Última fração de O Romance
da Rosa (Roman de La Rose), um poema alegórico escrito por Guillaume
de Lorris por volta de 1.225 ou 1.230. Tradução reproduzida do trabalho
de Sonia Regina Peixoto e dos professores Ma. Eliane Ventorim e Dr. Ricardo da
Costa, a partir da edição GUILLAUME DE
LORRIS, JEAN DE MEUNG. El Libro de la Rosa (introd. de Carlos Alvar, trad. De
Carlos Alvar y Julián Muela, lectura iconográfica de Alfred Serrano i Donet).
Barcelona: Ediciones Siruela, 2003.
Boa leitura!
Enquanto eu estava assim me lamentando, a Razão começou a falar:
– Meu bom amigo, tua
insensatez e tua juventude fazem com que te aflijas e te entristeças. Em má hora conheceste o bom tempo de maio, que
fez com que teu coração se alegrasse em demasia; em má hora foste buscar uma
sombra no jardim cuja chave
é guardada por Ociosa, a qual lhe abriu a porta. Está louco quem
trava contato com ela, pois sua companhia é muito perigosa; ela traiu-te e
mentiu para ti: o Amor nunca teria te encontrado se Ociosa não tivesse te conduzido ao formoso jardim do Lazer. Trabalhaste como um louco e agora tens que
agir para que tudo seja reparado; procura não crer novamente em um conselho que
te leve a cometer loucuras, mesmo que em boa hora as faz quem depois se
corrige. Não deve se surpreender que os jovens se precipitem a isso.
– Agora quero
dizer-te e aconselhar-te a esquecer o Amor, por cuja culpa te vejo fraco, abatido e atormentado.
Não sei como poderás te curar ou sarar se não o fizeres, pois a cruel Rejeição quer combater contra ti sem deixar-te repousar: não te
confrontes com ela. A
Rejeição é pouco importante se comparada
à minha filha Vergonha, que é a que defende e guarda as rosas com
grande habilidade: deves ter medo dela, pois será a que pior se comportará contigo.
– Com elas está a Má
Língua, que
não permite a ninguém tocar as flores. Antes que dê tempo de fazê-lo, considere
trezentos lugares diferentes, pois vais encontrar com gente temível. Pense o que é melhor: abandonar
teu propósito ou continuar atrás do que te faz viver com tal sofrimento, que é o
mal que se chama amor e no qual há somente loucura. Loucura, sim, por Deus! O enamorado não pode
fazer nenhum bem, nem prestar atenção em ninguém: se é clérigo, perde seu
saber; se se ocupa de outro ofício, mal pode concluí-lo. E, sobretudo, padece
mais que um ermitão ou que um monge branco. Seu sofrimento é desmedido e sua
alegria dura pouco. Para o enamorado, alcançar a alegria é uma aventura, pois,
conforme vejo, muitos se esforçam para consegui-la e fracassam totalmente no
final. Não quiseste escutar meus conselhos quando te entregaste ao Deus do Amor: teu coração volúvel te
impulsionou a cometer
semelhante loucura, ou então fizestes sem refletir; mas ao abandoná-lo
mostrarias uma grande sabedoria. Portanto, despreza e rejeita o amor que assim
te faz viver, pois a loucura cresce sem cessar se não é detida a tempo. Coloca um freio firmemente nos
dentes, doma e freia teu coração, esforça-te e defende-te dos pensamentos que
nascem em teu peito, pois aquele que crê em seu coração não deixa de cometer
loucuras.
Ao ouvir tais conselhos, respondi irado:
– Senhora, suplico-te que deixes de dar-me conselhos. Disse-me
para frear meu coração para que o Amor não se apodere dele, mas por acaso crês que o Amor o consentirá e permitirá que eu domine meu coração, que lhe
pertence por completo? Não
posso fazer o que pedes, pois o Amor tem
domado meu coração tão bem, que esse só obedece à suas ordens, não às minhas; e
o governa com tal firmeza que fez uma chave para mantê-lo trancado. Deixa-me tranqüilo agora, pois em vão estás
gastando o teu francês. Preferiria morrer que ser acusado de falsidade e
traição pelo Amor. Ao fim de tudo, quero louvar-me por ter sido um
leal amante ou lamentar-me. Por isso, me incomodo com quem me dá conselhos.
Diante de tais palavras, a Razão se
foi, pois viu que suas
recomendações não me fariam mudar de idéia. De minha parte, fiquei cheio de
tristeza e de dor; chorava e me lamentava com freqüência, pois não sabia como
encontrar um remédio. Então, recordei que o Amor dissera para buscar um companheiro para quem eu pudesse revelar
todos os meus pensamentos, pois isso aliviaria a minha dor.
