25 de março de 2015

Religião: um diálogo. (1ª PARTE)








“Religião: um diálogo”, escrito em 1851, é um verdadeiro embate argumentativo, no qual Arthur Schopenhauer demonstra a utilidade da doutrinação religiosa e sua destinação específica para a satisfação da metafísica imediatista das massas. Sabiamente, ao valer-se da personagem de Philalethes, ele sustenta a importância da busca pela verdade tomada como anseio e compromisso sinceros aos que se arvoram amá-la, em detrimento de todas as contrarrazões apontadas pela instituição da moral religiosa.

Um texto traduzido pelo trabalho de André Cancian, com uma modesta revisão gramatical minha. Para fins de publicação neste blogue, retirei alguns excessos argumentativos, cuja importância não se fazem proeminentes, nem sua supressão afronta o entendimento geral.

Ademais alguns grifos, propositadamente realçados em negrito, em virtude do que sei que alguns leitores costumam realizar uma leitura apressada. Deste modo, podem sentir-se realmente atraídos pela leitura integral, quando observarem o peso das alegações destacadas. Boa leitura!


Demopheles:
Entre nós, meu caro amigo, não me importa o modo como às vezes exibe seu talento para a filosofia, fazendo da religião o objeto de observações sarcásticas, e mesmo de franca ridicularização. Todos julgam sua religião sagrada, portanto deveria respeitá-las.


Philalethes:
Isso não procede! Não vejo razão para nutrir qualquer consideração por um conjunto de mentiras somente porque outras pessoas são simplórias. Sou respeitoso à verdade em tudo, e deste modo não posso respeitar o que a esta se opõe. (...)


Demopheles:
(...) Quero que perceba que se devem suprir as necessidades do povo de acordo com sua capacidade de compreensão. Onde há multidões de pessoas de suscetibilidades cruas e de inteligência rude, sórdidas em suas pretensões e mergulhadas em seus afazeres, a religião proporciona o único meio de proclamá-los e fazê-los se sentirem a quinta-essência da vida. Pois o homem médio interessa-se, primariamente, em nada além daquilo que satisfaz suas necessidades físicas e seus anseios; para além disso, conceda-lhe apenas um pouco de entretenimento e passatempo. Fundadores da religião e filósofos vêm ao mundo para despertá-los de seu estupor e apontar o grandioso sentido da existência; filósofos para os poucos, os emancipados; fundadores da religião para os muitos, para o grosso da humanidade. (...) Religião é a metafísica das massas; deixe que fiquem com isso: permita que esta comande o respeito externo, pois desacreditá-la equivale a extirpá-la. (...) As várias religiões são apenas as várias formas nas quais a verdade — que, tomada por si própria, está acima de sua compreensão — é apreendida e compreendida pelas massas; a verdade torna-se inseparável de tais formas. Deste modo, meu caro senhor, não me leve a mal se digo que escarnecer tais formas é baixo e injusto.


Philalethes:
Mas não é precisamente tão baixo e injusto quanto exigir que não haja nenhum outro sistema metafísico além deste, forjado como é, para se adequar aos requisitos e à compreensão das massas? Que sua doutrina será o limite da especulação humana, a base de todo o pensamento, de modo que a metafísica dos poucos — dos emancipados, como os denomina —, deve ser devotada apenas à confirmação, ao fortalecimento e à explicação da metafísica das massas? Que os maiores poderes da inteligência humana permanecerão estagnados e subdesenvolvidos — e mesmo vetados de florescer — a fim de que sua atividade não atrapalhe a metafísica popular? E não é precisamente esta a exigência que a religião impõe? Não é um pouco demais que tolerância e paciência delicada sejam pregadas por algo que é intolerante e cruel em si? Pense nos tribunais inquisitórios, nas inquisições, nas guerras religiosas, nas cruzadas, na cicuta de Sócrates, na morte de Bruno e Vanini nas chamas! Por acaso, hoje isso tudo são coisas do passado? Como pode o genuíno esforço filosófico, a sincera busca pela verdade — a mais nobre vocação dos mais nobres homens — ser autorizado ou proibido completamente por nada mais que um sistema metafísico que goza de um estado de monopólio, cujos princípios são impressos em todas as mentes quando ainda muito jovens de um modo tão sincero, profundo e sólido que, caso a mente não seja milagrosamente flexível, permanecerá indelével. (...)


Demopheles:
Isso significa, suponho, que as pessoas chegaram a uma convicção, e que não estão dispostas a abandoná-la para abraçar a sua.


