Continuação de O Romance da Rosa (Roman de La Rose), um poema alegórico escrito por Guillaume de Lorris por volta de 1.225 ou 1.230. A tradução aqui reproduzida é fruto do trabalho de Sonia Regina Peixoto e dos professores Ma. Eliane Ventorim e Dr. Ricardo da Costa, a partir da edição GUILLAUME DE LORRIS, JEAN DE MEUNG. El Libro de la Rosa (introd. de Carlos Alvar, trad. De Carlos Alvar y Julián Muela, lectura iconográfica de Alfred Serrano i Donet). Barcelona: Ediciones Siruela, 2003.
Boa leitura!
Com grande habilidade, a natureza havia situado a fonte em
uma pedra de mármore que tinha pequenas letras escritas na parte superior e que
diziam: “Aqui morreu o belo Narciso”.
Narciso foi um rapaz que o amor capturou em suas redes. O amor o
atormentou tanto e tanto fez, que ele chorava e se lamentava; ao final entregou
sua alma, pois Eco, dama de elevada posição, o amava mais que qualquer ser vivo, mas foi tão maltratada por ele, que
acabou dizendo que obteria seu amor ou morreria. Porém, Narciso era tão belo, que por sua grande formosura estava cheio de
desdém e de orgulho, e não a quis aceitar por mais que ela lhe pedisse e
suplicasse. Ao ver-se rejeitada, Eco sentiu tamanha dor e tristeza e considerou seu
desprezo tão grande que caiu morta instantaneamente. Mas antes de morrer
suplicou e rogou a Deus que Narciso, por seu coração fugidio e sua indecisão para
amar, fosse um dia atormentado e destruído por um amor pelo qual ele não
pudesse encontrar médico que o curasse: assim ele saberia e conheceria o
sofrimento que os fiéis amantes sentem quando rejeitados de forma tão vil.
Esta súplica era razoável e, por isso, Deus a aceitou. Assim, um
dia, casualmente, Narciso chegou àquela fonte de águas puras e cristalinas, pôs-se à
sombra do pinheiro no dia que regressava da caça e que havia se esforçado
correndo para cima e para baixo, até que se sentiu sedento pela dureza do calor
e pelo cansaço que lhe privara de alento.
Quando chegou à fonte que o pinheiro cobria com seus galhos,
pensou beber dela: abaixou-se disposto a saciar a sede e então viu na água
limpa e clara seu próprio rosto, seu nariz e sua doce boquinha. Ficou surpreso,
atraído por seu reflexo, pois pensava estar vendo o rosto de um jovem extraordinariamente
formoso. Bem se vingou o Amor do grande orgulho e da altivez
que Narciso tinha. Foi então que recebeu a recompensa que
merecia: passou tanto tempo na fonte que se enamorou por seu próprio reflexo e
ao fim morreu – assim terminou a estória. Com efeito, quando se deu conta de
que não podia levar adiante seus desejos e que estava tão bem apanhado que não
poderia voltar a estar satisfeito em nenhum lugar e em nenhuma circunstância,
perdeu a cabeça pela grande dor e morreu em pouco tempo. Desse modo, ele
recebeu a recompensa e o merecido pela pobre que havia desprezado.
Damas aprendam com esse exemplo, vós que tratais mal a vossos
amigos: se os deixais morrer, Deus vos fará pagar caro.
Quando graças àquele título eu soube que aquela era certamente a
fonte do belo Narciso, retrocedi sem me atrever a olhar para dentro e me
acovardei, por lembrar de Narciso e de sua desgraça. Porém, considerei que me assustava sem
motivo e que podia me aproximar da fonte sem temor, já que distanciara sem razão.
Então me aproximei, inclinei-me para contemplar a água que
brotava e o cascalho que reluzia ao fundo mais branco que a prata pura. Tal era essa fonte, e não há
outra igual em todo o mundo: sua água era sempre fresca e nova, pois dia e
noite jorrava com grandes borbulhas de dois mananciais cristalinos e profundos.
Ao redor a erva crescia espessa, graças àquela abundante e generosa
água, que sequer morre no inverno, e à fonte que nunca seca, nem escasseia.
No fundo da fonte havia duas pedras de cristal que
contemplei com atenção. Vou
lhes dizer uma coisa que, acredito, irá surpreendê-los quando ouvirem. Quando o
Sol, que tudo vê, lança seus raios na fonte e a
claridade chega ao fundo, aparecem mais de cem cores no cristal que, graças ao Sol, torna-se violeta, amarelo e vermelho. É um
cristal de propriedades maravilhosas: nele se refletem as árvores, as flores ao
redor e tudo que enfeita o jardim.
