8 de maio de 2015

O Romance da Rosa por Guillaume de Lorris. (2ª PARTE)











Continuação de O Romance da Rosa (Roman de La Rose), um poema alegórico escrito por Guillaume de Lorris por volta de 1.225 ou 1.230. A tradução aqui reproduzida é fruto do trabalho de Sonia Regina Peixoto e dos professores Ma. Eliane Ventorim e Dr. Ricardo da Costa, a partir da edição GUILLAUME DE LORRIS, JEAN DE MEUNG. El Libro de la Rosa (introd. de Carlos Alvar, trad. De Carlos Alvar y Julián Muela, lectura iconográfica de Alfred Serrano i Donet). Barcelona: Ediciones Siruela, 2003.

Boa leitura!



Havia numerosos pássaros cantores reunidos por todo o jardim: em um lugar havia rouxinóis, em outro, gaios e estorninhos; e, em outros lugares, havia bandos de pombas-rolas, de estrelinhas-de-poupa, de pintassilgos, de andorinhas, de cotovias e de chapins. Mais adiante, havia muitas cotovias que já estavam cansadas de competir no canto e, com elas, havia melros e tordos que tentavam superar os outros pássaros com seus silvos. Em outro lugar, havia papagaios e muitas aves que, nos jardins e bosques que habitavam, deleitavam-se com seu belo canto.


Os pássaros de que estou falando faziam um bom trabalho, pois cantavam como se fossem anjos espiritualizados e, ao ouvi-los, eu me alegrava, pois nenhum homem vivo ouviu antes uma melodia tão doce. Era um canto tão agradável e formoso que não parecia de pássaros, e sim com o canto das sereias do mar, chamadas assim por suas vozes puras e doces.


Os passarinhos estavam atentos ao canto, pois esteja seguro de que não eram nem aprendizes nem ignorantes. Ao ouvi-los e ao ver o verdor do lugar, fiquei muito alegre, mais do que havia ficado até então; e, pela amenidade do jardim, me enchi de gozo a tal ponto que me convenci de que Ociosa me havia servido bem, proporcionando-me tal bem-estar. Eu devia tê-la como amiga, já que me abriu a porta daquele bosque cheio de árvores.


E agora, conforme meus conhecimentos contar-vos-ei tudo o que aconteceu. Mas antes de tudo, dir-vos-ei o que Lazer estava fazendo e quem eram seus acompanhantes, mas sem me estender em demasia. Depois, descrever-vos-ei o bosque sem ocultar nada. Não posso fazê-lo todo de uma vez e, por isso, vou contar ordenadamente, para que não possam me censurar nada.


Os pássaros cumpriam seu dever doce e agradável, cantando lais de amor e canções corteses, uns com voz alta, outros em tom baixo. O canto não era nada depreciável, e a melodia conseguiu que a doçura voltasse a brotar em meu coração. Depois de escutar um pouco os pássaros, não pude resistir aos meus desejos de estar diante de Lazer para ver seu aspecto e contemplar sua pessoa. Sem deter-me, fui à direita, por uma pequena trilha cheia de erva-doce e de menta, e não demorei em encontrar o Lazer, pois estava no bosquezinho em que me meti. Ali estava se distraindo com pessoas de tanta beleza que, ao vê-las, perguntei-me de onde poderiam ter vindo, pois eram como anjos com asas: nunca vi jovens mais belos. Puseram-se a bailar ao coro e ao som das canções que lhes cantava uma dama chamada Alegria.


Alegria cantava bem e de forma muito agradável; ninguém entoaria os estribilhos melhor nem com mais elegância; ela cantava extraordinariamente bem, com voz clara e pura; e, além disso, movia-se com habilidade, lançava os pés de forma educada e surgia no momento oportuno: estava acostumada a cantar sempre a primeira – e esse era o trabalho que fazia com mais gosto.


Ali vós os veríeis dar voltas, dançando com graça em belos círculos sobre a grama fresca. Ali, vários flautistas, menestréis e jograis cantavam ritornelos e canções de Lorena, pois, de todos os reinos, é em Lorena onde se fazem as mais belas canções. Havia inúmeras mulheres que tocavam as castanholas e o pandeiro com habilidade, que não paravam de lançar o pandeiro ao ar e o pegarem sem nunca errar. Lazer fazia com que as moças, muito formosas, dançassem no meio da roda. Elas vestiam somente a cota e tinham seus cabelos presos com uma trança. Não é necessário cantar a elegância com que dançavam: uma se aproximava da outra e, quando estavam juntas, aproximavam suas bocas parecendo que se beijariam no rosto. Sabiam se mover muito bem.