Philalethes:
Ah! Se ao menos fosse uma convicção baseada no discernimento. Então alguém poderia apresentar argumentos para sustentá-la e a batalha seria travada com armas iguais. Mas as religiões assumidamente apelam, não à convicção resultante de argumentos, mas à crença como exigência da revelação. E como a capacidade de acreditar é mais aguçada na infância, toma-se um cuidado especial para garantir esta puerilidade. Isso tem muito mais relação com o enraizamento das doutrinas de fé (...). Se, na infância, certos pontos de vista e doutrinas fundamentais são apresentadas com uma solenidade incomum e com um ar de seriedade nunca visto em outras coisas; se, juntamente, a possibilidade de dúvida sobre estes for completamente descartada — ou mencionada somente para indicar que a dúvida é o primeiro passo da perdição eterna —, a impressão resultante será tão profunda que, via de regra, isto é, em quase todos os casos, duvidar destes será praticamente tão improvável quanto duvidar da própria existência. Dificilmente um em dez mil terá força suficiente para perguntar a si próprio com seriedade e sinceridade — isso é verdadeiro? Denominar quem pode fazê-lo de grandes intelectos, esprits forts [espíritos fortes] é uma descrição mais adequada do que se imagina comumente. Mas, nas mentes comuns, nada é tão absurdo ou revoltante que, se inculcado adequadamente, a crença mais poderosa não consiga lançar suas raízes. Se, por exemplo, matar um herege ou um infiel fosse essencial à salvação futura da alma, quase todos fariam desse o evento principal de suas vidas, e em seu leito de morte destilariam consolo e força da lembrança de seu sucesso. (...) O poder do dogma religioso, quando inculcado cedo, é tal que pode sufocar a consciência, a compaixão e, finalmente, cada sentimento de humanidade. Mas, se deseja ver de perto e com seus próprios olhos o que uma inoculação num tempo oportuno acarretará, veja os ingleses. Eis uma grande nação favorecida perante todas as outras por natureza; dotada, mais que todas as outras, de discernimento, inteligência, aptidão de julgamento, força de caráter; veja-os: rebaixados e tornados ridículos, além de todos os outros, por sua superstição eclesiástica estúpida, que se manifesta entre suas habilidades como uma idée fixe [ideia fixa] ou uma monomania. Devem agradecer isso à circunstância de a educação estar nas mãos do clero, cujo empenho consiste em inculcar todos os artigos de fé nas idades mais tenras, resultando em uma espécie de paralisia cerebral; isso, por sua vez, se expressa em toda sua vida num fanatismo imbecil, que faz a maior parte das pessoas — de outro modo sensível e inteligente — degradar-se de tal forma que se torna incompreensível. Considerando quão essencial para esta obra-prima é a inoculação numa idade tenra, os sistemas missionários deixam de parecer o auge da importunidade, da arrogância e da impertinência (...) na Índia, os brâmanes tratam os discursos dos missionários com desprezivos sorrisos de aprovação, ou simplesmente encolhem os ombros. E pode-se dizer genericamente que o proselitismo dos missionários na Índia é — apesar das mais vantajosas instalações —, via de regra, um fracasso. Uma notícia verídica do Vol. XXI do Asiatic Journal (1826) afirma que após tantos anos de atividade missionária não havia mais que trezentos convertidos na Índia inteira, onde somente a população nas posses inglesas chega a cento e quinze milhões; ao mesmo tempo, admite-se que os cristãos convertidos distinguem-se por sua extrema imoralidade. Trezentas odiosas almas subornadas em meio a tantos milhões! Não há evidência de que o cristianismo tenha logrado mais sucesso na Índia desde então, apesar do fato de os missionários estarem tentando, contrariamente à estipulação e em escolas feitas exclusivamente para a instrução secular inglesa, trabalhar na mente das crianças como bem entendem, a fim de contrabandear seu cristianismo — contra os quais os hindus são os mais resistentes em sua guarda. (...) Apesar disso, a convicção é determinada apenas pelo país natal de cada; para os eclesiásticos do sul da Alemanha, a veracidade do dogma católico é muito óbvia; no norte da Alemanha, a dos dogmas protestantes. Se tais convicções são baseadas em razões objetivas, estas devem ser climáticas, e prosperar como plantas: umas aqui, outras acolá. As crenças daqueles que possuem essa forma de convicção localista são abraçadas pelas massas em todo lugar.


Demopheles:
Bem, nenhum mal foi feito, e isso não faz realmente qualquer diferença. De fato, o protestantismo é mais adequado ao norte, o catolicismo ao sul.


