O que é isso a
morte? Toca o celular insistente e eu, frente à médica, retiro-o da bolsa,
calmamente, e adio em atendê-lo. Minha filha, agitada no consultório, como de
costume, e eu chamo a sua atenção para que mantenha-se quieta, enquanto
converso com a doutora.
Amigável e de
faces doces, Dra. Renata nos atende com muita atenção e carinho. De repente,
ouço o meu nome soar pelo corredor do ambulatório. A recepcionista insiste e
aguarda. Despeço-me da médica e chamo o próximo paciente. Vou ao encontro da
recepção, ao encontro do esperado. Aceito o telefone nas mãos. É a minha mãe
com voz pausada e, ao mesmo tempo, firme. Voz estranha de quem traga a dor da
morte e a absorve para que se morra também por dentro. Minha vó, passou para a
UTI e lá, sem poder resistir ao sopro irresistível, faleceu.
Como? Sim, não
pôde resistir. O Hospital e seus algozes invisíveis. São previsíveis os seus
infortúnios. Eu respondo em monossílabos. O que dizer? Emudeço. Minha filha
pergunta. Quando a criança é arguta é impossível dizer-lhe qualquer coisa. E
recuso-me a mentir, a dizer-lhe qualquer coisa. Criança entende algo que vindo
de longe, já foi recebido. Ela já sabe, antes que eu lhe possa dizer. Quer
chorar.
É hora de
conversar. Sentamos. Explico em metáfora. Rompeu-se o fio da vida no momento em
que a borboleta necessita voar. O casulo já não serve. Escuro, ressequido,
profundo em inutilidade, e é chegada a hora. Lágrimas e sangue ruborizando a
face pequenina. Aconchego. Assim como chega a hora de vir, também chega a nós a
hora de ir e de permitir que se vá. E todo o universo num encontro entontece
quando de lembranças alimentamos a ternura.
Ternura afável
de quem aceita o que também não se pode resistir. Quem se vai não resiste,
tampouco quem fica. Borboleta está mais bela no Alto, que no casulo só
escurece. Justifico. É tudo tão apertado. As asas vibram com veemência.
Agitam-se. É preciso romper, deixar a casca, se aceito voar.
Ponto de ônibus.
“Bom dia.” Ninguém responde. O isolamento é esta sociedade. Feita de nós bem
atados, cárceres escondidos, grilhões robustos que se cultivam no silêncio das
almas. Mas estamos mudas, silenciosas, também um pouco escondidas. E minha
filha indaga: “Mamãe, por que você não chorou? Eu chorei e você não chorou. Por
quê?” Eu me calo, mas minha mente responde o que hesito. Há pessoas que choram
por dentro. Meus olhos marejam por detrás das lentes escuras. Ela insiste,
reivindica a resposta. E eu lhe rendo a minha única.
Tomamos a
condução. Certifico-me do destino e ergo-me com a criança para o interior do
ônibus. A cobradora mal humorada, assevera que a criança já é pagante. Oito
anos. Cadê o cartão? Ela não tem, mora em outra cidade. Pago ambas as passagens
em silêncio e oriento a minha filha onde sentar-se, enquanto fico de pé.
Algumas paradas adiante, desce um passageiro. “Estou logo atrás de você.”
Informo ao que minha filha assente com a cabeça.
O passageiro à
janela se permite ler no ônibus em curso. Coisa que geralmente não faço por me
dar vertigem. Olho com alguma curiosidade para o livro aberto. Acima e
centralizado, o título da obra: A caballa
da inveja. Ponho-me a refletir. Do que se trata? Mal acabo de tragar o
ruído inaudível da morte na voz trôpega de minha mãe e já estou apurando indícios que pareceriam eventuais aos mais distraídos. Discretamente, olho
para a página à minha esquerda.
Meu olhar pousa
nesta frase: “a nossa dor e os nossos sonhos estabelecem esse vínculo, que
possibilita o encontro com o outro.” Ei-la aqui! Eis o universo dicotômico
entre dor e sonho. Abraça-nos a todos com um chamado inaudível. Ei-la, a morte,
que como um sutil lampejo nos interrompe da nossa superfície para aquiescer
nosso olhar no mistério solene. Mistério dos mistérios que nos convida de volta
à origem.
Chega o
terminal. O homem se vai, transeunte solitário. Eu também me vou com a minha
cria. Mas ainda recomponho um último olhar como que para despedir-me do livro
ancorado em dedos grandes e morenos. Capa discreta e pálida, estava lá em
vermelho centralizado, “A cabala da inveja”. Inveja do quê?

Um comentário:
Um belo recorte, mas de um triste dia. Se me permite, te deixo um abraço.
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