Surpresas boas só ocorrem de maneira inesperada. Quando não se está à procura, quando não se deposita intenção alguma, parece que esbarramos em coisas e pessoas, no mínimo, dignos de toda a “interessância”. Parece que a vida tem um movimento apropriado para guiar-nos até que seja alcançado algo considerável, digno de todo apreço e atenção.
Eu estava no Youtube a escutar música brasileira: Danilo Caymmi, Leila Pinheiro, Selma Reis, Toquinho, Maria Betânia – esta última a cantar ‘Samba da Benção’, composição de Vinícius, numa interpretação tão fascinante que me deu arrepios. Algo fantástico poder ouvir música assim, de forma, tão democrática.
O acesso às obras musicais sempre foi algo condicionado à paga da arte. Vinis caros e shows raros. Sendo muito otimista, se não raros, distantes das periferias regionais, sempre localizados nos grandes centros culturais e econômicos do país. Mas no mundo digital, tudo parece estar próximo, acessível, disponível.
A televisão perdeu seu encanto de outrora. Por longo tempo, fez emburrecer grandes levas de indivíduos. Eles ainda teimam em reclamar seus preciosos alforjes, tal a variação de fanfarronices e babaquices de toda a natureza e para todos os gostos.
E foi de um a outro artista que cheguei a um curioso vídeo de Lobão para o programa Café Filosófico - sim, há algo de incólume no universo do vil metal. Mas não tratarei de Lobão e seu espírito simultaneamente jocoso, excêntrico e subversivo.
Ao observar a listagem dos vídeos sugeridos à direita da tela, um havia que chamou minha atenção: Educação com Viviane Mosé, Café Filosófico, CPFLCultura. Lembro-me que ela apresentava o quadro ‘Ser ou não ser’ aos domingos à noite, no Fantástico. Esse quadro era um meio de trazer à lume as causas das angústias humanas e seus desdobramentos no convívio social.
Com uma linguagem direta e simples, Viviane esmiuçava várias problematizações filosóficas, tornando-as alcançáveis ao entendimento geral. No vídeo, em particular, ela trata do modelo educacional e questões adjacentes, tais como o ser ético e a percepção da mundanidade como forma de projetar-se planetariamente a bem do próprio ser humano e de sua sobrevivência.
Ao assistir ao vídeo, pude refletir sobre o quanto a metodologia adotada pelos professores, desde o infantil até o ensino médio, SUGERE PROMOVER UMA IDIOTIZAÇÃO DA JUVENTUDE. Viviane utiliza-se da alegoria da fábrica. A escola como a fábrica deve “produzir” um lote de pessoas num curto espaço de tempo. Esta leva de jovens apresenta um conhecimento segmentado adquirido por meio de “disciplinas”, que são nada mais do que recortes de conhecimento.
As ciências constroem o conhecimento de uma maneira dinâmica e lúdica e isto é levado ao estudante como abstração, algo entre insípido e estéril da realidade de todos eles. Por isso, o que é reproduzido em sala de aula torna-se desinteressante. O que poderia ser adquirido como reflexão, é absorvido com segmentação e fragmentação.
Como nas fábricas, nas quais o operário realiza um manejo específico e ignora toda a cadeia do modo de produção, assim também o estudante aprende um conhecimento fragmentado em partes como se estas fossem unidades autônomas. Outra alegoria para a escola vem de Michel Foucault, citado pela filósofa, é a ideia da escola como uma prisão, um reformatório.
Creio que a escola realiza bem sua função de reproduzir o modelo construído ideologicamente para abrigar as massas, torná-las fonte hábeis de energia para a atividade laboral, com as quais são sustentados o sistema econômico e o sistema político. Gerações de idiotas têm gerado profundos lucros, tem tornado mais abissal a fenda entre as grandes fortunas e as degradáveis condições de miséria humana.
Saber a escola como instituição voltada para a imbecilização do ser humano é trágico. Porém, compreenda-se que não se trata apenas da escola. Os mecanismos de transmissão de informações e notícias com a imprensa e o jornalismo são outra forma de conduzir as gerações à uma condição de imbecilidade praticamente atávica, porque a informação é um direito político fundamental.
Quando a notícia dos fatos advém assombreada com tencionalidades ideologicamente marcadas, o cidadão, sem o saber, adquire a exata postura que se pretende dele. Dessa maneira, as coisas são mantidas como estão. Às pessoas, os seus devidos lugares.
Estou a falar da rarefeita mobilização social e econômica. Não é apenas uma questão atinente ao modelo escolar, mas também é relativa ao modo como o universo midiático alcança o cidadão. Como também refere-se aos meios com os quais esse mesmo cidadão busca entreter-se.
Enquanto a escola educa para a passividade, os veículos de informação alcançam o cidadão apenas naquilo que lhes for conveniente. Relega-o à ignorância do que deveria interessá-lo ou produz, como pano de fundo para as notícias, verdadeiras inversões de valores morais ou éticos. E há ainda o poder da indústria do entretenimento, que oferece distração em circunstâncias e momentos oportunos para, então, retirar o indivíduo totalmente de cena.
Escola, imprensa e a indústria do entretenimento formam uma tríade hábil na produção do embrutecimento ético do ser humano. Uma trama enrijecida, cuja finalidade é manter o cidadão na condição de mula manca para suportar o Estado, enquanto sustém emudecido e resignado as grandes fortunas.



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