Philalethes:
Assim parece. Mas me coloco em um ponto de vista mais elevado, e mantenho a atenção no que é mais importante — a saber, o progresso no conhecimento da verdade entre os homens. Desse ponto de vista, é uma coisa terrível que, onde quer que um homem tenha nascido, certas proposições serão inculcadas nele em sua infância, e este será convicto de que nunca poderá manifestar dúvidas a respeito destas, sob a ameaça de perder a salvação eterna; proposições, digo, que afetam o fundamento de todo o restante do conhecimento e, consequentemente, determinam para sempre — e, se falsas, distorcem para sempre — o ponto de vista que o nosso conhecimento respalda; além disso, como as implicações dessas proposições abrangem todos os aspectos de nossas conquistas intelectuais, todo o conhecimento humano é completamente adulterado por estas. Evidências disso são fornecidas por qualquer literatura; a mais notável sendo a da Idade Média, mas também em um grau considerável a dos séculos XV e XVI. Observe mesmo as primeiras mentes de todas essas épocas; quão paralisadas eram devido a posições fundamentais falsas, como essas; e também, mais especificamente, como todo o discernimento sobre a verdadeira constituição e funcionamento da natureza estava bloqueado. Durante todo o período cristão, o teísmo permaneceu como uma montanha sobre todo o esforço intelectual, e principalmente sobre os esforços filosóficos, emperrando e paralisando qualquer progresso. Para o homem científico dessas épocas, Deus, Diabo, anjos e demônios ocultavam toda a natureza; nenhuma investigação foi conduzida até o fim — nada jamais era examinado cuidadosamente; qualquer coisa que excedesse o nexo causal mais óbvio era imediatamente atribuída a tais entidades.(...) E se, por outro lado, alguém fosse dotado da rara qualidade de uma mente flexível — que sozinha poderia romper com as imposições —, seus escritos e ele mesmo seriam queimados; foi assim com Bruno e Vanini. Quando alguém se empenha em criticar as doutrinas de uma crença alheia, pode-se ver em sua forma mais vívida e em sua faceta mais ridícula quão completamente uma mente comum é paralisada por tais preparativos metafísicos precoces (...) os objetos de sua crença são colocados como verdades a priori, como princípios auto-evidentes.


Demopheles:
Então esse é seu ponto de vista mais elevado? Garanto-lhe que há outro mais elevado. Primeiro viva, depois filosofe é uma máxima de uma compreensão mais abrangente do que parece à primeira vista. A primeira coisa a ser feita é controlar as disposições cruas e más das massas de modo a evitar que levem a injustiça a extremos — evitar que cometam atos cruéis, violentos e infames. Se fôssemos esperar até que reconhecessem e aceitassem a verdade, isso viria tarde demais; e a verdade, supondo-se que tivesse sido encontrada, estaria acima de seus poderes de compreensão. De qualquer forma, uma versão alegórica da verdade — uma parábola ou um mito — é tudo que pode lhes ser útil. Como disse Kant, deve haver um padrão público para o Certo e para a Virtude (...). Tal representação alegórica da verdade sempre existiu em todos os lugares; para a maior parte da humanidade, é um substituto útil para uma verdade que nunca poderiam conceber (...). Deste modo, meu caro Philalethes, objetivos práticos são, em todos os aspectos, superiores aos teóricos.


