30 de março de 2015

Religião: um diálogo. (3ª PARTE)








Finalizando “Religião: um diálogo”, escrito em 1851 por Arthur Schopenhauer, com tradução de André Cancian. Alguns trechos estão grifados em negrito para destacar as citações e chamar a atenção para a leitura integral do texto. Boa leitura!




Philalethes:
É possível afirmar, considerando tudo isso, que a humanidade tornou-se moralmente melhor devido ao cristianismo?


Demopheles:
Se os resultados gerais não estão de acordo com a pureza e a veracidade da doutrina, talvez seja porque esta era elevada e nobre demais para a humanidade, porque estabeleceu um objetivo altivo demais. Foi muito mais fácil igualar-se ao sistema pagão ou ao maometano. É precisamente o que há de nobre e digno que está mais suscetível a todo tipo de abusos e de fraudes: abusus optimi pessimus [O abuso do ótimo é o pior]. Essas doutrinas elevadas serviram convenientemente como pretexto para os procedimentos mais abomináveis e para atos de maldade irrestrita. A queda das instituições do Velho Mundo, assim como de suas artes e ciências, deve, como disse, ser atribuída à incursão de bárbaros estrangeiros. O resultado inevitável dessa invasão foi que a ignorância e selvageria prevaleceram; consequentemente, violência e vileza estabeleceram seu domínio, e cavaleiros e padres tornaram-se um fardo à humanidade. Isso se explica, parcialmente, pelo fato de que a nova religião objetivava a felicidade eterna, não a temporal, ensinava que se deveria preferir simplicidade de coração à sabedoria e olhava de esguelha a todos os prazeres mundanos. Atualmente as artes e ciências servem aos prazeres mundanos; mas, naquele tempo, foram promovidas tanto quanto podiam ser úteis à religião, e atingiram um certo grau de perfeição.


Philalethes:
Num âmbito muito estreito. As ciências eram companheiras suspeitas e, como tais, sofriam restrições: por outro lado, a querida ignorância, este elemento tão necessário a um sistema de crenças, foi cuidadosamente nutrida.


Demopheles:
E ainda assim as posses intelectuais da humanidade até aquele período — as quais eram escritos preservados dos Antigos — foram salvas da destruição pelo clero, especialmente pelos que estavam em monastérios. Como teriam sobrevivido se o cristianismo não tivesse chegado justamente antes da migração dos povos.


Philalethes:
Seria uma investigação realmente proveitosa tentar e fazer, com a mais fria imparcialidade, uma comparação neutra, cuidadosa e precisa das vantagens e desvantagens que podem ser atribuídas à religião. (...)

(...)

Se pudéssemos começar fazendo com que um estatístico nos dissesse quantos crimes são evitados todos os anos pela religião e quantos por outros motivos, muito poucos seriam pela primeira razão. Quando um homem sente-se tentado a cometer um crime, pode-se confiar que a primeira consideração que passará pela sua mente será a punição envolvida e as chances de vir sofrê-la: então vem a segunda consideração, o risco à sua reputação. Se não estou enganado, este ruminará por horas a fio esses dois impedimentos antes de sequer trazer à tona considerações religiosas. Superando com segurança esses dois primeiros paredões contra o crime, penso que a religião sozinha apenas raramente barrará sua ação.


Demopheles:
Penso que a religião o fará muito frequentemente, especialmente quando sua influência se dá através dos costumes. Sente-se uma ação cruel como imediatamente repulsiva. O que é isso senão o efeito das primeiras impressões? Pense, por exemplo, quão frequentemente um homem, especialmente se for de nascimento nobre, fará tremendos sacrifícios para cumprir o que prometeu, motivado tão-somente pelo fato de que seu pai repetidamente o impressionou em sua infância de que “um homem de honra” ou “um cavalheiro” sempre mantém sua palavra inviolável.


Philalethes:
Isso é inútil a não ser que haja uma certa honorabilidade inata. Não se deve atribuir à religião aquilo que resulta de uma bondade de caráter inata, através da qual a compaixão pelo homem que sofreria seu crime o impede de cometê-lo. Isso é um motivo genuinamente moral e, como tal, independe de todas as religiões.


