema...” É isso mesmo, Maria, a gente come, a gente dorme, a gente vai ao cinema. Ah, mundo ditoso, eu nasci com endereço errado. Que é que eu tenho contigo? Que vim eu fazer aqui?




Cecília Meireles, 1901-1964. Seleção e prefácio de Leodegário A. de Azevedo Filho. São Paulo: Global, 2003, p. 135-137 – Coleção Melhores Crônicas. Direção Edla van Steen.








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