14 de abril de 2015

A não-crível rotina de uma mãe solteira...





Sempre observo o quanto é incrível a vida de uma mulher que lidera uma família. Como nos aperta o tempo! Programo o despertador para chamar-me às cinco e dez da matina e mais dois horários subsequentes. Assim é o relógio programado para acordar uma pessoa preguiçosa, como um falastrão.


O cachorro já em pezinho ao meu lado, reivindica a sua parte no rateio da cama. É teimoso! Invade o meu lado de dormir e toma à força um lugarzinho às minhas costas. Eu, boba, não resisto e cedo, aprovando-lhe com um abraço. Ele corresponde com umas lambidinhas sinceras de bom dia. A minha filha ignora a tudo; à minha esquerda, dorme como uma pedra.


O despertador pela terceira vez insiste, e é quando concordo em levantar. Sinceramente, creio que necessito modificar essa metodologia. Ela não se mostra eficaz comigo. Cachorrinho olha pra mim, se estica todo, boceja e não quer ficar. Atropela a menina que dorme e me segue. Observa-me paciente, enquanto maquio os olhos no banheiro e arrumo as mechas dos cabelos com fluidos. Quando concluo, converso com ele e recebo uma reclamação em troca. Está já agoniado! Machos...


Visto-me com ele ainda reclamando. Segue até à porta da cozinha e põe-se de pé com latidos pela coleira, cheio de objetividade. Saímos os dois para uma corridinha leve. Entre mijadas e farejos pelo caminho, enfrenta os cães presos e soltos. Dos últimos, sinto dó de seu abandono. Acho uma maldade, Lepe latir pra eles.


Quando retornamos, ele resiste em entrar, mas acaba por resignar-se. Afinal, quem é que segura a coleira? Sigo correndo para os fundos da casa e preparo água e ração. Lavo uniformes para que sequem ao tempo do meio dia, pois os de treino serão usados à noite. Grito por Nínive. Eu sei que não adianta, só não sei por que ainda faço isso.


Vou ao quarto, tão resoluta quanto um general para dar voz de guerra. Arranco o lençol e começo a dobrá-lo, enquanto lhe indico com firmeza para que se levante e tome uma chuveirada. Molinha e dengosa, não quer a água fria. Resiste e choraminga, mas sou imune a chantagem. Não quer ir pro chuveiro? Vai à marra mesmo. Precisa acordar o corpo para ir à escola. Em tom de desculpas, prometo arrumar alguém pra consertar o chuveiro. Quantas vezes já prometi isso? Bem, o frio se aproxima e preciso resolver o quanto antes.


Há várias coisas numa casa que as mulheres ditas independentes protelam. Uma delas se chama consertos – sim, no plural. Como uma torneira que pinga ou algo que vaza toma uma forma incompreensível! Todo o mecanismo de torcer e por sei lá o quê (uma fita?) que veda... Essas coisas custam por demais nossa atenção e evitamos compreendê-las. Quando havia um homem, ele tomava par desses assuntos. Mas o homem se foi. E eu cultivo um secreto desejo de comprar uma caixa de ferramentas.


Sejamos honestas, os homens tem muitas utilidades e fico tentada a querer um de novo pra mim. Mas em seguida, penso nos aborrecimentos que eles trazem consigo e desisto.  Creio que terei ainda uma vida inteira a acostumar-me com goteiras, portas que rangem e emperram, lâmpadas queimadas e chuveiros que não esquentam. Aliás, toda a casa adquire uma espécie de “personalidade” quando a mulher está solteira.


Até o meu forno adquiriu um transtorno, algo que descobri há algumas semanas com relativo espanto. Uma leitura rápida no Wikipédia me fez suspeitar de que o forno sofre de episódio depressivo de grau leve a moderado. E devo concordar com uma amiga, quando me felicitara pelo meu aniversário, dia onze último: a vida é mesmo difícil. Ela me desejou coragem. (suspiro)


Vou do banheiro à cozinha arrumar o café da manhã e cobro para que a menina tenha agilidade. Dois minutos, hein! Criança é sempre descansada e se não guiamos com a rédea tensa, desencaminha tudo. Hoje é dia de prova à tarde, segunda chamada. Coma a fruta enquanto faz estes cálculos aqui. E eu indico a página. Ela compreende a missão, mas não demonstra muita empatia. Eu ignoro e não reclamo. Mal acordara, que faça o possível.


Cachorrinho pra lá e pra cá, latindo a casa inteira, incomodado com o barulho vindo de fora. Deus do céu! Nem vou dizer-lhe nada. Rumo pro banho, passo hidratante e me visto. Vejo o horário e é sempre um susto. Olho a página da atividade que a criança calmamente rabisca. Larga esses cálculos! Ofereço-lhe suco e torradas quentinhas retiradas do meu forno maluco. Os minutos avançam e lembro que nada comi. Pego uma fruta e penso em tomar um cafezinho no trabalho.


As roupas? Vou correndo arrumá-las no varal. E quando retorno à cozinha com o lanche da escola, percebo o cachorrinho saltando pra tomar o pão da mão da menina. Não deixe Lepe tomar sua torrada! Coma isso logo e vá escovar os dentes! Já guardou o estojo na mochila? Acho que toda mãe é uma metralhadora de dar ordens...


Tempo, tempo, tempo... Senhor de todo o universo! Tão exíguo e, contudo, de um dilatar contínuo. Lá vou eu arrumar uma muda de roupa para a criança levar na mochila. Ficará com a avó após a aula, então mais próximo da escola. Deixe-me pentear seus cabelos. A menina é tagarela. Fala como um saco furado! Porém, não um saco qualquer; é encantado e tem conteúdo vasto pra mais de mil vidas.


Desejo-lhe boa aula e ela se vai responsável. O cãozinho observa uma e outra. Escovo os dentes e passo protetor com base no rosto. Disse a minha irmã: A melhor coisa que já inventaram. De fato, a pele fica homogênea! Eu escolho um batom rosa mate que permite um melhor contorno dos lábios, deixando-os volumosos sem destacá-los. Ajeito o cabelo e corro para pegar a bolsa. Celulares. Alguns pensares de depois isso, depois aquilo...


Antes de sair, reclamo o cachorro para que não durma no sofá. Deitado em seu travesseiro, faço-lhe um carinho gostoso. Olho pro relógio. Quinze minutos atrasada.





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