Demopheles:
Mas esse é um motivo que raramente afeta a multidão, a não ser que assuma um aspecto religioso. O aspecto religioso sem dúvida fortalece seu poder para o bem. Mesmo sem tais fundamentos naturais, os motivos religiosos sozinhos são poderosos na prevenção de crimes. Não devemos nos impressionar com isso no caso da multidão, quando vemos que mesmo pessoas de educação sofrem vez por outra a influência (...) da mais absurda superstição, e se permitem guiar por esta as suas vidas inteiras; como, por exemplo, não empreender nada na sexta-feira, recusar-se a ser o décimo terceiro a se sentar à mesa, obedecer a prognósticos estatísticos e coisas do gênero. Quão mais a multidão é guiada por tais coisas. Não é possível que forme uma ideia adequada dos estreitos limites da mente em sua forma bruta; é um lugar de absoluta escuridão, especialmente quando — como é frequente — um coração mau, injusto e malicioso está em seu fundo. Pessoas nessa condição — e estas constituem o grosso da humanidade — precisam ser guiadas e controladas o melhor possível, mesmo se por motivos supersticiosos; até o tempo em que se tornem suscetíveis a motivos melhores e mais verdadeiros. (...) Sem dúvida, considerações religiosas são meios para despertar e invocar a natureza moral do homem. Quão frequentemente sucede de um homem concordar em fazer um falso juramento e, no momento crucial, repentinamente se recusa, e a verdade e o correto prevalecem.


Philalethes:
Com ainda mais frequência falsos juramentos são feitos, e com a verdade e o correto sob seus pés, apesar de todas as testemunhas do juramento saberem-no muito bem! Mesmo assim, parece estar bastante correto em mencionar que o juramento é um inegável exemplo da eficiência prática da religião. Mas, apesar de tudo que disse, tenho dúvidas se a eficiência da religião vai muito além disso. Apenas pense; se uma proclamação pública repentinamente anunciasse a anulação de todas as leis criminais, imagino que nenhum de nós teria coragem de ir para casa sob a proteção das causas religiosas. Se, do mesmo modo, todas as religiões fossem declaradas falsas, poderíamos, sob a proteção da lei apenas, continuar vivendo como antes, sem nenhum acréscimo às nossas apreensões ou às nossas medidas de precaução. Darei um passo além e direi que as religiões muito frequentemente exerceram uma influência decididamente desmoralizante. Poder-se-ia dizer que deveres para com Deus e deveres para com a humanidade estão em razões inversas.

