Continuação de “Religião:
um diálogo”, escrito em 1851 por Arthur Schopenhauer. Traduzido por André
Cancian. Com vistas à publicação,
retirei pequenos trechos, cuja importância não se fazem proeminentes, nem sua
supressão afronta o entendimento geral.
Os grifos, realçados
em negrito, tem o objetivo de conduzir uma leitura apressada. Deste modo, podem
atrair o leitor para a análise integral do texto. Boa leitura!
Demopheles:
Sim, se tivesse a verdade em seu bolso, pronta a beneficiar-nos.
Tudo o que tem são sistemas metafísicos, nos quais nada é certo senão as dores
de cabeça que causam. Antes de lançar qualquer coisa fora, é preciso ter algo
melhor a ser posto em seu lugar.
Philalethes:
É o que continuo a afirmar. Livrar um homem do erro é conceder,
não retirar. O conhecimento de que algo é falso é a verdade. (...) A
existência de muitas perspectivas sem dúvida lançará um fundamento de
tolerância. Aqueles que possuem conhecimento e capacidade poderão recorrer
ao estudo de filosofia, ou mesmo em si próprios levar a história da filosofia a
um passo adiante.
Demopheles:
Isso será um belo
empreendimento! Toda uma nação de metafísicos rudes disputando entre si e por
vezes saindo aos socos!
Philalethes:
Bem, bem, alguns
socos aqui e acolá são o tempero da vida; de qualquer forma, um mal desprezível
em comparação com o presente no domínio sacerdotal, o despojo da laicidade, a
perseguição dos hereges, tribunais inquisitórios, cruzadas, guerras santas,
massacres de São Bartolomeu. Esses foram os resultados da metafísica popular
imposta de cima para baixo (...)
Demopheles:
Quantas vezes terei de repetir que a religião pode ser qualquer
coisa, menos um monte de mentiras? A religião é a própria verdade, mas numa
vestimenta mitológica, alegórica. Quando falou sobre seu plano de todos serem os
fundadores de suas próprias religiões, ocorreu-me dizer que um particularismo
como esse é completamente oposto à natureza humana e, consequentemente,
destruiria toda a ordem social. O homem é um animal metafísico — isto
é, possui supremas necessidades metafísicas; em acordo, concebe a vida acima de
tudo em sua significação metafísica, e anseia fazer com que tudo se alinhe a
isso. Consequentemente, mesmo soando de um modo estranho frente à visão de
incerteza perante todos os dogmas, a concordância quanto aos fundamentos da
metafísica é essencial, pois um laço de união genuíno e duradouro somente é possível
entre os que partilham o mesmo ponto de vista nessas questões. Como resultado, o
fator de semelhança ou contraste entre nações é principalmente a religião, mais
que o governo ou mesmo a língua; assim, a estrutura da sociedade, o Estado, permanecerá
firme apenas quando fundado sobre um sistema metafísico que é reconhecido por
todos. Este, obviamente, só pode ser um sistema popular — isto é, uma religião: torna-se uma
parte e uma parcela da constituição do Estado, de todas as manifestações públicas
da vida nacional e também de todos os atos solenes de indivíduos. Tal era o
caso na Índia antiga, entre os persas, egípcios, judeus, gregos e romanos; e
ainda é o caso nas nações brâmanes, budistas e maometanas. Na China, é verdade,
há três crenças, das quais a prevalecente — budismo — é precisamente a que não
recebe proteção do Estado; todavia, há um ditado na China, universalmente
aceito e de uso diário, de que “as três crenças são apenas uma” — ou seja, há
concordância quanto aos fundamentos essenciais. O imperador confessa as três juntas
ao mesmo tempo. E a Europa é a união dos Estados cristãos: o cristianismo é a
fundação de cada um dos membros, e a ligação comum entre todos. Por essa razão, a Turquia, apesar de estar
geograficamente na Europa, não é propriamente considerada como pertencente a
esta. Igualmente, os príncipes europeus mantêm suas posições “pela graça de
Deus”: e o papa é o vice-gerente de Deus. Por isso, como seu trono era o mais
elevado, costumava ansiar que todos os tronos fossem considerados dele. (...) A
fé fornece amplo respaldo às leis e à constituição, ao fundamento e, portanto,
à estrutura social, a qual sequer se manteria como um todo se a
religião não emprestasse peso à autoridade do governo e dignidade ao
governante.