Então me lembrei que tinha um companheiro muito fiel:
chamava-se Amigo e era o melhor companheiro de todos que tive.
Fui rapidamente à sua procura. Mostrei-lhe, conforme os
conselhos do Amor, os obstáculos que me mantinham imóvel e,
assim, queixei-me de Rejeição, que quase me devorou, que pôs Doce
Abrigo em fuga quando me viu falar com ele da desejada
flor, e que me disse que se eu voltasse a ultrapassar a cerca, pelo motivo que
fosse, pagaria caro.
Depois de conhecer a verdade, Amigo não me assustou, mas me disse:
– Companheiro, ficai tranqüilo, não te preocupes. Faz muito
tempo que conheço Rejeição: ela sabe injuriar, afrontar e ameaçar os
enamorados que estão começando; sei disso há muito tempo. Se tiver se comportado
mal convosco, o fará de outra forma mais adiante. Conheço-a como se fosse uma
moeda: suaviza-se com
boas palavras e com súplicas. Vou lhe dizer o que deves fazer: aconselho que peças que te perdoe
de coração e também, por favor, sua crítica: promete-lhe que a partir de agora
não farás nada que a desagrade. Isso é uma coisa que muito a apazigua, a acalma
e a agrada.
Amigo me reconfortou com suas palavras,
deu-me valor e desejou que eu fosse me apaziguar com Rejeição.
Assim, cheguei timidamente à presença dela, desejoso de conseguir a paz, mas
não passei a cerca, pois ele me havia proibido a entrada. Encontrei-a de pé,
com um aspecto enfadonho e irado, segurando
na mão um bastão de espinho. Inclinei a cabeça e lhe disse:
– Senhora, venho para pedir-te piedade. Sinto ter te aborrecido antes, mas estou
disposto a reparar isso de acordo com teus desejos. O Amor
me obrigou a fazer o que
fiz; eu não pude retirar de meu coração a vontade do Amor, mas prometo que nunca mais voltarei a desejar
nada que te incomode: prefiro antes suportar meus sofrimentos que fazer
qualquer coisa que te desagrade. Suplico-te que tenhas piedade de mim e que
aplaques vossa cólera, que me produz grande temor; juro e prometo que sempre me
comportarei de tal forma contigo, que não vos causarei nenhum outro pesar. Por
isso, rogo-te para que me concedas o que não podes me proibir: permite-me amar,
não te peço outra coisa. Cumprirei todos os teus desejos se me consentir isso; não podes me impedir e não quero
enganar-te a respeito, pois continuarei amando, já que isso me agrada, incomode
a quem incomode ou goste quem goste. Contudo, nem mesmo por meu peso em prata queria desagradar-te.
Rejeição mostrou-se dura e reticente na hora de me perdoar e de extirpar
sua cólera, mas no fim me perdoou graças às minhas abundantes súplicas, e me
disse com breves palavras:
– Seu pedido não me incomoda e não desejo te rejeitar: fica
seguro de que não estou aborrecido contigo; se amas, o que me importa? Isso não me produz nem frio, nem calor.
Continua amando, mas mantenha-se distante de minhas rosas a todo o momento,
pois não terei nenhuma
compaixão se tu atravessares a cerca.
Assim, me concedeu o que havia pedido e eu fui imediatamente
contar ao Amigo, que ao ouvir se alegrou como um bom
companheiro.
– Agora, disse-me, teu assunto será melhor. Rejeição se mostrará mais doce, pois assim costuma fazer com muitos,
depois de ter manifestado sua arrogância. Se a encontrares em um bom momento,
ela se compadecerá de vossas penas; enquanto isso, tem paciência e espera até o momento oportuno. Sei pela prática que com paciência se vence e
se domina a qualquer malvado.
Doce foi o consolo que me deu o Amigo, pois desejava meus progressos tanto quanto eu mesmo. A seguir, separei-me dele e retornei à cerca
protegida pela Rejeição, pois já demorava a ver a rosa, única alegria
que podia ter.
A Rejeição comprovava incessantemente se eu mantinha a promessa; enquanto
eu, que temia suas ameaças, não me atrevia a fazer nada que a incomodasse e me
esforçava para cumprir suas ordens, alegrá-la e atraí-la para o meu lado.
Porém, me contrariava muito sua demora em me perdoar: viu-me muitas vezes
chorar, lamentar e suspirar porque deixava que eu me consumisse esperando junto
à cerca, que eu não me atrevesse a passar para ir em busca da rosa, e se
mantinha firme até que estivesse segura, por meu comportamento, de que Amor estava me tratando com dureza e de que não existia em mim o
menor engano nem deslealdade. Mas ela era tão cruel, que ainda assim não se
dignava em suavizar seu trato, apesar das minhas queixas e lamentos.
