3 de junho de 2015

A tarde incomum.



Imagem de Anita Anti.






Era uma tarde incomum, considerando os lugares inóspitos que se curvam para espiar a natureza dos homens. De um manto fosco, incrustava-se o sol para reluzir timidamente. E, em todos os cantos, vozes de crianças eram ouvidas, vivazes de contentamento por retornar cedo das escolas.


E pássaros! Saltavam nos galhos e piavam o mais que podiam naquela tarde única. Degustavam o cheiro do vapor invisível que lentamente preenchia as ruas e praças, invadindo as casas. Sorviam o vapor úmido com presteza, enquanto agitavam as copas das árvores.


E nada se dizia a respeito. A vida é bastante para ser trivial. O incomum, como os aspectos mais rarefeitos, é despercebido por todos. Mesmo aquelas crianças, causadoras de rebuliços atraentes, encantavam de alegria as ruas por onde passavam sem nada comentar sobre o gentil fenômeno que tudo ensolarava sem pedir licença.


Havia mulheres, entretanto. Diminutas e anônimas, do mundo gozavam uma fiel perplexidade. Estas mulheres, chamadas Cuidadoras, perceberam o que se ocultava naquela tarde que não era cinzenta, emergida pela incandescência copiosa de um sol que surgia para expandir tudo em volta.


Afastava-se o manto fosco, deixando de resto a nudez azulada, como em dias de primavera, nos quais tudo é aberto, quente e úmido. As Cuidadoras olhavam pelas janelas que se abriam para os quintais ainda molhados pela chuva da manhã. Resolutas, punham os lençóis e toda a sorte de trapos humanos nos varais.


Estendiam seus braços com destreza e miravam o céu, mais uma vez, para encontrar os arredores mais longínquos. Certificavam-se da quietude vespertina abrindo os espaços com sentimentos indizíveis.


Nada se dizia sobre aquela tarde e talvez nada houvesse mesmo para ser dito. É certo que estas mulheres sabiam do tempo e, enquanto se entretinham na lida de seus afazeres, tudo o que percebiam segredavam no íntimo mais íntimo de suas vidas.





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