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| Fotografia Christy Lee Rogers. |
Um quarto que
parece um devaneio, um quarto verdadeiramente espiritual onde a atmosfera
estagnante é ligeiramente tingida de rosa e azul.
A alma toma um
banho de preguiça, aromatizada pelos pesares e o desejo. É algo de crepuscular,
de azulado e de rosado; um sonho de volúpia durante um eclipse.
Os móveis têm as
formas alongadas, prostradas, lânguidas. Os móveis têm o ar de que sonham;
diríamos dotados de uma vida sonambúlica como um vegetal ou um mineral. Os tecidos
falam uma língua muda como as flores, como os céus, como os sóis poentes.
Nas paredes
nenhuma abominação artística. Relativamente ao puro sonho, à impressão não
analisada, a arte definida, a arte positiva é uma blasfêmia. Aqui tudo tem
suficiente clareza e a deliciosa obscuridade da harmonia.
Um aroma
infinitesimal da mais original escolha, ao qual se mistura uma levíssima
umidade, flutua nessa atmosfera, onde o espírito sonolento é embalado por uma
sensação de estufas aquecidas.
A musselina chora
abundantemente diante das janelas e diante do leito; ela se derrama em cascatas
de neve. Sobre esse leito está deitado o Ídolo, a soberana dos sonhos. Mas como
ela está aqui? Quem a trouxe? Que poder mágico instalou-se nesse trono de
devaneios e volúpia? Que importa! Ei-la! Eu a reconheço.
São esses olhos
cuja flama atravessa o crepúsculo; esses sutis e terríveis olhares que eu
reconheço em sua assustadora malícia! Eles atraem, eles subjugam, eles devoram
o olhar do imprudente que os contempla. Já estudei muitas vezes essas estrelas
negras que comandam a curiosidade e a admiração.
Por qual demônio
benevolente devo eu ter sido envolvido assim de mistério, de silêncio, de paz e
de perfumes? Ó beatitude! Isso que nós chamamos geralmente de vida, mesmo em
sua expansão mais feliz, nada tem de comum com essa vida suprema que, agora, eu
conheço e saboreio minuto a minuto, segundo a segundo.
Não! Não há mais
minutos, não há mais segundos! O tempo desapareceu; é a Eternidade que reina,
uma eternidade de delícias.
Mas uma pancada terrível, fortíssima, ressoou na porta e, como nos sonhos infernais, pareceu-me que recebia um golpe de uma enxada no estômago.
Mas uma pancada terrível, fortíssima, ressoou na porta e, como nos sonhos infernais, pareceu-me que recebia um golpe de uma enxada no estômago.
E depois um
Espectro entrou. É um oficial de justiça que vem me torturar, em nome da lei;
uma infame concubina que vem exibir sua miséria e juntar as trivialidades de
sua vida às dores da minha; ou então um jovem secretário de diretor de jornal
que vem reclamar a entrega de um manuscrito.
O quarto
paradisíaco, o Ídolo, a soberana dos sonhos, a Sílfide, como dizia o grande
René, toda aquela magia desapareceu com o golpe disparado pelo Espectro.
Horror! Eu me
lembro! Eu me lembro! Sim! Este chiqueiro, este ambiente de eterno desgosto
está bem dentro de mim. Vejam os móveis burros, empoeirados, capengas, a
lareira sem chamas e sem brasas, suja de escarros, as tristes janelas onde a
chuva traçou seus sulcos na poeira; os manuscritos rasurados ou incompletos; o
almanaque onde o lápis marcou as datas sinistras!
E esse perfume de
um outro mundo, com o qual eu me embriagava com uma sensibilidade aperfeiçoada,
ei-lo substituído por fétido odor de tabaco misturado a um mofo nauseabundo.
Respira-se aqui, agora, o ranço da desolação.
Nesse mundo
estreito, mas tão repleto de desgostos, um único objeto conhecido me sorri: a
garrafinha de láudano; uma velha e terrível amiga, como todas as outras. Oh!
fecundas em carinho e traições.
Oh! Sim, o Tempo
reapareceu, o Tempo reina soberano agora; e com o horroroso velho voltou todo o
demoníaco cortejo de Lembranças, de Arrependimentos, de Espasmos, de Medos, de
Angústias, de Pesadelos, de Cóleras e de Neuroses.
Eu vos asseguro
que os segundos agora são fortemente e solenemente acentuados e cada um
saltando do pêndulo diz:
“Eu sou a Vida, a
insuportável, a implacável Vida.”
Só há um Segundo
na vida humana com a missão de anunciar uma boa nova, a boa nova que causa em
cada um de nós um medo inexplicável.
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| Pintura de Pieter Claesz. |
Sim! O Tempo
reina, ele retomou sua brutal ditadura. Ele me empurra, como se eu fosse um
boi, com seu duplo aguilhão. “Eia Vamos, então, burrico! Sua então, escravo!
vive, então, condenado!
Charles Baudelaire,
O quarto duplo.


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