Continuação de O Romance da Rosa (Roman de La Rose), um poema alegórico escrito por Guillaume de Lorris por volta de 1.225 ou 1.230. A tradução aqui reproduzida é fruto do trabalho de Sonia Regina Peixoto e dos professores Ma. Eliane Ventorim e Dr. Ricardo da Costa, a partir da edição GUILLAUME DE LORRIS, JEAN DE MEUNG. El Libro de la Rosa (introd. de Carlos Alvar, trad. De Carlos Alvar y Julián Muela, lectura iconográfica de Alfred Serrano i Donet). Barcelona: Ediciones Siruela, 2003.
Boa leitura!
– Primeiro – diz o Amor
– quero e ordeno que abandones imediatamente a Vilania, e que
não voltes a ela, se não queres inimizade comigo, pois maldigo e excomungo
todos que a amam. A Vilania pertence aos vilões, por isso não a quero: o
vil é traidor, sem piedade, infiel e inimigo. Guarda-te de contar às gentes coisas que se devem manter em
silêncio. Não é nenhuma
proeza falar mal; espelha-te em Kay, o senescal, que por suas zombarias teve má
fama e foi odiado no passado. Enquanto Gawain, o discreto, era estimado
por sua cortesia, Kay era desprezado por ser mais vaidoso, cruel, insolente e
de má língua que os demais cavalheiros.
– Sê cortês e afável, de doces e sensatas palavras tanto
com os grandes quanto com os pequenos. Pela rua, acostuma-te a ser o primeiro a
saudar as gentes. Se
alguém te saúda primeiro, não mantenhas tua boca muda, procura devolver a
saudação sem tardar nem demorar.
– Depois, procura não dizer palavras sujas e grosseiras: tua boca não deve se abrir para nomear coisas
vis. Não considero cortês quem alude a vulgaridades e a coisas feias.
– Serve e honra a todas as mulheres, esforça-te em fazê-lo; se ouvires algum
desbocado se meter com elas, repreende-o e diz-lhe que se cale. Se puderes,
faça algo que agrade às damas e às donzelas, de forma que ouçam falar bem de
ti: deste modo ganharás prestígio.
– A seguir, evita o Orgulho, pois para qualquer um que esteja em seu juízo,
o Orgulho é uma
loucura e um pecado, e
quem cai nele, é incapaz de dominar seu próprio coração para que sirva e suplique. O orgulhoso faz o contrário do que
deve fazer o leal enamorado.
– Aquele que quer se dedicar ao amor deve se comportar com
elegância, caso contrário,
valerá pouco. A Elegância não é igual ao Orgulho: o que é elegante sem orgulho vale mais se não
for um louco presunçoso. Veste-te e calça-te bem, de acordo com tuas rendas: um
vestido formoso e belos adornos são grandes vantagens. Confia teu vestido a um
bom costureiro, que faça com que as pontas lhe caiam bem e que as mangas sejam
elegantes e bem ajustadas. Tem sapatos com laços e botinas, sempre novos e recentes,
e procura que se te ajustem tão bem que as vilãs discutam de que modo os
pusestes e como. Enfeita-te com luvas, bolsa de seda e cinturão; e se não fores
suficientemente rico para fazê-lo, arranja-as como puderes, mas procura sempre
sair o melhor vestido possível, sem que isso te cause a ruína.
– Utiliza grinaldas de flores, que custam pouco, ou de
rosas em Pentecostes: isso está ao alcance de qualquer um, não é necessário ser
muito rico.
– Não toleres nenhuma mancha em teu traje; lava as mãos,
limpa os dentes. Se nas
unhas aparece uma mancha de sujeira, não permitas sua presença. Costura as
mangas, penteia os cabelos, mas não te maquies nem te pintes, pois isso é
próprio das damas e de homens de má fama, que se ocupam de amores tortos.
