Finalizando “Religião:
um diálogo”, escrito em 1851 por Arthur Schopenhauer, com tradução de André
Cancian. Alguns trechos estão grifados em negrito para destacar as citações e chamar
a atenção para a leitura integral do texto. Boa leitura!
Philalethes:
É possível afirmar, considerando tudo isso, que a humanidade
tornou-se moralmente melhor devido ao cristianismo?
Demopheles:
Se os resultados gerais não estão de acordo com a pureza e a
veracidade da doutrina, talvez seja porque esta era elevada e nobre demais para
a humanidade, porque estabeleceu um objetivo altivo demais. Foi muito mais
fácil igualar-se ao sistema pagão ou ao maometano. É precisamente o
que há de nobre e digno que está mais suscetível a todo tipo de abusos e de
fraudes: abusus optimi pessimus [O abuso do ótimo é o pior]. Essas
doutrinas elevadas serviram convenientemente como pretexto para os procedimentos mais
abomináveis e para atos de maldade irrestrita. A queda das
instituições do Velho Mundo, assim como de suas artes e ciências, deve, como
disse, ser atribuída à incursão de bárbaros estrangeiros. O resultado
inevitável dessa invasão foi que a ignorância e selvageria prevaleceram;
consequentemente, violência e vileza estabeleceram seu domínio, e cavaleiros e
padres tornaram-se um fardo à humanidade. Isso se explica, parcialmente, pelo
fato de que a nova religião objetivava a felicidade eterna, não a temporal,
ensinava que se deveria preferir simplicidade de coração à sabedoria e olhava
de esguelha a todos os prazeres mundanos. Atualmente as artes e ciências servem
aos prazeres mundanos; mas, naquele tempo, foram promovidas tanto quanto podiam
ser úteis à religião, e atingiram um certo grau de perfeição.
Philalethes:
Num âmbito muito
estreito. As ciências eram companheiras suspeitas e, como
tais, sofriam restrições: por outro lado, a querida ignorância, este elemento
tão necessário a um sistema de crenças, foi cuidadosamente nutrida.
Demopheles:
E ainda assim as
posses intelectuais da humanidade até aquele período — as quais eram escritos preservados
dos Antigos — foram salvas da destruição pelo
clero, especialmente pelos que estavam em monastérios. Como teriam sobrevivido
se o cristianismo não tivesse chegado justamente antes da migração dos povos.
Philalethes:
Seria uma investigação realmente proveitosa tentar e fazer, com a
mais fria imparcialidade, uma comparação neutra, cuidadosa e precisa das vantagens e
desvantagens que podem ser atribuídas à religião. (...)
(...)
Se pudéssemos
começar fazendo com que um estatístico nos dissesse quantos crimes são evitados
todos os anos pela religião e quantos por outros motivos, muito poucos seriam
pela primeira razão. Quando um homem sente-se tentado a
cometer um crime, pode-se confiar que a primeira consideração que passará pela
sua mente será a punição envolvida e as chances de vir sofrê-la: então vem a
segunda consideração, o risco à sua reputação. Se não estou
enganado, este ruminará por horas a fio esses dois impedimentos antes de sequer
trazer à tona considerações religiosas. Superando com segurança esses dois
primeiros paredões contra o crime, penso que a religião sozinha apenas
raramente barrará sua ação.
Demopheles:
Penso que a religião o fará muito frequentemente, especialmente
quando sua influência se dá através dos costumes. Sente-se uma ação cruel como
imediatamente repulsiva. O que é isso senão o efeito das primeiras impressões? Pense, por
exemplo, quão frequentemente um homem, especialmente se for de nascimento
nobre, fará tremendos sacrifícios para cumprir o que prometeu, motivado tão-somente
pelo fato de que seu pai repetidamente o impressionou em sua infância de que
“um homem de honra” ou “um cavalheiro” sempre mantém sua palavra inviolável.
Philalethes:
Isso é inútil a
não ser que haja uma certa honorabilidade inata. Não se deve atribuir à
religião aquilo que resulta de uma bondade de caráter inata, através da qual a
compaixão pelo homem que sofreria seu crime o impede de cometê-lo. Isso
é um motivo genuinamente moral e, como tal, independe de todas as religiões.
