Para que não pensem que deixei de ser
indivíduo, mostrei-me a chorar na noite, eu, por causa das coisas que magoam o
homem. Estão fora de moda as crises de misticismo e a angústia ante o sofrimento
dos homens; e no entanto eu chorava na noite, ainda ontem.
Meditava sobre a quantidade de tempo que o
mundo nos obriga a perder, desorientando nossa solidão, criando confusões
inteligíveis no meio da confusão ininteligível, orientando nossa solidão para
um amplexo no qual o destino de cada um não tem importância.
Muitas vezes ofereci o meu sofrimento em
espetáculo, mas, muitas vezes, igualmente, estrangulei o meu coração e
trabalhei duramente, igual a qualquer operário. (...)
Quando andava ao longo do mar eu me
encontrava comigo. Íamos, o mar e eu, sob chuva. Nunca vi um mar que não
estivesse sob a chuva, bem como os seus navios que avançam balouçantes para
além do horizonte.
Sou assim. Eu. Balouçante. Nós é uma outra
pessoa, na qual me refugio quando estou alegre.
A confusão ininteligível esmaga a confusão
inteligível e fico assombrado com a quantidade de tempo que nos é dado a
perder. E sofro, e choro na noite, tendo por companheiro uma boa dose de
uísque, por mim e por nós, pelas coisas que nos magoam, pelo olho zombeteiro
dentro da pálpebra de um azul machucadíssimo.
José Carlos Oliveira, 07 de setembro de 1968.

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