– A seguir, lembra que deves estar sempre contente: procura ser alegre e vivaz, pois
o Amor não se ocupa das pessoas
sombrias. É uma enfermidade
muito própria da cortesia, rir e alegra-se continuamente. Mas às vezes resulta que os
enamorados alternem o gozo e o sofrimento, pois sentem que os males do amor são
ora doces, ora amargos. O
mal de amor é caprichoso: o enamorado ora está alegre, ora abatido, ou se lamenta;
em um momento chora, pouco depois canta.
– Se sabes fazer algo que agrade às gentes, ordeno-te que o
faças. Cada qual deve fazer em todos os lugares o que considera que faz melhor,
pois a partir disso
receberás fama, mérito e vantagens. Se crês que és ágil e ligeiro, não resistas
em saltar; se montas bem, não pares de cavalgar para cima e para baixo; se és
hábil quebrando lanças, podes conseguir que te apreciem muito; se és hábil com
as armas, serás dez vezes mais amado. Se tens voz clara e afinada, se te pedem,
não deves eximir-te na hora de cantar, pois o bom canto é muito apreciado. O
mesmo ocorre com o rapaz que sabe dançar e tocar a viola ou a cítara: assim se
pode obter grandes progressos.
– Evita que te considerem avaro, pois isso te seria prejudicial: é normal que
os enamorados dêem o que é seu com mais generosidade que os vilãos néscios e
ordinários. Quem não quer dar presentes, ignora o que é amar. Aquele que deseja
se esforçar no amor deve cuidadosamente evitar a avareza: se por um olhar ou um
sorriso doce e sereno entrega seu coração inteiro, pode deixar seus bens
abandonados, depois de ter feito tão rico dom.
– Vou lembrar tudo o que até agora te disse, pois é muito mais
fácil reter a lição quando ela é breve: quem desejar fazer do Amor seu senhor, deve ser cortês e humilde, vestir-se com
elegância, ser alegre e conseguir que o apreciem por sua generosidade.
– Como penitência, digo que não deixe de pensar no Amor dia e noite, e não te envergonhes por isso. Pensa sem cessar
nele e lembra da doce hora que tanto te demora. E para que sejas um leal enamorado, quero e ordeno que
tenhas todo o teu coração em um só lugar, de forma que não estejas dividido,
mas inteiro e sem enganos,
pois não gosto das divisões. Quem tem seu coração em vários lugares de uma vez,
sempre levará a pior parte. Não temo pelo que põe seu coração inteiro em um só
lugar e, por isso, te ordeno que faças assim, mas procura não entregá-lo, pois
se agires dessa maneira, considerarei uma perfídia de tua parte.
– Entrega teu coração como um presente, livre, e com ele
alcançarás maior mérito,
pois para compensar uma coisa presenteada, deve se dar um alto prêmio. Assim
entrega-o sem reticências, de boa vontade, porque se deve estimar muito o que
se dá com feições alegres, e eu não aprecio nada que se dá contra a própria
vontade.
– Depois de entregar teu coração de acordo com os conselhos
acima, começarão a chegar aventuras
difíceis e graves de suportar para os enamorados. Freqüentemente, ao recordar teu amor, te
verás obrigado a afastar-te das gentes, para que não se dêem conta da dor que sofres. Retirar-te-ás
para um lado, só, e então
virão suspiros e lamentos, temores e muitos outros males. Sentir-te-ás atacado
de muitas formas distintas: terás calor e logo sentirás o frio; estarás
ruborizado e depois pálido, pois nunca houve febres tão más, nem as diárias,
nem as quartas. Assim terás provado os sofrimentos amorosos antes de ir.
– Em outras ocasiões, ficarás meditativo e permanecerás imóvel durante muito tempo,
como se fosses uma estátua muda, que nem se move, nem se agita: não moverás um
pé, nem as mãos ou os dedos, não virarás os olhos para nenhum lugar, tampouco
falarás. Ao final, voltarás a ti, sobressaltar-te-ás estremecendo, como quem
tem medo, e lançarás profundos suspiros do coração, pois assim o têm feito todos
os que provaram esses males que te preocupam.
– É justo que, a seguir, recordes que tua amiga está longe.
