
Eu gostaria de
exprimir, nesta mensagem, duas idéias que emergiram com força em Identidade
Humana.
A primeira, é
que nós somos pela metade sonâmbulos, pela metade despertos. “Acordados eles
dormem”, dizia Heráclito, que com isto acorda-nos de nosso sonambulismo. Nós
somos, como dizia Pascal, ao mesmo tempo autômatos e espíritos. Somos feitos,
como o sabia Shakespeare, de um estofo comum ao sonho e à vigília, mas esse
estofo comum, eu não o sei decantar e isolar, nem da vigília, nem do sonho. Eu
sinto, de modo contraditório, que nosso mundo é absolutamente real, no sentido
em que nada é mais real que o sofrimento, a felicidade, o amor; e que ele é
absolutamente irreal, feito de aparências, de miragens, de alucinações e de
ilusões, o que vem expresso nos termos Sansara e Maya. Esse estranho sentimento
mora em mim e sempre me acompanha: aquilo que é mais real é também irreal,
aquilo que é mais irreal é também real. Viver, para mim, é também inconcebível,
incrível, maravilhoso e horrorizante. A mosca, a borboleta, a viúva negra, e
também o gato e o cão, trazem-me de volta sem cessar esse mistério. Porque o
mistério, para mim, não está somente nos problemas insolúveis para nossa razão
e para nosso espírito; ele está na vida cotidiana.
A segunda idéia
é que tudo que não se regenera acaba se degenerando. Tudo o que se encontra em
estado nascente é apaixonante: um amor, uma revolução, uma infância. Mas tudo
também tende a degenerar, a enrijecer, a esclerosar-se, a degradar-se, a
morrer. Ora, a grande lição que a organização viva nos dá é que ela é capaz de
regenerar-se trocando as moléculas e as células do corpo que se degradam por
moléculas e células que o regeneram. De onde a verdade do “viver de morte,
morrer de vida”, de Heráclito. Um amor duradouro é um amor re-nascente, que
continuamente reencontra o enamoramento.
Para manter
uma conquista, é preciso regenerá-la sem parar. Para cada um e para todos, para
si mesmo e para o outro, no amor, na amizade, no avanço da idade, é necessária
a regeneração permanente. “Quem não está nascendo, está morrendo”, canta Bob
Dylan. É uma das mais importantes lições que eu extraí dos 32 anos de trabalho
e de esforço necessários para O Método. Para progredir, é necessário
reencontrar a fonte regeneradora. Ela está em cada um de nós, como estão em
cada um de nós – faz pouco tempo que temos conhecimento disso – as células-tronco
capazes de regenerar nossos órgãos, mas que ainda não sabemos utilizar. Nós
possuímos em nós mesmos, não a fonte da vida eterna, mas a força da juventude.
Isto, mesmo na idade madura, o que muitos, adulterados antes da idade, ignoram.
Garcia Márquez observava: “não digam que vocês não se apaixonam mais porque
estão velhos, digam que vocês estão velhos porque não se apaixonam mais”. A
fonte da juventude chama-se amor.
Edgar Morin, Paris, novembro de 2001.
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