5 de janeiro de 2015

Um desafio ao Viajante.





Erato, tela de François Boucher.

Durante anos andou sem que lhe sobrevivesse qualquer criatura. Nem os pássaros no céu, nem mesmo eles, se mantinham firmes nesta abjeta determinação em continuar vivo. Passavam, simplesmente. Ninguém os poderia rastrear, exceto pelo rouxinol inquieto que produziam nalguns instantes de sobriedade. Dispersados, levavam consigo os anseios cultivados durante o cárcere. Seu canto, a despeito disso, tornava o caminho ainda mais escarpado.

O norte era uma espiral inquebrantável. Não era conhecido o destino certo. Menos ainda, não havia destino algum, nem a certeza deixou raiz por ali. Ele erguia o corpo e avançava em passos largos. Sequer permitia a si um repouso à sombra das folhagens na margem da estrada.

Caminhava, portanto, mesmo com os olhos ressequidos pelo calor e pela poeira dos ventos. Na boca, silenciava que o seu mundo era todo feito de movimento e ternura.  Apenas o tempo trazia consigo a inconstância. Por isso, não descansava. Evitaria o entardecer e todo o assalto de sentimentos que a noite oferecia.

Vez ou outra, com olhos bastante cansados, voltava-se para trás à procura de indícios em seu entorno. Bocas se abriam e fechavam. Era-lhe desconhecido o que balbuciavam ou por qual deus clamavam. Nem supunha se eram blasfêmias ou praguejamentos. No entanto, sabia da dor e da angústia contidas naqueles olhos cerrados, nas mãos que se agitavam desordenadas como se tateassem por vestígios na escuridão das existências.

Não queria estar com eles. Embora compadecido, continuava. Conduzia os seus passos sem pressa. Sabia que a noite flertava seus medos e ele precisava de constância. Apenas isto, constância.

Ao tempo do enrubescer celestial, partia das ondas flamejantes uma figura de belas formas. Vinha em sua direção. Surpreendeu-se com o frescor que lhe tomava o peito quando a Musa se deteve diante de sua debilidade. Seus olhos não ousaram retirar-se daqueles Olhos. Foi tomado por um estado de contemplação diante do qual não se permitia nem discrição, nem recusa.

A Musa lhe cingiu as defesas. Curvaram-se as virtudes. Silenciados os pudores. O tempo era todo feito de brisa mansa quando fora atingido por uma Provocação. O Olho Solar ainda descansava no horizonte quando a proposta foi lançada.

“Venha e prove do meu sortilégio.”

“Não descansará até que Eu o tenha dobrado.”

“Devo adverti-lo: é íngreme e obtuso o caminho das palavras. Não há chão. E se olhar acima da fronte, certamente, não mirará o céu. A boa notícia é que tudo será como nós pintarmos. Nem Deus, nem Diabo. Só o meu Canto, o brilho dos olhos e saliva quente em nosso espaço.”

“Eu tomo a sua mão. E, se quiser vir, esqueça todo o resto!”