Philalethes:
(...) Muito bem. De
passagem, deixe-me recomendar aos nossos governantes que prestem bastante
atenção, regularmente duas vezes ao ano, no décimo quinto capítulo do primeiro
livro de Samuel, para que se lembrem constantemente o que significa apoiar o
trono no altar. Ademais, desde que o cadafalso, esta ultima
ration theologorum [última razão dos teólogos], saiu de moda, esta forma de
governo perdeu sua eficiência. Pois, como sabe, religiões são como pirilampos;
brilham apenas quando está escuro. Certa quantidade de ignorância generalizada
é a condição de todas as religiões, o elemento no qual podem existir por si
próprias. E tão logo quando a astronomia, a ciência natural, a geologia, a
história, o conhecimento dos países e dos povos tiverem disseminado sua luz amplamente,
e a filosofia finalmente tiver a permissão de dizer uma palavra, todas as
crenças baseadas em milagres e revelações desaparecerão; e a filosofia tomará
seu lugar. (...) Em conexão, há uma passagem em “Des Progrès de l’esprit
humain” de Condorcet que parece ter sido escrita como um alerta para nossa
época: “o ardor religioso demonstrado por filósofos e grandes homens foi apenas
uma devoção política; e toda religião que se permite ser defendida como uma crença
que pode ser proveitosamente deixada ao povo somente deve esperar pela sua
agonia, talvez mais ou menos prolongada.” (...) Quando, por exemplo, no início
deste século, as invasões de ladrões franceses sob a liderança de Bonaparte, e
os enormes esforços necessários para expulsá-los e puni-los, causaram um
desprezo temporário da ciência e consequentemente um certo declínio na promoção
do conhecimento, durante o qual a Igreja imediatamente começou a levantar sua
cabeça novamente e a fé começou a demonstrar sinais de vida nova; algo que, com
certeza, em concordância com a época, foi parcialmente poético em sua natureza.
Por outro lado, nos mais de trinta anos de paz que se seguiram, a calma e a
prosperidade adiantaram a construção da ciência e a divulgação do conhecimento
num nível extraordinário: e a consequência foi a que indiquei, a dissolução e a
ameaça de queda da religião. Talvez esteja chegando o momento tão profetizado,
quando a religião partirá da humanidade europeia, como uma babá cuja criança já
cresceu: agora será colocada sob as instruções de um tutor. Pois
não há dúvida de que as doutrinas religiosas que se fundamentam apenas na
autoridade, milagres e revelações são convenientes apenas à infância da
humanidade. (...)