Enquanto me encontrava nestas penas, Deus me trouxe a Franqueza acompanhada pela Piedade. Sem mais demora se dirigiram
à Rejeição, pois as duas estavam dispostas a me ajudar com
muito prazer, já que viam que era necessário.
A primeira a tomar a palavra foi a Franqueza, e lhe dou graças por isso, que disse:
– Rejeição, e que Deus me ajude, és injusta com este
enamorado que estás maltratando. O que fazes é próprio dos vilões, pois, que eu
saiba, ele ainda não pecou em nada. Se Amor o obriga a amar à força, é isso um motivo para que o critiques?
Mais perde ele que ti, pois já suportou muitos sofrimentos. O Amor não consente que se arrependa: ainda que isso lhe custe ser queimado vivo,
untado com gordura, não poderia impedir de se enamorar. Boa senhora, que
proveito terás em lhe causar aborrecimentos e pesares? Haveis iniciado a guerra contra
ele porque o teme, o aprecia e porque ele está sob teu poder? Se o Amor o tem preso em seus laços e faz
com que o obedeça, por isso o odeias? Deverias conceder-lhe teu perdão como se fosse um orgulhoso
insolente. É cortesia socorrer a quem está abaixo de nós; tem o coração duro aquele
que não se rende às súplicas.
Piedade acrescentou:
– É certo que a humanidade vence a cólera e quando dura
muito tempo, torna-se malvada e cruel. Por isso, rogo-te, Rejeição, para que deponhas tua guerra com o infeliz que
está ali se enfraquecendo por não ter sido seduzido em nenhum momento pelo Amor. Parece-me que o castigas mais que o devido:
ele está suportando uma dura penitência desde que lhe privaste de Doce
Abrigo, que era a companhia que ele mais desejava. Antes, estava
perturbado, mas agora sua perturbação se duplicou. Agora se dá por morto e se
considera desprotegido, pois lhe falta Doce Abrigo. Porque lhe causas tristeza, quando o Amor já o maltrata? Ele suporta tantos sofrimentos que não necessita
de outros piores: não o faças padecer, por favor. Não continue maltratando-o,
pois nada ganhas com isso. Permita
que Doce Abrigo lhe ofereça alguma
graça a partir de
agora; misericórdia para o pecador. Já que a Franqueza está de acordo,
rogo-te e peço-te para que não rejeites seu pedido: demasiado duro e cruel é
quem se nega a fazer algo por nós duas.
Rejeição não pôde resistir por mais tempo e teve que ceder:
– Senhoras – disse – não me atrevo a me opor a vós neste
assunto, pois seria vilania. Aceito que tenhais a companhia de Doce
Abrigo, já que assim o desejais, não me oporei.
Então, Franqueza, a do bem falar, foi a Doce
Abrigo e lhe disse com cortesia:
– Doce Abrigo, por muito tempo te mantiveste afastado deste
amante, sem se dignar sequer a olhá-lo. Desde quando não o visitas, está
pensativo e triste. Procura alegrá-lo e cumprir sua vontade a partir de agora,
se queres gozar do meu amor. Eu e Piedade convencemos Rejeição, que os mantinha afastado.
– Farei o que queres – contestou – pois é legítimo, já que Rejeição concedeu.
Então, Franqueza o
enviou para ficar a meu lado. A princípio, Doce Abrigo me saudou com afabilidade e, mostrando-me o melhor
semblante até então, pegou-me pela mão para acompanhá-lo para dentro da cerca
que Rejeição tinha proibido.
Desse modo, me senti com permissão para andar por todas as
partes. Parecia que tinha passado do grande Inferno ao Paraíso, pois Doce
Abrigo me levava de um lado para outro, esforçando-se para cumprir meus desejos.
Então, quando vi a rosa, tive a impressão de que havia engordado
e crescido um pouco, e agradava-me ver que não se havia aberto tanto e
descoberto seu coração cor grená, pelo contrário, ele se mantinha ainda fechado
entre as abundantes pétalas da flor que se erguiam ao seu redor, impedindo que
se visse seu interior. Deus a abençoe! Para minha grande admiração, aberta
assim, era muito mais formosa e vermelha que antes. O Amor me atou enquanto contemplava como havia se embelezado, e apertou
suas amarras quanto mais me deleitava nessa visão.
Estive muito tempo naquele lugar, pois havia encontrado afeto e
companheirismo em Doce Abrigo.