Não sei mais o que vos dizer; por mim, nunca sairia dali enquanto aquelas gentes continuassem com seus bailados e danças.


De pé, contemplei a roda até que veio a mim uma alegre dama: era Cortesia, apreciável e afável. Que Deus a livre de todo o mal!


Docemente ela se dirigiu a mim:


– Bom amigo que vós fazeis aqui? Venhais e tomais parte na dança conosco, se assim quiserdes.


Sem tardança nem demora juntei-me à roda, contente por Cortesia ter suplicado e pedido que bailasse, pois estava desejoso e com vontade de dançar, embora não me atrevesse a fazê-lo. Assim, contemplei os corpos, as formas, os rostos, o aspecto e as maneiras dos que estavam dançando – e vou descrevê-los.


Lazer era belo, alto, esguio: não encontrareis homem mais formoso. Seu rosto era como uma maçã, rosado e branco em volta; era elegante e de boa aparência; tinha os olhos verdes, a boca formosa, o nariz bem feito, reto; seus cabelos eram louros, encaracolados; tinha os ombros largos e a cintura estreita: parecia uma pintura, de tão formoso e elegante que era e por ter os membros bem formados. Em seus movimentos era hábil e ágil; não conhecerás ninguém mais ligeiro; não tinha barba nem bigode, mas um buço incipiente, pois era um jovem rapaz. Trazia seu corpo vestido com um tecido de seda bordado com pássaros, todo lustrado de ouro; seu traje tinha muitos adornos, pois estava elegantemente alisado e cortado em vários lugares. Estava calçado com grande perfeição, com sapatos de cadarço, feitos sob medida. Por amor e como uma forma de agradecimento, sua amiga lhe havia feito uma coroa de rosas que lhe caía muito bem. Sabeis quem era sua amiga? Era Alegria, que não odiava ninguém, sempre estava contente e cantava muito bem; desde que tinha somente sete anos ela lhe havia declarado seu amor.


Lazer a segurava pelos dedos no meio da roda e ela também o segurava. Faziam um bonito par, pois ele era formoso e ela também. Pela cor de sua delicada pele, que se poderia ferir com um pequeno espinho, ela parecia uma jovem rosa. Tinha a fronte formosa e ampla, sem rugas; sobrancelhas morenas e arqueadas; olhos alegres e tão vivos que sempre começavam a sorrir antes de sua pequena boca. Não sei o que dizer de seu nariz: não se poderia fazer um melhor com cera. Tinha a boca pequenina e sempre disposta a beijar seu amigo; sua cabeça era loura e reluzente. Que mais vos posso dizer? Ela era bela e elegante; enfeitava-se com um fio de ouro, e trazia um chapéu novo, de seda e de ouro. Eu, que tenho visto muitos penteados, nunca vi um tão bem feito. Vestia seu corpo e o cobria com um tecido de seda dourado: sentia-se orgulhosa por seu amigo usar um tecido igual.


A seu lado estava o Deus do Amor, que a seu desejo distribui paixões. É ele quem faz justiça com os enamorados, é ele quem abate o orgulho das gentes, fazendo do senhor, servidor, e das damas, criadas – quando as encontra demasiado soberbas.


Por seu aspecto, o Deus do Amor não parecia um rapaz vulgar e era apreciado por sua beleza. Para contar como estava vestido, eu temo estar em dificuldades, pois não trazia traje de seda, mas de florzinhas, feitas por delicados amores. Era um vestido de xadrez adornado por todas as partes com losângulos, aves, leões, leopardos e outras classes de animais; para maior abundância de cores, tinha muitos tipos de flores, que haviam sido colocadas ali com grande arte.


Não havia flor que nascesse no verão e que não estivesse ali: giesta e violeta, flores brancas e negras, amarelas, azuis e verdes; todas estavam ali, tal era sua variedade. Em algumas partes estavam misturadas pétalas de rosas grandes e cheias. Na cabeça trazia uma grinalda de rosas, mas os rouxinóis que voavam ao redor faziam cair as pétalas.