Para que entendais melhor, vou lhes explicar isso por meio de um
exemplo: do mesmo modo que o espelho mostra tudo o que tem na sua frente, que
se vê sem dificuldade inclusive com sua cor e forma, o mesmo ocorre com o
cristal do qual vos falo, que mostra a quem olha na água tudo o que há no
jardim. Esteja onde estiver, sempre se verá a metade do jardim e, se der a
volta, poderá contemplar o resto. Não
há nada, por menor que seja ou por mais distante e escondido que esteja, que
não apareça como se estivesse pintado no cristal.
Este é o espelho perigoso no qual Narciso, cheio de
orgulho, contemplou seu próprio rosto e seus olhos verdes claros, caindo morto
imediatamente. Quem
se olhar nesse espelho não encontrará salvador nem médico que possa impedir que
veja em seus olhos algo que o impulsione imediatamente a amar. Muitos homens
valorosos têm sido vencidos pelo espelho, pois mesmo os mais sábios, os mais
nobres e os mais bem dispostos não tardam a serem agarrados e aprisionados.
Aqui, um novo tipo de raiva surpreende as gentes; aqui mudam os sentimentos;
aqui não é necessário o bom sentido nem a discrição; aqui só há vontade pura de
amar; aqui não há ninguém que possa ser aconselhado, pois Cupido, filho de Vênus,
espalhou a semente do Amor que guarda a fonte, e fez com que fossem
colocadas armadilhas e alçapões ao redor das donzelas e dos rapazes para
prendê-los, pois o Amor não quer outras aves.
Por causa da semente nela semeada, essa fonte recebeu o justo
nome de Fonte do Amor; e muitos têm falado dela em numerosos lugares, em novelas e em estórias.
Porém, não ouvireis melhor descrição do assunto que a que eu vos fareis,
descobrindo para vocês todos os seus mistérios.
Contemplei cuidadosamente a fonte e os cristais do fundo, que me
revelavam mil coisas que existiam ao redor. Porém, infeliz de mim, o fiz em má
hora e tanto suspirei depois! O espelho me enganou: se tivesse antes conhecido
seu poder e suas virtudes, não haveria olhado para ele, pois naquele momento caí na armadilha que tem aprisionado e traído a tantos homens.
No espelho, entre outras mil coisas, vi roseiras carregadas de
flores que estavam em um lugar afastado e rodeado por uma cerca. Então, senti
um grande desejo de ir contemplar o grupo maior e não deixaria de fazê-lo em
troca de toda riqueza de Pavia e de Paris. Tomado por tal fúria que já surpreendeu a muitos outros,
dirigi-me de imediato até os roseirais. Ao me aproximar, a fragrância das rosas me atravessou até as
entranhas, como se eu tivesse acabado de ter sido embalsamado.
Temendo que me censurassem ou me chamassem a atenção, não me
atrevi a colher nenhuma rosa, mesmo que fosse só uma para ter na mão e sentir
seu perfume. Temia
me arrepender, pois podia molestar o senhor do jardim.
As rosas abundavam em grandes grupos de tal forma que não se
encontrariam mais belas sob o céu. Havia botões pequenos e fechados, outros um
pouco maiores e outros, já quase no ponto ideal de desabrocharem. Esses não eram
nada desprezíveis, pois as rosas abertas e alegres murcham em um dia, enquanto
os botões se mantêm frescos por, pelo menos, dois ou três dias. Senti-me
encantado, pois em nenhum lugar eles crescem tão formosos: quem pudesse
arrancar um deveria estimá-lo muito. De minha parte, nada me satisfaria mais
que fazer uma grinalda com eles.
Dentre todos, escolhi um botão belíssimo; ao seu lado me pareceram inferiores os demais
que vi. Tinha a cor
vermelha mais perfeita que
a Natureza pôde criar e estava rodeado por quatro pares de pétalas, colocadas com habilidade pela Natureza, umas nas outras. O talo
era reto como um junco e sobre ele a flor se assentava sem pender nem se
inclinar. Seu aroma se espalhava ao redor e o perfume que produzia enchia todo
lugar. Ao cheirá-lo, perdi a vontade de abandonar aquele lugar e me aproximei
para colhê-lo, mas não me atrevi a estender as mãos: os cardos afiados e os
pontudos espinhos me impediram e assim não me deixei avançar, por medo de me causar dano – afinal, eram espinhos cortantes e sutis,
além de urtigas e sarças de pontas finas como chifres.