Então dirás: “– Ai, Deus! Que mal suporto não indo ao encontro de meu coração!
Por que meu coração se foi só? Agora penso e não encontro resposta, posso enviar os olhos para que
acompanhem o coração, mas se não o fazem, não valorizo nada do que vêem. Devem ficar aqui? Não, absolutamente. Devem
visitar o objeto dos apaixonados desejos do coração. Bem posso pensar que sou
preguiçoso ao manter-me tão afastado de meu próprio coração. Que Deus me ajude!
Devo estar louco. Vou embora logo, não demorarei mais, pois não voltarei a
estar satisfeito, até ter notícias.”
– Então te colocarás a caminho, dirigindo-te até lá de tal
forma que várias vezes equivocar-te-ás, e em vão darás teus passos: o que
buscarás não verás, e terás que regressar sem conseguir nada, cabisbaixo e
meditativo.
– Voltarás a te encontrar mal. De novo sentirás suspiros,
pontadas e tremores mais agudos que os espinhos do ouriço; aquele que os
desconhece, que pergunte aos leais enamorados. Não conseguirás acalmar teu coração e uma vez mais irás
tentar ver o que tanta atenção te causa. Por fim, se conseguires conquistá-la, te ocuparás somente de
saciar e satisfazer teus olhos. Terás uma grande alegria em teu coração pela
beleza que estarás contemplando. Porém, de tanto admirar, teu coração se
queimará e se desfará, pois farás com que se excite o fogo ardente: aquele que mais olha a quem quer, mais incendeia seu coração e
o expõe às chamas como se o envolvesse com toucinho. Esse toucinho é o que arde
e faz arder o fogo que enamora as gentes. Os enamorados estão acostumados a
seguir essa chama, que os queima e os consome. Ao sentir o fogo mais perto, vão
até ele com maior ímpeto. As chamas são tamanhas que fazem com que se consuma
nelas aquele que se detêm para contemplar sua amiga. Assim acontece quando se aproxima
muito dela, quando se está mais disposto a amar. Todos o sabem, sábios e estúpidos: o mais próximo do fogo
arde com maior facilidade.
– Enquanto te encontras alegre não desejarás te afastar de
seu lado. Mas quando não te restar outro remédio, recordarás sem cessar o que
vistes, e pensarás que
cometestes um grande equívoco ao não se atrever a dirigir-lhe a palavra, pois
não tivestes valor nem ousadia para fazê-lo e ficastes ao seu lado sem dizer
nada, como louco e torpe. Considerarás um grave erro não ter chamado a formosa
antes de ela ir. Voltarás muito contrariado, pois se tivesses conseguido obter
pelo menos uma gentil saudação, a estimarias em cem marcos.
– Começarás a maldizer-te e buscarás uma oportunidade para ir
novamente à rua onde viste aquela a quem não atrevestes a dirigir a palavra.
Com muito prazer te encaminharias à sua casa se tivesses um motivo. A partir desse momento, todos os
caminhos e todas as tuas idas e vindas passarão por aqueles arredores. Mas te
oculta das gentes com cuidado e busca um motivo diferente do que na verdade te
faz ir por ali, pois é prova de bom senso saber ocultar-se.
– Se por casualidade te encontras com a formosa em tal situação
que não te resta outro remédio a não ser saudá-la e falar com ela, te mudarás a
cor, te estremecerás o sangue, te falharás a palavra e o entendimento quando
fores começar a falar; e, se conseguires avançar o suficiente para atrever-te a
falar, não conseguirás dizer duas coisas das três que pensavas, pela vergonha
que sentirás diante dela. Não há ninguém tão seguro que ao chegar a essa
situação não esqueça muitas coisas, a não ser que minta: os falsos amantes empregam
palavras a seu gosto, sem medo. São muito mentirosos: pensam uma coisa e dizem
outra.
– Quando tiveres terminado de falar sem ter dito uma palavra má,
pensarás que te equivocastes, pois esquecestes de dizer algo que poderia ser
conveniente. Então
te sentirás martirizado: é o combate, é a fogueira, é a batalha que nunca
termina. Não haverá nenhum
enamorado que tenha buscado falar com sua dama e tenha encontrado a paz ou o
fim dessa guerra, a não ser que eu o queira.