Ele mesmo estava rodeado de pássaros, oriolídeos, rouxinóis, calhandras e chapins-reais: parecia um anjo que acabara de cair do céu. Ao seu lado havia um jovenzinho que mantinha perto de si e que se chamava Doce Olhar.


Esse rapaz contemplava a dança guardando para o Deus do Amor dois arcos turcos: um era feito com a madeira de uma árvore cujos frutos são amargos e estava cheio de nós e protuberâncias por todas as partes; ainda, era mais negro que a amora. O outro era feito de uma madeira delicada e flexível; era largo e com uma bela forma; estava bem talhado e moldado, e tinha abundantes adornos: nele havia pinturas que representavam damas de todas as categorias e jovens alegres e elegantes.


Tais eram os arcos que carregava Doce Olhar. Além disso, ele não parecia um rapaz vulgar, já que guardava dez flechas de seu senhor e tinha cinco delas na mão direita. Essas estavam pintadas de cor ouro, tinham penas bem feitas e talhes perfeitos, pontas fortes, cortantes e agudas que podiam cravar-se sem dificuldade, mas não eram de ferro nem de aço, pois não havia nada nessas flechas que não fosse de ouro, com exceção das penas e da haste, que haviam sido colocadas em pontas cortantes com filetes.


A melhor e mais rápida dessas flechas, a mais formosa, a que trazia a melhor pluma, chamava-se Beleza. Uma das que feria com maior facilidade recebera o nome de Simplicidade, segundo creio. Havia outra chamada Franqueza, que tinha uma pluma feita com valor e cortesia. A quarta flecha era muito pesada e não podia ir muito longe: chamava-se Companhia; se utilizada em distâncias curtas, poderia causar graves danos. A quinta se chamava Boa Face; era a mais ligeira e produzia grandes feridas; é digno de compaixão aquele que é alcançado por essa flecha, pois antes que se passe muito tempo verá sua saúde afetada com uma dor nada pequena.


Havia cinco flechas de outro tipo, que eram muito feias. As hastes e pontas eram mais negras que o diabo do Inferno. A primeira se chamava Orgulho; outra, que não era melhor, Vilania, que estava carregada com o veneno da traição; a terceira recebia o nome de Vergonha; e a quarta, de Desespero. A última sem dúvida se chamava Mudança no Pensamento. Essas cinco flechas eram todas iguais em suas formas e parecidas entre si. Caía-lhes muito bem um dos arcos, o que era feio, cheio de nós e de saliências: esse devia disparar tais flechas. Seguramente tinham propriedades contrárias às outras, mas não vou dizer agora suas qualidades, nem seus poderes: contar-vos-ei toda a verdade, não esquecendo o significado de cada uma delas – pois isso é importante – e revelar-vos-ei antes de finalizar meu relato. Agora, voltarei ao que estava dizendo.


Vou contar o aspecto, os modos e o comportamento das nobres gentes que estavam dançando. O Deus do Amor havia se aproximado muito de uma dama de elevada condição. Tinha escolhido bem sua companhia: essa dama se chamava Beleza, como uma das cinco flechas. Tinha todas as boas qualidades: não era de pele escura, nem demasiado morena, mas brilhava como a Lua, aquela frente a qual as estrelas parecem tímidas velas. Tinha a carne frágil como o orvalho, era cheia de pudor como uma recém casada e branca como o lírio; seu rosto era suave e liso, estava um pouco delgada, era ágil e não havia se maquiado nem se pintado, pois não tinha necessidade de se arrumar nem de se enfeitar. Tinha os cabelos lourinhos e longos até os calcanhares, um nariz bem feito, como os olhos e a boca. Em meu coração entra uma grande doçura – que Deus me ajude! – quando me lembro do aspecto de cada um de seus membros, pois não houve ainda mulher mais formosa no mundo. Para ser breve, direi que ela era muito jovem e loura, agradável, afável, cortês e elegante, bem proporcionada e um pouco magra, gentil e alegre.


Ao lado da Beleza estava a Riqueza, dama de elevada posição, de grande valor e de reconhecido mérito. Aquele que se atrevesse a causar-lhe dano ou aos seus por meio de ações ou palavras, teria que ser muito valente e ousado, pois ela poderia prejudicá-lo ou beneficiá-lo muito: não é de hoje nem de ontem que os ricos têm um grande poder para ajudar ou para prejudicar.


