“Todos os objetos e pessoas que você vê nestas fotos
estavam de fato naquele lugar, nos seus devidos postos durante a foto.”
Diz o russo
Ravshaniya sobre suas fotografias. Um trabalho realizado com o auxílio de luz, fios
de nylon, guindastes e ventiladores, além do photoshop para os retoques após a produção. O
artista cria cenários impressionantes que parecem desafiar as leis da
gravidade. Em muitas imagens, as pessoas parecem personagens oníricas e todo o
conjunto de elementos transmite impressões de mistério e leveza. A estética surpreende!
De modo geral, se reúnem imagens às palavras para ilustrá-las. Aqui, faço o contrário. A partir das imagens com seus movimentos aparentes, suas cores e volumes, junto as palavras. Remendos de imagens e palavras, remendos de cores e rimas, remendos de movimentos e linguagem.
"Cróton
selvagem, tinhorão lascivo,
Planta mortal,
carnívora, sangrenta,
Da tua carne
báquica rebenta
A vermelha explosão
de um sangue vivo."
Cruz e Souza,Lésbias.
“Por
que precipitaste teu fogo doloroso,
de
súbito, entre as folhas frias do meu caminho?
Quem
te ensinou os passos que até mim te levaram?
Que
flor, que pedra, que humo mostraram minha morada?”
Pablo Neruda, Vinte poemas de amor e uma canção
desesperada, 3.
“Ouço o tanger monótono
dos sinos,
E cada vibração
contar parece
As ilusões que
murcham-se contigo!
Escuto em meio de
confusas vozes,
Cheias de frases
pueris, estultas,
O linho mortuário
que retalham
Para envolver teu
corpo! Vejo esparsas
Saudades e
perpétuas, — sinto o aroma
Do incenso das
igrejas, — ouço os cantos
Dos ministros de
Deus que me repetem
Que não és mais da
terra!... E choro embalde!..."
Fagundes Varela, Cântico do Calvário.
“As
Águias imortais da Fantasia
Deram-te
as asas e a serenidade
Para galgar,
subir a Imensidade
Onde o
clarão de tantos sóis radia.”
Cruz e Souza,Em sonhos...
“Pousa
sobre esses espetáculos infatigáveis
uma sonora
ou silenciosa canção:
flor do
espírito, desinteressada e efêmera.
Por
ela, os homens te conhecerão:
por ela,
os tempos versáteis saberão
que o
mundo ficou mais belo,
ainda que inutilmente,
quando
por ele andou teu coração.”
Cecília Meireles, Epigrama n.1.
"Carnais,
sejam carnais tantos desejos,
Carnais,
sejam carnais tantos anseios,
Palpitações
e frêmitos e enleios,
Das harpas
da emoção tantos arpejos...”
Cruz e Souza, Encarnação.
“O
amor tomava a carne das horas
e sentava-se
entre nós.
Era ele
mesmo a cadeira,
O ar,
o tom da voz:
Você gosta
mesmo de mim?”
Adélia Prado, Contramor.
Vem
reclinar-te, como a flor pendida,
Sobre
este peito cuja voz calei:
Pede-me
um beijo... e tu terás, querida,
Toda
a paixão que para ti guardei.”
Casimiro de Abreu, Canto de
amor.
“Sim,
essa tarde conhece todos os meus pensamentos,
Todos
os meus segredos e todos os meus patéticos anseios.
(...)
Como
saber se é tarde, se haverá manhã para o crepúsculo
Nesse
entorpecimento, neste filtro mágico de lágrimas?
Orvalho,
orvalho! desce sobre os meus olhos, sobre o meu sexo
Faz-se surgir diamante
dentro do sol!"
Vinícius de Morais, A máscara da noite.
Não
exijas mais nada. Não desejo
Também
mais nada, só te olhar, enquanto
A
realidade é simples, e isto apenas.
Que
grandeza... a evasão total do pejo
Que
nasce das imperfeições. O encanto
Que nasce das adorações
serenas.”
Mário de Andrade, Aceitarás o amor como eu o
encaro?.
Que
se abram as portas, que se abram as janelas e se afastem as coisas aos ventos.
