A neve havia coberto todos os picos rochosos da alma, aqueles
que, mergulhados no céu, se contemplam nele como num espelho e se vêem, por
vezes, refletidos sob a forma de nuvens passageiras. A neve, que havia caído em
tempestades de flocos, cobria os picos, todos rochosos, da alma. Estava ela, a
alma, envolta num manto de imaculada brancura, de acabada pureza, mas por
debaixo ela tiritava, endurecida de frio. Porque é fria, muito fria a pureza! A
solidão era absoluta naqueles picos rochosos da alma, semicobertos, como por um
sudário, pelo imaculado manto de neve. Somente de tempos em tempos alguma águia
faminta examinava a brancura desde os céus, buscando descobrir nela o rastro de
alguma presa. Aqueles que, do vale, olhavam para os picos brancos eram os
espíritos, as almas das árvores, dos regatos, das colinas; algumas, almas
fluidas e rumorosas que discorriam entre margens de verdura, e outras, almas
cobertas de verdura. Lá no alto tudo era silêncio.
Miguel de Unamuno

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