Nem sabia quando e como comprara o sofá.
Certamente, na primeira mudança que fizera, dois anos após seu casamento, o
primeiro também. Fora despejado por falta de pagamento, teve de alugar coisa
menor, em bairro pior e em condições piores, no quarto pequenino não cabia a
cama suntuosa que comprara quaando se casara e esperara melhorar de vida.
O jeito foi vender a cama na rua do Catete e
comprar um sofá que, à noite, puxando-se uma gaveta complicada que geralmente
emperrava, se transformava num leito rasteiro e duro. A mulher não reclamou,
era boa pessoa, solidária na fortuna e na pobreza – conforme prometera ao se
casar. Quem reclamou – mas reclamou por pouco tempo – foi ele mesmo.
Se o casamento deu-lhe azar, o sofá deu-lhe sorte.
Na segunda noite em que dormira nele, sonhou que ganharia na loteria; com tal
nitidez que, ao acordar, pegou o dinheiro que guardara para pagar a primeira
prestação e comprou um bilhete terminado em 09. Lera no Paulo Coelho que era
preciso entender os sinais e tomara o sonho como um sinal.
Não deu outra. Comprara metade do bilhete 53609 e
ganhara metade do prêmio maior – o que deu para pagar integralmente o sofá e,
no mês seguinte, mudar-se para apartamento maior e melhor. A mulher exigiu uma
cama igual à primeira, ele chegou a fazer uma pesquisa nas lojas
especializadas, mas mudou de ideia. Convenceu a mulher de que o sofá-cama lhe
dera sorte, falou nos sinais que aprendera a respeitar, via Paulo Coelho, a
mulher era de bem, também lia Paulo Coelho, conformou-se.
Por coincidência, ou pelo poder miraculoso do
Paulo Coelho, a sorte continuou ao lado dele, ele arranjou emprego melhor e
logo outro melhor ainda, prosperou na vida, prosperou tanto que enviuvou – a mulher
morrera ao parir o primeiro filho, que nasceria morto.
Sozinho, sem mulher e sem filho, ele continuou
acreditando que aquela aparente desgraça era também um sinal, mudou-se
novamente, desta vez comprou um apartamento de dois quartos e vaga para carro,
embora não tivesse carro.
Não tinha carro, mas conheceu uma professora de
inglês que tinha um fusca verde-amazonas, casaram-se, ou melhor, juntaram-se,
pois a mulher era desquitada e ainda não havia divórcio no Brasil. Ela
estranhou aquele apego ao sofá, exigiu cama melhor, ele teve receio de falar no
prêmio da loteria, nos sinais do Paulo coelho, preferiu comprar uma cama de
verdade, mas não se desfez do sofá. Mandou forrá-lo com um tecido importado,
deu um jeito de colocá-lo na sala, ficou meio estranho, não combinava com os
outros móveis, explicou para a mulher que, quando tivessem um hóspede de
circunstância, podiam usar o sofá como cama.
Mesmo assim, desconfiado, nunca deixou de usar o
sofá quando, aos domingos, dormia após o almoço. E muitos domingos se passaram,
passou também a professora de inglês, que o abandonou por um professor de
filosofia que estudara em Heidelberg. Confiante nos sinais e no sofá, ele se
casou outra vez, com a editora de moda de uma revista semanal, namorou uma
guria que fazia estágio na mesma revista, ia dando um bode porque a editora
pegou os dois no sofá – e nem era domingo, mas dia de trabalho.
Sozinho outra vez, ele nem reparou que chegara o
Natal. Sem a editora e sem a estagiária, ele não se programara e não fora
convidado para nenhuma ceia, nem tinha motivo para promover uma ceia solitária
para si mesmo. Ficara em casa, olhando as paredes, mas satisfeito consigo
próprio, pois voltara a dormir no sofá, esperando que novamente o sinal
funcionasse. E, confiando mais no sofá que em si próprio, perdeu o emprego,
mudou para apartamento pior, tão pior que nem era apartamento, mas um
quarto-e-sala conjugado em que mal coube o sofá.
Ruim de vida, continuou bom de cama, quer dizer,
de sofá. No quarto-e-sala conjugado, passaram vizinhas do prédio que também
moravam em quartos conjugados e que também dormiam em sofás.
No Carnaval de 1990, conheceu uma mulher gorda e
alegre. Se Machado de Assis a conhecesse, diria que era uma patusca. Tão
patusca que tinha bens, casas espalhadas pela zona norte e uma tinturaria em
Niterói.
Casaram-se na Igreja Universal do Reino de Deus –
foram morar em Vila Isabel, na rua Torres Homem, casa de altos e baixos, com
jardim e anão na frente. Ele só entrou consigo mesmo e com o sofá, pois todo o
resto era da mulher, que continuava gorda e alegre, até engordara mais porque –
dizia ela – “felicidade engorda”.
E tanto engordou que ocupava dois terços da cama –
pretexto que ele invocou para dormir no sofá. E, dormindo no sofá, sonhou
novamente que ganhara na loteria, mas, ao acordar, não lembrava o número do
bilhete premiado. Achou que aquilo era um sinal trocado, o sonho anterior lhe
dera sorte, o sonho de agora podia lhe trazer azar.
Sem saber interpretar o novo sinal, soube que o
Paulo Coelho ia tomar posse na Academia Brasileira de Letras. Arranjou um
convite com Dona Carmem e alugou um traje a rigor para ir à solenidade. Se
tivesse oportunidade, exporia o caso do sofá e pediria ajuda para ler aquele
sinal.
CONY, Carlos Heitor. O tudo e o nada: 101 crônicas. São
Paulo: Publifolha, 2004, p. 297-300.





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