O Deus do Amor que, com o arco retesado havia decidido me seguir e me espiar,
se deteve debaixo de uma figueira. Ao ver que eu havia escolhido aquele botão,
que me agradava mais que qualquer outro, pegou uma flecha, a empunhou na corda e esticou o arco, que era muito resistente,
até a altura da orelha e, apontando-a, fez com que a flecha entrasse em um olho e
chegasse com violência até meu coração. Senti tamanho frio que muitas vezes depois ainda tremo só de
lembrar, mesmo envolto em um manto quente.
Atingido dessa maneira, caí de costas, o coração falhou, mentiu
para mim e então eu permaneci desfalecido durante muito tempo. Ao recobrar os sentidos
e a razão, encontrei-me debilitado e pensei ter perdido grande quantidade de
sangue. Contudo, a flecha cravada não me fez derramar uma só gota e a ferida
estava completamente seca. Peguei a flecha com as mãos e comecei a tirá-la com
força e suspirar de dor. Esforcei-me tanto que consegui arrancar a haste com o
penacho, mas a ponta peluda, que se chamava Beleza, estava tão profundamente cravada em meu
coração, que eu não pude arrancá-la. Assim, ela ficou ali, sem que brotasse nem
uma gota de sangue.
Senti-me angustiado e cheio de preocupação, pois o perigo havia
se duplicado e eu não sabia o que fazer, nem o que decidir. Ignorava se
encontraria algum médico para a minha ferida, pois não esperava que nenhuma
daquelas ervas ou raízes me curasse. Enquanto isso, meu coração não se ocupava com outra coisa
que não fosse me levar até a rosa: se a tivesse em meu poder, sem dúvida, me
devolveria a vida, porque
a mim bastava vê-la e sentir seu perfume para que a dor se aliviasse de forma
considerável.
Comecei a me aproximar da flor de suave aroma, enquanto o Amor
pegava outra
flecha de ouro. Era a segunda, e se chamava Simplicidade, que faz com que muitos homens e muitas damas
no mundo se enamorem. Quando o Amor viu que me aproximava, sem fazer ameaças disparou em minha
direção a flecha, que não tinha aço; e a ferina flecha chegou ao meu coração através dos olhos. Não consegui sarar com nada, pois ao tentar
arrancá-la, sem grande esforço retirei a haste, mas a ponta não saiu. Estou
seguro de que se antes desejava alcançar a rosa, agora minha vontade de obtê-la era muito maior. Ao aumentar meu sofrimento, crescia em mim o
desejo de ir em busca da flor que cheirava mais que uma violeta. Melhor teria
sido retirar-me, mas não podia recusar as ordens de meu coração: à força tinha
que ir até onde ele se dirigia.
O arqueiro, que se esforçava e tentava me causar dano, não
me deixava ir sem motivo; e, para me enlouquecer, fez com que a terceira flecha
voasse contra meu corpo. Essa flecha era a que se chamava Cortesia. A ferida foi profunda e larga, e me fez cair
desmaiado sob uma frondosa oliveira. Durante muito tempo estive ali sem me
mover. Quando voltei a ter forças, peguei a flecha e imediatamente arranquei-a
de meu flanco, mas não pude retirar a ponta, por mais que tivesse tentado.
Senti-me angustiado e pensativo. Essa ferida me atormentava,
obrigando-me a ir até a flor que tanto me agradava. Porém, o arqueiro me infundia medo – e
com razão – pois aquele que se escaldou deve fugir da água.
Grande coisa é a necessidade: ainda que eu tivesse visto caírem
flechas e pedras mescladas tão abundantemente como se fossem granizo, eu não
teria deixado de me dirigir até ali, pois o Amor – que tudo supera – dava-me valor e ousadia para cumprir suas ordens.
Pus-me de pé, mesmo débil e desfalecido como se estivesse
ferido. Sem me preocupar com o arqueiro, procurei caminhar até a rosa que tinha
meu coração, mas havia tantos espinhos, cardos e sarças, que não consegui
avançar o suficiente para chegar até a flor.
Tive que ficar junto à cerca que rodeava as rosas e que tinha
espinhos pontiagudos. Contudo, era muito agradável estar tão próximo e notar o
doce aroma que saía da flor; agradava-me tudo o que via, a recompensa era
grande e me provocava gozo e alegria suficientes para esquecer os sofrimentos.
Eu estava contente e gozoso, pois não havia nada que eu desejasse tanto quanto
ficar ali, de forma que nunca me afastaria.
