25 de abril de 2014

Reflexões numa aurora de outono.








As primeiras luzes da manhã despertam o dia lá fora. Cobre todo o horizonte azulado de um pesar desmedido.


A minha alma não acolhe esse gentil fenômeno. Aqui, tudo ainda continua noturno, tudo se esconde.

Estas linhas que rabisco foram tantas vezes protraídas... Estas impressões que buscam na concha da alma uma conta com a qual eu possa adornar a vida.

Eu sou minha própria incompreensão. Eu sou esta emoção incompreendida. Eu sou esta razão mal arguída.

Sou estes olhos que vêem a todos desesperados, ou inertes, ou ignorantes. E eu me investigo entre uns e outros.

Uma brisa fria vem brincar em minhas pernas. Procuro o consolo dos lençóis.

Senti-los assim repousados sobre a minha pele para esquivar-me do arrepio, faz sentir-me segura. Estou satisfeita com minha ilusão de segurança.

Como se nada pudesse fazer de meu erro. Viver é um fenômeno híbrido entre o erro e o absurdo. Tramas feitas de acasos e a mais incômoda inconseqüência. O prazer instantâneo e a loucura eternizada.

Debulhar-me não me faria melhor e, no entanto, aqui está o sumo das minhas confusões, para quem quiser sorvê-las.

Não sou avesso, nem direito.

Todos buscam algo com que identificar-se. Dizem ser saudável não sentir-se só. Porém, eu sou este elo desencontrado. Esta personagem que o Universo produziu sem ter propósito aparente.



Quem como eu tem a consciência da própria inutilidade?

Um corpo atômico de movimentos sincronizados à espera de seu próprio desfazimento. Velamos, em vida, o ato final, a consequência inevitável, a perspectiva irrefutável que a alguns parece gloriosa, enquanto que a outros, um temor indigesto.

Eu não me condeno à vida eterna, nem à morte eterna.

Li que os animais estão condenados ao eterno presente e o que nos faz especiais, como humanos que somos, é essa capacidade de projetarmos nossa criatividade inventando futuros, novos mundos, realidades paralelas e sorridentes...

Será que eu matei Deus?

Será que este pranto abençoa meu pecado?

Eu acreditei que não havia nascido para a servidão. Mas o que é isto, a vida? Viver é tão, pura e simplesmente, servidão.

Os pássaros grasnam lá fora. Céu aberto e eles rasgam a atmosfera com um deliberado vôo em zique-zague. Zigue-zagueiam também aqui, na urdidura do meu pensamento.

Seu canto parece desafiar a servidão da existência. Eu ainda posso ouvi-los quando estão já muito longe. Cantam como quem diz: “Veja! Ouça! Eu estou aqui. Eu posso estar aqui e alhures. Isso é tudo!”

Este canto, estes pássaros, me inspiram a ideia da liberdade enquanto vontade. Apesar de estarmos todos atados às leis e diretrizes que regem o Universo Cósmico e o Universo Atômico, não somos tão servis e indolentes assim, ao que parece. Há o arbítrio.

Um cão ladra distante. Meus olhos estão pesados e úmidos. Penso que existir já é desafio suficiente para as criaturas animadas.

Quanto a nós que somos capazes de registrar o instante de nossa existência para sedimentar o processo histórico, não somos levianos em desafiar nossa inutilidade com um pouco de fé.

Compreendo não haver mal algum em anestesiar, com um inocente colorido, a amargura de uma existência insólita.

A minha fé é cambaleante como um bêbado que em vão equilibra-se nos desenhos das calçadas. Ele é tristemente feliz, embora pareça um pobre desgraçado. Seu amor é maltrapilho e leve como um aceno que deixou a saudade do gesto ameno.



Oxalá algum deus exista! Que seus Olhos Ubíquos eternizem a minha inutilidade para cunhá-la no ermo espaço da modesta heresia.







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