26 de fevereiro de 2015

Como os navios balouçantes.







Para que não pensem que deixei de ser indivíduo, mostrei-me a chorar na noite, eu, por causa das coisas que magoam o homem. Estão fora de moda as crises de misticismo e a angústia ante o sofrimento dos homens; e no entanto eu chorava na noite, ainda ontem.

Meditava sobre a quantidade de tempo que o mundo nos obriga a perder, desorientando nossa solidão, criando confusões inteligíveis no meio da confusão ininteligível, orientando nossa solidão para um amplexo no qual o destino de cada um não tem importância.

Muitas vezes ofereci o meu sofrimento em espetáculo, mas, muitas vezes, igualmente, estrangulei o meu coração e trabalhei duramente, igual a qualquer operário. (...)

Quando andava ao longo do mar eu me encontrava comigo. Íamos, o mar e eu, sob chuva. Nunca vi um mar que não estivesse sob a chuva, bem como os seus navios que avançam balouçantes para além do horizonte.

Sou assim. Eu. Balouçante. Nós é uma outra pessoa, na qual me refugio quando estou alegre.


A confusão ininteligível esmaga a confusão inteligível e fico assombrado com a quantidade de tempo que nos é dado a perder. E sofro, e choro na noite, tendo por companheiro uma boa dose de uísque, por mim e por nós, pelas coisas que nos magoam, pelo olho zombeteiro dentro da pálpebra de um azul machucadíssimo.




José Carlos Oliveira, 07 de setembro de 1968.








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