Demopheles:
Em vez de demonstrar
este prazer descarado em profetizar a queda do cristianismo, como gostaria que
considerasse a imensurável dívida de gratidão da humanidade europeia para com o
cristianismo, o quanto foi
beneficiada pela religião que, após um grande intervalo, a seguiu de sua velha
casa no leste. A Europa recebeu do cristianismo
novas ideias, o conhecimento da verdade fundamental de que a vida não pode ser
um fim em si mesma, que o verdadeiro fim de nossa existência está além dela. Os gregos e os
romanos haviam colocado este fim completamente em nossa vida presente, de modo
que neste sentido podem certamente ser denominados pagãos cegos. E, ao manter
essa visão da vida, todas as suas virtudes podem ser reduzidas àquilo que é
útil à comunidade, àquilo que é útil de fato. Aristóteles diz, de um modo
bastante ingênuo, que as virtudes mais grandiosas devem necessariamente ser
as mais úteis a outrem [Those virtues must necessarily be the greatest
which are the most useful to others]. (...) Aristóteles enumera todas as
virtudes, a fim de discuti-las isoladamente. Estas são Justiça, Coragem,
Temperança, Magnificência, Magnanimidade, Liberalidade,
Amabilidade, Bom-Senso e Sabedoria. Quão diferentes das
virtudes cristãs! O próprio Platão, indiscutivelmente o filósofo mais
transcendental da antiguidade pré-cristã, desconhece qualquer virtude mais
elevada que a Justiça; e recomenda-a incondicionalmente por si própria,
enquanto que o resto faz da vida feliz, vita beata, o objetivo de toda a
virtude e a conduta moral o modo de atingi-lo. O cristianismo emancipou a
humanidade da Europa desta baixa, crua e superficial identificação de si
própria com o vazio e a incerteza do dia-a-dia (...) O
cristianismo, de acordo, não prega somente a Justiça, mas o Amor à
Humanidade, Compaixão, Boas Obras, Perdão, Amor aos
Inimigos, Paciência, Humildade, Resignação, Fé e
Esperança. Foi mesmo um passo adiante, e ensinou que o mundo é mau e que
precisamos de libertação. Pregou o desprezo do mundo, a abnegação, a castidade
e o abandono da vontade própria, isto é, dar as costas à vida e aos seus
prazeres ilusórios. Ensinou o poder curativo da dor: um instrumento de tortura
é o símbolo do cristianismo. Estou pronto a admitir que esta visão séria,
esta única visão correta da vida já havia se espalhado por toda a Ásia milhares
de anos antes sob outras formas, e ainda existem, independentemente do
cristianismo; mas para a humanidade europeia isso foi uma grande novidade e uma
grande revelação. Sabe-se que a população da Europa consiste de raças asiáticas
que partiram como viandantes de suas casas e gradualmente se estabeleceram na
Europa; em seu vagar, essas raças perderam a religião original e, com isso, a
visão correta da vida: então, sob um novo céu, constituíram religiões para si,
as quais eram bastante rudes; a adoração de Odin, por exemplo, o Druídico ou a
religião grega, cujo conteúdo metafísico era pouco e raso. Neste meio tempo, os
gregos desenvolveram, poder-se-ia dizer, um instintivo senso de beleza,
pertencente somente a estes entre todas as outras nações que já existiram na
Terra, peculiar, fino e exato: de tal modo que sua mitologia tomou, pela boca
dos poetas e pelas mãos dos artistas, uma forma extraordinariamente bela e
agradável. Por outro lado, o verdadeiro e profundo significado
da vida perdeu-se para os gregos e romanos. Viveram como crianças crescidas até
que o cristianismo chegou e os relembrou do lado sério da existência.
Philalethes:
Para vermos o efeito disso precisamos apenas comparar a
Antiguidade com a Idade Média; à época de Péricles, digamos, no século XIV.
Mal se podia acreditar que se estava lidando com o mesmo tipo de seres. Então,
havia o mais refinado desenvolvimento da humanidade, excelentes instituições,
leis sábias, ofícios inteligentemente repartidos, liberdade organizada
racionalmente, todas as artes, incluindo a poesia e a filosofia, em seus
ápices; a produção de obras que, após milênios, continua sem paralelo, as
criações, como eram, de uma ordem superior de seres que nunca poderíamos imitar;
a vida embelezada pelo mais nobre companheirismo, como retratado no Banquete
de Xenofonte. Imagine a outra cena, se puder; uma
época em que a Igreja havia escravizado mente e violentado os corpos dos
homens, para que os cavaleiros e padres pudessem lançar todo o peso da vida
sobre a indistinta besta de carga, o terceiro estado. Existia então,
pode-se ter por certo, uma estreita aliança entre feudalismo e fanatismo, e em
seu comboio abominável ignorância e obscuridade mental, uma intolerância
correspondente, discórdia entre crenças, guerras religiosas, cruzadas, inquisições
e perseguições; quanto à forma de amizade, cavalheirismo, composta de
selvageria e loucura, com seu sistema pedante de fingimentos ridículos levados
ao extremo, sua superstição degradante e ridícula veneração por mulheres. A
galantaria é o resíduo dessa veneração, merecidamente retribuída como o é pela arrogância
feminina; este fornece constantemente material para o riso de todos os
asiáticos, aos quais os gregos teriam se unido. Na fase áurea da Idade Média
esta prática desenvolveu-se em um constante e metódico serviço às mulheres;
este impunha atos de heroísmo, cours d’amour, músicas bombásticas de
trovadores etc.; devemos observar que estas últimas bufonarias, as quais tinham
um lado intelectual, estavam principalmente na França; por outro lado, entre os
materialistas e preguiçosos alemães, os cavaleiros distinguiam-se bebendo e
roubando; eram bons em embebedar-se e encher seus castelos de pilhagem; apesar
de que nos cortejos certamente não faltavam canções de amor insípidas. O
que causou esta profunda transformação? Migração e cristianismo.
