25 de abril de 2014

Nietzsche e seu universo dionisíaco.







E sabem bem vocês o que é “o mundo” para mim? Querem que eu o mostre para vocês no meu espelho? Este mundo: um monstro de força, sem começo nem fim; uma soma fixa de força, dura como o ferro, que não aumenta nem diminui, que não é consumida mas se transforma, cuja totalidade é uma grandeza invariável, uma economia em que não há gastos ou perdas, mas também sem acréscimo ou ganhos; encerrado no “nada” que é o seu limite, sem nada de flutuante, sem gasto, sem nada de infinitamente extenso, mas incrustado como uma forma definida num espaço definido e não num espaço que compreenderia o “vazio”; uma força em todo lugar presente, um mundo uno e múltiplo como um jogo de forças e de ondas de força, acumulando-se num ponto e diminuindo num outro; um mar de forças em tempestade e em fluxo perpétuo, eternamente em vias de mudar, eternamente em vias de refluir, com gigantescos anos de retorno regular, um fluxo e refluxo de suas formas, indo das mais simples às mais complexas, das mais calmas, mais fixas, mais frias às mais ardentes, às mais violentas, às mais contraditórias, para logo retornar da multiplicidade à simplicidade, do jogo dos contrastes à necessidade de harmonia, afirmando novamente o seu ser nesta regularidade de ciclos e anos, vangloriando-se na sacralidade do que deve eternamente retornar, como um devir que não conhece qualquer saciedade, nem desgosto, nem cansaço −: este é o meu universo dionisíaco que se cria e se destrói a si próprio eternamente, este mundo misterioso de voluptuosidades duplas; este é o meu para além do bem e do mal, sem finalidade, sem querer, a não ser que a felicidade de ter realizado o ciclo seja um fim, sem querer, a não ser que um anel tenha a boa vontade de retornar eternamente sobre si mesmo – querem vocês um nome para este universo? Uma solução para todos os seus enigmas?, uma luz mesmo para vocês, os mais tenebrosos, os mais secretos, os mais fortes, os mais intrépidos de todos os espíritos? Este mundo é o mundo da vontade de poder – e nada mais! E vocês mesmos, vocês também são esta vontade de poder – e nada mais!


NIETZSCHE, Friedrich. Escritos sobre história. Tradução, apresentação e notas de Noéli Correia de Melo Sobrinho. Rio de Janeiro: Loyola, 2005. p. 275 e 276.


Imagem do Universo como captada em infravermelho pela sonda Wife divulgada pela Nasa.
Brilhante ao centro, a via-Láctea.




Nenhum comentário: