Ontem, para minha filha dormir, estava lendo este trecho do livro “A cor da ternura” da escritora e poeta Geni Guimarães, publicado pela Editora FTD. Esta obra literária resultou no prêmio Jabuti, categoria Melhor Autor Revelação, em 1990. Ao ler o trecho abaixo transcrito, percebi nas suas linhas algo maior que a simples ficção infantil.
O espírito poético enunciado pela linguagem solta e bem-humorada
de Geni, permite ao leitor entreter-se e emocionar-se na revolução interior
vivenciada pela protagonista mirim, uma heroína ao tempo de seus conflitos
íntimos e sociais. Narrado em primeira pessoa, as descobertas e percepções da
menina encantam e promovem sensações familiares em quem lê. É, portanto, uma leitura
bem vinda para pessoas de qualquer idade.
Os grifos em negrito não fazem parte do texto original.
Afinidades:
Olhos de dentro.
- Viu só? Até ele gostou. – Era a
aranhinha ainda ziguezagueando no telhado.
- Que vocês pensavam, eu já sabia.
Mas que falavam... Ele quem?
- Seu irmãozinho.
- Ele gostou? Não reparei.
- É. Você não repara no jeito dos
outros gostarem. Ou melhor, repara, mas quer que gostar seja do seu modo. Cada
um...
- Ele nunca ligou pra mim. Isto eu
reparei. Não é mentira.
- E você, algum dia, ligou pra
mim?
- Eu?
- É. Nunca ligou pra mim e eu
sempre morei aqui.
- Eu não sabia. Desculpe.
- Entendeu agora? Você é que nunca
procurou saber direito dos olhos dos outros. Não é destes olhos que eu falo. É dos olhos de dentro.
- Entendi. Mas eu sempre pensei
que as outras pessoas e bichos nem soubessem desses olhos de que você fala. Eu,
não é querendo ser sabida como os animais, sabia. Não falava porque... Ah, não
dá pra contar agora... É uma história muito comprida. Bem, agora vou ligar pra
você e pra ele. Mas ele não sabe brincar. E você, sabe? Brinca do quê?
- Todo mundo sabe brincar. Até os
grandes. Eu brinco de tanta coisa! De ver, de falar com as crianças, de
gargalhar com os olhos, você sabe do que falo.
- Sei. Nunca na vida pensei que
você fosse tão sabida. Me ensinou num instantinho essas coisas de ver.
A aranhinha remexeu-se.
- A conversa está boa, mas preciso
ir.
- Você vai embora agora que a gente...
- Não, não vou. Ou melhor, não vou de todo. Só tenho umas coisas
pra fazer. Não disse que moro aqui?
- Tinha até me esquecido.
O Zezinho chorou no quarto ao
lado. Olhei para minha amiga, meio indecisa, mas ela, sabida, ajudou-me.
- Vai lá. Gostar...
Saí correndo.
Ele estava pelado, esperneando.
Segurei suas mãozinhas e agasalhei-as entre as minhas. Silenciou, ficou na
mudez absorvendo meu afago.
- Eu pensei que você não ligasse
pra mim. Deus que me perdoe, mas eu até achava que você era cego por dentro.
Desculpe. Sempre fui meio besta mesmo.
Mas, daqui por diante, nem vou ficar triste se os grandes não tiverem tempo.
Vou sempre falar com você ou com minha aranhinha, se você estiver dormindo. Se
você também precisar dela, está às ordens.
O Zezinho abriu a boca, engoliu
minha oferta e estalou os lábios diante do gosto gostoso. Sorriu. Seu hálito
morno veio impregnado de perfume de primeira vez.
Bom mesmo foi ter amigos. Não
amigos de passos paralelos, com os quais eu só podia falar coisa pensada e
repensada para não assustar.
Gostoso foi ter plenitude de voz e
atitudes. Falar do que quisesse, ter resposta para tudo e acreditar que tudo
era possível, o mundo simples e aberto.
Um dia eu precisava saber quem
teria feito o trinquinho da portinha da casa da lua.
- Psssiu! – chamei. – Onde você se
escondeu?
Minha aranhinha não respondeu, nem
botou a cara nos vãos das telhas.
- Não gosto dessa brincadeira.
Você sabe.
Nada.
- Vou contar até três: um, dois,
três.
Nem sinal.
Apavorei-me.
Olhos arregalados, revirei todos
os cantos do telhado. Não a encontrei.
Empurrei a porta e vi, achatada no
batente, pequena, sem cara, sem pernas, seca, minha aranhinha. Só o corpinho
estraçalhado grudado na madeira.
Estremeci. Quis pegá-la para tentar ao menos abrir-lhe os olhos
de dentro, mas, ao tocá-la, desfez-se em pó e uma rajada de vento espalhou-a
por espaços desmedidos.
Comecei a chorar. Não bastava. A
tristeza não saía. Quis me morrer, não pude. Me morrer eu não sabia. Gritei:
- Zezinho! Zezinho!
Calei-me porque lembrei que ele
não estava. Tinha ido com minha mãe emprestar não sei o que a dona Ernestina.
Saí do quarto e sentei-me na
escada para esperá-lo e pedir socorro.
Mas, quando ele chegou, lembrei
que não poderia dar a notícia assim de qualquer jeito. Criança é fraca, eu
sabia.
Enquanto esperava o momento
oportuno, uma dúvida terrível me assaltou.
- Zezinho, você acha que no céu
tem comida de aranha?
Ele não respondeu, e eu silenciei perdoando.