Demopheles:
(...) Foi
principalmente devido ao cristianismo que os rudes e selvagens equinos que
vieram como uma inundação foram controlados e adestrados. O homem selvagem deve
antes de tudo aprender a ajoelhar-se, a venerar, a obedecer; depois pode ser
civilizado. Isso foi feito na Irlanda por São Patrício, na Alemanha por
Winifred, o Saxão, o qual era um Bonifácio genuíno. Foi a migração dos povos, o
último avanço das raças asiáticas em direção à Europa, seguido apenas pelas vãs
tentativas daqueles sob o comando de Áttila, Genghis Khan e Timur, e, num fim
cômico, os ciganos — foi esse movimento que varreu a humanidade dos Antigos. O
cristianismo foi precisamente o princípio que se colocou contra esta
selvageria; assim como depois, por toda a Idade Média, a Igreja e sua
hierarquia foram fundamentalmente necessários para estabelecer limites aos
barbarismos selvagens desses mestres da violência, os príncipes e os cavaleiros(...).
Não obstante, o objetivo principal do cristianismo não é realmente
tornar esta vida agradável, mas fazer-nos dignos de uma melhor. Este olha além
do lapso de tempo presente, além desse sonho fugidio, e busca levar-nos à
eterna bem-aventurança. Sua tendência é ética no sentido mais próprio da palavra,
um sentido desconhecido pela Europa até o seu advento; como lhe demonstrei,
colocando a moralidade e a religião dos antigos lado a lado com as da
cristandade.
Philalethes:
Parece estar correto em relação à teoria: mas observe a prática!
Em comparação com os tempos cristãos o mundo antigo era inquestionavelmente
menos cruel que a Idade Média, com suas mortes por torturas excruciantes, suas
inumeráveis incinerações em praça pública. Os antigos, ademais, eram muito
tolerantes, colocando grande peso na justiça, frequentemente sacrificando a si
próprios pela nação, demonstraram traços de todo tipo de magnanimidade, uma
tamanha e genuína hombridade, que, hoje em dia, uma proximidade com seus
pensamentos e ações recebe o nome de estudo da humanidade. Os frutos do
cristianismo foram guerras santas, morticínios, cruzadas, inquisições,
extermínio dos nativos da América e a introdução de escravos africanos em seu
lugar; entre os antigos não há nada análogo a isso, nada
ao qual se possa comparar; pois os escravos dos antigos, a familia [casa dos
escravos], o vernae [os nascidos na familia], eram uma raça
satisfeita, sinceramente devotada ao serviço de seus senhores, e tão diferente
dos negros miseráveis das plantações de açúcar — uma desgraça à humanidade —
quanto são diferentes as suas cores. As delinquências morais pelas quais
reprovamos os antigos, e que talvez sejam um pouco menos incomuns hoje em dia
do que parece (...) são ninharias em comparação com as enormidades cristãs que
mencionei. É possível afirmar, considerando tudo
isso, que a humanidade tornou-se moralmente melhor devido ao cristianismo?
[CONTINUA]


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