21 de fevereiro de 2014

Olhos de dentro.





Ontem, para minha filha dormir, estava lendo este trecho do livro “A cor da ternura” da escritora e poeta Geni Guimarães, publicado pela Editora FTD. Esta obra literária resultou no prêmio Jabuti, categoria Melhor Autor Revelação, em 1990. Ao ler o trecho abaixo transcrito, percebi nas suas linhas algo maior que a simples ficção infantil.

O espírito poético enunciado pela linguagem solta e bem-humorada de Geni, permite ao leitor entreter-se e emocionar-se na revolução interior vivenciada pela protagonista mirim, uma heroína ao tempo de seus conflitos íntimos e sociais. Narrado em primeira pessoa, as descobertas e percepções da menina encantam e promovem sensações familiares em quem lê. É, portanto, uma leitura bem vinda para pessoas de qualquer idade.

Os grifos em negrito não fazem parte do texto original.


Afinidades:
Olhos de dentro.

- Viu só? Até ele gostou. – Era a aranhinha ainda ziguezagueando no telhado.
- Que vocês pensavam, eu já sabia. Mas que falavam... Ele quem?
- Seu irmãozinho.
- Ele gostou? Não reparei.
- É. Você não repara no jeito dos outros gostarem. Ou melhor, repara, mas quer que gostar seja do seu modo. Cada um...
- Ele nunca ligou pra mim. Isto eu reparei. Não é mentira.
- E você, algum dia, ligou pra mim?
- Eu?
- É. Nunca ligou pra mim e eu sempre morei aqui.
- Eu não sabia. Desculpe.
- Entendeu agora? Você é que nunca procurou saber direito dos olhos dos outros. Não é destes olhos que eu falo. É dos olhos de dentro.
- Entendi. Mas eu sempre pensei que as outras pessoas e bichos nem soubessem desses olhos de que você fala. Eu, não é querendo ser sabida como os animais, sabia. Não falava porque... Ah, não dá pra contar agora... É uma história muito comprida. Bem, agora vou ligar pra você e pra ele. Mas ele não sabe brincar. E você, sabe? Brinca do quê?
- Todo mundo sabe brincar. Até os grandes. Eu brinco de tanta coisa! De ver, de falar com as crianças, de gargalhar com os olhos, você sabe do que falo.
- Sei. Nunca na vida pensei que você fosse tão sabida. Me ensinou num instantinho essas coisas de ver.
A aranhinha remexeu-se.
- A conversa está boa, mas preciso ir.
- Você vai embora agora que a gente...
- Não, não vou. Ou melhor, não vou de todo. Só tenho umas coisas pra fazer. Não disse que moro aqui?
- Tinha até me esquecido.
O Zezinho chorou no quarto ao lado. Olhei para minha amiga, meio indecisa, mas ela, sabida, ajudou-me.
- Vai lá. Gostar...
Saí correndo.
Ele estava pelado, esperneando. Segurei suas mãozinhas e agasalhei-as entre as minhas. Silenciou, ficou na mudez absorvendo meu afago.
- Eu pensei que você não ligasse pra mim. Deus que me perdoe, mas eu até achava que você era cego por dentro. Desculpe.  Sempre fui meio besta mesmo. Mas, daqui por diante, nem vou ficar triste se os grandes não tiverem tempo. Vou sempre falar com você ou com minha aranhinha, se você estiver dormindo. Se você também precisar dela, está às ordens.
O Zezinho abriu a boca, engoliu minha oferta e estalou os lábios diante do gosto gostoso. Sorriu. Seu hálito morno veio impregnado de perfume de primeira vez.
Bom mesmo foi ter amigos. Não amigos de passos paralelos, com os quais eu só podia falar coisa pensada e repensada para não assustar.
Gostoso foi ter plenitude de voz e atitudes. Falar do que quisesse, ter resposta para tudo e acreditar que tudo era possível, o mundo simples e aberto.
Um dia eu precisava saber quem teria feito o trinquinho da portinha da casa da lua.
- Psssiu! – chamei. – Onde você se escondeu?
Minha aranhinha não respondeu, nem botou a cara nos vãos das telhas.
- Não gosto dessa brincadeira. Você sabe.
Nada.
- Vou contar até três: um, dois, três.
Nem sinal.
Apavorei-me.
Olhos arregalados, revirei todos os cantos do telhado. Não a encontrei.
Empurrei a porta e vi, achatada no batente, pequena, sem cara, sem pernas, seca, minha aranhinha. Só o corpinho estraçalhado grudado na madeira.
Estremeci. Quis pegá-la para tentar ao menos abrir-lhe os olhos de dentro, mas, ao tocá-la, desfez-se em pó e uma rajada de vento espalhou-a por espaços desmedidos.
Comecei a chorar. Não bastava. A tristeza não saía. Quis me morrer, não pude. Me morrer eu não sabia. Gritei:
- Zezinho! Zezinho!
Calei-me porque lembrei que ele não estava. Tinha ido com minha mãe emprestar não sei o que a dona Ernestina.
Saí do quarto e sentei-me na escada para esperá-lo e pedir socorro.
Mas, quando ele chegou, lembrei que não poderia dar a notícia assim de qualquer jeito. Criança é fraca, eu sabia.
Enquanto esperava o momento oportuno, uma dúvida terrível me assaltou.
- Zezinho, você acha que no céu tem comida de aranha?
Ele não respondeu, e eu silenciei perdoando.
- Você acha que o céu de gente é maior ou menor que o céu dos bichos?
Ele de novo não me respondeu e de novo silenciei perdoando.
