Andava , agitando asas nos pés. Não sentia as pedras na calçada e era como se deslizasse pelos buracos e imperfeições do caminho. Tomara uma via marginal e ali estava tão satisfeita com a escassa movimentação de transeuntes que punha fones de ouvido em altura que comumente não fazia. Não importava o mundo, com suas tolerâncias fingidas, nem as pessoas com seus sentidos relutantes. Havia ela e toda ela estava ali num caminhar sossegado e livre.
Ventava muito. O vento levantava seus
cabelos, assanhava-os, fazendo-a sentir-se ainda mais rarefeita, solta também
com tudo o que nela podia balançar e esvoaçar-se. Nas ruas por onde passava
poder-se-ia dizer que ela era única e, no entanto, tratava-se de um dia como
qualquer outro e não se conhecia um evento que lhe dispusesse num ânimo tão
particular.
A música a esquivava de pensamentos
intrusivos, a envolvia em sensação e atitude, dispersando-a da mediocridade
habitual com que alguém pudera fartamente julgá-la. E despreocupadamente
seguia, quando lhe espetara uma pequena frustração: ir para casa. Deveria ir
para casa, quando o que ela sentia era um prazer imenso por andar, e andar sem
destino, andar até exaurir aquela sensação única de satisfação motivada
apenas por existir.
Um contrassenso. A casa, a habitação,
o abrigo seguro onde nos pomos tanto em alegrias, quanto em adversidades, protegidos
por nossa privacidade, alentados com a simplicidade de estarmos sós e nus. E a
sua casa era marcada por uma bagunça útil, com livros e papéis por toda a parte.
Era possível que conhecesse onde estava cada um daqueles objetos, embora os
visitantes de ocasião tivessem a impressão de uma moradora sem referências,
dada a balbúrdia do ambiente.
Ela queria o oposto, não a segurança
de sua desordem habitual e amena. Ansiava o imprevisto, enquanto fingia previsibilidade.
Sim, preferia a discrição. As pessoas se assustam com gente desprovida de fronteiras
com fortificações bem sustentadas, erguidas sob a égide da impessoalidade
insossa de nossas relações sociais.
E é justo que sob o efeito daquela particular
sensação desejasse prosseguir, andar a esmo, descobrir novas paisagens e ser
absorvida pela experiência em ser desconhecida e anônima. Estrangeira até para
si mesma. Reaprender a ser humana. Batizar-se com uma nova vida, eleger novas
companhias ou, simplesmente, evadir-se de todos e penetrar num novo seguimento, o
da obscuridade moral.
Levada pela música e violada por esses
pensamentos, entrou numa rua familiar. A poucos metros dali,
chegaria à sua casa. Cumprimentava a vizinhança como de costume. Aquelas
pessoas não faziam ideia de que aquela mulher se inclinava em direção ao seu
próprio eclipse.

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