Demopheles:
Mas esse é um motivo que raramente afeta a multidão, a não ser que
assuma um aspecto religioso. O aspecto religioso sem dúvida fortalece seu poder
para o bem. Mesmo sem tais fundamentos naturais, os motivos religiosos
sozinhos são poderosos na prevenção de crimes. Não devemos nos impressionar com
isso no caso da multidão, quando vemos que mesmo pessoas de educação sofrem vez
por outra a influência (...) da mais absurda superstição, e se permitem guiar
por esta as suas vidas inteiras; como, por exemplo, não empreender nada na
sexta-feira, recusar-se a ser o décimo terceiro a se sentar à mesa, obedecer a prognósticos
estatísticos e coisas do gênero. Quão mais a multidão é guiada por tais coisas.
Não é possível que forme uma ideia adequada dos estreitos limites
da mente em sua forma bruta; é um lugar de absoluta escuridão, especialmente
quando — como é frequente — um coração mau, injusto e malicioso está em seu
fundo. Pessoas nessa condição — e estas constituem o
grosso da humanidade — precisam ser guiadas e controladas o melhor possível, mesmo se por
motivos supersticiosos; até o tempo em que se tornem suscetíveis a motivos
melhores e mais verdadeiros. (...) Sem dúvida, considerações religiosas
são meios para despertar e invocar a natureza moral do homem. Quão frequentemente
sucede de um homem concordar em fazer um falso juramento e, no momento crucial,
repentinamente se recusa, e a verdade e o correto prevalecem.
Philalethes:
Com ainda mais
frequência falsos juramentos são feitos, e com a verdade e o correto sob seus
pés, apesar de todas as testemunhas do juramento saberem-no muito bem! Mesmo
assim, parece estar bastante correto em mencionar que o
juramento é um inegável exemplo da eficiência prática da religião. Mas, apesar
de tudo que disse, tenho dúvidas se a eficiência da religião vai muito além disso. Apenas pense; se
uma proclamação pública repentinamente anunciasse a anulação de todas as leis
criminais, imagino que nenhum de nós teria coragem de ir para casa sob a
proteção das causas religiosas. Se, do mesmo modo, todas as religiões fossem
declaradas falsas, poderíamos, sob a proteção da lei apenas, continuar vivendo
como antes, sem nenhum acréscimo às nossas apreensões ou às nossas medidas de
precaução. Darei um passo além e direi que as religiões muito frequentemente
exerceram uma influência decididamente desmoralizante.
Poder-se-ia dizer que deveres para com Deus e deveres para com a humanidade
estão em razões inversas.
É fácil deixar que a bajulação de uma divindade compense a falta
de comportamento apropriado em relação aos homens. E então vemos que em todos
os tempos e em todas as nações a grande maioria da humanidade julga muito mais
fácil chegar ao céu implorando em orações do que pelo merecimento de suas
ações. Em toda religião logo vem a suceder que fé, cerimônias, ritos e afins,
são proclamados como mais agradáveis à vontade divina que ações morais; esta
primeira, especialmente se vinculada com o emolumento do clero, gradualmente passa
a ser vista como um substituto à última. (...) A consequência disso tudo é que
os padres finalmente figuram como os intermediários da corrupção dos
deuses. E como se isso não fosse bastante, onde está a religião cujos adeptos não
consideram rezas, louvores e múltiplos atos de devoção, ao menos em parte, um
substituto à conduta moral? Veja a Inglaterra, onde o domingo cristão, por meio
de um audaz artifício sacerdotal, foi introduzido por Constantino, o Grande,
como um correlato para o sabá judeu, o qual é de um modo mendaz identificado
com este, e empresta o seu nome — e isso a fim de que os mandamentos de Jeová
para o sabá (isto é, o dia em que o Todo Poderoso teve de descansar dos seus
seis dias de trabalho, de modo que essencialmente este é o último dia da
semana) pudessem ser aplicados ao domingo cristão, o dies solis [dia do
sol], o primeiro dia da semana, no qual o sol se abre em glória, o dia de