É fácil deixar que a bajulação de uma divindade compense a falta de comportamento apropriado em relação aos homens. E então vemos que em todos os tempos e em todas as nações a grande maioria da humanidade julga muito mais fácil chegar ao céu implorando em orações do que pelo merecimento de suas ações. Em toda religião logo vem a suceder que fé, cerimônias, ritos e afins, são proclamados como mais agradáveis à vontade divina que ações morais; esta primeira, especialmente se vinculada com o emolumento do clero, gradualmente passa a ser vista como um substituto à última. (...) A consequência disso tudo é que os padres finalmente figuram como os intermediários da corrupção dos deuses. E como se isso não fosse bastante, onde está a religião cujos adeptos não consideram rezas, louvores e múltiplos atos de devoção, ao menos em parte, um substituto à conduta moral? Veja a Inglaterra, onde o domingo cristão, por meio de um audaz artifício sacerdotal, foi introduzido por Constantino, o Grande, como um correlato para o sabá judeu, o qual é de um modo mendaz identificado com este, e empresta o seu nome — e isso a fim de que os mandamentos de Jeová para o sabá (isto é, o dia em que o Todo Poderoso teve de descansar dos seus seis dias de trabalho, de modo que essencialmente este é o último dia da semana) pudessem ser aplicados ao domingo cristão, o dies solis [dia do sol], o primeiro dia da semana, no qual o sol se abre em glória, o dia de devoção e alegria. A consequência dessa fraude é que “quebrar o sabá” ou a “dessacralização do sabá”, isto é, a menor das ocupações (...) é vista como um grande pecado nos domingos. Certamente o homem comum deve acreditar que — como seus guias espirituais assinalam — se for totalmente constante numa “observância estrita do santo sabá”, sendo “um regular usuário do Serviço Divino”, isto é, se invariavelmente quedar-se ociosamente nos domingos e não deixar de sentar-se duas horas na igreja para ouvir a mesma ladainha pela milésima vez e murmurá-la em consonância com os outros, então poderá contar com indulgência em relação aos pequenos pecadilhos aos quais ocasionalmente se permitiu. Esses demônios em forma humana, os donos e os negociadores de escravos nos Estados Livres da América do Norte (...) são, via de regra, anglicanos devotos que considerariam um pecado grave trabalhar aos domingos; e, confiando nisso — e em suas visitas regulares à igreja —, esperam pela felicidade eterna. A tendência desmoralizante da religião é menos problemática que sua influência moral. Quão grandiosa e quão certa esta influência moral deve ser para reparar as enormidades que as religiões, especialmente as cristãs e maometanas, produziram e disseminaram pela terra! Pense no fanatismo, nas perseguições infindáveis, nas guerras santas, nesse frenesi sanguinário que os Antigos sequer concebiam! Pense nas cruzadas, um morticínio de duzentos anos e seu indesculpável grito de guerra “é a vontade de Deus”, sua meta de tomar posse das sepulturas daqueles que pregavam amor e tolerância! Pense na cruel expulsão e extermínio dos mouros e judeus da Espanha! Pense nas orgias de sangue, nas inquisições, nos tribunais inquisitórios, nas conquistas terríveis e sangrentas dos maometanos em três continentes, ou nas do cristianismo na América, cujos habitantes foram em sua maior parte exterminados, e em Cuba totalmente. De acordo com Las Cases, o cristianismo assassinou doze milhões em quarenta anos, in majorem Dei gloriam [para a maior glória de Deus], obviamente, para a propagação do evangelho, e porque tudo o que não era cristão sequer era visto como humano! (...) Acima de tudo, não nos esqueçamos da Índia, o berço da raça humana, ou pelo menos da parte dela à qual pertencemos, onde os maometanos, e então os cristãos, foram mais cruelmente furiosos contra os adeptos da fé original da humanidade. A destruição ou desfiguração dos templos e ídolos antigos, um ato lamentável, perverso e bárbaro, que ainda testemunha a fúria monoteísta dos maometanos, continuando de Marmud, o Ghaznavi da memória maldita, até Aureng-Zeb, o fratricida, o qual os cristãos portugueses imitaram diligentemente através da destruição de templos e dos autos de fé da inquisição em Goa. Não esqueçamos os escolhidos de Deus que, após terem sido expressamente ordenados por Jeová, roubaram de seus velhos e leais amigos no Egito os potes de ouro e prata que haviam lhes emprestado, fizeram um caminho de matança e pilhagens até a “terra prometida”, e com o assassino Moisés no comando, usurparam-na de seus donos por direito — novamente, pela mesma ordem expressa de Jeová e repetidos comandos, sem qualquer misericórdia, exterminando os habitantes, mulheres, crianças, todos (Josué 9/10). Isso tudo simplesmente porque não foram circuncidados e desconheciam Jeová: foi motivo suficiente para justificar cada monstruosidade que lhes foram feitas; pelo mesmo motivo, em tempos anteriores, a infame perfídia do patriarca Jacó e seu povo escolhido contra Hamor, rei de Salém e seu povo, acha glória aos olhos do Senhor porque o povo era descrente! (Gênesis 33:18) De fato, o pior lado das religiões é que os fiéis de uma religião tiveram a liberdade para pecar contra os de outras, e persegui-los com extremado rufianismo e crueldade; os maometanos contra os cristãos e hindus; os cristãos contra os hindus, maometanos, nativos americanos, negros, judeus, hereges e outros.

