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Erato, tela de François Boucher. |
Durante
anos andou sem que lhe sobrevivesse qualquer criatura. Nem os pássaros no céu,
nem mesmo eles, se mantinham firmes nesta abjeta determinação em continuar vivo.
Passavam, simplesmente. Ninguém os poderia rastrear, exceto pelo rouxinol
inquieto que produziam nalguns instantes de sobriedade. Dispersados, levavam
consigo os anseios cultivados durante o cárcere. Seu canto, a despeito disso,
tornava o caminho ainda mais escarpado.
O
norte era uma espiral inquebrantável. Não era conhecido o destino certo. Menos
ainda, não havia destino algum, nem a certeza deixou raiz por ali. Ele erguia o
corpo e avançava em passos largos. Sequer permitia a si um repouso à sombra das
folhagens na margem da estrada.
Caminhava,
portanto, mesmo com os olhos ressequidos pelo calor e pela poeira dos ventos.
Na boca, silenciava que o seu mundo era todo feito de movimento e ternura. Apenas o tempo trazia consigo a inconstância. Por
isso, não descansava. Evitaria o entardecer e todo o assalto de sentimentos que
a noite oferecia.
Vez
ou outra, com olhos bastante cansados, voltava-se para trás à procura de
indícios em seu entorno. Bocas se abriam e fechavam. Era-lhe desconhecido o que
balbuciavam ou por qual deus clamavam. Nem supunha se eram blasfêmias ou
praguejamentos. No entanto, sabia da dor e da angústia contidas naqueles olhos
cerrados, nas mãos que se agitavam desordenadas como se tateassem por vestígios
na escuridão das existências.
Não
queria estar com eles. Embora compadecido, continuava. Conduzia os seus passos
sem pressa. Sabia que a noite flertava seus medos e ele precisava de
constância. Apenas isto, constância.
Ao
tempo do enrubescer celestial, partia das ondas flamejantes uma figura de belas
formas. Vinha em sua direção. Surpreendeu-se com o frescor que lhe tomava o
peito quando a Musa se deteve diante de sua debilidade. Seus olhos não ousaram
retirar-se daqueles Olhos. Foi tomado por um estado de contemplação diante do
qual não se permitia nem discrição, nem recusa.
A
Musa lhe cingiu as defesas. Curvaram-se as virtudes. Silenciados os pudores. O
tempo era todo feito de brisa mansa quando fora atingido por uma Provocação. O
Olho Solar ainda descansava no horizonte quando a proposta foi lançada.
“Venha
e prove do meu sortilégio.”
“Não
descansará até que Eu o tenha dobrado.”
“Devo
adverti-lo: é íngreme e obtuso o caminho das palavras. Não há chão. E se olhar
acima da fronte, certamente, não mirará o céu. A boa notícia é que tudo será
como nós pintarmos. Nem Deus, nem Diabo. Só o meu Canto, o brilho dos olhos e
saliva quente em nosso espaço.”
“Eu
tomo a sua mão. E, se quiser vir, esqueça todo o resto!”
Um comentário:
Sublime!!...
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