3 de março de 2014

Arte e fotografia: Ravshaniya.














“Todos os objetos e pessoas que você vê nestas fotos estavam de fato naquele lugar, nos seus devidos postos durante a foto.”


Diz o russo Ravshaniya sobre suas fotografias. Um trabalho realizado com o auxílio de luz, fios de nylon, guindastes e ventiladores, além do photoshop para os retoques após a produção. O artista cria cenários impressionantes que parecem desafiar as leis da gravidade. Em muitas imagens, as pessoas parecem personagens oníricas e todo o conjunto de elementos transmite impressões de mistério e leveza. A estética surpreende! 

De modo geral, se reúnem imagens às palavras para ilustrá-las. Aqui, faço o contrário. A partir das imagens com seus movimentos aparentes, suas cores e volumes, junto as palavras. Remendos de imagens e palavras, remendos de cores e rimas, remendos de movimentos e linguagem.


"Cróton selvagem, tinhorão lascivo,
Planta mortal, carnívora, sangrenta,
Da tua carne báquica rebenta
A vermelha explosão de um sangue vivo."
Cruz e Souza,Lésbias.






“Por que precipitaste teu fogo doloroso,
de súbito, entre as folhas frias do meu caminho?
Quem te ensinou os passos que até mim te levaram?
Que flor, que pedra, que humo mostraram minha morada?”
Pablo Neruda, Vinte poemas de amor e uma canção desesperada, 3.






“Ouço o tanger monótono dos sinos,
E cada vibração contar parece
As ilusões que murcham-se contigo!
Escuto em meio de confusas vozes,
Cheias de frases pueris, estultas,
O linho mortuário que retalham
Para envolver teu corpo! Vejo esparsas
Saudades e perpétuas, — sinto o aroma
Do incenso das igrejas, — ouço os cantos
Dos ministros de Deus que me repetem
Que não és mais da terra!... E choro embalde!..."
Fagundes Varela, Cântico do Calvário.





“As Águias imortais da Fantasia
Deram-te as asas e a serenidade
Para galgar, subir a Imensidade
Onde o clarão de tantos sóis radia.”
Cruz e Souza,Em sonhos...





“Pousa sobre esses espetáculos infatigáveis
uma sonora ou silenciosa canção:
flor do espírito, desinteressada e efêmera.

Por ela, os homens te conhecerão:
por ela, os tempos versáteis saberão
que o mundo ficou mais belo,
ainda que inutilmente,
quando por ele andou teu coração.”
Cecília Meireles, Epigrama n.1.







"Carnais, sejam carnais tantos desejos,
Carnais, sejam carnais tantos anseios,
Palpitações e frêmitos e enleios,
Das harpas da emoção tantos arpejos...”
Cruz e Souza, Encarnação.




“O amor tomava a carne das horas
e sentava-se entre nós.
Era ele mesmo a cadeira,
O ar, o tom da voz:
Você gosta mesmo de mim?”
Adélia Prado, Contramor.




Vem reclinar-te, como a flor pendida,
Sobre este peito cuja voz calei:
Pede-me um beijo... e tu terás, querida,
Toda a paixão que para ti guardei.”
Casimiro de Abreu, Canto de amor.



“Sim, essa tarde conhece todos os meus pensamentos,
Todos os meus segredos e todos os meus patéticos anseios.
(...)
Como saber se é tarde, se haverá manhã para o crepúsculo
Nesse entorpecimento, neste filtro mágico de lágrimas?
Orvalho, orvalho! desce sobre os meus olhos, sobre o meu sexo
Faz-se surgir diamante dentro do sol!"
Vinícius de Morais, A máscara da noite.





Não exijas mais nada. Não desejo
Também mais nada, só te olhar, enquanto
A realidade é simples, e isto apenas.
   
Que grandeza... a evasão total do pejo
Que nasce das imperfeições. O encanto
Que nasce das adorações serenas.” 
Mário de Andrade, Aceitarás o amor como eu o encaro?.