Quando já estava certo que
ele não me negaria nem seu consolo, nem seu serviço, lhe pedi uma coisa que deve
ser relembrada:
– Senhor – eu disse – tu sabes que tenho grande desejo de obter um precioso
beijo da rosa que
cheira tão suavemente; se não o desagradar, pedir-lhe-ia que me concedêsseis
isso como um dom. Senhor, por Deus, diz-me se parece correto que eu a beije,
pois não o farei se não lhe aprouver.
– Amigo – e que Deus me ajude – se a Castidade não me odiasse por isso, eu não o impediria. Porém, não me atrevo a conseguir
esse dom, pois não quero cometer nenhuma falta contra a Castidade.
Ela sempre me proibiu de dar permissão aos enamorados para se beijarem, por
mais que suplicassem, pois quem consegue um beijo dificilmente se conforma,
sempre deseja mais. Saibas que aquele a quem se concede um beijo, obtém o
melhor e o mais agradável do botim, deixando seu sinal para o resto.
Quando ouvi sua resposta não quis insistir mais, pois temia que
se aborrecesse. Não
se deve encurralar demais ninguém, nem fustigar além de sua vontade. Já sabeis
que não se corta o carvalho ao primeiro golpe, não se obtém o vinho do lagar
enquanto a prensa aperta.
Contudo, demorava muito a permissão para dar o beijo que eu tanto desejava. Vênus, que mantém incessante guerra
contra a Castidade, veio ao meu
socorro. Ela é a mãe do Deus do Amor,
quem auxilia a muitos enamorados. Em sua mão direita, trazia uma tocha ardente,
cujo fogo tem incendiado numerosas damas. Era tão bela e elegante que parecia uma deusa
ou fada. Pelos ricos adornos que trazia, um simples olhar possibilitaria ver que
ela não vivia como uma monja. Não vou descrever agora o seu vestido, nem seu
véu, nem suas tranças douradas, nem o broche ou a cinta, pois passaria muito
tempo nisso. Basta que saibas que ela era muito elegante e que não demonstrava
o menor orgulho.
Vênus se dirigiu até Doce Abrigo e começou a dizer-lhe:
– Bom senhor, porque colocas tantas dificuldades para que este
enamorado obtenha um doce beijo? Não deveria impedi-lo, pois bem sabes que ele serve e ama com lealdade, e
que é suficientemente belo para ser amado. Vê como é elegante, vê sua formosura e contempla como é gentil,
doce e sincero com todas as gentes. Além disso, não é velho, mas muito jovem, o
que é mais apreciável. Não há dama ou senhora de castelo que eu não teria por
vilã se lhe colocasse dificuldades. Não há nada em seu corpo que deva mudar. Se
conseguires para ele esse beijo, estará bem empregado, pois a mim parece ter
hálito doce. Ademais, sua boca não é feia, pelo contrário, dá a impressão de
que foi feita justamente para agradar e provar, pois seus lábios são vermelhos
e seus dentes são tão brancos e limpos que não se vê neles nem limo, nem
sujeira. Creio que é justo que lhe concedas um beijo.
– Consegue, dá-me atenção, pois quanto mais espero, mais tempo
perco, tem certeza.

Sem mais demora, Doce Abrigo, que sentiu o sopro abrasador da tocha, concedeu-me um beijo como dom. Isso foi o que conseguiram Vênus e sua tocha. Assim, não me detive e rapidamente tomei da rosa um beijo doce e saboroso. Que ninguém pergunte se me alegrei, pois entrou em meu corpo um aroma que conseguiu expulsar minhas dores e adoçar os sofrimentos que o Amor me causava e que costumavam ser amargos. Nunca estive tão à vontade: cura-se bem quem beija uma flor semelhante, tão agradável e perfumada. Por mais dores que sofra, toda vez que a relembrar, voltarei a transbordar de alegria e de gozo. E, no entanto, tenho padecido muitos aborrecimentos e muitas más noites depois de tê-la beijado. O mar nunca está tão calmo que não se altere com um pouco de vento, pois o Amor muda com facilidade: é o mesmo que acaricia e que espeta, pois nunca se mantém fixo em um ponto.
Agora vou lhes contar como tive que enfrentar a Vergonha, que me atormentou com grande crueldade; e
contar-vos-ei como construíram fortes e resistentes a muralha e a torre que o Amor depois tomou com esforço. Quero continuar com
toda a história e não sinto preguiça em escrevê-la, porque penso que servirá de
elogio à formosa – que Deus a proteja – que, quando quiser, me concederá o galardão
melhor que ninguém.
Má Língua, aquela que pensa e advinha o que ocorre no
coração de muitos enamorados e difunde todo o mal que sabe, se deu conta do afeto que Doce Abrigo me tinha. Como não podia se calar, pois era filha de uma
velha malvada – com quem se parecia – de boca fedorenta e língua afiada e
amarga, começou a acusar-me e a dizer que tinha certeza que entre Doce
Abrigo e
eu havia maus acordos.