– Ao cair a noite, sentirás mais de mil náuseas. Deitarás em tua
cama, mas não poderás descansar, pois quando começares a dormir, tremerás,
tiritarás e estremecerás. Virarás
de lado, de boca para cima, de boca para baixo, como quem padece de dor de
dente. Recordarás o rosto e as maneiras daquela que não tem par. E ainda te digo mais: chegarás a pensar que
tens entre os braços aquela de rosto claro, completamente desnuda, como a
houvesse convertido em amiga e companheira. Serão vãs imaginações, alegrias sem sentido, resultado do enlouquecimento por agradáveis lembranças,
nas quais há somente mentiras e fábulas. Pouco tempo poderás permanecer em tal
estado; logo começarás a chorar, dizendo: “– Deus, o que tenho sonhado? O que é
isso? Onde me encontrava? De onde me vem tal pensamento? Gostaria que voltasse
a ocorrer dez ou vinte vezes diárias: isso me saciou e me encheu de alegria e
gozo, mas sua brevidade vai me causar a morte. Deus! Conseguirei me ver em tal
situação? Agradar-me-ia que assim o fosse, ainda que morresse ao final. A morte
não me preocuparia se viesse entre os braços de minha amiga. O Amor me atormenta e me martiriza sem cessar. Por isso me queixo e
lamento freqüentemente. Mas, se conseguir obter a alegria total de minha amiga,
terei conseguido uma boa recompensa por meus males. Ai de mim, peço em demasia! Não devo ser muito
rápido, pois aspiro a tanto: aquele que pede uma estupidez é normal que tenha
seu pedido negado. Não sei como me atrevi a dizê-lo! Muito mais nobres e
valiosos que eu se sentiriam honrados com uma recompensa menor, mas se a bela
me concedesse o prazer de um só beijo, seria uma recompensa mais que suficiente
pelas penas que tenho sofrido. É coisa difícil de conseguir. Devo considerar-me
um louco, pois coloquei
meu coração em um lugar onde não conseguirei gozo nem proveito. Só digo loucuras e estupidez, pois mais vale
um olhar seu que todo o deleite que outra possa dar. Com muito prazer a veria,
que Deus me ajude, pois ela curaria quem a visse só um breve instante. Ai,
Deus! Quando amanhecerá? Há muito que estou nessa cama. Não aprecio esse
descanso, pois não tenho o que desejo. Estar deitado é um tédio se não se dorme
ou descansa. Incomoda-me e desagrada-me que não desponte o alvorecer e termine
a noite. Se fosse dia, não demoraria em levantar-me. Ah, Sol! Por Deus, tem pressa,
não demores nem te atrases, faz com que se vá a noite escura, com seus pesares
que já duram demasiadamente.”
– Deste modo, se chegar a conhecer o mal de amar, passarás
a noite com pouco repouso.
Quando já não puderes suportar continuar velando na cama, arrumar-te-ás,
vestir-te-ás e até te calçarás antes que tenha amanhecido. Escondendo-te, com
chuva ou com gelo, dirigir-te-ás à casa de tua amiga, que estarás dormindo, sem
pensar em ti.
– Primeiro irás à porta de trás, para ver se ficou aberta.
Permanecerás ali fora, sozinho, sob a chuva e o vento. Depois irás à porta da
frente: se encontrares uma fresta numa janela ou numa fechadura, aproxima o
ouvido e escuta se os de dentro dormem. Se a bela estiver acordada,
aconselho-te e recomendo que procures que ela ouça tuas queixas e lamentos,
para que se inteire de quanto te custa não poder descansar pelos desejos que
tens de que seja tua amiga. Toda mulher, se não é muito dura, deve apiedar-se
de quem suporta tais sofrimentos por ela.