- Você acha que o céu de gente é
maior ou menor que o céu dos bichos?
Ele de novo não me respondeu e de novo silenciei perdoando.
- Será que Deus mesmo é que põe
rubim socado nos machucados de gente morrida ou ele manda São Pedro ou outro
santo colocar?
- Chi... Não sei – respondeu ele
sem me olhar.
Pegou seu papagaio de jornal e
saiu na carreira.
Senti que seus olhos internos, como os olhos dos outros, olhavam
agora para outra direção.
Vesgos, se desviaram do meu rumo e me deixavam, desde então,
órfã de afinidade e crença.
O Zezinho se misturou nas besteiras dos homens e estes, do
tamanho natural, não me davam espaço para alcançá-los, nem faziam nada para que
eu, no mínimo, pudesse ter passadas mais longas.
Quando eu perguntava de que cor
era o céu, me respondiam o óbvio: bonito, grande, azul etc. Não entendiam que
eu queria saber do céu de dentro. Eu queria
a polpa, que a casca era visível. Por isso foi que resolvi manter contato
com as pessoas só em casos de extrema necessidade.
Ao contrário dos seres humanos, os
animais se mostraram amigos e coerentes.
Aprendi a falar com eles. Imitava
todo e qualquer pássaro da região. Tirava de letra todas as mensagens dos cães,
gatos, cavalos, formigas, baratas etc.
Quando para rir eu imitava as
coleirinhas, para negar alguma coisa, latia, ou para pedir, miava, as pessoas
começaram a me olhar torto.
Foi por isso que me botaram uma
correntinha com um crucifixo no pescoço, aconselhados pelo padre da igrejinha
local. Ensinaram-me o pai-nosso-que-estais-no-céu com o seja-feita-a-vossa-vontade.
Fiz todas as vontades, dentro do
meu limite de compreensão.
Um dia, a mando de minha mãe, dei
um pulinho na horta para buscar couve para o jantar. Acontece que, lá chegando,
encontrei uma fila enorme de formigas, que carregavam uma barata morta.
Fiquei terrivelmente amargurada.
Dói a dor dos seus familiares e
amigos. Como estariam os filhos, a mãe, o esposo ou esposa?
Achei que seria o cúmulo não
mostrar minha dor e solidariedade. Aderi
ao ato fúnebre.
Amarga e cabisbaixa, acompanhei-a
até a última morada.
Não sei quanto tempo perdi, mas
quando cheguei em casa já escurecia e a família estava preocupadíssima com
minha demora.
Diante do clima de apreensão, fui
logo explicando, naturalmente:
- Não aconteceu nada. É que eu fui
acompanhar o enterro da barata.
Foi um silêncio geral. Percebi
pelos olhares que havia alguma coisa pior que o atraso. Ou não havia explicado
direito?
Pensei então em me fazer
compreender. Pus-me a latir desesperadamente. Ao contrário do que eu previa, minha
mãe começou a chorar.
Foi assim que nesse mesmo dia, à
noite, levaram-me à casa de dona Chica Espanhola. Depois de fazer várias
gesticulações estranhas, sentenciou:
- Tem que trazer a menina aqui
nove dias seguidos. Está com acompanhamento. O espírito de Zumbi está do lado
direito dela. Vou fazer um trabalho especial. Afasto o coisa-ruim e peço a
guarda da Menina Izildinha.
Naquela noite, deitei-me com o
lado direito espremido contra o colchão de palha. Cochilava e acordava
sobressaltada. E se o coisa-ruim, não podendo estar do meu lado direito,
montasse nas minhas costas?
Voltava ao sono intranqüilo quando
olhava para o oratório e via, entre velas acesas, inúmeros folhetos de orações
e imagens de mil santos, que ali foram postos com a responsabilidade de me
proteger.
A partir de então camuflei meus
latidos. Engoli todos os miados para não denunciar a insistência da minha
doença.
Nunca mais “andei de sapo”, mas
tinha certeza que ainda estava mal acompanhada, porque falar com os animais eu
não falava, não podia, mas vontade não me faltava.
Foi exatamente nessa época, que
peguei bicho-de-pé. Fiquei imensamente feliz. A única coisa que atrapalhava é
que não podia contar para ninguém, nem para minha mãe, porque quando ela
descobria que qualquer um de nós conseguia um, pegava logo uma agulha, queimava
a pontinha na labareda da lamparina e cutucava até arrancar o querido bicho do
dedo da gente.
Mas eu já não estava só. Com meu bicho-de-pé mantive diálogos
longos.
Para ele passava minhas tristezas e alegrias. Havia um fio
interno que levava meu pensamento até sua casinha, na curva do dedo do pé. Daí vinha uma coceira gostosa, trazendo-me respostas, consolos.
Nossos pensamentos se cruzavam rindo ou chorando. Um dia, diante de tanta
felicidade depois do namoro, não resisti. Peguei uma folhinha de calendário que
mostrava a figura de um cão enorme com língua de fora e pelos macios. Através
dele enviei um recado aos outros amigos:
- Olha, faz favor de dizer pra
todo mundo que eu estou muito, muito feliz mesmo. Peguei um lindo bicho-de-pé.
Fala que eu não estou de mal de ninguém. É que o espírito de zumbi – fiz o
sinal da cruz – está me perseguindo e pode até pegar neles. Juro que nunca,
nunca me esqueci de ninguém. Quando o espírito mau for embora e a Santa Izildinha
chegar, eu aviso. Por enquanto tchau. Dorme com Deus.


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