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| Imagem de Anita Anti. |
Era uma tarde incomum, considerando os lugares inóspitos que se
curvam para espiar a natureza dos homens. De um manto fosco, incrustava-se o
sol para reluzir timidamente. E, em todos os cantos, vozes de crianças eram
ouvidas, vivazes de contentamento por retornar cedo das escolas.
E pássaros! Saltavam nos galhos e piavam o mais que podiam naquela
tarde única. Degustavam o cheiro do vapor invisível que lentamente preenchia as
ruas e praças, invadindo as casas. Sorviam o vapor úmido com presteza, enquanto
agitavam as copas das árvores.
E nada se dizia a respeito. A vida é bastante para ser trivial.
O incomum, como os aspectos mais rarefeitos, é despercebido por todos. Mesmo
aquelas crianças, causadoras de rebuliços atraentes, encantavam de alegria as
ruas por onde passavam sem nada comentar sobre o gentil fenômeno que tudo ensolarava
sem pedir licença.
Havia mulheres, entretanto. Diminutas e anônimas, do mundo
gozavam uma fiel perplexidade. Estas mulheres, chamadas Cuidadoras, perceberam
o que se ocultava naquela tarde que não era cinzenta, emergida pela incandescência
copiosa de um sol que surgia para expandir tudo em volta.
Afastava-se o manto fosco, deixando de resto a nudez azulada,
como em dias de primavera, nos quais tudo é aberto, quente e úmido. As Cuidadoras
olhavam pelas janelas que se abriam para os quintais ainda molhados pela chuva
da manhã. Resolutas, punham os lençóis e toda a sorte de trapos humanos nos
varais.
Estendiam seus braços com destreza e miravam o céu, mais uma
vez, para encontrar os arredores mais longínquos. Certificavam-se da quietude
vespertina abrindo os espaços com sentimentos indizíveis.
Nada se dizia sobre aquela tarde e talvez nada houvesse mesmo
para ser dito. É certo que estas mulheres sabiam do tempo e, enquanto se
entretinham na lida de seus afazeres, tudo o que percebiam segredavam no íntimo
mais íntimo de suas vidas.

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