E a sacerdotisa falou novamente e disse: “Fala-nos da Razão e da
Paixão”.
E ele respondeu, dizendo:
“Vossa alma é frequentemente um campo de batalha onde vossa razão e vosso juízo combatem contra
vossa paixão e vosso apetite.
Pudesse eu ser o pacificador de vossa alma, transformando a
discórdia e a rivalidade entre vossos elementos em união e melodia.
Mas como poderei fazê-lo, a menos que vós próprios sejais também
pacificadores, mais ainda, enamorados de todos vossos elementos?
Vossa Razão e vossa Paixão são o leme e as velas de vossa alma
navegante.
Se vossas velas ou vosso leme se quebram, só podereis ficar
derivando ou permanecer imóveis no meio do mar.
Pois a Razão, reinando sozinha, restringe todo o impulso; e a
Paixão, deixada a si, é um fogo que arde até sua própria destruição.
Portanto, que vossa alma eleve a vossa Razão à altura de vossa
Paixão, para que ela possa cantar;
E que dirija vossa Paixão a passo com a Razão, para que ela
possa viver numa ressurreição cotidiana e, tal a fênix, renascer de suas
próprias cinzas.
Gostaria de que tratásseis vosso juízo e vosso apetite como
trataríeis dois hóspedes amados em vossa casa.
Certamente não honraríeis a um hóspede mais do que o outro; pois
quem procura tratar melhor a um dos dois, perde o amor e a confiança de ambos.
Entre as colinas, quando vos sentardes à sombra fresca dos
álamos brancos, partilhando da paz e da serenidade dos campos e dos prados
distantes, então que vosso coração diga em silêncio: “Deus repousa na Razão”.
E quando bramir a tempestade, e o vento poderoso sacudir a
floresta, e o trovão e o relâmpago proclamarem a majestade do céu, então que
vosso coração diga com temor e respeito: “Deus age na Paixão”.
E já que sois um sopro na esfera de Deus e uma folha na floresta
de Deus, também deveis descansar na Razão e agir na Paixão.
GIBRAN, Kalil Gibran. O profeta. Tradução de Mansour Challita. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 1970, p.47 e 48. Do original: The prophet.

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