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| Ares e Afrodite/Marte e Vênus. |
Posso dizer que estou satisfeita! Embora da
minha satisfação não haja sequer uma semente de virtude, estou feliz. Sinto
como se todos os dias até então vividos fossem poeiras suspensas em redemoinhos
longínquos erguidos pelos ventos com suas memórias desejosas de ressurgimento. Sinto-me
presente, austera, vigorosa!
Há, porém, um vago receio. É com moderação que
recebo essa afabilidade da vida em meu rosto. Cuido para que esse febril
enternecimento em meu silêncio não desperte balidos estranhos. Tenho repelido
excessos para que as más sombras não se ressintam da nobreza que carrego tão
rósea, tão ígnea e sangrenta como uma ferida aberta em meu peito.
E devo cuidar para não ser afogada viva
enquanto puder respirar dessa Fonte. Essa que me serve num cálice uma alegria
cálida e sem motivo. Gentilmente oferecida para preencher o íntimo mais íntimo
do seio ameno. Vem logo a mim! Eu que em tantas coisas teimo resoluta em manta,
em casca, em crosta, em cárcere.
E por que não eu? Essa é a Fonte que me ergue
da fúria! Essa que não poupou o braço impetuoso de Ares, também não cerrou as
portas do leito de Afrodite. Embriaga-me os sentidos mais tênues para que eu
não me aperceba das vestes quando tiver que vesti-las, para que eu não me
aprisione nas linhas por mim escritas, para que possa amar sem que seja
exaurida, sem que verta a lágrima sob a mácula.
É Fonte erguida sem sustentáculo. Eu a acolho no
instante de sua oração em meu peito. É melodia, frescor suave, leve comichão na
alma quando se deita para abraçar o Infinito. A Ela direciono tudo quanto tenho vivido e
desejado, além de tudo o que há possibilidade de ser.
Alegria por nada. Felicidade é esta melodia
silenciosa que me permito ouvir sem que ninguém perceba.

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