Todos – grandes e pequenos – tributavam honras à Riqueza; todos se esforçavam em servi-la para merecer mais suas recompensas; cada um a chamava de “sua dama”, pois todos a temiam; o mundo inteiro estava sob seu domínio. Em sua corte há muitos aduladores, muitos traidores e muitos invejosos: são os que buscam o desprezo e a afronta para os amantes. Os aduladores elogiam as gentes quando estão em sua presença e subornam todo mundo com palavras, mas logo cravam pelas costas suas mentiras até o fim, até os ossos: esses aduladores têm obrigado muitos a fugir, fazendo com que se mantenham longe da corte muitos que deveriam ser conselheiros particulares. Que sobrevenham abundantes males a esses fofoqueiros cheios de inveja! Nenhum homem nobre ama sua vida.

Riqueza trazia um vestido de púrpura: não considereis exagero se vos digo e afirmo que jamais houve outro assim tão belo, rico e elegante em todo o mundo. Estava cheio de adornos de passamanaria e tinha desenhadas estórias de duques e reis com fios de ouro; trazia no colo uma fita de ouro e de esmaltes enriquecida com abundantes pedras preciosas que irradiavam uma grande claridade. Riqueza trazia um cinturão muito elegante: nenhuma dama alguma havia colocado um tão rico. Seu broche era feito de uma pedra que tinha propriedades e virtudes extraordinárias, pois quem a levasse consigo não precisava temer nenhum veneno, nem ser envenenado com nada. Ela fazia bem estimar tal pedra, que valia para qualquer rico mais que todo o ouro de Roma. A fivela era de outro tipo de pedra, que curava a dor de dentes com a virtude de quem a contemplasse, por mais jovem que fosse, ficaria salvo o resto da vida. Os detalhes no tecido dourado eram de ouro puro: grossos e pesados, o valor de cada um deles era, no mínimo, de um besante.


Sobre as tranças louras ela trazia um diadema de ouro: até então nunca vira um tão formoso, em minha opinião. Era de ouro retorcido. Seria muito hábil na descrição aquele que fosse capaz de vos contar ou descrever as gemas que havia nele: seria impossível calcular o valor das pedras que estavam engastadas no ouro. Ali havia rubis, safiras, jacintos e mais de duas onças de esmeraldas; o diadema tinha por toda a parte da frente um rubi engastado com grande habilidade: esse emitia tanta luz que quando anoitecia podia ser visto a uma légua de distância, e saía tal claridade da pedra que Riqueza tinha seu rosto e sua face resplandecida, e ao seu redor tudo ficava iluminado.


Ela estava de mãos dadas com um rapaz extraordinariamente belo, que era seu verdadeiro amigo. Era um homem que prazerosamente se entretinha em cuidar bem de seus pertences: calçava-se e se vestia com esmero, tinha valiosos cavalos, pois preferia ser acusado de assassinato ou latrocínio que ter rocinantes ruins em seu estábulo. Por isso, estimava muito a elegância e a benevolência de Riqueza, pois estava sempre pensando em ter grandes gastos: ela os mantinha e o sustentava, dando-lhe tantos bens como se os tirasse de um celeiro.


A seguir vinha a Generosidade, que era bem educada, sabia agradar as gentes e gastar muito. Era da linhagem de Alexandre e nada lhe causava maior prazer que dizer “toma”. Avareza, a pobre, não estava tão disposta a receber como Generosidade a dar. Deus fazia crescer suas riquezas, de modo que quanto mais dava, mais tinha. Grandes eram os méritos e a fama de Generosidade: ela tinha à sua disposição tanto sábios quanto loucos, pois a todos havia conquistado com seus dons. E se houvesse alguém que a odiasse, com seus muitos favores ela conseguiria ganhá-lo como amigo. Por isso, os ricos e os pobres a amavam.


Muito louco está o homem de elevada condição que é tacanho, já que esse é o pior vício que se pode ter: o avaro não conquistará nunca nem senhorios, nem grandes terras, porque não tem amigos o suficiente para cumprir seus desejos. Aquele que quiser ter amigos, não deve apreciar muito seus bens, já que ganhará amigos com bons presentes, pois do mesmo modo que o ímã atrai o ferro com facilidade, o ouro e a prata atraem o coração das gentes que se presenteia.


