Após o batismo, uma senhora chamou-me de lado. Conduziu-me a um quartinho
de sua favela. Chão batido. Não havia móveis. A pobreza era completa, canina
porque gritante e uivante. Estávamos a sós. Com um sussurro, disse: - Eu só conheci homens feios, doentes e magros.
Levantou o vestido. Mostrou as partes. Disse, confiante com os
olhos cheios de brilho: - Eu sou ainda jovem. Tenho 35 anos (na verdade,
parecia ter sessenta). Posso fazê-lo, por um momento, feliz. O senhor é um
homem bem-alimentado, bonito, forte e atraente. Eu só conheci homens feios, doentes
e magros. Dê-me essa felicidade. Faça amor comigo! Só uma vezinha.
Eu guardei silêncio. Longo silêncio. O silêncio da perplexidade.
Depois sofismei: – Eu sou religioso. Já tenho um engajamento. Por isso não
posso… Não devo… Não quero… Seus olhos se turvaram de decepção. Depois, em
casa, meditando, me enchi de vergonha de mim mesmo. Imensa vergonha. Como sou
egoísta. Fui educado para a castidade como
abstenção. E não como expressão de um amor maior. Esse amor não conhece
limites. Ele está para além do bem e do mal.
Essa mulher era mais pura do que eu. Tinha capacidade de entrega
e amor. A castidade não pode ser um
objetivo mas um caminho. Não um fim, mas um meio. É mais do que renunciar à
mulher respectivamente ao homem. É desenvolver um modo de ser, capaz de ser
sensível ao outro… É projetar uma aura de confiança a ponto de cada um poder
abrir-se e falar de sua intimidade, de suas buscas e de seus fracassos e dos
encontros sem constrangimento...
Se fosse
casto, desta castidade essencial, quem sabe, se fosse santo… teria pecado. E
neste pecado teria encontrado aquele Deus que faz do ‘pecado’ graça e da
‘graça’ pecado.
BOFF, Leonardo. Brasas sob cinzas: Histórias do anti-cotidiano. São
Paulo: Record, 1996, 21-22.

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