10 de março de 2015

Alegria por nada.



Ares e Afrodite/Marte e Vênus.


Posso dizer que estou satisfeita! Embora da minha satisfação não haja sequer uma semente de virtude, estou feliz. Sinto como se todos os dias até então vividos fossem poeiras suspensas em redemoinhos longínquos erguidos pelos ventos com suas memórias desejosas de ressurgimento. Sinto-me presente, austera, vigorosa!

Há, porém, um vago receio. É com moderação que recebo essa afabilidade da vida em meu rosto. Cuido para que esse febril enternecimento em meu silêncio não desperte balidos estranhos. Tenho repelido excessos para que as más sombras não se ressintam da nobreza que carrego tão rósea, tão ígnea e sangrenta como uma ferida aberta em meu peito.

E devo cuidar para não ser afogada viva enquanto puder respirar dessa Fonte. Essa que me serve num cálice uma alegria cálida e sem motivo. Gentilmente oferecida para preencher o íntimo mais íntimo do seio ameno. Vem logo a mim! Eu que em tantas coisas teimo resoluta em manta, em casca, em crosta, em cárcere.

E por que não eu? Essa é a Fonte que me ergue da fúria! Essa que não poupou o braço impetuoso de Ares, também não cerrou as portas do leito de Afrodite. Embriaga-me os sentidos mais tênues para que eu não me aperceba das vestes quando tiver que vesti-las, para que eu não me aprisione nas linhas por mim escritas, para que possa amar sem que seja exaurida, sem que verta a lágrima sob a mácula.

É Fonte erguida sem sustentáculo. Eu a acolho no instante de sua oração em meu peito. É melodia, frescor suave, leve comichão na alma quando se deita para abraçar o Infinito.  A Ela direciono tudo quanto tenho vivido e desejado, além de tudo o que há possibilidade de ser.

Alegria por nada. Felicidade é esta melodia silenciosa que me permito ouvir sem que ninguém perceba.







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