devoção e alegria. A consequência dessa fraude é que “quebrar o sabá” ou a
“dessacralização do sabá”, isto é, a menor das ocupações (...) é vista como um
grande pecado nos domingos. Certamente o homem comum deve acreditar que — como
seus guias espirituais assinalam — se for totalmente constante numa
“observância estrita do santo sabá”, sendo “um regular usuário do Serviço
Divino”, isto é, se invariavelmente quedar-se ociosamente nos domingos e não
deixar de sentar-se duas horas na igreja para ouvir a mesma ladainha pela
milésima vez e murmurá-la em consonância com os outros, então poderá contar com
indulgência em relação aos pequenos pecadilhos aos quais ocasionalmente se
permitiu. Esses demônios em forma humana, os donos e os negociadores de
escravos nos Estados Livres da América do Norte (...) são, via de regra,
anglicanos devotos que considerariam um pecado grave trabalhar aos domingos; e,
confiando nisso — e em suas visitas regulares à igreja —, esperam pela
felicidade eterna. A tendência desmoralizante da religião é menos
problemática que sua influência moral. Quão grandiosa e quão certa esta influência
moral deve ser para reparar as enormidades que as religiões, especialmente as
cristãs e maometanas, produziram e disseminaram pela terra! Pense no
fanatismo, nas perseguições infindáveis, nas guerras santas, nesse frenesi
sanguinário que os Antigos sequer concebiam! Pense nas cruzadas, um morticínio
de duzentos anos e seu indesculpável grito de guerra “é a vontade de Deus”,
sua meta de tomar posse das sepulturas daqueles que pregavam amor e tolerância!
Pense na cruel expulsão e extermínio dos mouros e judeus da Espanha! Pense nas
orgias de sangue, nas inquisições, nos tribunais inquisitórios, nas conquistas
terríveis e sangrentas dos maometanos em três continentes, ou nas do
cristianismo na América, cujos habitantes foram em sua maior parte
exterminados, e em Cuba totalmente. De acordo com Las Cases, o
cristianismo assassinou doze milhões em quarenta anos, in majorem Dei
gloriam [para a maior glória de Deus], obviamente, para a propagação do
evangelho, e porque tudo o que não era cristão sequer era visto como humano! (...) Acima de tudo,
não nos esqueçamos da Índia, o berço da raça humana, ou pelo menos da parte
dela à qual pertencemos, onde os maometanos, e então os cristãos, foram mais
cruelmente furiosos contra os adeptos da fé original da humanidade. A
destruição ou desfiguração dos templos e ídolos antigos, um ato lamentável,
perverso e bárbaro, que ainda testemunha a fúria monoteísta dos maometanos,
continuando de Marmud, o Ghaznavi da memória maldita, até Aureng-Zeb, o
fratricida, o qual os cristãos portugueses imitaram diligentemente através da destruição
de templos e dos autos de fé da inquisição em Goa. Não esqueçamos os
escolhidos de Deus que, após terem sido expressamente ordenados por Jeová,
roubaram de seus velhos e leais amigos no Egito os potes de ouro e prata que
haviam lhes emprestado, fizeram um caminho de matança e
pilhagens até a “terra prometida”, e com o assassino Moisés no comando, usurparam-na de
seus donos por direito — novamente, pela mesma ordem expressa de Jeová e
repetidos comandos, sem qualquer misericórdia, exterminando os habitantes, mulheres,
crianças, todos (Josué 9/10). Isso tudo simplesmente porque não foram
circuncidados e desconheciam Jeová: foi motivo suficiente para justificar cada
monstruosidade que lhes foram feitas; pelo mesmo motivo, em tempos anteriores, a
infame perfídia do patriarca Jacó e seu povo escolhido contra Hamor, rei
de Salém e seu povo, acha glória
aos olhos do Senhor porque o povo era descrente! (Gênesis 33:18) De
fato, o pior lado das religiões é que os fiéis de uma religião tiveram a
liberdade para pecar contra os de outras, e persegui-los com extremado
rufianismo e crueldade; os maometanos contra os cristãos e hindus; os cristãos
contra os hindus, maometanos, nativos americanos, negros, judeus, hereges e
outros.
