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| 'Arlequim e sua dama', Giovanni Domenico Ferretti. |
Uma hora para a loucura e o regozijo! Ó furioso! Eu não me
contenho!
(O que é isso que me liberta de tal modo em tempestades?
O que são os meus gritos em meio aos relâmpagos e aos ventos
furiosos?)
Ó beber o delírio místico mais profundamente do que qualquer outro
homem!
Ó dores selvagens e frágeis! (Eu as deixo como um legado para
vós, meus filhos, para vós eu as narro, por razões que conheço, ó noivo, ó
noiva.)
Ó ser entregue para ti, quem quer que sejas, e tu sendo entregue
para mim, como um ato de rebeldia do mundo!
Ó retornar ao Paraíso! Ó tímido e feminino!
Ó atrair-te para mim, colocando em ti, pela primeira vez, os
lábios de um homem determinado.
Ó o quebra-cabeças, ó o nó sumamente atado, ó o poço fundo e
obscuro, desamarrado inteiramente e iluminado!
Ó a corrida onde o espaço nos basta e onde o ar é o bastante
afinal!
Ser libertado de convenções e compromissos prévios, eu dos meus
e tu dos teus!
Encontrar um novo impensado, algo que está na indiferença, com o
melhor da Natureza!
Tirar a mordaça da boca de alguém!
Ter o sentimento de que hoje ou em qualquer dia eu me basto a
mim mesmo!
Ó algo não provado! Algo em êxtase!
Escapar inteiramente das garras e das âncoras do outro!
Avançar livremente! Amar firmemente! Arrojar-se
despreocupadamente com perigo!
Cortejar a destruição com insultos, com convites!
Subir, saltar para os céus do amor indicado para mim!
Elevar-se mais longe com a minha alma inebriada!
Perder-se, se necessário for!
Alimentar o que resta da vida com uma hora de plenitude e
liberdade!
Com uma hora breve de loucura e alegria.
WHITMAN, Walt. Folhas de relva: texto integral. Tradução de
Luciano Alves Meira. São Paulo: Martin Claret, 2005, p. 123 e 124.

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