Ontem me deliciava em ler
alguns contos de ‘Contos Libertinos’ do Marquês de Sade. A narrativa é leve e
bem humorada. Vale a pena apreciá-la, por essa razão, partilho um deles. Antes,
é oportuno que reflitamos a pequena citação bíblica que, despretensiosamente,
encontrei publicada uma rede social.
QUEM INTENTARÁ
ACUSAÇÃO CONTRA OS ELEITOS DE DEUS? É DEUS QUEM OS JUSTIFICA.
Romanos 8:33.
Boa leitura!!!
O
talião
Um bom burguês da picardia, talvez descendente de um desses ilustres
trovadores das margens do Oise ou do Somme, e cuja vida entorpecida, acabara de
ser retirada às trevas havia dez ou doze anos por um grande escritor do século;
um bom e honesto burguês, eu dizia, habitava a cidade de Saint-Quentin, tão
célebre pelos grandes homens que deu à literatura, e o fazia honradamente, ele,
a mulher e uma prima em terceiro grau, religiosa em um convento dessa cidade.
A prima em terceiro grau era uma moreninha de olhos vivos, rosto
bonito e olhar leviano, nariz arrebitado e cintura esbelta; estava ela aflita
aos vinte e dois anos e religiosa havia quatro; irmã Petronille era seu nome;
tinha, além disso, bela voz, e muito mais temperamento que religião.
Quanto ao sr. Esclaponville – assim se chamava nosso burguês –
era ele um gorducho bom e alegre, de mais ou menos vinte e oito anos, amando
mormente a prima mas nem tanto a sra. Esclaponville, pois que já fazia dez anos
que com ela dormia e um hábito de dez anos é bem prejudicial ao fogo do
himeneu.
A sra. Esclaponville – pois é preciso pintar, por quem passaríamos
se não pintássemos num século em que só se precisa de quadros, em que nem mesmo
uma tragédia seria aceita se os negociantes de telas não encontrassem nela ao
menos seis temas retratados – a sra. Esclaponville, eu dizia, era uma loura
algo insípida, porém branquíssima, com bonitos olhos, bem gordinha, e com essas
grandes bochechas comumente denominadas no mundo de bom gozo.
Até o presente momento, a sra. Esclaponville ignorava que existisse
um modo de se vingar de um esposo infiel; casta como sua mãe, que vivera
oitenta e três anos com o mesmo homem sem o trair, ainda era bastante ingênua,
muito cheia de candura para sequer suspeitar desse crime horrendo que os
casuístas denominaram adultério, e que os hedonistas que tudo edulcoram,
chamaram simplesmente galanteria; mas uma mulher enganada logo recebe de seu
ressentimento conselhos de vingança, e como ninguém gosta de ser ludibriado,
nada há que não faça, tão logo seja possível, para não ser motivo de censura.
A sra. Esclaponville percebeu, enfim, que seu caro esposo visitava
muito amiúde a prima em terceiro grau: o demônio do ciúme apodera-se de sua
alma, ela espreita, informa-se e acaba por descobrir e poucas coisas podem ser
constatadas em Saint-Quentin como o romance de seu esposo com a irmã
Petronille.
Segura de seu ato, a sra. Esclaponville declara enfim a seu marido
que a conduta que ele segue trespassa-lhe a alma, que, por seu próprio
comportamento, não merecia tais atitudes, e suplica-lhe que abandone seus
erros.
– Meus erros – responde fleumático o esposo ignoras, portanto, que
me salvo, minha cara amiga, ao dormir com minha prima religiosa? – Purifica-se
a alma em tão santo romance; trata-se de uma identificação com o Ser supremo; é
incorporar em si o Espírito Santo: não há nenhum pecado, minha cara, quando
estão envolvidas pessoas consagradas a Deus; elas depuram tudo o que se faz com
elas e visitá-las, em suma, é abrir caminho à beatitude celeste.
A Sra. Esclaponville, bem descontente com o insucesso da repreensão,
não diz palavra, mas em seu íntimo jura encontrar recursos para tornar sua
eloqüência mais persuasiva... nisso tudo, diabo é que as mulheres têm um meio
sempre à disposição: por menos bonitas, basta que se manifestem para que
acorram vingadores de toda parte.