Philalethes:
O que disse parece muito com o antigo conselho de Timeu de Locros, o pitagórico, pare a mente com falsidade se não puder acelerá-la com a verdade. (...) Recomendando, de fato, que tomemos oportunas precauções, de tal forma que as ondas furiosas das massas insatisfeitas não nos incomodem na mesa. Mas todo o ponto de vista é tão falso quanto, hoje em dia, é popular e recomendado; então me apresso em levantar-lhe um protesto. É falso que Estado, justiça e lei não podem ser mantidos sem a assistência da religião e seus dogmas; e que a justiça e a ordem pública precisam da religião como um complemento necessário, se as representações legislativas precisam proceder. É falso, fosse repetido cem vezes. Um argumento penetrante e contundente em favor contrário é sustentado pelos Antigos, especialmente os gregos. Nada do que entendemos por religião lhes era familiar. Não possuíam escrituras sagradas, dogmas e o ímpeto de induzir sua aceitação por todos, princípios a serem inculcados nos mais jovens. Tão modesto quanto isso era a doutrina moral pregada pelos ministros da religião, tampouco os padres preocupavam-se com moralidade ou com o que as pessoas faziam ou deixavam de fazer. Nada disso. O dever dos padres resumia-se a cerimônias, rezas, hinos, sacrifícios, procissões, lustrações e afins, tendo como objetivo nada além da melhoria moral do indivíduo. O que se denominava religião consistia, mais especialmente nas cidades, em conceder templos aqui e acolá a alguns dos deuses das maiores tribos, nas quais as adorações eram realizadas como uma questão de Estado, sendo, consequentemente, um afazer civil. Ninguém — exceto os responsáveis pelas cerimônias — era, de qualquer forma, obrigado a participar ou mesmo a acreditar. Em toda a Antiguidade não há traço de qualquer obrigação de se acreditar em qualquer dogma particular. Apenas no caso de uma explícita negação da existência dos deuses — ou qualquer outro insulto a estes — uma penalidade era imposta, e isso devido ao insulto oferecido ao Estado, que servia a tais deuses; à parte disso, todos eram livres para pensar o que quisessem a seu respeito. Se alguém desejasse ganhar o favor de tais deuses de modo privado, pela oração ou pelo sacrifício, estava desimpedido, mas arcando com todos os custos e riscos; se não o fizesse, ninguém apresentaria objeções, menos ainda o Estado. No caso dos romanos, todos tinham em casa seus próprios Lares e Penates; estes eram, na verdade, bustos de venerados antepassados. Da imortalidade da alma e da vida após a morte os Antigos não tinham qualquer ideia firme, clara e menos ainda dogmática, mas noções muito vagas, cambiantes, indefinidas e problemáticas, cada qual ao seu modo; e as ideias sobre os deuses eram, no mesmo grau, variantes, individuais e vagas. Portanto, entre os Antigos não havia religião no sentido atual da palavra. Mas a anarquia e a desordem prevaleceram por causa disso? Pelo contrário, não são a lei e a ordem civil em grande parte um trabalho dos Antigos, e que este ainda constitui nossos próprios fundamentos? Não havia uma completa proteção da propriedade, mesmo consistindo em grande parte de escravos? E essa forma de organização não durou mais de mil anos? (...)Pois, adotando este ponto de vista, uma pura e sagrada busca pela verdade pareceria, no mínimo, quixotesca, e mesmo criminosa caso se aventurasse, em seu sentimento de justiça, a denunciar tal crença autoritária como uma usurpadora que tomou posse do trono da verdade e mantém sua posição através da mentira.


Demopheles:
Mas a religião não se opõe à verdade; esta mesma ensina a verdade. E como a amplitude de sua atividade não é uma mera sala de conferências, mas o mundo e a humanidade em peso, a religião deve adaptar-se às exigências e à compreensão de uma audiência de tal forma numerosa e amalgamada. A religião não deve permitir que a verdade apareça em sua forma crua; ou, para usar uma analogia médica, esta não deve exibir-se pura — precisa empregar um meio mítico, um agente, que tome sua fronte. Também é possível comparar a verdade em relação a certos elementos químicos que, por si próprios, são gasosos, mas, para uso medicinal, assim como por questão de preservação e transporte, devem ser unidos a uma base sólida, estável, pois de outro modo evaporaria. O gás de cloro, por exemplo, somente é utilizado na forma de cloretos. Mas se a verdade pura, abstrata e isenta de vínculos alegóricos, será para sempre intangível, mesmo aos filósofos, então pode ser comparada ao flúor, que não pode ser isolado, mas aparece sempre combinado a outros elementos. Ou, valendo-me de uma analogia menos científica, a verdade, que é impossível de exprimir senão através de mitos e alegorias, é como água, que pode ser armazenada em praticamente qualquer recipiente; o filósofo que insiste em obtê-la pura é como o homem que quebra o recipiente para conseguir a água em si. Essa é, talvez, uma analogia exata. Em qualquer grau, religião é a verdade exprimida de modo mítico e alegórico, tornando-se assim acessível e digestível pela humanidade em geral. Os homens não poderiam recebê-la pura e cristalina, assim como não podemos respirar oxigênio puro; precisa-se adicionar quatro vezes o volume em nitrogênio. Em palavras claras, o profundo significado, o mais alto objetivo da vida só pode ser desvelado e apresentado às massas simbolicamente, pois são incapazes de concebê-la em sua verdadeira significação. Filosofia, por outro lado, deve ser como os mistérios Eleusinianos, para os poucos, a elite.