A odiosa disse tantas loucuras de mim e do filho da Cortesia que, por fim, conseguiu
que o Ciúme despertasse. Fazendo um grande barulho, esse se levantou ao
ouvir tão perversas palavras. Logo depois, correu enlouquecido até Doce
Abrigo, pois estava cheio de cólera, e começou a atacá-lo, dizendo:
– Inútil, porque te faltas o bom sentido a ponto de ficar bem
com um jovem do qual tenho más suspeitas? Vejo que facilmente acreditas nas
adulações de qualquer moço. Não posso continuar confiando em ti; farei com que
te prendam ou te tranquem em uma torre, pois não vejo outra solução. A Vergonha
se afastou demais de ti
sem se esforçar em te vigiar e te ter preso por perto; parece que presta má ajuda à Castidade deixando que um jovenzinho desenfreado
entre em nosso reino para afrontar-nos, a ela e a mim.
Doce Abrigo não soube o que contestar e teria se escondido se o Ciúme não o tivesse encontrado ali, comigo, em plena ação. Quando vi
que aquela odiosa pessoa vinha disposta a discutir e repreender, fugi, pois não
gosto de discussões.
A Vergonha avançou um pouco, temendo ter cometido alguma falta. Mostrou-se
humilde e simples: trazia um véu ao invés de uma touca, como se fosse uma monja
de uma abadia. Como estava assustada, começou a falar em voz baixa:
– Por Deus, não acredites na maldizente Má Língua, pois é uma mulher que mente com facilidade;
assim enganou a numerosos homens. Ela agora acusou Doce
Abrigo, mas ele não é sua primeira vítima, pois Má
Língua está acostumada a contar falsas notícias de
jovens e de donzelas. Sem dúvida, e isso não é mentira, Doce
Abrigo tem uma correia muito larga e foi-lhe permitido
trazer aqui gentes alheias. Mas certamente não creio que tenha feito isso com
má intenção ou como se fosse loucura. A verdade é que Cortesia,
que é sua mãe, lhe ensina a conhecer sem medo diferentes gentes, pois ela mesma
nunca amou pessoas fechadas.
– Doce Abrigo não
tem outro defeito nem outra falta a não ser a sua jovialidade, pois se diverte e fala com as gentes. Sem
dúvida tem sido muito condescendente na hora de custodiá-lo e de dar-lhe
conselhos. Por isso te peço perdão; sinto se tenho sido muito lenta em
obrigá-lo a fazer o bem; arrependo-me de meu erro e, a partir de agora, me
esforçarei para cuidar de Doce Abrigo, não vou deixar isso para depois.
– Vergonha,
Vergonha – disse o Ciúme
– temo que me atraiçoes,
pois Desenfreio tem
visto como aumentou seu poder e assim logo poderá me envergonhar.
– Meus temores não devem surpreender, pois a Luxúria reina por todas as partes e a
sua influência não pára de crescer; a Castidade não se encontra a salvo nem nas abadias, nem nos claustros. Por
isso, vou fazer com que estes roseirais e estas rosas fiquem escondidas dentro
de uma nova muralha; não vou deixá-las desprotegidas, pois não confio mais em
vossa vigilância, já que pude ver e sei que mesmo com uma melhor custódia as coisas se perdem; antes que o ano termine me terão por estúpido
se eu não tomar essas precauções. É importante que me preocupe. Vou fechar o
caminho àqueles que vierem espiar minhas rosas para me afrontar. Não terei preguiça em construir
uma fortificação que rodeie os roseirais. No meio, levantarei uma torre onde Doce Abrigo ficará prisioneiro, pois
temo seus erros. Vou
vigiá-lo tão bem que ele não poderá sair para buscar a companhia desses
jovenzinhos que, para causar-me todo tipo de afrontas, lhe dirigem palavras
aduladoras. Esses maliciosos viram que era muito fácil enganar. Se viver, quero
estar seguro que em má hora os recebi com boa cara.
Ao dizer tais palavras, o Medo se aproximou com muito temor; porém estava tão assustado com o que
disse Ciúme que não se atreveu a pronunciar uma só palavra, pois sabia que
ele estava encolerizado. Colocou-se de pé e se retirou lentamente; enquanto
isso, Ciúme foi
embora, deixando a sós a Vergonha e o Medo, que tremiam até o cú. Medo, cabisbaixo disse à sua prima:
– Vergonha, me pesa ouvir uma reprimenda por algo que não
podemos solucionar. Muitas vezes passam abril e maio sem que tenhamos reprovado
nada. No entanto, Ciúme, que desconfia agora de nós, nos despreza e nos
insulta. Vamos em busca de Rejeição para lhe explicarmos tudo e lhe dizermos que cometeu uma falta
grave por não ter se aplicado com mais esmero na perfeita vigilância deste
lugar; e por ter permitido
que Doce Abrigo fizesse sua
vontade sem nenhum tipo de impedimento. Por isso, terá que corrigir-se ou se verá obrigada a abandonar
esta terra, pois não poderia resistir à guerra de Ciúme, nem à sua fúria, se chega a ter-lhe ódio.
