De todas as maneiras de viver, prefiro antes
ceder ao recolhimento. O repouso é meu amigo. Nele encontro alento. Dele as
palavras despertam. Desposei-o, não me recordo quando. E, desde então, tudo o
que dele escapa e subverte me causa estranheza e alheamento.
Ressinto-me da aridez da vida gregária. Muito
barulho; cumprimentos ligeiros; conversas rasteiras. Ressinto-me do trânsito e
da tendência asfáltica das cidades. Ressinto-me da marcha fúnebre do velho gado
em direção às iscas postas em liquidação. Assumi minha dissidência política.
Recolho-me.
E por que não falar do amor? Amor, este sonho
desfoque de angústias partilhado, na indelicadeza mundana cultivado. Amor
reticente este o que temos vivido. Amor que nega ao outro o silêncio devido.
Que evita, mais que a morte, a verdade sobre si. Maltrata e devora a alma como
um Barba Azul insaciável. Ah! Este amor cultivado em nossos dias... Fujo dele!
Assumo minha desinteligência quanto a este ítem. Recolho-me.
Gosto da amizade. Esta me chega tal como um
descanso, uma pausa no dia. Porque gosto de conversar, de olhar nos olhos e
sorrir despreocupada. Ser amigo é um verdadeiro encanto! Contudo, nem todos
procuram um amigo. As pessoas se ressintem do que é simples e gratuito.
Preferem cetro e coroa, que é artigo de luxo. Não pactuo com essa espécie de
gente. Recolho-me.
A maternidade me veio brindar um instante e
eternizá-lo, renovando-se pela vida indefinidamente. Vejo-me subtraindo as
várias faces das divinais míticas do Feminino. Todas mães, austeras e afáveis.
Todas em vigor e ternura, comprometidas no amor responsável, protetivo e arguto,
mas também permissivo da liberdade por busca da própria descendência.
Sinto-me grande, e disto estou certa. Faço
malabarismos invisíveis para tornar elástico o tempo. Sou todas e sou una. Essa
variação de estados também me inclina ao recolhimento. Tomo a mão do meu Amante
e tudo cedo quando aceito o seu abraço como um manto. Aqui estou segura. Posso
auscultar o Eterno e fazer as pazes com o efêmero.

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