Philalethes:
Compreendo. No fim, isso se resume à verdade numa indumentária de falsidade. Mas, nessa situação, está a fazer uma aliança fatal. Que arma perigosa é posta nas mãos daqueles que estão autorizados a empregar a falsidade como um veículo da verdade! Se o que diz é verdade, temo que o dano causado pela falsidade será maior que qualquer vantagem que a verdade jamais poderia produzir. Obviamente, se a alegoria fosse admitida como tal, não levantaria objeções; mas tal dmissão subtrairia de si própria todo o respeito e, consequentemente, toda a utilidade. A alegoria deve, portanto, alegar-se verdadeira no sentido próprio da palavra, e sustentar tal alegação — enquanto, na melhor das hipóteses, é somente verdadeira no sentido alegórico. Pois aqui está um dano irreparável, um mal permanente; e é por isso que a religião sempre esteve e sempre estará em conflito com o nobre empenho da busca pela verdade pura.


Demopheles:
Oh, não! Isso não representa perigo. A religião pode não confessar abertamente sua natureza alegórica, mas disso apresenta indicações suficientes.


Philalethes:
Como?


Demopheles:
Em seus mistérios. “Mistério”, na verdade, é apenas uma palavra técnica da teologia para alegoria religiosa. Todas as religiões têm seus mistérios. Literalmente, um mistério é um dogma completamente absurdo, mas que, apesar disso, abriga em si uma grandiosa verdade, a qual, por si própria, seria incompreensível ao entendimento vulgar da multidão. A multidão o aceita em seu disfarce com confiança, e lhe acredita, sem descaminhar devido à sua absurdidade, a qual, mesmo para sua inteligência, é óbvia; e deste modo participa do núcleo da questão, tanto quanto é capaz de fazê-lo. Para explicar meu ponto de vista posso acrescentar que mesmo na filosofia uma tentativa foi feita de lançar mão do mistério. Pascal, por exemplo, que foi outrora um devoto, um matemático e um filósofo, diz: Deus é todo centro e nada redor (...). Malebranche também tem uma justa observação: Liberdade é um mistério. Poder-se-ia dar um passo adiante e sustentar que na religião tudo é mistério. (...) A verdade despida está fora de lugar ante os olhos do profano e do vulgar, que só podem perceber uma aparência pesadamente velada. Consequentemente, não é razoável exigir de uma religião que seja verdadeira no sentido próprio da palavra; (...) o mito e a alegoria realmente constituem o elemento próprio da religião; e sob essa indispensável condição, a qual foi imposta pela limitação intelectual das multidões, a religião fornece satisfação suficiente para as necessidades metafísicas da humanidade, as quais são indestrutíveis. Esta toma o lugar da verdade filosófica pura, a qual é infinitamente complexa e talvez de impossível compreensão.


Philalethes:
Ah! Assim como uma perna de madeira substitui a natural; proporciona aquilo que está faltando, mas mal faz seu dever e, sendo conformada de modo razoavelmente hábil, deseja ser considerada como uma perna natural. A única diferença é que, ainda que a perna natural, como regra, tenha precedido a de madeira, a religião em todo lugar precedeu a filosofia.


Demopheles:
Talvez sim, mas para um homem que não tem uma perna natural, uma de madeira é uma grande ajuda. Tenha em mente que as necessidades metafísicas da humanidade decididamente requerem satisfação, pois o horizonte de pensamento dos homens precisa de um pano de fundo, o qual não pode ser o infinito. O homem, via de regra, não possui faculdades para pesar e discriminar o que é falso e o que é verdadeiro; além disso, o trabalho que a natureza e as imposições da natureza colocam sobre o homem não lhe deixa tempo para tais investigações ou para a educação que estas pressupõem. Neste caso, portanto, é inútil falar sobre convicções esclarecidas; torna-se necessário valer-se da crença e da autoridade. Se uma verdadeira filosofia realmente tomasse o lugar da religião, pelo menos nove décimos da humanidade teriam de recebê-la por força da autoridade; ou seja, seria uma questão de fé também, e o ditado de Platão, de que a multidão não pode ser de filósofos, sempre permanecerá verdadeiro. (...) A verdade nesta forma, respaldada apenas pela autoridade, apela acima de tudo (...) à necessidade que o homem sente de uma teoria relacionada ao mistério da existência que se mostra à sua percepção, uma necessidade advinda da consciência de que por detrás do mundo físico há outro metafísico, algo tão permanente como o fundamento da constante mudança. Então apela à vontade, aos medos e às esperanças dos seres mortais que vivem em luta constante; para estes a religião cria, de acordo, deuses e demônios para os quais podem rogar, cuja vontade podem satisfazer e dos quais podem ganhar o favor. Finalmente, apela à consciência moral, a qual indiscutivelmente está presente no homem, fornecendo-lhe corroboração e apoio, sem o qual não se manteria a si próprio na luta contra tantas tentações. É apenas nesta perspectiva que a religião proporciona uma fonte inesgotável de consolo e conforto nos inumeráveis desafios da vida, um conforto que não abandona o homem na morte, mas que, então, revela sua face mais eficiente. Deste modo, a religião pode ser comparada a alguém que pega um cego pela mão e o guia, pois este é incapaz de enxergar por si próprio, tendo como preocupação chegar ao seu destino, não olhar tudo pelo caminho.