Se alguém me pôs nas mãos este chicote de aço, eu te castigarei, fêmea! – Vem,
pousa-te aqui! Adormece tuas íris de ágata, dança! – teu corpo barroco em
bolero
e rumba. – Mais! – dança! dança! – canta, rouxinol! (Oh, tuas coxas são pântanos
de cal viva, misteriosa como a carne dos batráquios...)
Tu
que só és o balbucio, o voto, a súplica - oh mulher, anjo, cadáver da minha
angústia! – sê minha! minha! minha! no ermo deste momento, no momento desta
sombra, na sombra desta agonia – minha – minha – minha – oh mulher, garça
mansa, resto orvalhado de nuvem...
Vinícius de Morais, Viagem à
sombra.
“O
mundo enlouqueceu, mas eu me recuso a entrar nessa roda. O lado de fora pode
ter poucos adeptos, mas pessoas com as mesmas convicções sempre se encontram e
acabam formando outra roda.
Enquanto
isso, dia após dia, entre uma notícia e outra, me permito ler um poema. Entre
um absurdo e outro, resgato uma lembrança. Entre um não e outro, me preparo
para o próximo sim.”
Fernanda Gaona.
“Pactos.
Acho que é isso. Não de sangue, nem de nada que se possa ver e tocar. É um
pacto silencioso que tem a força de manter as coisas enraizadas, um pacto de
eternidade, mesmo que o destino um dia venha a dividir o caminho dos dois.”
Martha Medeiros, Sentir-se amado.
“O
sonho encheu a noite, extravasou pro meu dia, encheu minha vida, e é dele que
eu vou viver. Porque sonho não morre.”
Adélia Prado, A terceira via.
“Para
longe o que falo:
o
que sonho, o que penso.
Para
o reino do vento.
Para
longe o que calo:
para
o único momento
que
se há de ver imenso.
Entre
o que falo e calo,
há
um leque em movimento.
Mas
eu, a quem pertenço?”
Cecília Meireles, Mulher de leque.
“Amor
é dado de graça,
é
semeado no vento,
na
cachoeira, no eclipse.
Amor
foge a dicionários
e
a regulamentos vários.”
Carlos Drummond, As terceira via.
“Sonhei
que, nos teus braços reclinado,
Teu
rosto encantador, ó deusa, eu via,
Que
mil ávidos beijos eu fruía
No
níveo colo teu, ao mais sagrado.
Sonhei
que era feliz, por ser ousado;
Que
a força, a voz, a cor e a luz perdia,
Em
êxtase suave, em que bebia
O
néctar, nem por Jove inda libado...”
Maciel Monteiro, inintitulado.
"O
amor me acalma e endouda!
O
amor me eleva e abate!
Quem
há que os laços, que me prendem, quebre?
Que
singular, que desigual combate!
Não
sei que ervada flecha
Mão
certeira e falaz me cravou com tal jeito,
Que,
sem que eu a sentisse, a estreita brecha
Abriu,
por onde o amor entrou meu peito."
Olavo Bilac,Tenho frio e
ardo em febre!
“Perdoai,
maestros,
meu
estranho ar!
Eu
ouço música como um anjo doente
que
não pode voar.”
Mario Quintana, Eu ouço
música.
"Antes o vôo da ave, que passa e não deixa rastro,
Que
a passagem do animal, que fica lembrada no chão.
A
ave passa e esquece, e assim deve ser.
O
animal, onde já não está e por isso de nada serve,
Mostra
que já esteve, o que não serve para nada.
A
recordação é uma traição à Natureza,
Porque
a Natureza de ontem não é Natureza.
O
que foi não é nada, e lembrar é não ver.
Passa,
ave, passa, e ensina-me a passar!”
Alberto Caeiro, Poema XLIII.
“Não
te aflijas com a pétala que voa:
também
é ser, deixar de ser assim.
Rosas
verás, só de cinza franzida,
mortas
intactas pelo teu jardim.
Eu
deixo aroma até nos meus espinhos,
ao
longe, o vento vai falando de mim.
E
por perder-me é que me vão lembrando,
por
desfolhar-me é que não tenho fim.”
Cecília Meireles, 4° Motivo
da rosa.






















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