Generosidade trazia um vestido novo, de púrpura sarracena. Seu rosto era formoso e bem feito; trazia o colo à mostra, pois acabara de presentear seu broche ali mesmo a uma dama. Mas não lhe ficava mal ter seu colo descoberto, pois deixando a garganta à vista, por debaixo da camisa sua pele suave ficava às claras. Generosidade, a apreciada, a prudente, estava acompanhada por um cavaleiro da linhagem do bom rei Artur da Bretanha. Esse cavaleiro sustentava um estandarte de valor e uma bandeira; e tinha tal fama que suas histórias eram e continuam sendo cantadas diante de reis e de condes. O cavaleiro acabava de regressar de um torneio em que havia realizado grandes proezas e numerosos combates por sua amiga; destruíra muitos elmos verdes, tinha atravessado inumeráveis escudos com seu brocal e derrubado muitos cavaleiros, vencendo-os graças à sua força e ao seu valor.


A seguir estava a Franqueza, que não era nem morena, nem de cor amarelada; era mais branca que a neve. Não tinha o nariz chato como os de Orléans, pelo contrário, possuía um nariz longo e reto; seus olhos eram verde-claros, alegres, com sobrancelhas arqueadas, cabelos louros e longos; era mais singela do que uma pomba. Tinha um coração doce e cheio de amabilidade: não se atrevia a dizer ou fazer nada indevido contra ninguém. Se conhecesse um homem que se sentisse atormentado e desejoso de tê-la como amiga, penso que não tardaria em se compadecer dele, pois seu coração era tão misericordioso, tão doce e tão amável, que se alguém sofresse por ela sem que ela lhe prestasse ajuda, pensaria estar cometendo uma grande vilania.


Trazia um vestido que não era nada rústico: não havia outro tão rico até Arras; estava tão bem cortado e costurado que não havia uma só ponta que não estivesse em seu lugar certo. Muito bem vestida estava Franqueza, pois não havia vestido melhor para as donzelas do que o que ela usava: a mulher fica mais elegante e atraente com um vestido com cota como aquele. O vestido, que era branco, indicava que a pessoa que o vestia era doce e sincera.


Ao seu lado havia um rapaz, não sei como se chamava, mas era belo e devia ser filho do senhor de Windsor.


Atrás dele estava Cortesia, que era muito estimada por todos, pois não era nem orgulhosa nem louca. Foi ela quem me chamou para dançar quando chegara ali, e eu a agradeço por isso. Ela não era ingênua nem sombria, era prudente e discreta, sem insolência, de boas respostas e palavras agradáveis; ninguém a contrariava e com ninguém se zangava. Tinha cabelos castanhos. Era gentil, formosa e elegante – não conheço outra de aspecto mais agradável; por sua beleza era digna de ser imperatriz ou rainha. Estava acompanhada por um cavalheiro de maneira afetuosa, palavras amenas e que honrava as pessoas como devia. Eram um cavalheiro belo e de nobre presença, hábil com as armas e amado por sua dama.


Depois vinha a bela Ociosa, que se mantinha ao meu lado. Já lhes disse, sem ocultar nada, qual era seu aspecto e sua imagem: não vos contarei nada mais. Ela foi a primeira a me tratar com bondade, ao abrir a porta do jardim, e lhe sou grato.


Ao seu lado estava, se não me equivoco, Juventude, de rosto claro e alegre e que me parecia ter pouco mais de doze anos. Era um pouco simples, não pensava em nenhum mal, nem em perfídia alguma, pelo contrário, estava alegre e contente, pois a jovem não se preocupava em nada mais do que brincar, como bem sabeis. Seu amigo era tão íntimo que a beijava sempre que quisesse na frente de todos que estavam dançando. Ainda que alguém lhes houvesse dito duas palavras, não teriam se envergonhado, pois estavam se beijando como dois pombos. O rapaz era jovem e belo, devia ter a mesma idade que sua amiga e sentia a mesma coisa que ela.



Assim bailavam aquelas pessoas, acompanhadas por outras de sua corte. Todas eram nobres, educadas e de bom comportamento. Depois de ver a aparência dos que dirigiam as danças, eu comecei a sentir um desejo de contemplar e percorrer o jardim e detive meu olhar nos formosos loureiros, pinheiros, aveleiras e nogueiras. O baile estava acabando, pois a maioria se retirava com suas amigas para a sombra das árvores a fim de cortejá-las. Deus, que boa vida levam! Louco é quem não sente inveja! Aquele que pudesse se permitir uma vida semelhante suportaria com gosto a falta de outros bens menores, pois não há paraíso maior que estar à vontade com sua amiga.


