Sempre observo o quanto é incrível a vida de uma mulher que
lidera uma família. Como nos aperta o tempo! Programo o despertador para
chamar-me às cinco e dez da matina e mais dois horários subsequentes. Assim é o
relógio programado para acordar uma pessoa preguiçosa, como um falastrão.
O cachorro já em pezinho ao meu lado, reivindica a sua parte no
rateio da cama. É teimoso! Invade o meu lado de dormir e toma à força um
lugarzinho às minhas costas. Eu, boba, não resisto e cedo, aprovando-lhe com um
abraço. Ele corresponde com umas lambidinhas sinceras de bom dia. A minha filha
ignora a tudo; à minha esquerda, dorme como uma pedra.
O despertador pela terceira vez insiste, e é quando concordo em
levantar. Sinceramente, creio que necessito modificar essa metodologia. Ela não
se mostra eficaz comigo. Cachorrinho olha pra mim, se estica todo, boceja e não
quer ficar. Atropela a menina que dorme e me segue. Observa-me paciente,
enquanto maquio os olhos no banheiro e arrumo as mechas dos cabelos com fluidos.
Quando concluo, converso com ele e recebo uma reclamação em troca. Está já
agoniado! Machos...
Visto-me com ele ainda reclamando. Segue até à porta da cozinha
e põe-se de pé com latidos pela coleira, cheio de objetividade. Saímos os dois
para uma corridinha leve. Entre mijadas e farejos pelo caminho, enfrenta os cães
presos e soltos. Dos últimos, sinto dó de seu abandono. Acho uma maldade, Lepe
latir pra eles.
Quando retornamos, ele resiste em entrar, mas acaba por
resignar-se. Afinal, quem é que segura a coleira? Sigo correndo para os fundos
da casa e preparo água e ração. Lavo uniformes para que sequem ao tempo do meio
dia, pois os de treino serão usados à noite. Grito por Nínive. Eu sei que não
adianta, só não sei por que ainda faço isso.
Vou ao quarto, tão resoluta quanto um general para dar voz de
guerra. Arranco o lençol e começo a dobrá-lo, enquanto lhe indico com firmeza
para que se levante e tome uma chuveirada. Molinha e dengosa, não quer a água
fria. Resiste e choraminga, mas sou imune a chantagem. Não quer ir pro
chuveiro? Vai à marra mesmo. Precisa acordar o corpo para ir à escola. Em tom
de desculpas, prometo arrumar alguém pra consertar o chuveiro. Quantas vezes já
prometi isso? Bem, o frio se aproxima e preciso resolver o quanto antes.
Há várias coisas numa casa que as mulheres ditas independentes
protelam. Uma delas se chama consertos – sim, no plural. Como uma
torneira que pinga ou algo que vaza toma uma forma incompreensível! Todo o
mecanismo de torcer e por sei lá o quê (uma fita?) que veda... Essas coisas
custam por demais nossa atenção e evitamos compreendê-las. Quando havia um
homem, ele tomava par desses assuntos. Mas o homem se foi. E eu cultivo um secreto
desejo de comprar uma caixa de ferramentas.
Sejamos honestas, os homens tem muitas utilidades e fico tentada
a querer um de novo pra mim. Mas em seguida, penso nos aborrecimentos que eles
trazem consigo e desisto. Creio que
terei ainda uma vida inteira a acostumar-me com goteiras, portas que rangem e emperram,
lâmpadas queimadas e chuveiros que não esquentam. Aliás, toda a casa adquire
uma espécie de “personalidade” quando a mulher está solteira.
Até o meu forno adquiriu um transtorno, algo que descobri há
algumas semanas com relativo espanto. Uma leitura rápida no Wikipédia me fez
suspeitar de que o forno sofre de episódio depressivo de grau leve a moderado. E
devo concordar com uma amiga, quando me felicitara pelo meu aniversário, dia
onze último: a vida é mesmo difícil. Ela me desejou coragem. (suspiro)
Vou do banheiro à cozinha arrumar o café da manhã e cobro para
que a menina tenha agilidade. Dois minutos, hein! Criança é sempre descansada e
se não guiamos com a rédea tensa, desencaminha tudo. Hoje é dia de prova à
tarde, segunda chamada. Coma a fruta enquanto faz estes cálculos aqui. E eu
indico a página. Ela compreende a missão, mas não demonstra muita empatia. Eu
ignoro e não reclamo. Mal acordara, que faça o possível.
Cachorrinho pra lá e pra cá, latindo a casa inteira, incomodado
com o barulho vindo de fora. Deus do céu! Nem vou dizer-lhe nada. Rumo pro
banho, passo hidratante e me visto. Vejo o horário e é sempre um susto. Olho a
página da atividade que a criança calmamente rabisca. Larga esses cálculos!
Ofereço-lhe suco e torradas quentinhas retiradas do meu forno maluco. Os
minutos avançam e lembro que nada comi. Pego uma fruta e penso em tomar um
cafezinho no trabalho.
As roupas? Vou correndo arrumá-las no varal. E quando retorno à
cozinha com o lanche da escola, percebo o cachorrinho saltando pra tomar o pão
da mão da menina. Não deixe Lepe tomar sua torrada! Coma isso logo e vá escovar
os dentes! Já guardou o estojo na mochila? Acho que toda mãe é uma metralhadora
de dar ordens...
Tempo, tempo, tempo... Senhor de todo o universo! Tão exíguo e, contudo,
de um dilatar contínuo. Lá vou eu arrumar uma muda de roupa para a criança levar
na mochila. Ficará com a avó após a aula, então mais próximo da escola.
Deixe-me pentear seus cabelos. A menina é tagarela. Fala como um saco furado!
Porém, não um saco qualquer; é encantado e tem conteúdo vasto pra mais de mil
vidas.
Desejo-lhe boa aula e ela se vai responsável. O cãozinho observa
uma e outra. Escovo os dentes e passo protetor com base no rosto. Disse a minha
irmã: A melhor coisa que já inventaram. De fato, a pele fica homogênea! Eu escolho
um batom rosa mate que permite um melhor contorno dos lábios, deixando-os
volumosos sem destacá-los. Ajeito o cabelo e corro para pegar a bolsa.
Celulares. Alguns pensares de depois isso, depois aquilo...
Antes de sair, reclamo o
cachorro para que não durma no sofá. Deitado em seu travesseiro, faço-lhe um
carinho gostoso. Olho pro relógio. Quinze minutos atrasada.

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