- Será que Deus mesmo é que põe rubim socado nos machucados de gente morrida ou ele manda São Pedro ou outro santo colocar?
- Chi... Não sei – respondeu ele sem me olhar.
Pegou seu papagaio de jornal e saiu na carreira.
Senti que seus olhos internos, como os olhos dos outros, olhavam agora para outra direção.
Vesgos, se desviaram do meu rumo e me deixavam, desde então, órfã de afinidade e crença.
O Zezinho se misturou nas besteiras dos homens e estes, do tamanho natural, não me davam espaço para alcançá-los, nem faziam nada para que eu, no mínimo, pudesse ter passadas mais longas.
Quando eu perguntava de que cor era o céu, me respondiam o óbvio: bonito, grande, azul etc. Não entendiam que eu queria saber do céu de dentro. Eu queria a polpa, que a casca era visível. Por isso foi que resolvi manter contato com as pessoas só em casos de extrema necessidade.
Ao contrário dos seres humanos, os animais se mostraram amigos e coerentes.
Aprendi a falar com eles. Imitava todo e qualquer pássaro da região. Tirava de letra todas as mensagens dos cães, gatos, cavalos, formigas, baratas etc.
Quando para rir eu imitava as coleirinhas, para negar alguma coisa, latia, ou para pedir, miava, as pessoas começaram a me olhar torto.
Foi por isso que me botaram uma correntinha com um crucifixo no pescoço, aconselhados pelo padre da igrejinha local. Ensinaram-me o pai-nosso-que-estais-no-céu com o seja-feita-a-vossa-vontade.
Fiz todas as vontades, dentro do meu limite de compreensão.
Um dia, a mando de minha mãe, dei um pulinho na horta para buscar couve para o jantar. Acontece que, lá chegando, encontrei uma fila enorme de formigas, que carregavam uma barata morta.
Fiquei terrivelmente amargurada.
Dói a dor dos seus familiares e amigos. Como estariam os filhos, a mãe, o esposo ou esposa?
Achei que seria o cúmulo não mostrar minha dor e solidariedade. Aderi ao ato fúnebre.
Amarga e cabisbaixa, acompanhei-a até a última morada.
Não sei quanto tempo perdi, mas quando cheguei em casa já escurecia e a família estava preocupadíssima com minha demora.
Diante do clima de apreensão, fui logo explicando, naturalmente:
- Não aconteceu nada. É que eu fui acompanhar o enterro da barata.
Foi um silêncio geral. Percebi pelos olhares que havia alguma coisa pior que o atraso. Ou não havia explicado direito?
Pensei então em me fazer compreender. Pus-me a latir desesperadamente. Ao contrário do que eu previa, minha mãe começou a chorar.
Foi assim que nesse mesmo dia, à noite, levaram-me à casa de dona Chica Espanhola. Depois de fazer várias gesticulações estranhas, sentenciou:
- Tem que trazer a menina aqui nove dias seguidos. Está com acompanhamento. O espírito de Zumbi está do lado direito dela. Vou fazer um trabalho especial. Afasto o coisa-ruim e peço a guarda da Menina Izildinha.
Naquela noite, deitei-me com o lado direito espremido contra o colchão de palha. Cochilava e acordava sobressaltada. E se o coisa-ruim, não podendo estar do meu lado direito, montasse nas minhas costas?
Voltava ao sono intranqüilo quando olhava para o oratório e via, entre velas acesas, inúmeros folhetos de orações e imagens de mil santos, que ali foram postos com a responsabilidade de me proteger.
A partir de então camuflei meus latidos. Engoli todos os miados para não denunciar a insistência da minha doença.
Nunca mais “andei de sapo”, mas tinha certeza que ainda estava mal acompanhada, porque falar com os animais eu não falava, não podia, mas vontade não me faltava.
Foi exatamente nessa época, que peguei bicho-de-pé. Fiquei imensamente feliz. A única coisa que atrapalhava é que não podia contar para ninguém, nem para minha mãe, porque quando ela descobria que qualquer um de nós conseguia um, pegava logo uma agulha, queimava a pontinha na labareda da lamparina e cutucava até arrancar o querido bicho do dedo da gente.
Mas eu já não estava só. Com meu bicho-de-pé mantive diálogos longos.
Para ele passava minhas tristezas e alegrias. Havia um fio interno que levava meu pensamento até sua casinha, na curva do dedo do pé. Daí vinha uma coceira gostosa, trazendo-me respostas, consolos. Nossos pensamentos se cruzavam rindo ou chorando. Um dia, diante de tanta felicidade depois do namoro, não resisti. Peguei uma folhinha de calendário que mostrava a figura de um cão enorme com língua de fora e pelos macios. Através dele enviei um recado aos outros amigos:

- Olha, faz favor de dizer pra todo mundo que eu estou muito, muito feliz mesmo. Peguei um lindo bicho-de-pé. Fala que eu não estou de mal de ninguém. É que o espírito de zumbi – fiz o sinal da cruz – está me perseguindo e pode até pegar neles. Juro que nunca, nunca me esqueci de ninguém. Quando o espírito mau for embora e a Santa Izildinha chegar, eu aviso. Por enquanto tchau. Dorme com Deus.





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