Talvez esteja me excedendo em dizer todas as religiões. Por
respeito à verdade, devo acrescentar que as barbaridades fanáticas perpetradas
em nome da religião somente podem ser imputadas aos adeptos de crenças monoteístas,
isto é, a fé judaica e seus dois ramos, cristianismo e islamismo. Não ouvimos
nada do gênero no caso dos hindus ou dos budistas. É do conhecimento
de todos que por volta do século V de nossa era o budismo foi expulso pelos brâmanes
de sua terra ancestral no extremo sul da península indiana, e posteriormente espalhou-se
por todo o resto da Ásia — e, tanto quanto sei, não há registros definidos de
quaisquer crimes violentos, guerras ou crueldades perpetradas durante o
processo.
Esse fato,
obviamente, pode ser imputado à obscuridade que vela a história desses países;
mas o caráter extremamente moderado de sua religião, juntamente com sua
incessante inculca de tolerância para com todas as formas viventes e o fato de
que o bramanismo, devido ao seu sistema próprio de castas, não admite prosélitos,
permite margem à esperança de que seus adeptos se abstêm do
derramamento de sangue em grande escala e da crueldade em qualquer forma. Spence Hardy, em
seu excelente livro Eastern Monachism [Monarquismo Oriental], elogia a
extraordinária tolerância dos budistas, e inclui sua garantia que de que os anais
de budismo fornecerão menos instâncias de perseguição religiosa do que qualquer
outra religião.
De fato, apenas ao monoteísmo a intolerância é essencial; um deus
único é, por sua própria natureza, um deus ciumento, e como tal não pode
coexistir com quaisquer outros. Deuses politeístas, por outro lado, são naturalmente
tolerantes; vivem e deixam viver; seus próprios companheiros, sendo deuses da
mesma religião, são os maiores objetos de seu sofrimento. Essa tolerância é
posteriormente estendida aos deuses estrangeiros que são recebidos de modo
hospitaleiro e, depois, admitidos, em alguns casos em igualdade de direitos; um
grande exemplo disso é demonstrado pelo fato de que os romanos, de boa vontade,
admitiram e veneravam Phrygian, Egyptian e outros deuses. Consequentemente,
somente as religiões monoteístas fornecem o espetáculo das guerras santas,
perseguições religiosas, tribunais inquisitórios, destruição de ídolos e de imagens
dos deuses, devastação de templos indianos e colossi egípcios (...) apenas
porque um deus ciumento disse Não farás para ti imagens de esculturas.
Mas retorno ao meu
argumento principal. Está, sem dúvida, correto em sua
insistência nas fortes necessidades metafísicas da humanidade; todavia, a
religião parece-me não tanto uma satisfação quanto é um abuso de tais necessidades.
Em qualquer grau vimos que, em relação à promoção da moralidade, sua utilidade
é, em grande parte, problemática; suas desvantagens e especialmente as
atrocidades que a têm acompanhado são patentes como a luz do dia. Naturalmente,
é uma questão completamente diferente se considerarmos a utilidade
da religião como uma escora de tronos; pois onde esses são sustentados “pela
graça de Deus”, trono e altar estão intimamente associados; e todo príncipe
sábio que ama seu trono e sua família figurará por sobre seu povo como um
exemplo da verdadeira religião. Mesmo Maquiavel, no capítulo oitenta de seu
livro, recomendou religião muito seriamente a príncipes. (...)
(...)
Demopheles:
Não posso deixar de lamentar pelo fato de que, depois de todo esse
esforço, não alterei sua disposição em relação à religião. Por outro lado,
posso lhe assegurar que tudo que disse não abalou minha convicção em seu
elevado valor e necessidade.
Philalethes:
(...) Meu
consolo é que, diferentemente da controvérsia e de beber água mineral, os
efeitos posteriores são os verdadeiros.
Demopheles:
Bem, espero que
sejam benéficos no seu caso.
Philalethes:
Talvez sim, se
fosse capaz de digerir um certo provérbio espanhol.
Demopheles:
Que é?
Philalethes:
Por detrás da cruz está o diabo.
Demopheles:
Vamos, não
terminemos com sarcasmos. Em vez disso, admitamos que a religião, como Janus,
ou melhor, como Yama, o deus brâmane da morte, tem duas
faces, uma amigável e a outra sombria. Cada um de nós manteve o olhar fixo em
apenas uma delas.
Philalethes:
Está correto, velho amigo.


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