CHUVA
Ainda está chovendo,
Maria. Isto não para tão cedo. Dizem que só depois do Carnaval. Dizem que só
talvez depois da Semana Santa. Cada um explica a chuva como pode. Um dia, um
lavrador me disse: “Não pode deixar de chover por estes dias, pois a senhora
não está vendo que o feijão está precisando de chuva para crescer?” Ditoso o
mundo nosso, onde a chuva pensa no feijão que a espera, quando se poderia supor
que nem as criaturas humanas, entre si, cometessem tal delicadeza...
Ainda está chovendo, Maria.
Isto é que foi chuva! Os rios encheram, subiram, transbordaram – as casas eram
levadas pela enxurrada, moles como mata-borrão. O moço me disse: “Veja só: é
tal qual como a gente vê no cinema”. Ditoso mundo, Maria, onde a vida já se
compraz em reproduzir a arte. Mundo às avessas, decerto, mas ditoso, hein?
Cada viajante chegou
contando uma proeza maior que a do outro. Houve os que viram cidades inteiras
arrasadas, houve os que caminharam léguas a pé, com o corpo metido na lama até
a metade, e – pelo visto – com os trens às costas. Então isso não é um mundo
ditoso em que os homens sérios, que andam tratando de negócios, se divertem com
a sua imaginação como se fossem pobres poetas desacreditados? E as famílias
ouvem e concordam. Mundo ditoso, digo, porque e vive de miragem, de sugestão
coletiva, de hipnotismo.
Perguntei à Indalécia o
que achava de tanta chuva. Esticou um beiço pessimista e me disse em voz baixa
(há sempre espíritos maus que podem realizar que podem realizar as predileções
agourentas) que todas estas casas podiam vir abaixo. Que o chão ia ficando
minado, minado, e de repente... catrapus! Perguntei-lhe se achava ruim e
benzeu-se. No entanto, acabara de dizer-me que estava com os filhos todos de
cama e só tinha um par de sapatos. Como não há de ser isto um mundo ditoso que
até os que não podem viver se recusam a morrer?
Depois eu vi um senhor
doente que arma brinquedos de miniatura, brinquedos complicadíssimos, que se
fazem com os fios de cabelo, cordas de violino, pedacinhos de madeira, cabeças
de alfinete. A peça maior nunca chega ao tamanho de um grão de arroz. Que
paciência! Tudo apanhado com pinças, feito como no vácuo, pois um traço de
brisa desmancharia toda aquela arquitetura. Disse-me: “Tudo quanto me resta é a
vista. Mas também já se vai acabando; e creio que ficarei cego.” “Por que não
para com esses brinquedos?” Respondeu-me: “Se eu parar, morro; morrer por
morrer, tanto faz ser com vista como cego”. Não, Maria, ditoso é este mundo, onde
os vivos sabem que são pré-cadáveres com a maior naturalidade
É por isso que gosto
tanto de viajar: aprende-se cada coisa! Podes ler todos os livros: os autores,
salvo um ou outro, não gostam desses exemplos vivos e inventam outros, irreais.
Já ouviste dizer, por acaso, que existe uma ilha no mundo onde não existem
chaves? Pois é, nos Açores. É a ilha do Corvo. Nem chaves de portas, nem de
armários, nem de gavetas. É verdade que se trata de uma ilha pequenina, onde
todos são parentes. Parentes! Pois não é ditoso um mundo em que se pode ter
esperança até nos parentes?
Quando eu estava falando
nisso à Indalécia ela sacudiu a cabeça: “Ora, a senhora viu nada. Aqui perto
tem uma casa que ainda é melhor: lá, eles não usam nem porta!” Não vês, Maria?
O mundo ainda é mais ditoso do que eu pensava. Para que sonhar com a ilha do
Corvo, lá longe, entre Portugal e a América? Muito mais ao nosso alcance existe
uma casa onde não há portas nem do lado de dentro nem do lado de fora. Sem
polícia e sem ladrão!
Uma tarde, passou um
enterro. Pensas que havia carro, gente de preto, choro, olhos pregados no chão?
Nada disso. Todos iam de cores alegres: vermelho, azul, verde, cor de
laranja... Levavam raminhos de flores, como quem vai para uma festa. O caixão
era carregado entre sorrisos, brincadeiras, saracoteios. O cortejo entrou na
igreja, depois saiu, sempre com a maior felicidade. Afinal, continuou até o
cemitério. E eu fui atrás. Só faltava cantarem. O cemitério também tinha cores
bonitas, cruzes azuis, giestas floridas... Pois isto não é um mundo ditoso?
Lembrei-me de certo coveiro que me disse, há tempos, numa vila: “Esta semana o
serviço foi pouco. Só três.” Queria dizer três enterros. Mundo ditoso!
E continua a chover,
Maria. Perguntei à Indalécia: “Que mal havia, se o mundo acabasse?” Ficou muito
apreensiva. Garantiu-me, porém, que o mundo não vai acabar pela água, mas pelo
fogo – o que já nos alivia um pouco de temores imediatos. Quanto às vantagens
de se estar vivo, depois de procurar bem, e contar pelos dedos, reduziu-se a
isto: “A gente come, a gente dorme, a gente vai ao cinema...” É isso mesmo,
Maria, a gente come, a gente dorme, a gente vai ao cinema. Ah, mundo ditoso, eu
nasci com endereço errado. Que é que eu tenho contigo? Que vim eu fazer aqui?
Cecília Meireles, 1901-1964. Seleção e prefácio de Leodegário
A. de Azevedo Filho. São Paulo: Global, 2003, p. 135-137 – Coleção Melhores
Crônicas. Direção Edla van Steen.
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