Philalethes:
Este certamente é um dos aspectos mais fortes da religião. Se se trata de uma fraude, é uma fraude sagrada; isso é inegável. Mas isso situa os padres como algo entre enganadores e professores de moral; não ousariam ensinar a verdade de fato — como explicou bastante claramente — mesmo se a conhecessem, o que não é o caso. Uma filosofia verdadeira, então, sempre poderá existir, mas não uma religião verdadeira; digo verdadeira no sentido próprio da compreensão da palavra, não meramente no sentido floreado ou alegórico que descreveu; um sentido segundo o qual todas as religiões seriam verdadeiras, mas em vários graus. É precisamente mantendo a mistura inextrincável de opulência e miséria, honestidade e perfídia, bem e mal, nobreza e baixeza — que são as características normais do mundo em geral — que a mais importante, a mais grandiosa, a mais sagrada das verdades pode tecer sua aparência em conjunto com uma mentira, e pode até emprestar força de uma mentira como algo que funciona melhor na humanidade; e, como revelação, deve ser escudada por uma mentira. Isso poderia, de fato, ser considerado o símbolo do mundo moral. Entretanto, não abandonaremos a esperança de que a humanidade, possivelmente, chegará a um ponto de maturidade e educação no qual um lado pode produzir e o outro receber a verdadeira filosofia. Simplex sigillum veri [simplicidade é o sinal, o símbolo da verdade]: a verdade nua deve ser tão simples e inteligível que poderá ser comunicada a todos em sua forma verdadeira, sem admitir qualquer mistura com mitos e fábulas, sem disfarçá-la na forma de religião.


Demopheles:
Parece ter perdido a noção de quão estúpida é a maior parte das pessoas.


Philalethes:
Estou apenas exprimindo uma esperança da qual não consigo abrir mão. Se atingida, a verdade em sua forma simples e inteligível certamente removeria a religião do lugar que ocupou por tanto tempo como sua representante e pelos mesmos meios mantidos abertos para esta. Chegaria o tempo em que a religião teria cumprido seu objetivo e completado seu curso: poderia despedir-se da corrida que havia comprado em anos de discrição, e partir em paz: isso seria a eutanásia da religião. Mas, enquanto viver, terá duas faces, uma de verdade e uma de farsa. Dependendo do modo como se olha a uma ou outra, toma-se uma posição favorável ou contrária. A religião deve ser considerada um mal necessário, cuja necessidade reside na lamentável imbecilidade da grande maioria da humanidade, incapaz de alcançar a verdade, e deste modo precisando urgentemente de algo que tome o seu lugar.


Demopheles:
Realmente, um indivíduo qualquer pensaria que filósofos têm a verdade num armário, e seria necessário somente ir lá e pegá-la!


Philalethes:
Bem, se ainda não a temos, isso se deve principalmente à pressão que a religião colocou sobre a filosofia em todos os tempos e em todos os lugares. Tentou-se fazer da expressão e da comunicação da verdade, mesmo da sua contemplação e descoberta, algo impossível, colocando crianças, em seus primeiros anos, nas mãos de padres, para serem manipuladas — para fixar as bases sobre as quais seus pensamentos fundamentais daí em diante ocorrerão, e isso com tamanha firmeza que, em assuntos fundamentais, estarão estabelecidos e determinados pelo resto de suas vidas. Mesmo quando vejo os escritos dos melhores intelectos dos séculos XVI e XVII (mais especialmente se estiver engajado em estudos orientais), às vezes me choco em perceber quão completamente paralisados e tolhidos estão pelas ideias judaicas. Como alguém poderia fazer uma filosofa verdadeira com essa espécie de preparação?


