4 de novembro de 2014

À luz de uma vela.







Faltam poucos minutos para o começo da matina. São 4:30. Disponho de uma vela num pequeno pires de vidro acastanhado. A xícara se foi e o pires foi reservado para servir a eventuais necessidades. Aprecio esta iluminação sóbria e a maneira como a haste se liquefaz em benefício da luz. Chama quieta e constante. Quando me mecho, ela tremula. E meu olhar busca a fineza da luz amarelada que um tortuoso e negro pavio suporta.

Ainda criança, já me entretinha em observar as chamas das velas. Elas me encantavam, sobretudo quando me punham um prato de sopa à frente. Noites em que falhava o fornecimento de luz elétrica devido às torrenciais trovoadas de verão. Só, na cozinha, enquanto os adultos se punham a conversar varanda afora, eu brincava de atravessar o indicador da mão direita na chama que dançava e se curvava dócil entre meus dedos. Mas achava o pavio feio. De tão curvo, por vezes chegava a debruçar-se na parafina liquefeita.

Hoje, ao contemplar a chama quieta de minha vela, neste escuro silencioso do quarto em que durmo, aplaudo aqueles que, envergados e encolhidos, inda laboram em vibrar suas chamas neste dissídio de vida e morte a que denominamos existência. Isso é mesmo tudo o que nos resta. Humanos, perdidos entre o eterno fluir e refluir de um imensurável universo.

Por vezes isso parece ser tudo o que convém, ser a chama e o pavio. E eu, criança, passeio em minhas lembranças num saltitar despreocupado dos adultos afoitos: “Não me queimo, não!” Eu me identifico, e me filio inclusive, àqueles que vivem aos trôpegos, resistentes em admitir a dureza da influência de seus próprios desejos, em benefício da chama.

Ah, amigos, eu também cá com meus alforjes... Eu, igualmente, de renúncias vivo. Quem serei eu, para despachá-los todos de seus infortúnios? Feitos da substância do pavio, somos todos. Tortinhos, feios, negrumentos, alguns de tão envergados até caídos. E nos pomos às farpas, às solidões, aos desencantamentos, aos engessamentos, para fazer com que essa chama, energia macia e quente, esteja presente e nos seja confortante.

O dia vem espantando a escuridão lá fora. O céu já ganha um tom de azul sereno e monótono. Vem devagar, que é para não melindrar o sono das crianças que Orfeu embala. Eu, já há muito acordara, procedendo aos afazeres que a vida me exige com resignação e silêncio. Pensamentos soltos, festivos como pássaros inquietos. O coração, porém, pequeno, distante... à espera de respostas que nem o tempo se propõe a elucidar.




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