13 de abril de 2015

Desposando o recolhimento.



De todas as maneiras de viver, prefiro antes ceder ao recolhimento. O repouso é meu amigo. Nele encontro alento. Dele as palavras despertam. Desposei-o, não me recordo quando. E, desde então, tudo o que dele escapa e subverte me causa estranheza e alheamento.

Ressinto-me da aridez da vida gregária. Muito barulho; cumprimentos ligeiros; conversas rasteiras. Ressinto-me do trânsito e da tendência asfáltica das cidades. Ressinto-me da marcha fúnebre do velho gado em direção às iscas postas em liquidação. Assumi minha dissidência política. Recolho-me.

E por que não falar do amor? Amor, este sonho desfoque de angústias partilhado, na indelicadeza mundana cultivado. Amor reticente este o que temos vivido. Amor que nega ao outro o silêncio devido. Que evita, mais que a morte, a verdade sobre si. Maltrata e devora a alma como um Barba Azul insaciável. Ah! Este amor cultivado em nossos dias... Fujo dele! Assumo minha desinteligência quanto a este ítem. Recolho-me.

Gosto da amizade. Esta me chega tal como um descanso, uma pausa no dia. Porque gosto de conversar, de olhar nos olhos e sorrir despreocupada. Ser amigo é um verdadeiro encanto! Contudo, nem todos procuram um amigo. As pessoas se ressintem do que é simples e gratuito. Preferem cetro e coroa, que é artigo de luxo. Não pactuo com essa espécie de gente. Recolho-me.

A maternidade me veio brindar um instante e eternizá-lo, renovando-se pela vida indefinidamente. Vejo-me subtraindo as várias faces das divinais míticas do Feminino. Todas mães, austeras e afáveis. Todas em vigor e ternura, comprometidas no amor responsável, protetivo e arguto, mas também permissivo da liberdade por busca da própria descendência.

Sinto-me grande, e disto estou certa. Faço malabarismos invisíveis para tornar elástico o tempo. Sou todas e sou una. Essa variação de estados também me inclina ao recolhimento. Tomo a mão do meu Amante e tudo cedo quando aceito o seu abraço como um manto. Aqui estou segura. Posso auscultar o Eterno e fazer as pazes com o efêmero.





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