Já nada restava a dizer. As palavras, antes soltas, quedaram ao chão
petrificadas. E tudo que ficou submetido ao silêncio, doía-lhe o peito até
saltar aos olhos úmidos como que prostrados diante da sua renúncia. Ela
renunciou ao sorriso, ao encanto, às palavras de amor, às frivolidades próprias
de quem persegue desejos.
Buscou o trabalho e outros tantos sonhos, que lhe ofereciam a ilusão de
que precisava para preencher o tempo caudaloso da existência. Começou a ter
pressa. Fugia de si e de quem lhe oferecesse abrigo. Retraiu-se, como se isso
fosse induzir a própria alma ao esquecimento. Congelou as emoções, inclusive,
as lembranças.
Enganou-se. Descobriu-se aturdida em desejos de lábios e do sexo que não
viveu. Tudo o que represou agora assombrava-lhe a memória sob a forma de uma
ternura cadente e imensurável. E ela sentiu saudades...
Teve de admitir que nunca foi completamente ausente. Estava sempre ali,
por buscar, por seguir, por alentar as palavras que não pode ouvir. Entendeu
que sua fuga foi medo de perder-se nessa busca íngreme do outro. Protegeu-se na
escuridão e no silêncio. Escolheu não lutar e escondeu os olhos. De todo modo,
estava perdida. Perdeu-se de si mesma.

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