26 de junho de 2015

A mulher que eclipsava.








Andava , agitando asas nos pés. Não sentia as pedras na calçada e era como se deslizasse pelos buracos e imperfeições do caminho. Tomara uma via marginal e ali estava tão satisfeita com a escassa movimentação de transeuntes que punha fones de ouvido em altura que comumente não fazia. Não importava o mundo, com suas tolerâncias fingidas, nem as pessoas com seus sentidos relutantes. Havia ela e toda ela estava ali num caminhar sossegado e livre.


Ventava muito. O vento levantava seus cabelos, assanhava-os, fazendo-a sentir-se ainda mais rarefeita, solta também com tudo o que nela podia balançar e esvoaçar-se. Nas ruas por onde passava poder-se-ia dizer que ela era única e, no entanto, tratava-se de um dia como qualquer outro e não se conhecia um evento que lhe dispusesse num ânimo tão particular.


A música a esquivava de pensamentos intrusivos, a envolvia em sensação e atitude, dispersando-a da mediocridade habitual com que alguém pudera fartamente julgá-la. E despreocupadamente seguia, quando lhe espetara uma pequena frustração: ir para casa. Deveria ir para casa, quando o que ela sentia era um prazer imenso por andar, e andar sem destino, andar até exaurir aquela sensação única de satisfação motivada apenas por existir.


Um contrassenso. A casa, a habitação, o abrigo seguro onde nos pomos tanto em alegrias, quanto em adversidades, protegidos por nossa privacidade, alentados com a simplicidade de estarmos sós e nus. E a sua casa era marcada por uma bagunça útil, com livros e papéis por toda a parte. Era possível que conhecesse onde estava cada um daqueles objetos, embora os visitantes de ocasião tivessem a impressão de uma moradora sem referências, dada a balbúrdia do ambiente.


Ela queria o oposto, não a segurança de sua desordem habitual e amena. Ansiava o imprevisto, enquanto fingia previsibilidade. Sim, preferia a discrição. As pessoas se assustam com gente desprovida de fronteiras com fortificações bem sustentadas, erguidas sob a égide da impessoalidade insossa de nossas relações sociais.


E é justo que sob o efeito daquela particular sensação desejasse prosseguir, andar a esmo, descobrir novas paisagens e ser absorvida pela experiência em ser desconhecida e anônima. Estrangeira até para si mesma. Reaprender a ser humana. Batizar-se com uma nova vida, eleger novas companhias ou, simplesmente, evadir-se de todos e penetrar num novo seguimento, o da obscuridade moral.



Levada pela música e violada por esses pensamentos, entrou numa rua familiar. A poucos metros dali, chegaria à sua casa. Cumprimentava a vizinhança como de costume. Aquelas pessoas não faziam ideia de que aquela mulher se inclinava em direção ao seu próprio eclipse.  






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