A Vergonha e
o Medo então decidiram assim: foram
em busca de Rejeição e a
encontraram deitada sob uma acácia branca. Como almofada, tinha embaixo da cabeça um monte de erva e já
começava a dormir. Vergonha a despertou, dizendo-lhe insultos e ataques:
– Como estás dormindo a essa hora, desgraçada? Louco está quem
acredita que irás guardar as rosas e seus brotos melhor do que se fossem rabos
de cordeiro. És folgada e covarde, quando deveria ser feroz e capaz de
maltratar todo mundo. Loucura fez com que concedesses permissão a Doce
Abrigo para colocar aqui o homem que nos tem
afrontado. E
estás dormindo enquanto nós temos que suportar censuras até não podermos mais! Estavas deitado há pouco? Levanta de imediato e tapa todos
os buracos da cerca; não tenhas
compaixão, pois não cai bem para o teu nome tudo o que não se refere às
moléstias; deixai para Doce Abrigo a amabilidade e a doçura e ficai com a felonia e a dureza, com
os insultos e os ultrajes. Desatina o vilão que se comporta com cortesia; pelo
menos tenho ouvido dizer isso em um refrão, e de nenhuma maneira se pode converter um falcão de caça em
um gavião. Quando são amáveis, são considerados estúpidos. Assim, queres continuar agradando às gentes
com tua bondade e teus bons serviços? Isso se deve à tua preguiça. Desse modo
ganharás em todas as partes a fama de covarde, de débil e de que acreditas nos
mentirosos.
A seguir, o Medo tomou a palavra:
– Certamente, Rejeição, me estranha que não te mantenhas bem desperto
para guardar o que deves. Logo serás reprovado se a cólera do Ciúme aumentar, pois ele costuma ser feroz, cruel e sempre disposto a repreender
as gentes. Hoje
ele se ocupou da Vergonha e, com
suas ameaças, conseguiu que Doce Abrigo
fosse expulso do lugar e jurou que não tardará em fazer que o emparedem vivo. Tudo
isso aconteceu por causa de tua maldade, pois em vós não falta disposição para
criar dificuldades. Penso que te tem faltado valor, e isso aconteceu em má
hora, pois recebereis afrontas e desonras, se conheço bem o Ciúme.
O vilão retirou seu capuz, esfregou os olhos, se espreguiçou,
torceu o nariz, piscou os olhos, se encheu de cólera e se aborreceu ao ouvir as
ameaças:
– Com motivo me encho de ira, pois me considerais vencido. Já
vivi em demasia se não sou mais capaz de vigiar o jardim! Que me queime vivo se
alguém voltar a entrar aqui! Tenho meu coração no peito repleto de cólera,
porque houve quem pusesse seus pés aqui; preferiria ver-me atravessado por duas
lanças. Agora me dou conta
de que certamente me comportei como um louco. Estou disposto a reparar isso com
a vossa ajuda. Não
voltarei a mostrar-me preguiçoso na hora de tomar conta dessa cerca; se pegar
alguém aqui dentro, é melhor que ele esteja em Pavia. Nunca mais, para o resto
de minha vida, pensarão que sou preguiçoso; isso vos juro e prometo.
A seguir, Rejeição se pôs de pé. Parecia estar enfadada; pegou um pedaço de pau
e foi procurar os buracos na cerca, os caminhos ou as fendas que devia tapar. Foi a partir de então que a
situação mudou, pois Rejeição ficou
pior e mais cruel do que antes. Senti-me morto por tê-la encolerizado dessa maneira, pois nunca
mais voltarei a ter a tranqüilidade para contemplar o que quero. Triste está o
coração em meu peito pela desgraça de Doce Abrigo; todos os meus membros se estremecem ao lembrar
da rosa que de perto contemplava quando queria. E quando me lembro do beijo que
inundou meu corpo com um perfume mais doce que o bálsamo, sinto que falta pouco
para desfalecer, pois ainda mantenho trancado no coração o doce sabor da rosa.
