E sabem bem vocês o que é “o mundo” para mim? Querem que eu
o mostre para vocês no meu espelho? Este mundo: um monstro de força, sem começo
nem fim; uma soma fixa de força, dura como o ferro, que não aumenta nem
diminui, que não é consumida mas se transforma, cuja totalidade é uma grandeza
invariável, uma economia em que não há gastos ou perdas, mas também sem
acréscimo ou ganhos; encerrado no “nada” que é o seu limite, sem nada de
flutuante, sem gasto, sem nada de infinitamente extenso, mas incrustado como
uma forma definida num espaço definido e não num espaço que compreenderia o
“vazio”; uma força em todo lugar presente, um mundo uno e múltiplo como um jogo
de forças e de ondas de força, acumulando-se num ponto e diminuindo num outro;
um mar de forças em tempestade e em fluxo perpétuo, eternamente em vias de
mudar, eternamente em vias de refluir, com gigantescos anos de retorno regular,
um fluxo e refluxo de suas formas, indo das mais simples às mais complexas, das
mais calmas, mais fixas, mais frias às mais ardentes, às mais violentas, às
mais contraditórias, para logo retornar da multiplicidade à simplicidade, do
jogo dos contrastes à necessidade de harmonia, afirmando novamente o seu ser
nesta regularidade de ciclos e anos, vangloriando-se na sacralidade do que deve
eternamente retornar, como um devir que não conhece qualquer saciedade, nem
desgosto, nem cansaço −: este é o meu universo dionisíaco que se cria e se destrói a si próprio eternamente, este
mundo misterioso de voluptuosidades duplas; este é o meu para além do bem e do
mal, sem finalidade, sem querer, a não ser que a felicidade de ter realizado o
ciclo seja um fim, sem querer, a não ser que um anel tenha a boa vontade de
retornar eternamente sobre si mesmo – querem vocês um nome para este universo? Uma solução
para todos os seus enigmas?, uma luz
mesmo para vocês, os mais tenebrosos, os mais secretos, os mais fortes, os mais
intrépidos de todos os espíritos? Este
mundo é o mundo da vontade de poder – e nada mais! E vocês mesmos, vocês
também são esta vontade de poder – e nada mais!
NIETZSCHE, Friedrich. Escritos sobre história. Tradução, apresentação e
notas de Noéli Correia de Melo Sobrinho. Rio de Janeiro: Loyola, 2005. p. 275 e
276.
![]() |
| Imagem do Universo como captada em infravermelho pela sonda Wife divulgada pela Nasa. Brilhante ao centro, a via-Láctea. |


Nenhum comentário:
Postar um comentário