30 de setembro de 2013

Crisálida.











Já nada restava a dizer. As palavras, antes soltas, quedaram ao chão petrificadas. E tudo que ficou submetido ao silêncio, doía-lhe o peito até saltar aos olhos úmidos como que prostrados diante da sua renúncia. Ela renunciou ao sorriso, ao encanto, às palavras de amor, às frivolidades próprias de quem persegue desejos.



Buscou o trabalho e outros tantos sonhos, que lhe ofereciam a ilusão de que precisava para preencher o tempo caudaloso da existência. Começou a ter pressa. Fugia de si e de quem lhe oferecesse abrigo. Retraiu-se, como se isso fosse induzir a própria alma ao esquecimento. Congelou as emoções, inclusive, as lembranças. 



Enganou-se. Descobriu-se aturdida em desejos de lábios e do sexo que não viveu. Tudo o que represou agora assombrava-lhe a memória sob a forma de uma ternura cadente e imensurável. E ela sentiu saudades...



Teve de admitir que nunca foi completamente ausente. Estava sempre ali, por buscar, por seguir, por alentar as palavras que não pode ouvir. Entendeu que sua fuga foi medo de perder-se nessa busca íngreme do outro. Protegeu-se na escuridão e no silêncio. Escolheu não lutar e escondeu os olhos. De todo modo, estava perdida. Perdeu-se de si mesma.






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