Demopheles:
Mesmo se a verdadeira filosofia fosse descoberta, a religião não desapareceria do mundo, como parece pensar. Não pode haver um sistema metafísico para todos; isso se torna impossível devido às naturais diferenças de capacidade intelectual entre os homens e também devido às diferenças que a educação faz. É uma necessidade para a grande maioria da humanidade se empenhar em trabalhos físicos árduos, os quais não podem ser dispensados se as necessidades incessantes de toda a raça tiverem de ser satisfeitas. Isso não apenas deixa a maioria sem tempo para educação, aprendizado e contemplação; mas, em virtude do ríspido e veloz antagonismo entre músculos e mente, a inteligência é embotada pelo exaustivo trabalho físico, tornando-se pesada, desajeitada, embaraçada e, consequentemente, incapaz de assimilar qualquer coisa além de situações relativamente simples. No mínimo nove décimos da raça humana se enquadram nessa categoria. Mas ainda assim as pessoas precisam de um sistema metafísico, isto é, uma explicação do mundo e da nossa existência, e devido a tal necessidade ser algo muito essencial da natureza humana, é preciso um sistema popular; e para ser popular este deve combinar muitas qualidades raras. Deve ser facilmente compreensível, mas ao mesmo tempo possuir, onde for apropriado, uma certa quantidade de obscuridade, mesmo de impenetrabilidade; então um sistema moral correto e satisfatório deve ser articulado com seus dogmas; acima de tudo, deve fornecer um inesgotável consolo quanto ao sofrimento e à morte; a consequência disso tudo é que só pode ser verdadeiro no sentido alegórico, mas não no real. Ademais, deve possuir o apoio de uma autoridade que impressiona por sua grande idade, por ser universalmente reconhecida, por seus documentos, por seu tom e sua elocução; qualidades tão difíceis de combinar que muitos homens não estariam dispostos — se pensassem sobre o assunto — a ajudar a solapar uma religião, pois concluiriam que o alvo de seu ataque é o mais sagrado tesouro das pessoas. Se deseja constituir uma opinião sobre religião, é imprescindível ter em mente o caráter da grande multidão para a qual é destinada, e afigurar para si sua completa inferioridade, tanto moral quanto intelectual. (...) O homem de educação pode, igualmente, interpretar a religião para si próprio cum grano salis; o homem do conhecimento, o espírito contemplativo pode secretamente trocá-la por uma filosofia. Mas aqui, novamente, uma filosofia não serviria para todos; pelas leis da afinidade todo sistema traria para si o público cuja educação e capacidades fossem mais adequadas. Então sempre há escolas de um sistema metafísico inferior para a multidão educada e um mais elevado para elite. A grandiosa doutrina de Kant, por exemplo, teve de ser degradada ao nível das universidades e arruinada por homens como Fries, Krug e Salat. Em suma, aqui, como em todo lugar, a máxima de Goethe é verdadeira: um não serve para todos [One does not suit all]. Pura fé na revelação e pura metafísica são para dois extremos e, para os passos intermediários, modificações destes em combinações e gradações inumeráveis. E isso sucede necessariamente pelas imensuráveis diferenças que a natureza e a educação colocaram entre homens e homens.


Philalethes:
Seu ponto de vista realmente faz-me lembrar dos mistérios dos Antigos, que acabou de mencionar. Seu propósito fundamental parece ter sido curar o mal proveniente das diferenças de capacidade intelectual e educação. O plano era, da grande multidão completamente impérvia à verdade desvelada, selecionar certas pessoas que talvez receberiam uma revelação até certo ponto; destas, novamente, escolher outras para as quais mais seria revelado, por serem capazes de apreender mais; e cada vez mais acima, até o topo dos Epopts. Os graus correspondem aos pequenos, grandes e maiores mistérios. A organização foi baseada numa estimativa correta da desigualdade intelectual da humanidade.

(...)

Demopheles:
Seja como for, devo lembrá-lo de que deveria olhar a religião mais do ponto de vista prático que do teórico. Metafísica personificada pode ser um inimigo da religião, mas do mesmo modo moralidade personificada será sua aliada. Talvez o elemento metafísico em todas as religiões seja falso; mas o elemento moral é verdadeiro no todo. Isso talvez possa ser deduzido do fato de que todas discordam em suas metafísicas, mas estão de acordo no relativo à moral.


Philalethes:
Algo que ilustra a regra lógica de que premissas falsas podem resultar em uma conclusão verdadeira.


