22 de agosto de 2013

A pira da lealdade.







Adoraria, num arroubo selvagem, chegar ao ponto de quebrar as fuças de certa pessoa e resolver tudo de maneira rápida e muito simples. No entanto, algo a que chamo Consciência, me assevera que o rumo das coisas não deve orientar-se por essa via.

Ó mundo do dever ser que tolhe minha liberdade!!!! Que tolhe meus desejos primórdios! Que sujeita meus arquétipos de sombra à doçura das correntes da civilidade, quando tudo em mim quer destruir ao ponto do aniquilamento!!! Quando tudo aquece e confunde como o estampido de um açoite em fúria!!!

Quando todas as minhas células exigem apenas as fuças do inimigo comendo o chão!  Quando eu devo escolher respirar, respirar e respirar para não tomar o inferno por assalto! Consciência, minha amiga, somente tu tens o condão de segurar-me exatamente onde estou e obrigar-me à reflexão.

Cerro os dentes. Atiro os dedos contra o teclado. Aperto os olhos. Respiro. Escrevo como quem converte o silêncio em divã. Escrevo como quem reclama o universo por companheiro de guerra, cúmplice de sangue. Escrevo para deitar as palavras no colo desta que me chama pelo nome, a quem aprendi, por evolução pessoal a não ignorar.

Escrevo porque tudo o que quero é ter a acidez do enxofre. Escrevo para fazer escorrer das palavras, um vermelho incandescente, como rocha liquefeita, petrificando tudo ao redor e além de mim. Não imagino como deve ser o barulho das explosões de gases e poeira, expelidas de um vulcão em transe. Só sei que meu vernáculo é brasa, é lava, é ígneo.

Desconheço o poder destrutivo que deve resultar a partir das tempestades de íons nas superfícies estelares. O que assistimos, aqui, do ponto de nossa tosquice humana, é um luminal celeste de cores e brilhos. Só sei que tudo o que sinto é traiçoeiro em sua inteireza. Por isso, admito, temo meus aspectos mais profundos, são os mais ardilosos.

Eu peço às leis do universo que atirem os cães para longe das minhas vistas. Contudo, o universo responde-me, secamente: 'Bem, este não é um privilégio possível'.  Estou tentada ao orgulho de pensar que é melhor alternativa desprezá-los, condená-los ao limo de suas existências de cera. Sim, minha Confidente, talvez o desprezo seja para os que ladram o mais concorrido prêmio!

Consciência, por que não te satisfazes? Por que condenas as minhas letras, obrigando-me a debulhá-las à exaustão? Não me permites o arrebato do ódio. Nem tampouco a sua antítese, a mais glacial indiferença. Não te satisfazes? Não descansas?

Agora, os dedos estão mais calmos. Os olhos serenos. A respiração pausada e fluida. No pensamento, o único consolo é o de entender que não há meios possíveis de conciliação para os que simulam verdades e afetos. Eu escolhi um lado pelo qual lutar. Eu escolhi levantar minha bandeira e permiti-la tremular. Eu escolhi por quem amar e proteger acima e abaixo dos céus, se assim for necessário.

Minha Filha, registro nestes signos eternos que acima de toda crueza humana, além de toda empáfia, existe LEALDADE, que é honra paga em preço de honra. Isto que nunca foi invenção humana, porque se fosse estaria, desde o nascedouro, corroída por vermes e purulenta. Lealdade é amor que exala os aromas divinais. Quando os tolos intentam maculá-la, de uma maneira ou de outra, somos levados à verdadeira guerra.

Contraditório é que em nome de tão insondável pacto sejamos forrados em desespero e, tantas vezes, tombados pelo sentimento de raiva. Meu amor, somos criaturas tão diminutas que não sabemos equacionar as medidas de tão elevado apreço. Então, desesperamo-nos. Quando atingir idade suficiente para compreender o que escrevo, talvez entenderá minha intensidade.

Talvez lembrará da força das minhas palavras. Talvez lembrará a energia com a qual eu exijo que olhe nos meus olhos, na tentativa de espelhar através deles, o eco de uma eternidade. Lembrará do rigor dos gestos para sustentar o peso dos ensinamentos, mesmo cônscia de que jamais poderei viver experiências que serão unicamente tuas, nem evitar as decepções.

Porém, arrasto comigo toda a ênfase de que sou capaz, guardarei bem os limites pelos quais adormeces a inefável infância, até que tenhas olhos suficientes para ver por ti mesma. Até que possas discernir por tua própria conta.


E até que eu tenha tecido, em torno de ti, a sedosa trama dos bons saberes com que irás sustentar-te. Até lá, conduzirei os meus dias para amparar os teus. E que Deus se apiede de quem estiver nas margens do caminho!



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