Após um breve momento, o Deus do Amor – que estava destruindo meu coração, pois o tinha feito de alvo
– voltou a me atacar e, para minha desgraça, disparou outra
flecha que me fez uma nova
ferida debaixo do peito. A seta se chamava Companhia: nenhuma outra vence mais rápido as damas e as donzelas.
Ela imediatamente
renovou a dor das feridas e eu desmaiei três vezes em um instante.
Ao voltar a mim, chorei e suspirei, pois meu sofrimento
aumentava e piorava, de forma que eu perdia toda a esperança de cura e alívio.
Preferia estar morto ao invés de continuar vivo, pois definitivamente – segundo
me parece – o
Amor faria de mim um mártir e eu
não poderia escapar.
Entretanto, pegou outra flecha que apreciava muito, mas que eu considero
muito pesada: a Boa Face, que não consente que nenhum
enamorado se arrependa de servir ao Amor, à margem de seus próprios sentimentos. É uma flecha pontuda – que atravessa com
facilidade qualquer coisa – e cortante, como a lâmina de cortar da espada. Amor
havia untado muito
bem aquela ponta com um bálsamo precioso para que não causasse grande dano, pois não desejava que eu morresse, somente que
recebesse algum alívio com o ungüento que estava cheio de consolo. Amor
a havia preparado com suas
mãos para reconfortar os leais amantes. Para aliviar meus males disparou em
minha direção essa flecha, produzindo uma grande ferida.
O ungüento correu por minhas feridas e me devolveu a força do
coração que eu havia perdido: eu estaria mal e teria morrido se não fosse pelo
bálsamo. Arranquei a haste, mas a ponta da nova flecha também ficou dentro de
mim.
Se em mim haviam ficado cravadas as cinco, dificilmente poderiam ser arrancadas. O ungüento aliviou a dor
daquelas feridas que me faziam empalidecer.
Esta última flecha tinha uma curiosa virtude: produzia
doçura e amargura. Tenho sentido e notado o auxílio que me prestou, mas também
seu prejuízo: ao se cravar produziu angústia, depois seu bálsamo me aliviou.
Por um lado me untava, por outro me feria: assim me ajudava, assim me causava
mal.
Não demorou para que o Amor se aproximasse de mim, saltando com toda a rapidez.
Ao chegar ao meu lado, disse-me em voz alta:
– Vassalo, considera-te preso, pois não podes fugir nem
te defender; não ofereças resistência, entrega-te a mim. Quanto mais de bom
grado o fizeres, logo encontrarás piedade. Está louco quem pretende resistir ao
que deve louvar e ao que tem que suplicar clemência. Não podes te esforçar
contra mim. Quero te mostrar como não ganharás nada com o orgulho e a soberba. Renda-te sem lutar e de bom
grado, pois assim o desejo.
Eu lhe respondi:
– Por Deus, com gosto o farei, não vou me defender. Não me permita Deus pensar que
posso resistir frente a vós, pois não seria justo nem razoável. Podeis fazer comigo o que quiserdes,
enforcai-me ou dai-me a morte: sei eu que não posso impedir-vos, pois minha
vida está em vossas mãos. Não viverei até amanhã se não for essa a vossa
vontade. De vós espero
alegria e saúde, pois ninguém as dará sem que vossa mão, que me feriu, me cure.
Se vós quiserdes fazer de
mim vosso prisioneiro, não me causareis nenhum dano e eu não ficarei
decepcionado. E sabeis que não sinto nenhuma aflição, pois tenho ouvido falar
tantas coisas boas de vós, que desejo colocar todo o meu corpo e todo o meu
coração à vossa disposição; já que se cumpro vossa vontade, não poderei me
queixar de nada. E mais: penso que, em algum momento, chegarei a merecer o que
espero e, com essa condição, rendo-me.
Após falar assim, quis beijar-lhe os pés. Porém, pegou minhas
mãos, dizendo-me:
– Estimo-te muito e te aprecio por ter respondido assim. Nunca,
certamente, tal resposta saiu da boca de um vilão mal-educado; ganhastes tanto
em minha consideração que quero que agora mesmo me jures fidelidade em teu beneficio. Beijar-me-ás
na boca, a qual nenhum
vilão é permitido tocar; não deixo que o façam nem as pessoas rudes, nem os
porqueiros. Hás
de ser cortês e livre para entrar em meu serviço. Sem dúvida é duro e pesado
servir-me, porém te faço uma honra muito grande ao te aceitar, e deves sentir-te muito contente por ter um senhor
tão bom e tão formoso, pois o Amor é o porta-estandarte da Cortesia e carrega sua bandeira, ao passo que
possui tão bons modos, é tão doce, tão franco e tão gentil, que quem entra a
seu serviço disposto a honrá-lo perde toda a vilania, toda a maldade e qualquer
má educação.
