Há
poucos minutos, recebi uma notícia triste que irmana a cidade de Riachão do
Jacuípe em dor fraternal. Ter o conhecimento da perda de um moço tão jovem e
tão educado no trato, sorridente e tranquilo, nos traz à questão por
excelência.
Norteiam
indagações... Por que somos trazidos para e levados deste exílio que
convencionamos chamar vida? Por que somos permanentemente obrigados, por força
de existência, a contemplar passivos a efemeridade dos nossos passos, enquanto
ansiamos no íntimo nosso desejo por eternidade?
E por
que este desejo inclina-se em direção ao exílio, quando poderíamos estar
cônscios de que talvez nossa liberdade tenha melhor expressão se puder
expandir-se rumo a espaços esplêndidos inimagináveis? Por que investimos tempo
e dinheiro em fazer do exílio nosso paradigma, nosso sustentáculo e nossa
esperança?
Por que
somos movidos por outras substâncias ao invés de alimentarmos os sonhos, os
jardins maviosos de flores odoríferas que não há quem ouse descrever? Por que
tememos cultivar o mistério, evitamos sondar pela amplidão do nosso aspecto
mais místico para morrer nas trivialidades de nossos embates diários?
Refletindo
na afirmação de um autor de que somos da mesma substância dos sonhos... Que,
talvez, como sonhos deveríamos abraçar o mistério, e não os fatos, mas a
impressão que fazemos deles. No fim das contas, cultivar algumas certezas nos
faz morrer por dentro. Cheios, porém já mortos.
Embora
sem intimidade o suficiente para envolver-me na dor mais íntima da família e
dos amigos, e desprovida da graça em dizer as coisas óbvias que se costuma
dizer nessas horas tristes, inclino-me com amor e respeito em direção ao
sentimento e à humanidade de suas dores.
Enquanto
escrevo, escuto com insistência "O trenzinho do caipira", composição
do maestro Heitor Villa Lobos. E a imagem que vejo em meu íntimo é a da vida
como um trem que segue, destinando a cada um as estações devidas, impassível
das emoções dos que ficam a embalar as mãos estendidas em intenção de adeus.
Sim, o
trem se vai e viaja por lugares infindáveis, secretos. As paisagens que se vê
por suas janelas devem ser múltiplas, incontáveis, imagino. Mas só o passageiro
pode contemplá-las em seu colorido e em suas formas. Ficamos com os nossos
limites, nossos cálculos, razões, alguns com projetos ainda indefinidos, outros
com o silêncio desesperado de quem não pôde dizer algo importante. Ficamos com
a nossa impotência.
É sutil
a brisa que embala esse trem. Sutil, vem mansa, mas é impiedosamente
irreversível. E quer-se sempre seja generosa. Que leve os nossos a lugares
encantadores, como os melhores que nunca saberemos vislumbrar. Jardins
iluminados pelas irradiações do Inefável. É certo que trará tranquilidade e
amor.

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