Deus, o que nos
prometeis em troca de morrer? Pois o céu e o inferno nós já os conhecemos –
cada um de nós em segredo quase de sonho já viveu um pouco do próprio
apocalipse. E a própria morte.
Fora das vezes
em que quase morri para sempre, quantas vezes num silêncio humano – que é o
mais grave de todos do reino animal – , quantas vezes num silêncio humano minha
alma agonizando esperava por uma morte que não vinha. E como escárnio, por ser
o contrário do martírio em que minha alma sangrava, era quando o corpo mais
florescia. Como se meu corpo precisasse dar ao mundo uma prova contrária de
minha morte interna para esta ser mais secreta ainda. Morri de muitas mortes e
mantê-las-ei em segredo até que a morte do corpo venha, e alguém, adivinhando,
diga: esta, esta viveu.
Porque aquele que
mais experimenta o martírio é dele que se poderá dizer: este, sim, este viveu.
O mais estranho
é que todas as vezes em que era só o corpo que estava à morte, a alma o
desconhecia: da última vez em que meu corpo quase morreu, ignorando o que
sucedia, tinha uma espécie de rara alegria como se ela estivesse enfim liberta
enquanto o corpo doía como o Inferno. Uma das vezes, só depois que passou é que
me disseram: eu havia estado três dias entre vida e morte, e nada garantiam os
médicos, senão que tudo tentariam. E eu tão inocente do que estava acontecendo
que estranhava não permitirem visitas. Mas eu quero visitas, dizia, elas me distraem
da dor terrível. E todos os que não obedeceram à placa “Silêncio”, todos foram
recebidos por mim, gemendo de dor, como numa festa: eu tinha-me tornado falante
e minha voz era clara: minha alma florescia como um áspero cáctus. Até que o
médico, realmente muito zangado e num tom definitivo, disse-me: mais uma só
visita e lhe darei alta no estado mesmo em que você está. “O estado em que eu
estava” eu o desconhecia, nunca nesses dias notei que estava no limiar da
morte. Parece-me que eu vagamente sentia que, enquanto sofresse fisicamente de
um modo tão insuportável, isso seria a prova de estar vivendo ao máximo.
Lembro-me agora
de uma vez que ao olhar um pôr-do-sol interminável e escarlate também eu
agonizei com ele lentamente e morri, e a noite veio pra mim cobrindo-me de
mistério, de insônia clarividente e, finalmente por cansaço, sucumbindo num
sono que completava a minha morte. E quando acordei, surpreendi-me docemente.
Nos primeiros ínfimos instantes de acordada pensei: então quando se está morta
se conserva a consciência? Até que o corpo habituado a mover-se automaticamente
me fez fazer um gesto muito meu: o de passar a mão pelos cabelos. Então num
susto percebi que meu corpo e minha alma tinham sobrevivido. Tudo isto – a certeza
de estar morta e a descoberta de que estava viva – tudo isto não durou, creio,
mais que dois ínfimos segundos ou talvez menos ainda. Mas que de hoje em diante
todos saibam através de mim que não estou mentindo: em menos de dois segundos
pode-se viver uma vida e uma morte e uma vida de novo. Esses dois ínfimos
segundos como forma de contar toscamente o tempo devem ser a diferença entre o
ser humano e o animal: assim como Deus talvez conte o tempo em frações de
século dos séculos: cada século um instante. Quem sabe se Deus conta a nossa
vida em termos de dois segundos: um para nascer e outro para morrer. E o
intervalo, meu Deus, talvez seja a maior criação do Homem: a vida, uma vida.
Lembro-me de um amigo que há poucos dias citou o que um dos apóstolos disse de
nós: vós sois deuses.
Sim, juro que
somos deuses. Porque eu também já morri de alegria muitas vezes na minha vida.
E quando passava essa espécie de gloriosa e suave morte, eu me surpreendia de
que o mundo continuasse ao meu redor, de que houvesse uma disciplina para cada
coisa, e de que eu mesma, a começar por mim, tinha o meu nome e já entrara na
rotina: pensara que o tempo tinha parado e os homens subitamente se tinham
imobilizado no meio do gesto que estivessem executando – enquanto eu vivera a
morte por alegria.
(...)
Sou uma feroz
entre os ferozes seres humanos – nós, os macacos de nós mesmos, nós, os macacos
que idealizaram tornarem-se homens, e esta é também a nossa grandeza. Nunca
atingiremos em nós o ser humano: a busca e o esforço serão permanentes. E quem
atinge o quase impossível estágio de Ser Humano, é justo que seja santificado.
Porque desistir
de nossa animalidade é um sacrifício.
LISPECTOR, Clarice. Morte de uma baleia. In: ______, A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p. 125 a 127.




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