Demopheles:
Permita-me que discorra sobre sua conclusão: deixe-me lembrá-lo de que a religião tem dois lados. Esta não se sustenta quando vista em sua teoria, isto é, seu lado intelectual; por outro lado, na perspectiva moral, esta prova ser o único meio de guiar, controlar e acalmar essas raças de animais imbuídos de razão, cujo parentesco com o macaco não exclui o parentesco com o tigre. Ao mesmo tempo a religião, via de regra, é uma satisfação suficiente para suas obtusas necessidades metafísicas. Parece não possuir uma idéia adequada da diferença, profunda como uma fenda nos céus, o grande abismo entre o homem do conhecimento e esclarecimento, acostumado ao processo de reflexão, e a pesada, mal jeitosa, rude e lerda consciência das bestas de carga da humanidade, cujos pensamentos tomaram inexoravelmente a direção da ansiedade a respeito do seu sustento, e não podem tomar qualquer outra rota; cuja força muscular é trazida à cena tão exclusivamente que a força nervosa, a qual forma a inteligência, desce a um nível muito raso. Pessoas assim precisam de algo tangível ao qual possam se segurar no caminho escorregadio e tortuoso de suas vidas, algum tipo de fábula maravilhosa, através da qual as coisas possam ser-lhe comunicadas, pois com sua inteligência bruta só podem absorvê-las na forma de imagens e parábolas. Neles explicações profundas e distinções sutis são jogadas fora. Se conceber a religião sob esta luz, e relembrar-se que seus objetivos são acima de tudo práticos, e teóricos apenas num grau subordinado, esta se afigurará como algo digno do mais elevado respeito.


Philalethes:
Um respeito que, em última instância, fundamenta-se no princípio de que os fins justificam os
meios. Não me sinto disposto em favor de um compromisso com bases como essas. A religião pode ser um excelente meio de adestrar os membros pervertidos, obtusos e controversos dessa raça bípede: mas, aos olhos do amigo da verdade, toda fraude, mesmo sendo sagrada, deve ser condenada. Um sistema de enganações, um amontoado de mentiras parece um meio estranho de inculcar a virtude. A bandeira à qual jurei é a verdade; permanecerei fiel a isso sempre e, atingindo sucesso ou não, lutarei pela luz da verdade! Se vejo a religião pela ótica errada…


Demopheles:
Mas não vai. A religião não é uma mentira: é verdadeira, a mais importante de todas as verdades. Pois suas doutrinas são, como disse, de tal grandiosidade que a multidão é incapaz de concebê-la sem um intermediário, porque sua luz cegaria uma visão comum, esta vem diretamente envolvida pelo véu da alegoria e ensina, não precisamente o que é a verdade em si, mas o que é verdadeiro em relação ao grandioso significado que contém; e, entendida dessa forma, a religião é a verdade.


Philalethes:
Estaria tudo bem se a religião estivesse na liberdade de ser verdadeira no sentido meramente alegórico. Entretanto, sua alegação é que esta é completamente verdadeira no sentido próprio da palavra. Nisto repousa a mentira, e é aqui que um amigo da verdade deve adotar uma posição hostil.


Demopheles:
A mentira é um sine qua non [sem a qual não]. Se a religião admitisse que apenas o significado alegórico de sua doutrina é verdadeiro, estaria subtraindo de si própria toda a sua eficácia. Um tratamento rigoroso como este destruiria sua inestimável influência sobre os corações e sobre a moral da humanidade. Em vez de insistir com tal obstinação pedante, veja as grandes conquistas na esfera prática, sua promoção de sentimentos bons e aprazíveis, sua orientação da conduta, o apoio e o consolo ao sofrimento da humanidade na vida e na morte. Quanto desejaria evitar que as sutilezas teóricas fossem desacreditadas pelos olhos da multidão, e finalmente arrancar-lhes algo que é uma inexaurível fonte de consolo e tranquilidade, algo do qual, em seu destino penoso, precisam tanto — mesmo mais que nós. Por apenas esse motivo, a religião deve estar acima de qualquer ataque.


Philalethes:
Com esse tipo de argumento poderia ter tirado Lutero do jogo quando atacou a venda de indulgências. Quantos conseguiram consolo das cartas de indulgências, um consolo que nada mais poderia conceder, uma completa tranquilidade; de tal forma que partiram em júbilo com completa confiança no pacote que tinham em suas mãos na hora de suas mortes, convictos que eram muitas cartas de admissão a todos os nove céus. Qual é a utilidade de um consolo e tranquilidade que são constantemente obscurecidos sob a espada de Dâmocles? A verdade, meu caro senhor, é a única coisa segura; a verdade somente permanece firme e confiável; é a única fonte de consolo consistente; é o diamante indestrutível.


Demopheles:
Sim, se tivesse a verdade em seu bolso, pronta a beneficiar-nos. Tudo o que tem são sistemas metafísicos, nos quais nada é certo senão as dores de cabeça que causam. Antes de lançar qualquer coisa fora, é preciso ter algo melhor a ser posto em seu lugar.

[CONTINUA]









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