– Agora vou te dizer o que é que farás por amor do santo lugar
que não te permite nenhum repouso: quando regressares, vai à porta e, para que
ninguém te veja diante da casa ou pela rua, volta antes que tenha amanhecido.
– Estas idas e vindas, estas vigílias e meditações fazem com que
as peles dos enamorados emagreçam sob as roupas, como poderás comprovar por ti
mesmo: o amor não deixa ao leal amante nem cor, nem gordura. Nisso se
distinguem sem dificuldade aqueles que traem suas damas: para homenageá-las,
dizem que têm perdido a vontade de comer e beber, mas eu vejo esses embusteiros
mais gordos que abades ou priores.
– Vou te dar e impor mais outra ordem: para que a criada da casa
te tenha por generoso e diga que vales muito, dê-lhe qualquer adorno. Deves
honrar e querer tua amiga e a todos os que a acompanham, pois através deles
podes receber grande proveito. Quando
aqueles em quem ela mais confia mais lhe contam que te encontraram valente,
cortês e de trato afável, terás conseguido que a dama te queira muito mais.
- Procura não sair de tua terra, mas se não tens outro remédio
senão fazê-lo, procura
que teu coração fique, e pensa em regressar o quanto antes. Não deves tardar
muito: mostra que tens
grandes desejos de ver aquela que possui a custódia de teu coração.
– Com isso já te disse tudo o que deve fazer o enamorado que
entra em meu serviço. Cumpre com minhas ordens, a partir de agora, se queres
obter os favores de tua bela.
Depois das recomendações que me fez o Amor, eu lhe perguntei:
– Senhor, de que maneira, como podem os enamorados suportar
esses sofrimentos que haveis contado? Sinto um autêntico pavor. Como pode viver, como resiste
quem está continuamente entre dores e chamas, entre lamentos, suspiros e
lágrimas, que a todo o momento e a cada instante se encontra preocupado e com
insônias? Que Deus me ajude; admira-me que um homem, ainda que fosse de ferro,
pudesse viver um ano em tal inferno.
O Deus do Amor me respondeu, dando uma boa resposta à minha pergunta:
– Bom amigo, pela alma de meu pai, ninguém tem um bem sem pagá-lo; mais se estima uma propriedade quanto mais
cara custou, e com maior gosto se recebem os bens pelos quais mais sofreu. É
certo que não há nada comparável ao que passam os enamorados. Do mesmo modo que
não se pode esvaziar o mar, é impossível contar os males do amor em um livro ou
em uma estória.
– Em qualquer caso, os enamorados sobrevivem, pois lhes é
necessário; todos fugimos da morte. O que está recluso em um sombrio cárcere
cheio de vermes e imundícies, que não tem mais que um pão de cevada ou aveia,
não morre de aflição: a
Esperança lhe dá consolo, e ele pensa em se ver livre por alguma afortunada
casualidade. O mesmo acontece ao prisioneiro do Amor. Espera se salvar e tal esperança o reconforta,
lhe dá ânimo e forças suficientes para entregar seu corpo ao martírio. A Esperança o ajuda a suportar os inumeráveis males em troca de uma
alegria que vale cem vezes mais. A Esperança
vence o sofrimento e faz com que os enamorados sobrevivam. Bendita seja
a Esperança, que assim os
mantém! A Esperança é muito cortês: até o fim não abandona o homem honrado, apesar
dos perigos e das aflições; e faz com que o ladrão que vão enforcar espere
misericórdia a todo o momento. Ela te protegerá e não sairá do teu lado sem ter
te socorrido se for necessário. Além
disso, te presenteio outros três bens que fornecem um grande alívio aos que se
encontram em meus laços.
