15 de junho de 2013

A saga de um fio de linha, metáfora da vida.









É com certo pesar que assisto ao transcorrer dos meus dias como um fio de linha perdido, alçado, jogado pelo vento, atirado ao desdém de um universo alheio e tolhido de si mesmo. Rodopia em seu próprio centro. Cambaleia, antes de um pousar triste. Há quem diga que a porta que leva à tristeza é via traiçoeira. Vão pensamento...


A incerteza invocada pelo instante presente é fértil e, na sua fertilidade, confusa. Tudo em si mesmo invoca algo sem forma e sem cor definida. Os sentidos estão presentes e nada decifram. Inúteis...! Falar sobre o que não quero dizer... Sobra deixar que se revelem as linhas de um pensamento corrente e emotivo.


Pedir que fique, que envolva, que permaneça e se mantenha, quando tudo em volta apresenta um movimento próprio e nada ou ninguém o alcança. Ah, estas noites vazias... Estas madrugadas em que o sono tropeça em algum ponto e desperta absorto em frases que nunca foram ditas e, possivelmente, jamais serão.


O sono interrompido que induz ao pranto solitário. Primeiro, cândido e manso, como os respingos de chuva caídos em folhas de verde luzente. Depois, arfante, sacolejando o peito, intenso como são intensos todos os males em que se permeia o amor no coração de homens e mulheres.


O que devo dizê-lo quando me pede que retorne ao lugar de onde parti? Toda partida é pesarosa e até insensata. Não, não queremos, nem permitimos que nos deixem. Teimamos, dengosos, que tudo esteja próximo e ao alcance no tempo de uma vida inteira. 


Mas eu sou volátil. Não só eu, talvez, sejamos todos. Divagamos em novos corações e no silêncio de nossos próprios. Como o fio de linha divaga ao vento, destronado e sem qualquer realeza. Apenas um fio de linha, desinteressado, dançando quando não há qualquer apoio. Quando nada pode fazê-lo voltar, porque não há razão para que exista, nem motivação para que retorne.


Eu sou esse fio de linha. Não me permito ter chão. Quando repousei em sua folha, não foi para pertencer-lhe. O fio perdido e a folha caída, ambos se valem pelo instante em que se tocam. Permanecem quietos até que um abalo de ares os remova dali. E o fio, por ser mais leve e sem importância, é levado para longe e se perde em novas folhas ou mistura-se com outros trapos, igualmente desprovidos de importância.


Sua beleza, no entanto, é a liberdade. É ser levado pelo ar enquanto se permite voar sem ter asas. Bailante e solitário. Por vezes, esse fio brinca de sonhar. Enamora-se com um olhar amigo, graceja solto para encantar as orações de quem ousa observá-lo. Um dia, quem sabe, um menino o apanhará em suas mãos e o soprará apenas para vê-lo vibrar com seus olhos de vidro. Então, o apanhará no ar e recomeçará a diversão.


Talvez esse fio seja encontrado por um poeta absorto entre divagações existenciais e metafóras - assim são todos os poetas! E o fio será colhido num momento especial e ele o levará consigo, em seu bolso, e o guardará em seu livro mais dileto. E o fio colherá as lágrimas derramadas junto àquelas páginas. 



Principiará talvez, uma idolatria, uma ternura sem medidas ao contemplar o rosto do seu poeta ao abrir o livro. Será para o seu poeta como um cúmplice. Acompanhará sua perda de vitalidade até o dia em que será esquecido na estante, no interior do livro fechado e regado de lágrimas, junto às emoções cultivadas e escondidas nos cantos escuros dos quartos, junto às solidões humanas cheias de lembranças e saudades.




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