Faltam poucos minutos para o começo da
matina. São 4:30. Disponho de uma vela num pequeno pires de vidro acastanhado.
A xícara se foi e o pires foi reservado para servir a eventuais necessidades.
Aprecio esta iluminação sóbria e a maneira como a haste se liquefaz em
benefício da luz. Chama quieta e constante. Quando me mecho, ela tremula. E meu
olhar busca a fineza da luz amarelada que um tortuoso e negro pavio suporta.
Ainda criança, já me entretinha em
observar as chamas das velas. Elas me encantavam, sobretudo quando me punham um
prato de sopa à frente. Noites em que falhava o fornecimento de luz elétrica
devido às torrenciais trovoadas de verão. Só, na cozinha, enquanto os adultos
se punham a conversar varanda afora, eu brincava de atravessar o indicador da
mão direita na chama que dançava e se curvava dócil entre meus dedos. Mas achava
o pavio feio. De tão curvo, por vezes chegava a debruçar-se na parafina
liquefeita.
Hoje, ao contemplar a chama quieta de
minha vela, neste escuro silencioso do quarto em que durmo, aplaudo aqueles que,
envergados e encolhidos, inda laboram em vibrar suas chamas neste dissídio de
vida e morte a que denominamos existência. Isso é mesmo tudo o que nos resta. Humanos, perdidos entre o eterno fluir e refluir de um imensurável universo.
Por vezes isso parece ser tudo o que convém,
ser a chama e o pavio. E eu, criança, passeio em minhas lembranças num saltitar
despreocupado dos adultos afoitos: “Não me queimo, não!” Eu me identifico, e me
filio inclusive, àqueles que vivem aos trôpegos, resistentes em admitir a dureza
da influência de seus próprios desejos, em benefício da chama.
Ah, amigos, eu também cá com meus
alforjes... Eu, igualmente, de renúncias vivo. Quem serei eu, para despachá-los
todos de seus infortúnios? Feitos da substância do pavio, somos todos.
Tortinhos, feios, negrumentos, alguns de tão envergados até caídos. E nos pomos
às farpas, às solidões, aos desencantamentos, aos engessamentos, para fazer com
que essa chama, energia macia e quente, esteja presente e nos seja confortante.
O dia vem espantando a escuridão lá
fora. O céu já ganha um tom de azul sereno e monótono. Vem devagar, que é para
não melindrar o sono das crianças que Orfeu embala. Eu, já há muito acordara,
procedendo aos afazeres que a vida me exige com resignação e silêncio.
Pensamentos soltos, festivos como pássaros inquietos. O coração, porém,
pequeno, distante... à espera de respostas que nem o tempo se propõe a
elucidar.

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