– O primeiro dos bens que aliviam os que caem nos laços do Amor é Doce Pensamento, que lhes recorda as concessões da Esperança. Quando o enamorado se lamenta e suspira, entre
dores e martírios, não demora muito em aparecer Doce
Pensamento, que despedaça a tristeza e a dor, e, com sua chegada, faz com
que o enamorado recorde a alegria que lhe prometeu Esperança. Depois, lhe mostra os olhos sorridentes, o
belo nariz que não é nem muito grande nem pequeno, a boquinha de uma cor viva,
cujo sopro é tão apreciado. Então, lhe alegra em recordar a beleza de cada um
de seus membros. O deleite se duplica com a lembrança de um sorriso, de um bom
rosto ou de um doce olhar que sua querida amiga tenha lhe dedicado. Assim, Doce
Pensamento alivia as dores e as tristezas do Amor. Presenteio-te. E vou te dar outro que não é
menos agradável: se o rechaças, parece-me que serás difícil de contentar. Trata-se
de Doce Conversação, que em muitas ocasiões socorreu a numerosos
jovens e damas, pois aquele que ouve falar de seu amor, imediatamente se
alegra. Recordo que por isso uma dama muito enamorada dizia estas corteses
palavras em uma canção: “Sinto-me afortunada / Quando me falam de meu amigo /
Por Deus! Cura-me / Quem dele me fala, diga o que disser”. Esta dama sabia quem
era Doce Conversação e a
havia conhecido sob diversos aspectos.
– Aconselho-te e desejo que busques um companheiro prudente e
discreto, a quem possas revelar seus pensamentos e descobrir teu sentir. Ele te
ajudará muito. Quando o mal de amor te causar profundas angústias, recorrerás a
ele para te reconfortar; falareis juntos da bela que te roubou o coração.
Contar-lhe-ás tua situação e lhe pedirás que te aconselhe de que modo poderias
fazer algo que seja agradável à tua amiga. Se aquele que vai ser teu amigo
entregou seu coração a um bom amor, então sua companhia será muito mais valiosa. É razoável que te diga se sua amiga é
donzela ou não; e que te indique quem é e como se chama. Assim não deverás
temer o que pensas de tua amiga ou que te enganes, mas terão confiança mútua,
já que é muito agradável contar com um homem a quem nos atrevemos a dizer
segredos e confidências. Receberás com muito prazer tal deleite e te
considerarás bem recompensado quando o provares.
– O terceiro bem procede da visão: é Doce
Olhar, que permite que possam resistir aqueles que têm amores
distantes. Aconselho-te que te mantenhas próximo de tua dama com Doce
Olhar; assim, seu consolo não tardará em chegar, pois é agradável e
prazeroso aos enamorados.
– Os olhos têm um encontro muito bom pela manhã quando Deus
lhes mostra o santuário precioso que tanto desejam: o dia que podem ver. Não
lhes ocorre nenhuma desgraça digna de consideração; não temem nem o pó, nem o
vento, nem alguma outra coisa difícil de suportar. E quando os olhos desfrutam
de tal prazer, estão tão bem educados e acostumados, que não gozam sozinhos,
mas procuram que o coração também se regozije, de modo que o aliviam de suas
penas; pois os olhos, como autênticos mensageiros, enviam imediatamente ao
coração as notícias do que vêem e, graças à alegria que produzem, o coração
esquece suas aflições e sai das trevas nas quais se encontrava. Do mesmo modo
que a luz faz com que fuja a escuridão, Doce
Olhar afasta as trevas em que jaz o coração que languesce dia e noite
por culpa do amor, e as dores terminam quando os olhos contemplam o que o
coração deseja.
– Segundo me parece, já te expliquei o que tanto te assustava e
contei sem mentir nada quais são os bens que podem proteger os enamorados,
salvando-os da morte. Agora sabes quem pode te dar certo valor, pois ao menos
terás a Esperança e não
te faltarão Doce Pensamento,
Doce Conversação e Doce Olhar. Quero que cada um deles te proteja até que
possas aspirar a algo melhor, pois
mais adiante obterás outros bens que não são menores que esses, e sim muito
maiores. Por enquanto, te
dou estes.
Quando o Amor terminou de dizer-me o que quis, fui incapaz de pronunciar uma
só palavra antes que desaparecesse. Fiquei assustado ao ver que junto a mim não
havia ninguém. Sentia uma grande dor em minhas feridas e me dei conta de que
não poderia curar-me se não fosse com a rosa à qual havia entregue meu coração
e todo meu ser. Para obtê-la, não confiava em ninguém além do Deus
do Amor e estava seguro de que seria impossível
consegui-la sem a sua ajuda.