Talvez esteja me excedendo em dizer todas as religiões. Por respeito à verdade, devo acrescentar que as barbaridades fanáticas perpetradas em nome da religião somente podem ser imputadas aos adeptos de crenças monoteístas, isto é, a fé judaica e seus dois ramos, cristianismo e islamismo. Não ouvimos nada do gênero no caso dos hindus ou dos budistas. É do conhecimento de todos que por volta do século V de nossa era o budismo foi expulso pelos brâmanes de sua terra ancestral no extremo sul da península indiana, e posteriormente espalhou-se por todo o resto da Ásia — e, tanto quanto sei, não há registros definidos de quaisquer crimes violentos, guerras ou crueldades perpetradas durante o processo.

Esse fato, obviamente, pode ser imputado à obscuridade que vela a história desses países; mas o caráter extremamente moderado de sua religião, juntamente com sua incessante inculca de tolerância para com todas as formas viventes e o fato de que o bramanismo, devido ao seu sistema próprio de castas, não admite prosélitos, permite margem à esperança de que seus adeptos se abstêm do derramamento de sangue em grande escala e da crueldade em qualquer forma. Spence Hardy, em seu excelente livro Eastern Monachism [Monarquismo Oriental], elogia a extraordinária tolerância dos budistas, e inclui sua garantia que de que os anais de budismo fornecerão menos instâncias de perseguição religiosa do que qualquer outra religião.

De fato, apenas ao monoteísmo a intolerância é essencial; um deus único é, por sua própria natureza, um deus ciumento, e como tal não pode coexistir com quaisquer outros. Deuses politeístas, por outro lado, são naturalmente tolerantes; vivem e deixam viver; seus próprios companheiros, sendo deuses da mesma religião, são os maiores objetos de seu sofrimento. Essa tolerância é posteriormente estendida aos deuses estrangeiros que são recebidos de modo hospitaleiro e, depois, admitidos, em alguns casos em igualdade de direitos; um grande exemplo disso é demonstrado pelo fato de que os romanos, de boa vontade, admitiram e veneravam Phrygian, Egyptian e outros deuses. Consequentemente, somente as religiões monoteístas fornecem o espetáculo das guerras santas, perseguições religiosas, tribunais inquisitórios, destruição de ídolos e de imagens dos deuses, devastação de templos indianos e colossi egípcios (...) apenas porque um deus ciumento disse Não farás para ti imagens de esculturas.

Mas retorno ao meu argumento principal. Está, sem dúvida, correto em sua insistência nas fortes necessidades metafísicas da humanidade; todavia, a religião parece-me não tanto uma satisfação quanto é um abuso de tais necessidades. Em qualquer grau vimos que, em relação à promoção da moralidade, sua utilidade é, em grande parte, problemática; suas desvantagens e especialmente as atrocidades que a têm acompanhado são patentes como a luz do dia. Naturalmente, é uma questão completamente diferente se considerarmos a utilidade da religião como uma escora de tronos; pois onde esses são sustentados “pela graça de Deus”, trono e altar estão intimamente associados; e todo príncipe sábio que ama seu trono e sua família figurará por sobre seu povo como um exemplo da verdadeira religião. Mesmo Maquiavel, no capítulo oitenta de seu livro, recomendou religião muito seriamente a príncipes. (...)

(...)


Demopheles:
Não posso deixar de lamentar pelo fato de que, depois de todo esse esforço, não alterei sua disposição em relação à religião. Por outro lado, posso lhe assegurar que tudo que disse não abalou minha convicção em seu elevado valor e necessidade.


Philalethes:
(...) Meu consolo é que, diferentemente da controvérsia e de beber água mineral, os efeitos posteriores são os verdadeiros.


Demopheles:
Bem, espero que sejam benéficos no seu caso.


Philalethes:
Talvez sim, se fosse capaz de digerir um certo provérbio espanhol.


Demopheles:
Que é?


Philalethes:
Por detrás da cruz está o diabo.


Demopheles:
Vamos, não terminemos com sarcasmos. Em vez disso, admitamos que a religião, como Janus, ou melhor, como Yama, o deus brâmane da morte, tem duas faces, uma amigável e a outra sombria. Cada um de nós manteve o olhar fixo em apenas uma delas.


Philalethes:
Está correto, velho amigo.









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