Comecei a andar, entretendo-me sozinho pelo jardim, indo de um lado para o outro. Então, o Deus do Amor chamou Doce Olhar, pois não queria continuar guardando por mais tempo o arco de ouro. Sem demora, ordenou-lhe que o esticasse, e este o fez imediatamente. Deu-lhe o arco já esticado e cinco flechas fortes e brilhantes, já preparadas para serem lançadas. O Deus do Amor começou a seguir-me à distância, com o arco na mão. Que Deus me proteja da ferida mortal se ele dispara contra mim!


Eu, que até então não dera nenhuma importância àquilo, estava alegre, divertindo-me livremente pelo jardim, enquanto o outro me seguia. Não me detive em lugar algum até que não houvesse percorrido tudo. Era um jardim perfeitamente quadrado, igual na largura e na altura.


Não havia árvore carregada de frutos – a não ser que fosse uma árvore desprezível – que não houvesse dois ou três exemplares, ou até mais, no pomar. Havia macieiras, bem relembro, com abundantes maçãs vermelhas, que são uma boa fruta para os doentes; havia inúmeras nogueiras, que quando chegava a época se enchiam de nozes moscadas, que não são nem amargas nem insípidas; abundavam as amêndoas plantadas no jardim; quem necessitasse, encontraria ali muitas figueiras e numerosas palmeiras de tâmaras. Havia no jardim diferentes especiarias: cravos, alcaçuz, cardamomos frescos, erva-luiza, anis, canela e muitas outras especiarias agradáveis que fazem com que a comida seja boa na mesa.


No jardim, havia árvores frutíferas carregadas de marmelos e de pêssegos, castanhas, nozes, maçãs, pêras, nêsperas, ameixas cláudias e pretas, cerejas vermelhas frescas, serbas, amieiros e avelãs. O jardim estava povoado de grandes loureiros e de altos pinheiros; também eram abundantes no jardim as oliveiras e os ciprestes; havia frondosos e robustos ulmos, loendros, faias, aveleiras compridas, álamos, freixos, áceres, altos abetos e carvalhos. Que mais posso dizer? Havia tal variedade de árvores que encontraria muita dificuldade para enumerá-las por completo. Saiba que as árvores estavam tão separadas uma das outras, como deveria ser, que distavam mais de cinco ou seis toesas. Os galhos eram largos, altos e tão frondosos por cima, que impediam que o calor e o sol chegassem a bater no chão e danificar a tenra erva.


No pomar havia gamos, corços e muitos esquilos que subiam nas árvores; havia coelhos que entravam e saíam de suas tocas sem cessar; uns corriam atrás dos outros de infinitas formas pela fresca grama verde.


Havia ali não sei quantas fontes claras à sombra das árvores, sem insetos ou rãs. A água corria com um murmúrio doce e agradável por pequenos regatos que Lazer havia mandado fazer. Ao redor dos riachos e à margem das fontes claras e vivas, brotava com força a erva fresquinha. Ali se podia recostar na sua amiga como em um leito, pois a terra era branda e suave. Graças aos mananciais, crescera erva suficiente. Entretanto, o lugar também estava embelezado pela abundância de flores que sempre havia ali, tanto no inverno quanto no verão: lindas violetas recém abertas, frescas e macias; flores brancas, vermelhas e muitas variedades de flores amarelas. Aquela terra era belíssima, adornada e salpicada de flores de distintas cores e de extraordinário perfume.


Não falarei por mais tempo daquele agradável e aprazível lugar. Vou me calar, pois seria impossível contar toda a beleza e a formosura do pomar.


Fui de um lado a outro até que percorri e contemplei o jardim em sua totalidade. Enquanto isso, o Deus do Amor me seguia atento, como um caçador que espera o animal entrar no lugar adequado para então lançar a flecha. Cheguei a um lugar belíssimo, um pouco distante, no qual encontrei uma fonte debaixo de um pinheiro. Desde os tempos de Carlos Magno e de Pepino não se vira uma árvore tão formosa: crescera tanto que em todo o jardim não havia árvore mais alta.




[CONTINUA]





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