Os roseirais estavam cercados por uma cerca, como era normal. Eu
estava disposto a entrar em busca da flor, cuja fragrância era superior a
qualquer bálsamo, mas tinha medo de que alguém me chamasse a atenção. Parecia
que os roseirais desejavam me levar.
Assim, enquanto pensava se atravessaria a cerca, vi que se
aproximava de mim um jovem rapaz, belo e elegante, sem nenhuma imperfeição.
Chamava-se Doce Abrigo, filho da esplêndida Cortesia. Com delicadeza, ele deixou-me livre o caminho
e disse-me amavelmente:
– Meu bom amigo, por favor, passai esta cerca para sentir o
perfume das rosas. Asseguro-te que não receberás nenhum dano por isso e que não enfrentarás nenhuma baixeza,
contanto que te guardes de cometer loucuras. Se puder te ajudar em algo, não discutirei, pois estou disposto
a servir-te: digo isso com toda franqueza.
– Senhor – disse a Doce Abrigo – aceito tua oferta com muito prazer e dou graças pelo favor que
me ofereceste, pois fê-lo movido por uma grande nobreza. E já que assim o
desejas, estou disposto a aceitar teu serviço.
Assim, atravessei a cerca entre sarças e espinhos, que eram
abundantes e, acompanhado por Doce
Abrigo, comecei a andar até a rosa que exalava o melhor perfume de todas
as demais. Asseguro-vos que me
agradou muito aproximar-me tanto da flor. Quase pude alcançá-la com a mão.
Doce Abrigo serviu-me bem ao fazer com que visse a rosa de tão perto, ainda
que naquele lugar estivesse escondido um vilão – que a má vergonha lhe alcance!
Chamava-se Rejeição e era vigilante e guardião de todos os roseirais. O covarde se ocultava num canto, coberto pela
erva e pela folhagem, para espiar e surpreender quem estendesse as mãos até as
rosas.
Esse cão não estava só, tinha como companheiros a Má Língua, a murmuradora, a Vergonha e o Medo. De todos eles, era Vergonha
a que mais valia:
sabe-se, segundo contam os que conhecem bem o seu parentesco e a sua linhagem,
que era filha da prudente Razão e que seu pai se chamava Azarento, um diabo tão odioso e feio que a Razão não chegou a se deitar com ele, mas concebeu a Vergonha
pelo olhar.
Quando Deus a fez nascer, a Castidade – senhora das rosas e de seus botões – viu-se atacada por malvados
ladrões, necessitando de ajuda, pois Vênus havia entrado em suas possessões para levar as flores e os
botões, como costumam fazer dia e noite. Então, a Castidade, que se encontrava perseguida por Vênus, pediu à Razão que lhe desse a sua filha. Como se encontrava desamparada, pediu
à mesma, que não tardou em fazer-lhe um favor emprestando-lhe sua filha Vergonha, que é honrada e honesta. E para proteger
melhor os roseirais, fez com que o Zelo e o Medo a socorressem, pois eles obrigam a cumprir seus desejos.
Assim, eram quatro os guardiões das rosas, os quais preferiam
ser golpeados antes que alguém levasse alguma rosa ou botão. Eu teria chegado
bem perto dos meus propósitos se não estivessem me vigiando, pois Doce
Abrigo, nobre e agradável, esforçava-se em cumprir o que havia dito e,
assim, em fazer o que via que podia agradar-me. Incessantemente, ele me
impulsionou para que me aproximasse do botão e tocasse o roseiral, que estava
carregado de flores.
Deu-me permissão para fazer tudo isso, pois pensava que
esse era o meu desejo. De sua parte, tomou uma folha verde que crescia perto da
rosa e me presenteou, pois ela havia nascido junto à flor.