Que se abram as portas, que se abram as janelas e se afastem as coisas aos ventos. Se alguém me pôs nas mãos este chicote de aço, eu te castigarei, fêmea! – Vem, pousa-te aqui! Adormece tuas íris de ágata, dança! – teu corpo barroco em
bolero e rumba. – Mais! – dança! dança! – canta, rouxinol! (Oh, tuas coxas são pântanos de cal viva, misteriosa como a carne dos batráquios...)
Tu que só és o balbucio, o voto, a súplica - oh mulher, anjo, cadáver da minha angústia! – sê minha! minha! minha! no ermo deste momento, no momento desta sombra, na sombra desta agonia – minha – minha – minha – oh mulher, garça mansa, resto orvalhado de nuvem...
Vinícius de Morais, Viagem à sombra.





“O mundo enlouqueceu, mas eu me recuso a entrar nessa roda. O lado de fora pode ter poucos adeptos, mas pessoas com as mesmas convicções sempre se encontram e acabam formando outra roda. 
Enquanto isso, dia após dia, entre uma notícia e outra, me permito ler um poema. Entre um absurdo e outro, resgato uma lembrança. Entre um não e outro, me preparo para o próximo sim.”
Fernanda Gaona.





“Pactos. Acho que é isso. Não de sangue, nem de nada que se possa ver e tocar. É um pacto silencioso que tem a força de manter as coisas enraizadas, um pacto de eternidade, mesmo que o destino um dia venha a dividir o caminho dos dois.”
Martha Medeiros, Sentir-se amado.





“O sonho encheu a noite, extravasou pro meu dia, encheu minha vida, e é dele que eu vou viver. Porque sonho não morre.”
Adélia Prado, A terceira via.







“Para longe o que falo:
o que sonho, o que penso.
Para o reino do vento.

Para longe o que calo:
para o único momento
que se há de ver imenso.

Entre o que falo e calo,
há um leque em movimento.
Mas eu, a quem pertenço?”
Cecília Meireles, Mulher de leque.






“Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.”
Carlos Drummond, As  terceira via.












“Sonhei que, nos teus braços reclinado,
Teu rosto encantador, ó deusa, eu via,
Que mil ávidos beijos eu fruía
No níveo colo teu, ao mais sagrado.

Sonhei que era feliz, por ser ousado;
Que a força, a voz, a cor e a luz perdia,
Em êxtase suave, em que bebia
O néctar, nem por Jove inda libado...”
Maciel Monteiro, inintitulado.








"O amor me acalma e endouda!
O amor me eleva e abate!
Quem há que os laços, que me prendem, quebre?
Que singular, que desigual combate!

Não sei que ervada flecha
Mão certeira e falaz me cravou com tal jeito,
Que, sem que eu a sentisse, a estreita brecha
Abriu, por onde o amor entrou meu peito."
Olavo Bilac,Tenho frio e ardo em febre!




“Perdoai,
maestros,
meu estranho ar!
Eu ouço música como um anjo doente
que não pode voar.”
Mario Quintana, Eu ouço música.






"Antes o vôo da ave, que passa e não deixa rastro,
Que a passagem do animal, que fica lembrada no chão.
A ave passa e esquece, e assim deve ser.
O animal, onde já não está e por isso de nada serve,
Mostra que já esteve, o que não serve para nada.
A recordação é uma traição à Natureza,
Porque a Natureza de ontem não é Natureza.
O que foi não é nada, e lembrar é não ver.
Passa, ave, passa, e ensina-me a passar!”
Alberto Caeiro, Poema XLIII.




“Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.

Rosas verás, só de cinza franzida,
mortas intactas pelo teu jardim.

Eu deixo aroma até nos meus espinhos,
ao longe, o vento vai falando de mim.

E por perder-me é que me vão lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.”
Cecília Meireles, 4° Motivo da rosa.






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