18 de agosto de 2013

A solidão de Unamuno.









A neve havia coberto todos os picos rochosos da alma, aqueles que, mergulhados no céu, se contemplam nele como num espelho e se vêem, por vezes, refletidos sob a forma de nuvens passageiras. A neve, que havia caído em tempestades de flocos, cobria os picos, todos rochosos, da alma. Estava ela, a alma, envolta num manto de imaculada brancura, de acabada pureza, mas por debaixo ela tiritava, endurecida de frio. Porque é fria, muito fria a pureza! A solidão era absoluta naqueles picos rochosos da alma, semicobertos, como por um sudário, pelo imaculado manto de neve. Somente de tempos em tempos alguma águia faminta examinava a brancura desde os céus, buscando descobrir nela o rastro de alguma presa. Aqueles que, do vale, olhavam para os picos brancos eram os espíritos, as almas das árvores, dos regatos, das colinas; algumas, almas fluidas e rumorosas que discorriam entre margens de verdura, e outras, almas cobertas de verdura. Lá no alto tudo era silêncio.


Miguel de Unamuno



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