Tive uma grande alegria ao receber essa folha, pois, a partir
deste momento, me considerei amigo íntimo e confidente de meu companheiro e,
por isso, pensava que já
havia chegado à minha meta.
Então, senti o valor suficiente e o atrevimento necessário para dizer-lhe que o
Amor havia me aprisionado e ferido:
– Senhor – disse-lhe – nunca voltarei a ter alegria se não for
por uma coisa: no coração tenho fixa uma pesada enfermidade, mas não sei como
explicar-lhe, pois temo que vos enfadeis; preferiria ser despedaçado em pedaços
com facas de aço antes de causar-vos qualquer desgosto.
– Dizei-me teus desejos, pois não me molestará nada do que
digas.
– Bom senhor, sabes que o Amor me atormenta com dureza. Não vou mentir para ti: ele tem me
causado cinco feridas no corpo e a
dor não cessará até que eu consiga a rosa mais perfeita de todas - é minha
morte e é minha vida; nada desejo tanto.
Doce Abrigo se assustou e então me disse:
– Irmão, pensas algo impossível. Como? Queres minha desonra?
Haverias me feito passar por estúpido se tivesses colhido o botão do roseiral; não é razoável tirá-lo de seu
lugar. Cometes uma vilania pedindo-o! Deixa que cresça e que se torne mais
formoso, pois nenhum homem
vivo arrancá-lo-ia do roseiral que o tem sustentado, tanto o quero!
Nesse momento, saltou a infame Rejeição do lugar em que estava escondida. Era grande, negra e peluda,
tinha os olhos acesos como brasas, o nariz enrugado e o rosto abominável.
Então, ela começou a gritar como uma louca:
– Doce Abrigo, porque trouxeste este jovem próximo aos
roseirais? Por Deus, fizeste mal, pois ele pensa em prejudicá-los. Maldito
sejas não tu, mas quem o trouxe a este jardim! Aquele que serve a um traidor tem
a recompensa que merece. Pensavas fazer-lhe um favor enquanto ele te desejava
afrontas e desavenças. Anda
jovem, vá daqui! Com gosto dar-te-ia a morte! Doce Abrigo conhecia-te mal e se esforçava em servir-te, enquanto
tentavas enganá-lo. Não confiarei em ti, pois manifestaste a traição que
guardavas oculta.
Não me atrevi a permanecer naquele lugar por culpa do odioso
vilão negro que me ameaçava atacar daquela maneira. Rapidamente ele me obrigou a retroceder com muito medo para o outro lado da cerca, enquanto
o malvado movia a cabeça dizendo que se eu voltasse a entrar, me faria uma má
ação.
Então, Doce Abrigo fugiu
e eu fiquei amedrontado, aflito e cheio de vergonha: estava arrependido de ter
dito o que pensava.
Recordei minha loucura e vi meu corpo livre da dor, da pena e do suplício, mas o
que mais me entristecia era não ter me atrevido a passar a cerca.
Quem não amou não conhece a dor, pois quando se ama padece-se
grandes sofrimentos. O Amor me fez provar a pena que me prometera. O
coração seria incapaz de pensar e a boca não poderia dizer a quarta parte da
dor que eu sentia. Quando recordo que tive que me afastar assim da rosa, meu
coração quase se destroça.
Por muito tempo permaneci nesse estado, até que a dama do
lugar, que estava me olhando do alto de sua torre, me viu aflito. Chamava-se Razão. Desceu de lá e veio até a mim. Não era jovem,
nem grisalha, nem alta, nem baixa, nem muito magra, nem excessivamente gorda.
Seus olhos brilhavam como duas estrelas e tinha na cabeça uma coroa; parecia
ser uma pessoa de elevada condição. Por sua aparência e seu rosto parecia ter
sido feita no Paraíso, pois a Natureza seria incapaz de realizar obra
comparável.
Se o texto não mente, saibais que Deus a criou no firmamento à Sua imagem e semelhança, e lhe
concedeu o poder e a força para manter o homem distante de toda a loucura,
contanto que lhe prestasse atenção.
[CONTINUA]







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