Havia na cidade certo vigário de paróquia denominado abade du
Bosquet, grande folgazão de uns trinta anos, cortejando todas as mulheres e
fazendo da testa de todos os esposos de Saint-Quentin, verdadeira floresta.
A sra. Esclaponville fez contato com o vigário; insensivelmente,
o vigário também fez contato com a sra. Esclaponville, e os dois acabaram por
se conhecer enfim de modo tão completo que teriam podido pintar-se mutuamente
dos pés à cabeça sem que fosse possível se equivocarem quanto ao corpo.
Ao cabo de um mês, todos vieram felicitar o pobre Esclaponville,
que se gabava de ser o único a escapar aos temíveis galanteios do vigário, e de
que, em Saint-Quentin, era ele a única fronte que esse patife ainda não
maculara.
– Isso não pode ser – diz Esclaponville aos que lhe falavam –,
minha mulher é casta como uma Lucrécia; poderiam me dizer cem vezes, que eu não
acreditaria.
– Vem, pois – diz-lhe um de seus amigos –, vem que eu te convenço
por meio de teus próprios olhos, e veremos em seguida se duvidarás.
Esclaponville deixa-se levar, e seu amigo o conduz a meia légua
da cidade, num local solitário onde o Somme, estreitado nas margens entre duas
sebes frescas e cobertas de flores, oferece agradável banho aos habitantes da
cidade; porém, como o encontro houvesse sido marcado numa hora em que
normalmente as pessoas não se banham, nosso pobre marido tem a tristeza de ver
chegar, um após o outro, sua honesta mulher e seu rival, sem que ninguém os
possa interromper.
– Pois bem – diz o amigo a Esclaponville sentes coceira na testa?
– Ainda não –diz o burguês, esfregando-a – contudo, é possível
que, involuntariamente, ela venha até aqui para se confessar.
– Permaneçamos, pois, até o desfecho, – diz o amigo...
Não demorou muito: mal havia chegado à deliciosa sombra da sebe
olente, o abade du Bosquet desabotoa tudo o que impede as apalpadelas
voluptuosas com que sonha, e põe-se no dever de trabalhar santamente para
reunir, é possível que pela trigésima vez, o bom e honesto Esclaponville aos
outros esposos da cidade.
– Pois bem, acreditas agora? – Diz o amigo.
– Retornemos – diz asperamente Esclaponville tendo sido obrigado
a acreditar –, eu bem poderia matar esse maldito padre, e acabariam fazendo com
que eu pagasse mais do que ele vale; retomemos, meu amigo, e guarda segredo, eu
te peço.
Esclaponville torna a casa todo confuso, e, pouco depois, sua
benigna esposa vem se apresentar para jantar ao lado de tão casta pessoa.
– Um momento, queridinha – diz o burguês furioso – desde minha
infância jurei a meu pai nunca jantar com putas.
– Com putas – responde complacentemente a sra. Esclaponville –,
meu amigo, esse comentário me surpreende; que motivo tens para tal censura?
– Como, sem-vergonha, que motivo tenho para te censurar? Que foste
fazer esta tarde no banho com o nosso vigário?
– Oh, meu Deus – responde a doce mulher –, é apenas isso, meu
filho? É apenas isso que tens a me dizer?
– Como, por Deus, é apenas isso...
– Mas, meu amigo, eu segui teus conselhos; não me dissestes que
nada se arrisca quando se dorme com pessoas da Igreja? Que depuramos nossa alma
em tão santo romance? Que tal ato equivalia a identificar-se ao Ser supremo,
fazer entrar o Espírito Santo em si, e abrir caminho, em resumo, à beatitude
celeste... pois bem, meu filho, só fiz o que me disseste; sou, portanto, uma
santa, não uma meretriz! Ah! Respondo-te que se a alguma dessas boas almas de Deus
é dado um meio de abrir caminho, como disseste, à beatitude celeste, esse meio
é certamente o sr. vigário, pois nunca vi uma chave tão grande!

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