22 de janeiro de 2015

Amor como fonte e como um fim em si mesmo.








Eu gostaria de exprimir, nesta mensagem, duas idéias que emergiram com força em Identidade Humana.


A primeira, é que nós somos pela metade sonâmbulos, pela metade despertos. “Acordados eles dormem”, dizia Heráclito, que com isto acorda-nos de nosso sonambulismo. Nós somos, como dizia Pascal, ao mesmo tempo autômatos e espíritos. Somos feitos, como o sabia Shakespeare, de um estofo comum ao sonho e à vigília, mas esse estofo comum, eu não o sei decantar e isolar, nem da vigília, nem do sonho. Eu sinto, de modo contraditório, que nosso mundo é absolutamente real, no sentido em que nada é mais real que o sofrimento, a felicidade, o amor; e que ele é absolutamente irreal, feito de aparências, de miragens, de alucinações e de ilusões, o que vem expresso nos termos Sansara e Maya. Esse estranho sentimento mora em mim e sempre me acompanha: aquilo que é mais real é também irreal, aquilo que é mais irreal é também real. Viver, para mim, é também inconcebível, incrível, maravilhoso e horrorizante. A mosca, a borboleta, a viúva negra, e também o gato e o cão, trazem-me de volta sem cessar esse mistério. Porque o mistério, para mim, não está somente nos problemas insolúveis para nossa razão e para nosso espírito; ele está na vida cotidiana.


A segunda idéia é que tudo que não se regenera acaba se degenerando. Tudo o que se encontra em estado nascente é apaixonante: um amor, uma revolução, uma infância. Mas tudo também tende a degenerar, a enrijecer, a esclerosar-se, a degradar-se, a morrer. Ora, a grande lição que a organização viva nos dá é que ela é capaz de regenerar-se trocando as moléculas e as células do corpo que se degradam por moléculas e células que o regeneram. De onde a verdade do “viver de morte, morrer de vida”, de Heráclito. Um amor duradouro é um amor re-nascente, que continuamente reencontra o enamoramento.


Para manter uma conquista, é preciso regenerá-la sem parar. Para cada um e para todos, para si mesmo e para o outro, no amor, na amizade, no avanço da idade, é necessária a regeneração permanente. “Quem não está nascendo, está morrendo”, canta Bob Dylan. É uma das mais importantes lições que eu extraí dos 32 anos de trabalho e de esforço necessários para O Método. Para progredir, é necessário reencontrar a fonte regeneradora. Ela está em cada um de nós, como estão em cada um de nós – faz pouco tempo que temos conhecimento disso – as células-tronco capazes de regenerar nossos órgãos, mas que ainda não sabemos utilizar. Nós possuímos em nós mesmos, não a fonte da vida eterna, mas a força da juventude. Isto, mesmo na idade madura, o que muitos, adulterados antes da idade, ignoram. Garcia Márquez observava: “não digam que vocês não se apaixonam mais porque estão velhos, digam que vocês estão velhos porque não se apaixonam mais”. A fonte da juventude chama-se amor.



Edgar Morin, Paris, novembro de 2001.

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