Sabei que quando me vem à mente a idéia de que devo renunciar à rosa, tenho
vontade de morrer, de não continuar vivendo. Parece-me que em má hora toquei a
rosa com meu rosto, com meus olhos e com a minha boca, se o Amor não me permitir logo voltar a tocá-la outra vez; provei seu
aroma e, por isso, é maior o desejo que incendeia e queima meu coração. Agora
voltarão os prantos e os suspiros, os longos pensamentos em vigília, os
tremores, as queixas e as lamentações; terei muitos males e de todos os tipos, pois caí em um
inferno. Maldita seja a Má Língua! Sua língua desleal e falsa é a causa de minha
situação.
Já é hora de contar o que fez o Ciúme, impulsionado por suas suspeitas. Em toda
aquela terra não restou um construtor ou peão que não fosse convocado. Assim, ele ordenou que começassem a
construir fossas ao redor dos roseirais; custaram muito dinheiro, pois eram largas e
profundas. Os construtores levantaram junto às fossas uma muralha com blocos
bem cortados, cimentada não sobre escombros, mas sobre uma rocha dura. A base
se inclinava de forma adequada até o pé das fossas e depois crescia reta, para
cima, de modo que a obra era muito mais resistente. A muralha estava tão bem traçada que formava um quadrado
perfeito; cada um de seus
lados media cem toesas e o conjunto era igual tanto na largura quanto na
profundidade. Os torreões estavam uns ao lado dos outros, com numerosas ameias,
e estavam cheios de blocos talhados de pedra. Nos quatro cantos havia outros
torreões difíceis de tomar. Havia ainda quatro portas protegidas por muros
largos e altos; uma estava na fachada e era fácil de defender, duas dos lados e
outra na parte traseira. Nenhuma dessas temeria os possíveis golpes de uma
catapulta. Tinham ancinho para causar mais danos aos de fora, para prendê-los e
detê-los caso se atrevessem a avançar.
No meio do recinto, os que souberam fazê-lo construíram uma torre com maestria; seria impossível uma mais formosa, maior, mais
profunda ou mais alta. Seus muros não cederiam diante de nenhum tipo de engenho
que lançasse pedras, pois mesclaram suas bases com vinagre forte e cal viva. A
pedra da cimentação era uma rocha maciça tão dura como o diamante. A torre era
completamente redonda; não havia existido no mundo outra mais rica nem melhor
dividida por dentro. Por fora, estava rodeada por uma vala, de forma que entre
a vala e a torre estavam plantadas os abundantes roseirais com suas numerosas
rosas.
No castelo havia catapultas e outros tipos de engenhos e máquinas
de guerra. Viam-se os manganéis por cima das ameias; nas fendas dos muros havia
incontáveis balestras fixas as quais não havia armadura que pudesse resistir.
Aquele que se aproximasse da muralha cometeria uma grande estupidez.
Além dos fossos, havia barreiras construídas com fortes muros e
ameias baixas, de modo que os cavalos não podiam se aproximar a galope até os
fossos sem que antes acontecesse um combate.
O Ciúme colocou
uma guarnição nesse castelo
do qual estou falando. Parece-me que Rejeição tinha a chave da primeira porta,
que se abria na parte oriental. Com ele havia – conforme creio – pelo menos trinta servidores. A Vergonha guardava a porta do Meio-Dia; era prudente e tinha numerosos criados
dispostos a cumprir suas vontades. O Medo mandou um grande exército e estava encarregado de vigiar a outra porta, que ficava à
esquerda, pelo lado do vento norte. O Medo não se encontraria seguro se a porta não estivesse fechada com
chave; ele não a abria muito, pois se assustava quando soprava um pouco de
vento ou quando saltavam um par de grilos.
A Má Língua – que Deus a maldiga! – tinha mercenários da
Normandia. Ela
custodiava a porta traseira e não parava de ir e vir às outras três. Ao
interar-se de que tinha que fazer a guarda noturna, ao entardecer ela subiu as
ameias para afinar as trombetas, as trompas e os chifres; algumas vezes entoavacanções, descorts e
composições novas da moda, imitando as gaitas da Cornualha; outras vezes – acompanhando-se
com a flauta – disse que nunca encontrou uma mulher honesta: “não há nenhuma
que não ria ao ouvir falar de excessos: esta é uma puta, a outra se maquia,
aquela olha luxuriosamente; uma é vilã, outra é louca e outra fala demais”.
Má Língua não perdoa a ninguém, pois
encontra algum defeito em todas.
Entretanto, o Ciúme – que Deus o confunda! – protegia a torre redonda e nela colocava seus amigos mais íntimos, até formar uma
guarnição numerosa.