Então, me fez seu vassalo juntando as mãos; e me alegrei
muito quando sua boca beijou a minha – esse foi o momento em que tive maior
alegria. A seguir, me pediu provas de minha fidelidade.
– Amigo,
tenho recebido a vassalagem de muitos, e a maioria tem mentido. Os que cometem felonia, cheios de falsidade,
muitas vezes têm me traído e, por sua culpa, tenho ouvido numerosas queixas.
Porém, já saberão como o sinto: se posso aprisioná-los de forma justa,
vender-lhes-ei caro sua traição. Agora, desejo, pelo amor que te tenho, estar seguro de ti, e quero
que estejas tão unido a mim que não possas me negar nenhuma promessa, nenhuma
condição, nem te opor a nada que eu te peça de agora em diante. Se fizeres trapaça, será uma grande desgraça,
pois me pareces leal.
– Senhor – respondi – escuta-me. Não sei por que me pedis
garantia e fianças. Já sabeis que realmente me haveis privado de meu coração de
tal modo que, mesmo que desejasse, não poderia cumprir minha vontade, a não ser
com vossa intercessão. Meu
coração é vosso, não meu,
e, para o bem ou para o mal, tenho que fazer vossos desejos, pois ninguém pode
escapar de vós. Pusestes
tal vigilância, que ele é custodiado pela consciência. Mas se apesar de tudo
temeis algo, trancai-o com uma chave, e levai-a como fiança.
– Por minha cabeça, isso não é uma brincadeira – responde o
Amor – por isso, aceito. É
senhor do corpo quem tem o coração sob o seu domínio: ultrajante seria pedir
mais.
Ele então tirou de sua bolsa uma pequena chave, muito bem feita,
trabalhada com ouro puro:
– Com esta chave trancarei seu coração e não quero outra
garantia. Embaixo desta chave tenho guardadas minhas jóias. Por minha alma te
digo que ela é realmente a senhora do meu cofre e que tem um grande poder.
Então me tocou com ela no flanco e trancou meu coração com
tal suavidade que quase não notei a chave.
Assim, ele cumpriu seu desejo. Depois de tranqüilizá-lo, lhe
disse:
– Senhor, eu estou disposto a levar adiante vossa vontade e
aceito com gosto meu serviço, pela fé que me deveis. Não o digo por covardia
ante minhas tarefas, pois um
servidor se esforça em vão para realizar obras dignas de encômio, se tais obras
não agradam ao senhor ao qual as apresenta.
O Amor respondeu:
– Não te preocupes. Já que entrastes em minha mesnada, recebo
teu serviço com gosto. Colocar-te-ei em um lugar alto, se te privares da
maldade. Porém, creio que não será logo,
pois os grandes bens não chegam de forma repentina: é necessário esforçar-te e
esperar. Sofre e suporta a angústia que agora te prejudica e te fere, pois
conheço o medicamento que te curará. Se te manténs leal, dar-te-ei um bálsamo
que curará tua ferida. Contudo, por minha cabeça, já veremos se servirás de bom
grado e como cumprirás dia e noite os mandamentos que dou aos leais amantes.
– Senhor, por Deus, antes que vás, diga-me quais são. Estou
disposto a cumpri-los, mas antes devo conhecê-los, caso contrário, poderia
errar o caminho facilmente. Por isso quero conhecê-los para não infringi-los de
nenhuma maneira.
– Falastes bem. Escuta
e relembra, pois o mestre desperdiça todo o seu esforço quando o discípulo que
o está escutando não se preocupa em reter para depois recordar.
Então, o Deus do Amor explicou seus mandamentos tal como vais ouvir,
palavra por palavra: este Livro os enumera sem erros. Quem deseja amar,
que preste atenção, pois o Livro se ocupa deles a partir de agora.
Começam agora boas razões para escutar, se aquele que as conta o sabe fazer de forma
adequada, pois o final do sonho é extraordinário e seu conteúdo é totalmente
novo. Aquele que ouvir até o fim aprenderá bastante sobre os jogos do Amor; assim espere até que eu comece a explicar-lhe
o significado do sonho. A
verdade, que está encoberta, mostrar-se-á de forma evidente quando me ouvir
interpretar o sonho, pois nele não há uma só palavra que seja mentira.
[CONTINUA]






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