Doce Abrigo estava trancado, prisioneiro no
alto da torre, cuja
porta estava tão bem trancada que ele não poderia sair. Uma velha – que Deus a humilhe! – estava com ele,
vigiando-o e não fazendo outra coisa além de espiar para que ele não se
comportasse de forma louca. Ninguém poderia enganá-la fazendo sinais ou
piscando os olhos, pois não
havia artimanha que ela não conhecesse, já que em sua juventude teve a parte
que lhe correspondia dos bens e dos pesares que o Amor divide entre suas gentes.
Doce Abrigo permanecia em silêncio e atento,
temendo a velha, e não
se atrevia a mover-se, pois ela poderia pensar que se tratava de uma conduta
louca, já que conhecia bem a
antiga dança.
Enquanto isso, o
Ciúme se apoderou de Doce Abrigo e o prendeu, ficando assim
mais seguro. O castelo o tranqüilizou, já que lhe parecia bem forte e não o preocupava mais a ida de
preguiçosos que queriam roubar rosas ou botões; os roseirais estavam bem
protegidos e ele se sentia tranqüilo quando dormia ou quando velava.
De minha parte, eu, que estava fora da muralha, havia me
entregue ao pranto e à tristeza; qualquer um que se inteirasse da vida que eu
levava se compadeceria. O
Amor vendeu caro os bens que
havia me emprestado. Eu pensava tê-los comprado, mas ele voltou a vendê-los
para mim e, pela alegria que eu perdi, minha dor era maior do que se nunca a
tivesse alcançado. Que
mais posso contar-vos? Parecia-me com o camponês que jogava a semente no campo
e sentia uma grande alegria quando ela começava a crescer como uma erva forte e
formosa, mas depois, antes de colher um feixe, uma má nuvem que surgia quando
as espigas deveriam florescer, fazia perder tudo e o frustrava, matando o grão
e acabando com as esperanças que o camponês tinha.
Da mesma forma, temia ter perdido minhas ilusões e esperanças; o
Amor havia me colocado em um lugar tão alto que eu
havia começado a contar meus segredos a Doce Abrigo, que estava disposto a aceitar meus jogos. Mas o Amor é tão caprichoso que me privou de tudo em um momento, quando
eu pensava ter triunfado.
O mesmo ocorre com a Fortuna, pois ela enche o coração das gentes de amargura e logo
depois os acaricia e afaga;
rapidamente muda seu aspecto: ora ri, ora está triste. Ela tem uma roda que gira e, quando assim o deseja, coloca acima, na
parte mais alta, aquele que estava embaixo e, com uma volta, faz com que caia
no barro aquele que estava acima na roda. E eu fui derrubado! Em má hora vi os
muros e as fossas que não me atrevia passar – e nem poderia fazê-lo. Não tive nenhuma alegria desde
que Doce Abrigo foi encarcerado, pois todo o meu gozo e toda a minha cura
descansavam nele e na rosa que se encontrava presa entre os muros; seria
necessário que ela saísse da torre se o Amor
quisesse que eu fosse curado, pois de nenhum outro desejo receberia honra, bem,
saúde e alegria.
– Ai, Doce Abrigo, meu doce amigo! Ainda que estejas prisioneiro,
ao menos faz com que teu coração continue sendo-me favorável e não permitas por
nada desse mundo que o selvagem Ciúme faça de ti seu servidor, como tem feito com teu corpo; se ele o castiga por fora, tem
por dentro um coração de diamante para fazer frente a seus tormentos. Se o
corpo cai prisioneiro, ao menos procura que teu coração me ame, já que o
coração nobre não deixa de amar, mesmo que receba golpes ou seja desprezado.
Se o Ciúme se mostra duro contigo, causando-te aflições e moléstias,
enfada-te com ele; das penas que te causa, vinga-te pensando, já que não podes
fazer outra coisa. Se obrares assim, estarei satisfeito. Porém, me preocupa que
não faças dessa maneira, pois talvez estejas aborrecido comigo, pois te encarceraram
por minha culpa. Contudo, não
foi por uma falta que eu tenha cometido contra ti, pois não te contei nada que
tivesse que manter em silêncio. Assim, que Deus me ajude, pois tua desgraça me pesa mais que a
ti mesmo, já que estou sofrendo uma penitência maior que tudo. Pouco falta para
eu me desmanchar de tristeza quando recordo minha grande e evidente perda.
Sinto tanto medo e estou tão incomodado que penso que isso me causará a morte. Não devo estar assustado em
saber que os invejosos, os traidores e os falsos estão desejando me prejudicar?
– Ah, Doce Abrigo, bem sei que querem nos enganar – e talvez já
tenham conseguido. Não sei como estão as coisas, mas estou muito aflito, pois temo
que tenhas se esquecido de mim e isso me causa dor e tristeza. Não há nada que possa me
consolar se perder teu afeto, pois em ninguém mais confio.







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